Análise da Situação Final dos Estudantes da Rede Municipal do Recife (2019-2020)

1 Introdução

Contexto:

A educação básica pública no Brasil enfrenta historicamente diversos desafios, que vão desde a evasão escolar até a defasagem no aprendizado. No município do Recife, a Secretaria de Educação gerencia uma das maiores redes municipais do Nordeste, atendendo a dezenas de milhares de estudantes divididos em diversas modalidades, como Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O biênio 2019-2020 é de particular interesse para pesquisadores e gestores públicos. O ano de 2019 representa um cenário educacional padrão, com aulas presenciais e o fluxo escolar seguindo seu curso natural. Já o ano de 2020 foi marcado pelo início da pandemia de COVID-19. Em março de 2020, as escolas foram fechadas e o ensino remoto emergencial foi implementado.

Esse choque de realidade obrigou redes de ensino a alterarem não apenas suas metodologias de ensino, mas também seus critérios de avaliação e aprovação. Muitas redes adotaram o chamado “continuum curricular” ou aprovação automática para mitigar os danos da exclusão digital e evitar a reprovação em massa de alunos que não tiveram acesso adequado à internet.

Sendo assim, analisar a situação final dos estudantes nesses dois anos nos permite observar o impacto quantitativo de uma das maiores crises sanitárias da história moderna na educação. Com esse recorte, responderemos a perguntas como “Houve uma alteração significativa nas taxas de aprovação e reprovação entre 2019 e 2020?”, “A taxa de evasão escolar (desistência) aumentou?” e “Como essas métricas se distribuem nas diferentes modalidades?”.

Origem dos Dados:

Os dados aqui trabalhados são provenientes do Portal de Dados Abertos da Prefeitura do Recife. O portal disponibiliza anualmente o conjunto de dados referente à “Situação Final” dos estudantes matriculados na rede municipal de ensino.

O arquivo utilizado nesta análise contém os dados de 2019 e 2020, somando mais de 190 mil matrículas. Os registros fornecem informações granulares sobre cada matrícula, incluindo o sexo do estudante, o bairro, a modalidade de ensino, a idade e a situação final do aluno ao término do ano letivo.

2 Pacotes Necessários

Os pacotes a seguir são necessários para a execução do código e reprodução das análises contidas neste projeto.

Pacotes Utilização
library(rmarkdown) Conversão de arquivo em R em diversos formatos
library(rmdformats) Customização do template HTML
library(knitr) Geração de tabelas formatadas
library(dplyr) Manipulação avançada dos DataFrames
library(readr) Leitura otimizada de arquivos CSV
library(ggplot2) Visualização gráfica dos dados
library(viridis) Paletas de cores acessíveis

3 Preparação dos Dados

Nessa seção detalhamos as operações para carregar e padronizar os datasets.

Carregamento dos dados

Aqui realizamos a leitura dos arquivos originais de 2019 e 2020, adicionamos a marcação do ano e unimos os dois em uma base única.

# Lendo os dados de 2019 e criando a coluna ano
df_2019 <- read_csv2("situacao_2019.csv", show_col_types = FALSE) %>%
  mutate(ano = "2019")

# Lendo os dados de 2020 e criando a coluna ano
df_2020 <- read_csv2("situacao_2020.csv", show_col_types = FALSE) %>%
  mutate(ano = "2020")

# Unindo os dois DataFrames
df_educacao <- bind_rows(df_2019, df_2020)

# Garantindo que os nomes das colunas fiquem em minúsculo
names(df_educacao) <- tolower(names(df_educacao))

Limpeza, Agrupamento e Conversão

A coluna situacao_nome possui muitas categorias (como “APROVADO”, “RETIDO”, “RETIDO POR FALTA”, “DESISTENTE”, etc). Para facilitar a visualização, criaremos uma coluna chamada macro_situacao que agrupa essas categorias em quatro grandes grupos lógicos.

