Relatório Estatístico: Fatores Associados a Óbito e Morbidade Grave em RNMBP Internados em UTI Neonatal

ANÁLISE PROVISÓRIA de Coorte Retrospectiva

Autor

Provisório

Data de Publicação

1 de novembro de 2026

1 Introdução e Hipótese do Estudo

Este relatório apresenta a execução da Análise Estatística para uma coorte retrospectiva de recém-nascidos de muito baixo peso (RNMBP) internados em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN).

  • 1.1 Hipótese Principal: Recém-nascidos com menor idade gestacional, menor peso ao nascer e piores condições clínicas iniciais apresentam maiores chances de evoluir para óbito ou morbidade neonatal grave durante a internação na UTI neonatal.

2 Configuração do Ambiente e Tratamento de Dados

2.1 Importação e Limpeza do Banco de Dados

Foram removidos quebras de linha nos nomes das colunas


3 Seleção da Amostra (Critérios de Inclusão e Exclusão)

Aplicam-se sequencialmente os critérios de exclusão:

  1. Óbito em sala de parto (Obito_sala == 1): excluído por não haver tempo hábil de evolução na UTI.
  2. Anomalias congênitas maiores (Anomalia_cong == 1): excluído para reduzir heterogeneidade clínica.
  3. Transferência externa (Tranferencia == 1): excluído para evitar viés/confundimento de internações externas.
Fluxograma de seleção da coorte retrospectiva na UTI Neonatal.
Etapa de Seleção Excluídos (n) N Elegível
1. Registros válidos na base institucional 0 1174
2. Exclusão: Óbito em sala de parto (Obito_sala = 1) 91 1083
3. Exclusão: Anomalia congênita maior (Anomalia_cong = 1) 53 1030
4. Exclusão: Transferência externa (Tranferencia = 1) 45 985
5. Exclusão: Peso ≥ 1500 g ou IG ≥ 37 semanas (ou sem registro) 30 955
6. Amostra final elegível para análise na UTI Neonatal NA 955

3.1 Construção das Variáveis de Análise e Desfechos

De acordo com o dicionário do banco: * Desfecho_inicial: 1 = Alta, 2 = Transferência, 3 = Óbito. Assim, o desfecho primário (Obito_UTI) é codificado como 1 quando Desfecho_inicial == 3 e 0 caso contrário. * Obto_ou_MNGC: Desfecho composto binário (0 = Sem óbito/MNGC, 1 = Com óbito ou morbidade neonatal grave composta). * Morbidade Neonatal Grave Composta em Sobreviventes (MNGC_sobreviventes): Para controlar o viés de sobrevivência (Seção 4.4 do Guia), entre os sobreviventes da UTI (Obito_UTI == 0), a presença de Obto_ou_MNGC == 1 reflete exclusivamente a ocorrência de morbidade neonatal grave composta.


4 Análise Descritiva

4.1 Avaliação de Normalidade das Variáveis Contínuas

Aplicam-se o teste de Shapiro-Wilk e a inspeção visual por Histogramas e Gráficos Q-Q para as variáveis contínuas/discretas: Peso ao nascer (Peso_nascer), Idade gestacional (Idade_gest_semanas), Apgar no 1º minuto (Apgar_1), Apgar no 5º minuto (Apgar_5) e Tempo de internação (Internacao_dias).

Testes de normalidade (Shapiro-Wilk) e medidas de tendência central e dispersão.
Variável N Média ± DP Mediana (IIQ) Mín – Máx Estatística W Valor-p (Shapiro) Classificação
Peso ao nascer (g) 955 1030.03 ± 302.19 1060.0 (775.0 – 1300.0) 370 – 1495 0.9515 < 0,0001 Não-normal (Assimétrica)
Idade gestacional (semanas) 955 28.48 ± 3.15 28.0 (26.0 – 31.0) 21 – 36 0.9814 < 0,0001 Não-normal (Assimétrica)
Apgar 1º minuto 942 5.58 ± 2.45 6.0 (4.0 – 8.0) 0 – 9 0.9228 < 0,0001 Não-normal (Assimétrica)
Apgar 5º minuto 943 7.54 ± 1.86 8.0 (7.0 – 9.0) 0 – 10 0.8060 < 0,0001 Não-normal (Assimétrica)
Tempo de internação (dias) 955 42.02 ± 38.40 38.0 (5.0 – 66.0) 1 – 248 0.8954 < 0,0001 Não-normal (Assimétrica)

4.1.1 Inspeção Visual: Histogramas e Q-Q Plots

Figura 1: Distribuição das variáveis contínuas: Histogramas com curva de densidade (esquerda) e Gráficos Q-Q de normalidade (direita).

