Há muito tempo, a violência em Belém-PA é um fato que incomoda e preocupa a população. É comum ouvirmos falar que a cidade está entregue aos bandidos, que pessoas têm medo de sair de casa e que não existe mais lugar seguro ou horário para andar pelas ruas da cidade. Não à toa, Belém foi eleita a 2a cidade mais violenta do País. Mesmo levando em consideração a metodologia duvidosa do estudo, é impossível negar que a violência urbana é um sério problema na capital do Pará.
Levando em consideração esses fatos, e utilizando dados fornecidos pela Secretaria de Segurança, analisei 18 meses (de Janeiro/16 até Junho/17) de ocorrências de crimes, num total de 209.003 ocorrências, para entender melhor o problema da segurança pública em Belém. Antes de expor alguns resultados da análise, vale ressaltar certos pontos em relação aos dados utilizados:
No total, 362 diferentes tipos de ocorrências foram registrados em Belém no período de 01 de Janeiro de 2016 à 30 de Junho de 2017, variando desde “Vadiagem” até “Homicídio”. Algumas ocorrências registradas, inclusive, não são nem caracterizadas como crime, como “Morte Natural” e “Comunicação de Óbito”, por exemplo. Retirando esses tipos de registros, as ocorrências mais comuns são:
É visível que os principais tipos de crimes são “Roubo” e “Furto”. Juntos, correspondem à mais de 56% do total de crimes registrados em Belém. Assim, é possível focar a análise apenas nos dois.
Para entender melhor este elevado número de furtos e roubos, vamos procurar por padrões e tendências que possam detalhar tais ocorrências. Algumas perguntas que podem ser respondidas:
Visualizando o número de ocorrências em cada dia do período analisado, podemos ter uma ideia em relação às duas primeiras perguntas:
No gráfico acima, 2 dias se destacam. Enquanto fica claro que, quase todos os dias, o número de roubos é maior que o número de furtos, nos dias 08 e 09 de Outubro de 2016 há um aumento drástico no número de furtos. Uma breve pesquisa mostra que tais dias foram o Sábado e Domingo em que foi realizado o Círio de Nazaré. Seria então possível afirmar que as ocorrências de furtos aumentam durante o Círio? Para ter mais certeza, é possível analisar estes dois dias de maneira mais focada. É possível pesquisar que durante a Trasladação, no sábado à noite (dia 08 de Outubro), o percurso vai do Colégio Gentil (bairro de Nazaré) até a Catedral da Sé (bairro de Campina). Enquanto o trajeto do Círio, no domingo de manhã (09 de Outubro) faz o percurso de volta. Assim, fiz uma análise de todos os furtos registrados durante estes dois dias para ver se seguem esse padrão:
Pra facilitar a comparação, eu dividi o gráfico de acordo com os bairros onde os furtos ocorreram em “Campina”, “Nazaré” e “Outros” para representar os outros 27 bairros onde ocorreram furtos nos dois dias.
Claramente, Campina e Nazaré concentraram o maior número de ocorrências. No entanto, algo mais pode ser visualizado que confirma a hipótese a respeito do aumento de ocorrências durante o período do Círio: o gráfico segue exatamente o mesmo padrão do trajeto da corda. No bairro de Campina, onde a Trasladação encerra no final da noite de sábado, há um aumento de casos de furto por volta de 21h, enquanto no bairro de Nazaré, onde a Trasladação se inicia no sábado a noite, há um aumento considerável um pouco mais cedo, por volta de 19h, justamente até as 21h. Um outro fato possível de perceber é a grande quantidade de furtos em Campina durante o fim da manhã, por volta de 9h, e em Nazaré, por volta de 10h. Após nova breve pesquisa, foi possível descobrir que este é justamente o horário da chegada da Romaria Fluvial no Cais do Porto (Campina) e o início da Romaria dos motociclistas até o Colégio Gentil (Nazaré). No domingo, o mesmo padrão novamente é visível: aumento do número de ocorrências cedo durante a manhã em Campina (por volta de 6h) e aumento em Nazaré à medida que a procissão chega (por volta de 10h).
O próximo passo é entender os horários e dias da semana onde há mais frequência de roubos e furtos, agora de uma maneira geral:
É possível notar uma diferença no padrão de horários entre furto e roubo. Enquanto furtos são mais comuns de ocorrer à luz do dia, principalmente durante a manhã, a ocorrência de roubos vai aumentando ao longo do dia, atingindo seu pico por volta de 19h. No entanto, ambos possuem há uma peculiaridade em comum: em finais de semana (sábado e domingo), a frequência de casos é menor durante o dia comparada à dias da semana. Ao final da noite e de madrugada, porém, sábados e domingos possuem mais casos do que os dias da semana.
Finalmente, a última análise é ligada ao local de ocorrências. Primeiramente, é necessário entender em que tipo de local ocorrem estes crimes. Para não prejudicar a análise, serão excluídos os furtos ocorridos durante o período do Círio, já que são ocorrências extremas.
Há uma grande diferença no local onde as ocorrências ocorrem. Roubos ocorrem na sua inegável maioria em vias públicas, com pouca variação entre outros locais. Furtos, no entanto, ocorrem apenas metade das vezes na via pública. Os outros quase 50% se distribuem em diversos lugares, principalmente em transporte público.
É importante ainda analisar quais partes da cidade são mais perigosas:
Analisando os mapas acima, fica claro que praticamente toda a cidade encontra-se vulnerável. Porém, é fácil identificar quais as áreas parecem ter maior incidência de casos: Campina, São Brás e Castanheira. As áreas com maior incidência são quase idênticas tanto para crimes de furto como de roubo. A única diferença é que furtos ocorrem em áreas mais concentradas, representadas pela linha azul, enquanto roubos são mais espalhados. Uma possível explicação é que, apesar de em lugares semelhantes, furtos ocorrem em áreas com maior concentração de pessoas (ex: shoppings, praças), ao contrário de roubos. Muitos crimes ocorridos mais ao norte não constam na análise por terem sido registrados no distrito de Ananindeua. Assim, vale focar nas áreas mais ao sul para detalhar a distribuição de ocorrências, filtrando-as ainda de acordo com o turno em que ocorrem:
Algumas curisidades quanto aos mapas: a área onde há maior predominância de casos durante a madrugada coincide justamente com a área onde se concentram boates e casas noturnas em Belém. Há ainda 2 lugares onde a quantidade de ocorrências aumenta conforme o passar do dia: UFPA e Portal da Amazônia. Por fim, a área ao redor de São Bras parece ser de grande concentração de crimes, sem nenhum motivo específico aparente.
A análise de dados pode ser muito útil para a descoberta de padrões no comportamento de criminosos, o que por sua vez pode facilitar na atuação e otimização das forças policias. Entender horários e locais de alto risco pode ser fundamental para a prevenção de crimes. As aplicações de Big Data em segurança pública são ilimitadas. É necessário, no entanto, uma integração e colaboração entre todos os departamentos envolvidos no assunto, além da análise em tempo real dos dados à disposição e em potencial.