# Criando a Macro-Situação e consertando erros de digitação
df_educacao <- df_educacao %>%
  mutate(
    # Consertando o erro de digitação (CORREO -> CORREÇÃO)
    modalidade_ensino = ifelse(modalidade_ensino == "CORREO DE FLUXO", "CORREÇÃO DE FLUXO", modalidade_ensino),
    
    # Convertendo para fator
    ano = as.factor(ano),
    modalidade_ensino = as.factor(modalidade_ensino),
    sexo = as.factor(sexo),
    macro_situacao = case_when(
      grepl("APROVADO", situacao_nome) ~ "Aprovado",
      grepl("RETIDO|REPROV", situacao_nome) ~ "Reprovado/Retido",
      grepl("DESIST", situacao_nome) ~ "Evasão (Desistente)",
      TRUE ~ "Outros (Transferências, etc)"
    )
  )

# Visualizando as primeiras linhas
kable(head(df_educacao[, c("ano", "modalidade_ensino", "idade", "situacao_nome", "macro_situacao")], 5))
ano modalidade_ensino idade situacao_nome macro_situacao
2019 EDUCACAO INFANTIL 6 APROVADO Aprovado
2019 EDUCACAO INFANTIL 6 APROVADO Aprovado
2019 EDUCACAO INFANTIL 6 APROVADO Aprovado
2019 EDUCACAO INFANTIL 5 APROVADO Aprovado
2019 EDUCACAO INFANTIL 6 APROVADO Aprovado

4 Análise Exploratória dos Dados

As análises gráficas nos ajudarão a entender os impactos quantitativos do fechamento das escolas no Recife.

4.1 Quantos alunos foram avaliados em 2019 e 2020?

Antes de olhar o desempenho, precisamos confirmar se a rede conseguiu manter as matrículas ativas no ano pandêmico.

ano_freq <- df_educacao %>% count(ano)

ggplot(data = ano_freq, aes(x = ano, y = n, fill = ano)) +
  geom_bar(stat = "identity", width = 0.5, show.legend = FALSE) +
  theme_minimal() +
  scale_fill_viridis(discrete = TRUE, option = "D") +
  ggtitle("Volume total de matrículas na cidade do Recife") +
  xlab("Ano") + ylab("Total de Matrículas") +
  geom_text(aes(label = n), vjust = -0.5, size = 5, fontface = "bold")

Observa-se uma leve queda nas matrículas totais (de ~98 mil para ~93 mil). Isso reflete a dificuldade de captação e renovação de matrículas durante as fases mais rígidas do isolamento.

4.2 Como as Macro-Situações se comparam? (O Efeito da Aprovação Contínua)

Esta é a análise central. Em 2020, o Conselho Nacional de Educação sugeriu diretrizes de “progressão continuada” para evitar que o déficit tecnológico reprovasse os estudantes mais vulneráveis.

macro_ano <- df_educacao %>%
  count(ano, macro_situacao) %>%
  group_by(ano) %>%
  mutate(proporcao = n / sum(n) * 100)

ggplot(data = macro_ano, aes(x = macro_situacao, y = proporcao, fill = ano)) +
  geom_bar(stat = "identity", position = "dodge") +
  theme_minimal() +
  scale_fill_viridis(discrete = TRUE) +
  ggtitle("Taxa percentual da Situação Final (2019 vs 2020)") +
  xlab("Macro-Situação") + ylab("Porcentagem dos Alunos (%)") +
  geom_text(aes(label = sprintf("%.1f%%", proporcao)), 
            position = position_dodge(width = 0.9), vjust = -0.5, size = 3.5)

Resultado evidente: A taxa de aprovação saltou de 82.5% para mais de 95% em 2020, enquanto as reprovações caíram para praticamente zero, evidenciando que a secretaria municipal de fato implementou políticas de aprovação automática e continuum curricular.