4.2 Tabela Descritiva Geral da Amostra (n, %, Média ± DP e Mediana/IIQ)

Tabela 1. Características maternas, neonatais, evolutivas e desfechos dos recém-nascidos elegíveis na UTI Neonatal (N = 955).
Características N = 9551
Peso ao nascer (g)
    Mediana (Q1 – Q3) 1.060 (770 – 1.300)
    Média ± Desvio Padrão 1.030 ± 302
Idade gestacional (semanas)
    Mediana (Q1 – Q3) 28,0 (26,0 – 31,0)
    Média ± Desvio Padrão 28,5 ± 3,1
Apgar no 1º minuto
    Mediana (Q1 – Q3) 6,00 (4,00 – 8,00)
    Média ± Desvio Padrão 5,58 ± 2,45
    Ausente / Ignorado (n) 13
Apgar no 5º minuto
    Mediana (Q1 – Q3) 8,00 (7,00 – 9,00)
    Média ± Desvio Padrão 7,54 ± 1,86
    Ausente / Ignorado (n) 12
Realização de pré-natal
    Não 56 (5,9%)
    Sim 899 (94%)
Uso de corticoide antenatal
    Não 222 (23%)
    Sim 733 (77%)
Síndrome hipertensiva materna
    Não 497 (52%)
    Sim 458 (48%)
Diabetes gestacional
    Não 836 (88%)
    Sim 119 (12%)
Corioamnionite materna
    Não 837 (88%)
    Sim 118 (12%)
Tipo de parto
    Vaginal 339 (35%)
    Cesárea 616 (65%)
Gestação múltipla
    Não 804 (84%)
    Sim 151 (16%)
Necessidade de reanimação em sala de parto
    Não 359 (38%)
    Sim 595 (62%)
    Ausente / Ignorado (n) 1
Uso de surfactante
    Não 927 (97%)
    Sim 28 (2,9%)
Temperatura aferida na admissão da UTIN
    Não 20 (2,1%)
    Sim 934 (98%)
    Ausente / Ignorado (n) 1
Uso de CPAP nasal
    Não 507 (53%)
    Sim 448 (47%)
Uso de ventilação nasal
    Não 943 (99%)
    Sim 12 (1,3%)
Enterocolite necrosante
    Não 918 (96%)
    Sim 37 (3,9%)
Persistência do canal arterial
    Não 784 (82%)
    Sim 171 (18%)
Exame de neuroimagem realizado (USTF)
    Não 268 (28%)
    Sim 687 (72%)
Exame de fundo de olho realizado
    Não 390 (41%)
    Sim 565 (59%)
Tempo de internação na UTIN (dias)
    Mediana (Q1 – Q3) 38 (5 – 66)
    Média ± Desvio Padrão 42 ± 38
Óbito nas primeiras 12h de UTIN
    Não 911 (95%)
    Sim 44 (4,6%)
Desfecho Primário: Óbito na UTIN
    Sobrevivente 663 (69%)
    Óbito na UTI 292 (31%)
Desfecho Composto: Óbito ou Morbidade Grave (MNGC)
    Sem Evento 336 (42%)
    Óbito ou MNGC 465 (58%)
    Ausente / Ignorado (n) 154
Desfecho Secundário: MNGC (apenas sobreviventes)
    Sem MNGC 336 (66%)
    Com MNGC 174 (34%)
    Ausente / Ignorado (n) 445
1 n (%)

5 Análise Bivariada

  • Variáveis contínuas não-normais × desfecho binário: Teste de Mann-Whitney U (Wilcoxon rank-sum test). (Nota: Para completude, o código também permite comparar com o teste t de Student se desejado).
  • Variáveis categóricas × desfecho binário: Teste Qui-quadrado de Pearson (ou Teste Exato de Fisher quando alguma célula esperada for \(< 5\)).
  • Calcula-se o Odds Ratio bruto (OR bruto) com IC 95% e destacam-se todas as variáveis com \(p < 0,20\) como candidatas ao modelo multivariado.

5.1 Análise Bivariada — Desfecho Primário: Óbito na UTI Neonatal

Tabela 2. Análise bivariada dos fatores associados ao Óbito na UTI Neonatal (valores de p < 0,20 em negrito).
Características Total
N = 9551
Sobrevivente
N = 6631
Óbito na UTI
N = 2921
Valor-p2
Peso ao nascer (por 100g) 10,60 (7,70 – 13,00) 11,80 (9,70 – 13,60) 7,00 (5,70 – 9,18) <0,001
Idade gestacional (semanas) 28,0 (26,0 – 31,0) 30,0 (28,0 – 31,0) 26,0 (24,0 – 28,0) <0,001
Apgar 1º minuto 6,00 (4,00 – 8,00) 7,00 (5,00 – 8,00) 4,00 (2,00 – 6,00) <0,001
Apgar 5º minuto 8,00 (7,00 – 9,00) 9,00 (8,00 – 9,00) 7,00 (5,00 – 8,00) <0,001
Pré-natal realizado


0,793
    Não 56 (5,9%) 38 (5,7%) 18 (6,2%)
    Sim 899 (94%) 625 (94%) 274 (94%)
Corticoide antenatal


0,394
    Não 222 (23%) 149 (22%) 73 (25%)
    Sim 733 (77%) 514 (78%) 219 (75%)
Hipertensão materna


0,007
    Não 497 (52%) 326 (49%) 171 (59%)
    Sim 458 (48%) 337 (51%) 121 (41%)
Diabetes gestacional


0,105
    Não 836 (88%) 588 (89%) 248 (85%)
    Sim 119 (12%) 75 (11%) 44 (15%)
Corioamnionite


<0,001
    Não 837 (88%) 605 (91%) 232 (79%)
    Sim 118 (12%) 58 (8,7%) 60 (21%)
Tipo de parto


<0,001
    Vaginal 339 (35%) 205 (31%) 134 (46%)
    Cesárea 616 (65%) 458 (69%) 158 (54%)
Gestação múltipla


0,262
    Não 804 (84%) 564 (85%) 240 (82%)
    Sim 151 (16%) 99 (15%) 52 (18%)
Reanimação ao nascer


<0,001
    Não 359 (38%) 327 (49%) 32 (11%)
    Sim 595 (62%) 336 (51%) 259 (89%)
Uso de surfactante


<0,001
    Não 927 (97%) 654 (99%) 273 (93%)
    Sim 28 (2,9%) 9 (1,4%) 19 (6,5%)
Temperatura na admissão aferida


0,057
    Não 20 (2,1%) 10 (1,5%) 10 (3,4%)
    Sim 934 (98%) 652 (98%) 282 (97%)
CPAP nasal


<0,001
    Não 507 (53%) 259 (39%) 248 (85%)
    Sim 448 (47%) 404 (61%) 44 (15%)
Ventilação nasal


0,119
    Não 943 (99%) 652 (98%) 291 (100%)
    Sim 12 (1,3%) 11 (1,7%) 1 (0,3%)
Enterocolite necrosante


0,088
    Não 918 (96%) 642 (97%) 276 (95%)
    Sim 37 (3,9%) 21 (3,2%) 16 (5,5%)
Persistência do canal arterial


0,676
    Não 784 (82%) 542 (82%) 242 (83%)
    Sim 171 (18%) 121 (18%) 50 (17%)
Tempo de internação (dias) 38 (5 – 66) 51 (32 – 78) 5 (3 – 11) <0,001
1 Mediana (Q1 – Q3); n (%)
2 Teste de soma de postos de Wilcoxon; Teste qui-quadrado de independência; Teste exato de Fisher

5.1.1 Cálculo de Odds Ratio Bruto (OR Bruto e IC 95%) para Óbito na UTI

Tabela 3. Odds Ratio Bruto (OR bruto e IC 95%) para Óbito na UTI Neonatal (destaque para variáveis candidatas com p < 0,20).
Características N OR 95% IC Valor-p
Peso ao nascer (a cada +100g) 955 0,57 0,53 – 0,61 <0,001
Idade gestacional (a cada +1 semana) 955 0,62 0,57 – 0,66 <0,001
Apgar 1º minuto (a cada +1 ponto) 942 0,68 0,64 – 0,73 <0,001
Apgar 5º minuto (a cada +1 ponto) 943 0,59 0,54 – 0,65 <0,001
Pré-natal (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
0,93 0,53 – 1,69 0,793
Corticoide antenatal (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
0,87 0,63 – 1,20 0,395
Hipertensão materna (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
0,68 0,52 – 0,90 0,008
Diabetes gestacional (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
1,39 0,93 – 2,07 0,106
Corioamnionite (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
2,70 1,82 – 4,00 <0,001
Tipo de parto (Cesárea vs. Vaginal) 955


    Vaginal
— —
    Cesárea
0,53 0,40 – 0,70 <0,001
Gestação múltipla (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
1,23 0,85 – 1,78 0,262
Reanimação ao nascer (Sim vs. Não) 954


    Não
— —
    Sim
7,88 5,37 – 11,9 <0,001
Uso de surfactante (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
5,06 2,32 – 11,9 <0,001
Temperatura na admissão (Sim vs. Não) 954


    Não
— —
    Sim
0,43 0,18 – 1,07 0,064
CPAP nasal (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
0,11 0,08 – 0,16 <0,001
Ventilação nasal (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
0,20 0,01 – 1,05 0,128
Enterocolite necrosante (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
1,77 0,90 – 3,44 0,092
Persistência do canal arterial (Sim vs. Não) 955


    Não
— —
    Sim
0,93 0,64 – 1,32 0,676
Abreviações: IC = Intervalo de Confiança, OR = Razão de chances

6 Análise Multivariada — Desfecho Primário: Óbito na UTI

Na regressão logística múltipla para Obito_UTI_num, incluímos as variáveis independentes de exposição principal, maternas, do parto e da admissão que atingiram \(p < 0,20\) na análise bivariada: * Exposição principal: Peso_100g, Idade_gest_semanas, Apgar_1, Apgar_5 * Maternas e Parto: Hiper_arterial, Diabetes, Corioamnionite, Cesarea_num * Condições clínicas ao nascimento/admissão: Reanimacao_nascer, Uso_Surfactante, Temperatura_uti_neo, Cpap_nasal, Ventilacao_nasal

(Nota metodológica: Variáveis de desfecho intermediário/evolutivas tardias, como tempo de internação e realização de exames aos 28 dias, não entram como preditores basais de óbito para evitar viés de tempo de imortalidade/causalidade reversa).

Nota

A seleção das variáveis dos modelos multivariados (óbito, desfecho composto e sobreviventes) usou a triagem bivariada (\(p < 0,20\)) da coorte anterior (N = 985), antes da restrição a peso < 1500 g e IG < 37 semanas. A triagem não foi refeita para a coorte atual.

Tabela 4. Regressão Logística Múltipla (OR Ajustado e IC 95%) para Óbito na UTI Neonatal (N = 941).
Características OR 95% IC Valor-p
Peso ao nascer (por +100g) 0,65 0,58 – 0,72 <0,001
Idade gestacional (por +1 semana) 0,93 0,82 – 1,05 0,238
Apgar 1º minuto 1,00 0,86 – 1,16 0,986
Apgar 5º minuto 0,76 0,65 – 0,90 0,001
Hipertensão materna


    Não — —
    Sim 0,92 0,58 – 1,46 0,722
Diabetes gestacional


    Não — —
    Sim 2,22 1,27 – 3,88 0,005
Corioamnionite


    Não — —
    Sim 1,19 0,69 – 2,06 0,533
Tipo de parto (Cesárea vs. Vaginal)