4.3 Onde a Evasão Escolar foi mais grave?

Vamos filtrar apenas o grupo de “Evasão (Desistente)” e verificar em quais modalidades de ensino os alunos mais abandonaram os estudos.

evasao_mod <- df_educacao %>%
  filter(macro_situacao == "Evasão (Desistente)") %>%
  count(ano, modalidade_ensino) %>%
  arrange(desc(n))

ggplot(data = evasao_mod, aes(x = reorder(modalidade_ensino, -n), y = n, fill = ano)) +
  geom_bar(stat = "identity", position = "dodge") +
  theme_minimal() +
  scale_fill_manual(values = c("2019" = "#e74c3c", "2020" = "#c0392b")) +
  ggtitle("Evasão Escolar por Modalidade de Ensino") +
  xlab("Modalidade de Ensino") + ylab("Quantidade de Desistentes") +
  theme(axis.text.x = element_text(angle = 45, hjust = 1))

Nota-se que os maiores números brutos de evasão em 2019 ocorrem na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e na Educação Infantil, e não no Ensino Fundamental regular. Esse dado é extremamente revelador: os estudantes do EJA historicamente apresentam altas taxas de abandono devido à pressão para conciliar os estudos com o mercado de trabalho (muitas vezes informal). Já o alto volume na Educação Infantil costuma refletir a decisão dos pais de retirar as crianças menores das creches/escolas diante de qualquer dificuldade logística, já que a percepção de “perda acadêmica” é menor nessa faixa etária se comparada ao Ensino Fundamental. O sumiço da evasão em 2020 corrobora a tese de aprovação automática e flexibilização da frequência durante a pandemia.

À primeira vista, a queda drástica no número oficial de desistentes em 2020 (de mais de 2.500 para cerca de 150) parece indicar um sucesso na retenção escolar. No entanto, qualitativamente, sabemos que ocorreu o inverso. Esse número reflete as normativas emergenciais adotadas na pandemia: as secretarias de educação orientaram as escolas a não registrarem o abandono ou a reprovação por falta, visto que o sumiço dos alunos era derivado da exclusão digital. Assim, a “evasão real” de 2020 ficou mascarada sob aprovações automáticas.

4.4 Concentração de Estudantes por Bairro (Top 10)

Para finalizar, vejamos onde está o maior pólo de estudantes da rede municipal analisando o top 10 bairros com mais matrículas.

top_bairros <- df_educacao %>%
  count(endereco_bairro) %>%
  top_n(10, n) %>%
  arrange(desc(n))

ggplot(data = top_bairros, aes(x = reorder(endereco_bairro, n), y = n)) +
  geom_bar(stat = "identity", fill = "#2980b9") +
  coord_flip() +
  theme_minimal() +
  ggtitle("Top 10 Bairros com Maior Volume de Matrículas (2019-2020)") +
  xlab("Bairro") + ylab("Número Total de Estudantes") +
  geom_text(aes(label = n), hjust = -0.1, size = 3.5)

5 Conclusão

Este trabalho teve o intuito de realizar uma análise exploratória sobre a situação final dos estudantes da rede pública municipal da cidade do Recife, traçando um comparativo entre o ano de 2019 (período de normalidade pedagógica) e 2020 (ano da eclosão da COVID-19).

Após o tratamento de uma base robusta com mais de 190.000 matrículas, as análises comprovaram quantitativamente a tese de que a Secretaria de Educação adotou metodologias de aprovação automática e reordenamento de ciclo. Houve a erradicação estatística da reprovação por faltas ou notas em 2020 (aprovação superior a 95%), contrapondo o rigor natural avaliado em 2019.

Houve também uma diminuição na quantidade absoluta de matrículas efetivadas e formalizadas de um ano para o outro. Apesar das taxas de abandono caírem proporcionalmente (provavelmente devido à flexibilização na exigência de presença e contato com a escola), sabemos pelas pesquisas secundárias de que o vínculo real de aprendizagem foi severamente abalado, em especial na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Como trabalho futuro, sugere-se a expansão desta mesma metodologia para abranger os anos de 2021 e 2022, permitindo mapear o período de transição híbrida e verificar o impacto retroativo no aprendizado quando as avaliações presenciais e o rigor reprobatório voltaram à sua normalidade.

6 Referências

  • “Dados Abertos - Educação”. Prefeitura do Recife. n.d. http://dados.recife.pe.gov.br/dataset.
  • “Parecer CNE/CP nº 11/2020 - Orientações Educacionais para a Realização de Aulas e Atividades Pedagógicas Presenciais e Não Presenciais no contexto da Pandemia”. Ministério da Educação. 2020.
  • R Core Team (2023). R: A language and environment for statistical computing. R Foundation for Statistical Computing, Vienna, Austria. URL https://www.R-project.org/.