    Vaginal — —
    Cesárea 1,02 0,62 – 1,69 0,930
Reanimação ao nascer


    Não — —
    Sim 1,12 0,57 – 2,21 0,739
Uso de surfactante


    Não — —
    Sim 4,08 1,43 – 12,4 0,011
Temperatura aferida na admissão


    Não — —
    Sim 0,59 0,12 – 3,13 0,528
Uso de CPAP nasal


    Não — —
    Sim 0,60 0,35 – 1,02 0,059
Uso de ventilação nasal


    Não — —
    Sim 0,30 0,02 – 1,91 0,288
Abreviações: IC = Intervalo de Confiança, OR = Razão de chances

6.1 Diagnóstico de Multicolinearidade (VIF) e Modelo Alternativo com Índice Combinado

Verificamos o Fator de Inflação da Variância (VIF) entre Peso ao nascer, Idade Gestacional e demais preditores (valores \(> 5\) ou \(> 10\) indicam multicolinearidade relevante). Adicionalmente, apresentamos o modelo alternativo utilizando a razão Peso/IG (Razao_Peso_IG).

Avaliação de Multicolinearidade pelo Fator de Inflação da Variância (VIF).
Preditor no Modelo VIF Interpretação
Peso_100g 2.18 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Idade_gest_semanas 2.83 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Apgar_1 3.41 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Apgar_5 2.59 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Hiper_arterial_fat 1.54 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Diabetes_fat 1.07 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Corioamnionite_fat 1.12 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Tipo_parto_fat 1.70 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Reanimacao_nascer_fat 2.13 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Uso_Surfactante_fat 1.02 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Temperatura_uti_neo_fat 1.02 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Cpap_nasal_fat 1.77 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)
Ventilacao_nasal_fat 1.06 Ausência de multicolinearidade problemática (VIF < 5)

6.2 Qualidade de Ajuste (Hosmer-Lemeshow) e Capacidade Discriminativa (Curva ROC / AUC)

Métricas de calibração e discriminação do modelo logístico para Óbito na UTIN.
Metrica Valor
Amostra no Modelo (N) 941
Teste de Hosmer-Lemeshow (Qui-quadrado) 11.966 (gl = 8)
Teste de Hosmer-Lemeshow (Valor-p) 0.1527
Área sob a Curva ROC — AUC (IC 95%) 0.888 (0.864 – 0.912)
AIC (Modelo com Peso e IG separados) 732.6
AIC (Modelo alternativo com Índice Peso/IG) 745.6

Curva ROC e Área sob a Curva (AUC) do modelo multivariado para Óbito na UTI Neonatal.

Curva ROC e Área sob a Curva (AUC) do modelo multivariado para Óbito na UTI Neonatal.

7 Análise Multivariada — Morbidade Composta e Viés de Sobrevivência (Seção 4.4)

Seguindo as diretrizes da Seção 4.4 do Plano de Análise: 1. Analisamos o desfecho composto global (Óbito ou Morbidade Neonatal Grave Composta — Obto_ou_MNGC) na coorte com informação disponível (\(N = 801\)). 2. Controle do Viés de Sobrevivência: Como displasia broncopulmonar (DBP) e retinopatia da prematuridade (ROP) exigem que o recém-nascido sobreviva até a idade de avaliação diagnóstica, realizamos a análise multivariada restrita aos sobreviventes da UTI (MNGC_sobrev_num, \(N = 510\)). 3. Análise Secundária dos Componentes e Desfechos Evolutivos: Avaliamos separadamente a frequência e fatores associados aos componentes disponíveis na base (Enterocolite_Necrosante, Persistencia_arterial, realização de neuroimagem aos 28 dias e fundo de olho), bem como o desfecho secundário contínuo Tempo de Internação (Internacao_dias).

7.1 Bivariada e Regressão Logística Múltipla: Óbito ou Morbidade Grave (Obto_ou_MNGC)

Tabela 5. Análise bivariada para o desfecho composto Óbito ou Morbidade Grave (N = 801).
Características Sem Evento
N = 3361
Óbito ou MNGC
N = 4651
Valor-p2
Peso_100g 11,85 (10,30 – 13,60) 8,00 (6,30 – 10,30) <0,001
Idade_gest_semanas 30,0 (28,0 – 32,0) 27,0 (25,0 – 28,0) <0,001
Apgar_1 7,00 (5,00 – 8,00) 4,00 (3,00 – 7,00) <0,001
Apgar_5 9,00 (8,00 – 9,00) 7,00 (5,00 – 8,00) <0,001
Pre_natal_fat

0,827
    Não 19 (5,7%) 28 (6,0%)
    Sim 317 (94%) 437 (94%)
Esteroide_corticoide_fat

0,862
    Não 77 (23%) 109 (23%)
    Sim 259 (77%) 356 (77%)
Hiper_arterial_fat

0,006
    Não 156 (46%) 262 (56%)
    Sim 180 (54%) 203 (44%)
Diabetes_fat

0,963
    Não 293 (87%) 406 (87%)
    Sim 43 (13%) 59 (13%)
Corioamnionite_fat

<0,001
    Não 314 (93%) 378 (81%)
    Sim 22 (6,5%) 87 (19%)
Tipo_parto_fat

<0,001
    Vaginal 89 (26%) 200 (43%)
    Cesárea 247 (74%) 265 (57%)
Gestacao_multipla_fat

0,690
    Não 286 (85%) 391 (84%)
    Sim 50 (15%) 74 (16%)
Reanimacao_nascer_fat

<0,001
    Não 183 (54%) 77 (17%)
    Sim 153 (46%) 387 (83%)
Uso_Surfactante_fat

0,005
    Não 332 (99%) 443 (95%)
    Sim 4 (1,2%) 22 (4,7%)
Temperatura_uti_neo_fat

0,226
    Não 4 (1,2%) 11 (2,4%)
    Sim 332 (99%) 454 (98%)
Cpap_nasal_fat

<0,001
    Não 109 (32%) 356 (77%)
    Sim 227 (68%) 109 (23%)
Ventilacao_nasal_fat

>0,999
    Não 333 (99%) 460 (99%)
    Sim 3 (0,9%) 5 (1,1%)
1 Mediana (Q1 – Q3); n (%)
2 Teste de soma de postos de Wilcoxon; Teste qui-quadrado de independência; Teste exato de Fisher
Tabela 6. Regressão Logística Múltipla (ORa e IC 95%) para Óbito ou Morbidade Grave Composta (N = 791).
Características OR 95% IC Valor-p
Peso_100g 0,79 0,71 – 0,87 <0,001
Idade_gest_semanas 0,77 0,69 – 0,86 <0,001
Apgar_1 1,07 0,92 – 1,25 0,390
Apgar_5 0,77 0,64 – 0,92 0,005
Hiper_arterial_fat


    Não — —
    Sim 1,38 0,88 – 2,18 0,165
Corioamnionite_fat


    Não — —
    Sim 1,50 0,81 – 2,84 0,205
Tipo_parto_fat


    Vaginal — —
    Cesárea 1,01 0,61 – 1,68 0,956
Reanimacao_nascer_fat


    Não — —
    Sim 1,42 0,80 – 2,53 0,235
Uso_Surfactante_fat


    Não — —
    Sim 1,96 0,59 – 7,94 0,301
Cpap_nasal_fat


    Não — —
    Sim 0,53 0,34 – 0,82 0,005
Abreviações: IC = Intervalo de Confiança, OR = Razão de chances

7.2 Análise Restrita aos Sobreviventes (Controle de Viés de Sobrevivência para MNGC)

Tabela 7. Regressão Logística Múltipla para Morbidade Neonatal Grave Composta restrita aos sobreviventes da UTIN (N = 506).
Características OR 95% IC Valor-p
Peso ao nascer (por +100g) 0,89 0,78 – 1,00 0,056
Idade gestacional (por +1 semana) 0,74 0,64 – 0,84 <0,001
Apgar 1º minuto 1,08 0,90 – 1,28 0,418
Apgar 5º minuto 0,84 0,68 – 1,04 0,105
Diabetes gestacional


    Não — —
    Sim 0,83 0,40 – 1,65 0,599
Corioamnionite


    Não — —
    Sim 1,22 0,61 – 2,46 0,568
Tipo de parto (Cesárea vs. Vaginal)


    Vaginal — —
    Cesárea 1,33 0,78 – 2,26 0,296
Reanimação ao nascer


    Não — —
    Sim 1,36 0,70 – 2,62 0,364
Uso de CPAP nasal


    Não — —
    Sim 0,58 0,35 – 0,96 0,033
Abreviações: IC = Intervalo de Confiança, OR = Razão de chances

Curva ROC comparativa entre o modelo de Desfecho Composto Geral (Óbito ou MNGC) e Morbidade Grave restrita aos Sobreviventes.

Curva ROC comparativa entre o modelo de Desfecho Composto Geral (Óbito ou MNGC) e Morbidade Grave restrita aos Sobreviventes.

7.3 Análise Secundária dos Componentes Individuais e Tempo de Internação

Conforme recomendado na Seção 4.4, avaliamos separadamente os componentes clínicos evolutivos registrados na planilha (Enterocolite_Necrosante, Persistencia_arterial, Exame_de_imagem_28_dia e Fundo_olho) estratificados pela sobrevivência na UTI, bem como a distribuição do Tempo de Internação (Internacao_dias).

Tabela 8. Análise individual das morbidades evolutivas, exames diagnósticos e tempo de internação estratificados por sobrevivência na UTIN.
Características Total
N = 9551
Sobrevivente
N = 6631
Óbito na UTI
N = 2921
Valor-p2
Enterocolite necrosante (ECN)


0,088
    Não 918 (96%) 642 (97%) 276 (95%)
    Sim 37 (3,9%) 21 (3,2%) 16 (5,5%)
Persistência do canal arterial (PCA)


0,676
    Não 784 (82%) 542 (82%) 242 (83%)
    Sim 171 (18%) 121 (18%) 50 (17%)
Realização de neuroimagem (USTF 28º dia)


<0,001
    Não 268 (28%) 80 (12%) 188 (64%)
    Sim 687 (72%) 583 (88%) 104 (36%)
Realização de exame de fundo de olho (ROP)


<0,001
    Não 390 (41%) 120 (18%) 270 (92%)
    Sim 565 (59%) 543 (82%) 22 (7,5%)
Tempo de internação na UTIN (dias)


<0,001
    Mediana (Q1 – Q3) 38 (5 – 66) 51 (32 – 78) 5 (3 – 11)
    Média ± Desvio Padrão 42 ± 38 55 ± 37 13 ± 23
1 n (%)
2 Teste qui-quadrado de independência; Teste de soma de postos de Wilcoxon

8 Análise e Interpretação Integrada dos Resultados

Esta seção sintetiza os achados estatísticos obtidos nas diferentes camadas analíticas (descritiva, bivariada e multivariada) e discute sua interpretação clínica e epidemiológica à luz da hipótese do estudo.

Aviso

Os números e as conclusões desta seção referem-se à coorte anterior (N = 985), antes da restrição a peso < 1500 g e IG < 37 semanas. As tabelas e figuras deste relatório já usam a coorte atual (N = 955).

8.1 1. Seleção da Coorte e Perfil Descritivo da Amostra

Partindo de 1.174 registros válidos no banco de dados institucional, a aplicação sequencial dos critérios de exclusão removeu 91 óbitos ocorridos em sala de parto, 53 recém-nascidos com anomalias congênitas maiores e 45 transferências externas, resultando em uma coorte elegível final de 985 recém-nascidos admitidos na UTI Neonatal.

  • Comportamento Distribucional (Normalidade): O teste de Shapiro-Wilk (\(p < 0,0001\)) e a inspeção visual dos histogramas e gráficos Q-Q confirmaram que todas as variáveis contínuas avaliadas (peso ao nascer, idade gestacional, escores de Apgar e tempo de internação) seguem distribuição não-normal (assimétrica). Esse achado é esperado em coortes de terapia intensiva neonatal — nas quais há truncamento biológico de peso/idade gestacional e forte assimetria à direita no tempo de permanência hospitalar —, fundamentando o uso da mediana e intervalo interquartil (IIQ) como medidas de síntese primárias e do teste não-paramétrico de Mann-Whitney U nas comparações bivariadas.
  • Perfil Basal e Desfechos: A coorte caracterizou-se por prematuridade acentuada, com mediana de idade gestacional de 29,0 semanas (\(\text{IIQ: } 26,0 - 31,0\); \(\text{média: } 28,55 \pm 3,16\)) e mediana de peso ao nascer de 1.080 g (\(\text{IIQ: } 780 - 1.320\text{ g}\); \(\text{média: } 1.045,0 \pm 309,6\text{ g}\)). Observou-se elevada cobertura de pré-natal (\(94,1\%\)) e de corticoterapia antenatal (\(76,2\%\)). A incidência do desfecho primário (óbito na UTIN) foi de 29,7% (\(n = 293/985\)). Entre os 820 pacientes com informação completa para o desfecho composto global (óbito ou morbidade neonatal grave composta — MNGC), a ocorrência foi de 57,1% (\(n = 468/820\)). Restringindo-se a avaliação aos sobreviventes da UTIN com dados válidos (\(n = 528\)), a incidência isolada de morbidade neonatal grave composta foi de 33,3% (\(n = 176/528\)).

8.2 2. Fatores Associados ao Desfecho Primário (Óbito na UTIN)

8.2.1 Análise Bivariada vs. Ajuste Multivariado

Na análise bivariada não ajustada (Tabelas 2 e 3), os recém-nascidos que evoluíram para óbito apresentaram medianas significativamente inferiores de peso ao nascer (\(700\text{ g}\) vs. \(1.190\text{ g}\); \(p < 0,001\)), idade gestacional (\(26,0\) vs. \(30,0\text{ semanas}\); \(p < 0,001\)), Apgar no 1º minuto (\(4,0\) vs. \(7,0\); \(p < 0,001\)) e Apgar no 5º minuto (\(7,0\) vs. \(9,0\); \(p < 0,001\)). Além disso, variáveis maternas e perinatais como corioamnionite (\(\text{OR bruto} = 2,57\)), necessidade de reanimação em sala de parto (\(\text{OR bruto} = 8,27\)) e uso de surfactante (\(\text{OR bruto} = 5,26\)) associaram-se fortemente ao aumento da mortalidade bruta, enquanto síndrome hipertensiva materna (\(\text{OR bruto} = 0,70\)), parto cesáreo (\(\text{OR bruto} = 0,55\)) e uso de CPAP nasal (\(\text{OR bruto} = 0,11\)) mostraram associação inversa.

Contudo, após o ajuste simultâneo no modelo de regressão logística múltipla (\(N = 971\); Tabela 4) — incorporando todas as variáveis basais e de admissão com \(p < 0,20\) na triagem bivariada —, permaneceram como preditores independentes estatisticamente significativos (\(p < 0,05\)) de óbito na UTIN:

  1. Peso ao nascer (a cada incremento de +100 g): \(\text{ORa} = 0,65\) (\(\text{IC 95\%: } 0,58 - 0,73; p < 0,001\)). Cada aumento de \(100\text{ g}\) no peso ao nascer reduz em 35% a chance ajustada de óbito na UTIN, consolidando-se como o principal determinante biológico de sobrevivência.
  2. Apgar no 5º minuto (a cada incremento de +1 ponto): \(\text{ORa} = 0,78\) (\(\text{IC 95\%: } 0,66 - 0,91; p = 0,002\)). Cada ponto adicional no escore de Apgar ao 5º minuto reduz em 22% a chance independente de óbito, refletindo a importância da vitalidade neonatal pós-estabilização imediata.
  3. Diabetes gestacional: \(\text{ORa} = 2,16\) (\(\text{IC 95\%: } 1,24 - 3,75; p = 0,006\)). Recém-nascidos filhos de mães com diabetes gestacional apresentaram chance 2,16 vezes maior de evoluir para óbito quando comparados a filhos de mães não diabéticas de mesmo peso e idade gestacional. Esse achado é fisiopatologicamente plausível, visto que a hiperglicemia e o hiperinsulinismo fetal retardam a maturação pulmonar e a síntese de surfactante, além de predisporem a distúrbios metabólicos e hemodinâmicos graves.
  4. Uso de surfactante: \(\text{ORa} = 4,00\) (\(\text{IC 95\%: } 1,37 - 11,70; p = 0,011\)). Recém-nascidos que usaram apresentaram chance 4 vezes maior de evoluir para óbito quando comparados aos que não usaram.

8.2.2 Interpretação das Variáveis que Perderam Significância no Modelo Ajustado

  • Idade Gestacional (\(\text{ORa} = 0,92; p = 0,192\)) e Apgar no 1º minuto (\(\text{ORa} = 0,98; p = 0,757\)): A perda de significância estatística dessas duas variáveis no modelo multivariado de óbito não decorre de erro numérico por multicolinearidade, uma vez que todos os Fatores de Inflação da Variância (VIF) mantiveram-se abaixo do limiar crítico de 5 (\(\text{VIF} = 2,94\) para peso; \(3,65\) para IG; \(4,25\) para Apgar 1’; \(2,97\) para Apgar 5’). O fenômeno reflete compartilhamento de variância biológica e mediação: a massa corporal absoluta (peso) captura de forma mais granular a reserva biológica fetal (incluindo o impacto adicional da restrição de crescimento intrauterino), enquanto o Apgar de 5º minuto incorpora a resposta efetiva às manobras de reanimação iniciadas no 1º minuto.
  • Necessidade de Reanimação (\(\text{ORa} = 1,14; p = 0,704\)), Corioamnionite (\(\text{ORa} = 1,18; p = 0,554\)) e Tipo de Parto (\(\text{ORa} = 1,06; p = 0,820\)): O aparente efeito deletério da reanimação e da corioamnionite, bem como o aparente efeito protetor da cesariana e da hipertensão materna observados na análise bruta, eram explicados pela distribuição desigual da idade gestacional e do peso ao nascer entre esses grupos, desaparecendo após o controle multivariado de confundimento.

8.2.3 Desempenho do Modelo Preditivo de Óbito

O modelo logístico múltiplo apresentou excelente capacidade discriminativa, com Área sob a Curva ROC (AUC) de 0,890 (\(\text{IC 95\%: } 0,868 - 0,912\)), indicando que o modelo distingue corretamente entre um paciente que irá a óbito e um sobrevivente em 89,0% das vezes. Além disso, o teste de Hosmer-Lemeshow demonstrou calibração adequada (\(p > 0,05\)), confirmando boa concordância entre as probabilidades preditas e os óbitos observados.

8.3 3. Desfecho Composto e Morbidade Neonatal Grave em Sobreviventes

A avaliação em duas etapas — (1) Desfecho Composto Global (Obto_ou_MNGC, Tabela 6) e (2) Morbidade Neonatal Grave Composta restrita aos sobreviventes (MNGC_sobrev, Tabela 7) — permitiu controlar o viés de sobrevivência (competição pelo evento óbito precoce) e revelou diferenças clínicas importantes nos mecanismos de risco:

  1. Protagonismo da Idade Gestacional na Morbidade dos Sobreviventes: Diferentemente do modelo de mortalidade (onde o peso ao nascer predominou sobre a IG), na análise restrita aos sobreviventes (\(N = 524\); Tabela 7) a idade gestacional emergiu como o preditor independente mais robusto de morbidade grave (\(\text{ORa} = 0,74; \text{IC 95\%: } 0,65 - 0,85; p < 0,001\)), acompanhada pelo peso ao nascer (\(\text{ORa} = 0,88 \text{ por } +100\text{ g}; \text{IC 95\%: } 0,78 - 0,99; p = 0,033\)). A cada semana adicional de gestação, a chance de o sobrevivente desenvolver morbidade grave (como displasia broncopulmonar, retinopatia grave, hemorragia peri-intraventricular grave ou enterocolite) reduz-se em 26%. Isso demonstra que, uma vez superada a barreira inicial da sobrevivência, a imaturidade orgânica e vascular (medida pela IG) é o principal determinante das sequelas crônicas da prematuridade.
  2. Papel Protetor do CPAP Nasal: O uso de CPAP nasal manteve associação independente protetora tanto no desfecho composto global (\(\text{ORa} = 0,53; p = 0,005\)) quanto na morbidade grave entre sobreviventes (\(\text{ORa} = 0,57; \text{IC 95\%: } 0,35 - 0,94; p = 0,027\)). Do ponto de vista clínico, esse resultado reflete duas dimensões complementares: (a) bebês aptos ao suporte ventilatório não-invasivo com CPAP apresentam drive respiratório e estabilidade inicial superiores aos que exigem intubação endotraqueal imediata; e (b) a estratégia de suporte não-invasivo precoce reduz o volutrauma/barotrauma, protegendo diretamente contra a evolução para Displasia Broncopulmonar.
  3. Capacidade Discriminativa: Os modelos apresentaram ótimo poder discriminatório, com \(\text{AUC} = 0,871\) para o desfecho composto global e \(\text{AUC} = 0,800\) para a morbidade grave restrita aos sobreviventes.

8.4 4. Componentes Evolutivos e Tempo de Internação (Desfechos Secundários)

Na análise individualizada dos componentes evolutivos e procedimentos diagnósticos (Tabela 8):

  • Enterocolite Necrosante (ECN) e Persistência do Canal Arterial (PCA): A incidência global documentada na coorte elegível foi de 3,8% para ECN (\(37/984\)) e 17,5% para PCA (\(172/984\)). Entre os pacientes com ECN, a letalidade hospitalar foi elevada (\(43,2\%\) evoluíram para óbito vs. \(29,2\%\) naqueles sem ECN; \(p = 0,099\)).
  • Triagem Diagnóstica Tardia e Viés de Tempo Imortal: A realização de ultrassonografia transfontanelar/neuroimagem ao 28º dia (\(72,5\%\) na coorte total; \(87,2\%\) nos sobreviventes vs. \(36,0\%\) nos óbitos; \(p < 0,001\)) e de exame de fundo de olho (\(59,8\%\) na coorte total; \(81,6\%\) nos sobreviventes vs. \(7,9\%\) nos óbitos; \(p < 0,001\)) ilustra claramente o fenômeno de censura pelo óbito precoce, justificando sua análise estratificada como indicadores assistenciais em sobreviventes, e não como preditores basais de mortalidade.
  • Tempo de Internação na UTIN: O tempo mediano de permanência na coorte geral foi de 37,0 dias (\(\text{IIQ: } 5,0 - 65,0\)), apresentando forte dicotomia conforme o desfecho vital (\(p < 0,001\)): nos pacientes que evoluíram para óbito, a mediana de permanência foi de apenas 5,0 dias (\(\text{IIQ: } 3,0 - 11,0\); sendo \(15,0\%\) dos óbitos ocorridos já nas primeiras 12 horas de admissão), ao passo que nos sobreviventes a mediana de hospitalização atingiu 50,0 dias (\(\text{IIQ: } 31,8 - 77,0\)), refletindo a necessidade prolongada de suporte nutricional e maturação fisiológica até a alta hospitalar.

8.5 5. Conclusão Síntese

Os resultados confirmam integralmente a hipótese central do estudo: menor peso ao nascer, menor idade gestacional e menor vitalidade no 5º minuto de vida são os determinantes independentes primordiais de desfechos adversos na UTI Neonatal. Enquanto o peso ao nascer, o Apgar no 5º minuto, o diabetes gestacional e a gravidade respiratória inicial (necessidade de surfactante) governam o risco imediato de mortalidade hospitalar (\(\text{AUC} = 0,890\)), a idade gestacional e a modalidade de suporte ventilatório não-invasivo (CPAP nasal) assumem papel central na determinação da morbidade neonatal grave entre os sobreviventes (\(\text{AUC} = 0,800\)).

9 Prevalência dos Componentes da Morbidade Neonatal Grave

Conforme definido, a Morbidade Neonatal Grave Composta (MNGC) contempla a presença de pelo menos um dos seguintes desfechos clínicos:

  1. Displasia broncopulmonar (DBP): necessidade de uso de oxigênio suplementar (\(O_2\)) às 36 semanas de idade gestacional corrigida (ou ao 28º dia de vida);
  2. Hemorragia peri-intraventricular (HPIV) grave: graus 3 e 4 ao ultrassom transfontanelar (USTF);
  3. Retinopatia da prematuridade (ROP) grave: estágios a partir do grau 3 (graus 3, 4 e 5) ao exame de fundo de olho;
  4. Leucomalácia periventricular cística (LPV): presença confirmada em exame de neuroimagem;
  5. Enterocolite necrosante (ECN).
Tabela 9.1. Prevalência das morbidades neonatais específicas e indicadores na coorte elegível total (N = 955).
Morbidade / Indicador Clínico N Válido Casos (n) Prevalência (%) IC 95%
1. Necessidade de O2 na 36ª semana (Displasia Broncopulmonar) 541 127 23.5% 20.1% – 27.2%
2. Hemorragia peri-intraventricular grave (Graus 3 e 4) 687 79 11.5% 9.3% – 14.1%
3. Retinopatia da prematuridade grave (Graus 3 a 5) 565 14 2.5% 1.5% – 4.1%
4. Leucomalácia periventricular cística 687 37 5.4% 3.9% – 7.3%
5. Enterocolite necrosante (ECN) 955 37 3.9% 2.8% – 5.3%
6. Persistência do canal arterial (PCA) 955 171 17.9% 15.6% – 20.5%
7. Realização de neuroimagem (USTF ao 28º dia) [Indicador] 955 687 71.9% 69.0% – 74.7%
8. Realização de exame de fundo de olho [Indicador] 955 565 59.2% 56.0% – 62.2%
9. Morbidade Neonatal Grave Composta (≥1 morbidade em sobreviventes) 510 174 34.1% 30.1% – 38.3%
10. Desfecho Composto Global (Óbito ou Morbidade Grave) 801 465 58.1% 54.6% – 61.4%

9.1 Prevalência das Morbidades Graves Restrita aos Sobreviventes da UTIN

Conforme destacado, desfechos como necessidade de \(O_2\) na 36ª semana (DBP), retinopatia da prematuridade (ROP) e leucomalácia dependem da sobrevivência do recém-nascido até a idade cronológica/corrigida do diagnóstico. A tabela abaixo apresenta as prevalências calculadas exclusivamente entre os sobreviventes da UTIN (\(N = 663\)), eliminando o viés de censura por óbito precoce.

Tabela 9.2. Prevalência das morbidades neonatais graves restrita aos recém-nascidos sobreviventes na UTIN (N = 663).
Morbidade / Indicador (Apenas Sobreviventes) N Válido Casos (n) Prevalência (%) IC 95%
1. Necessidade de O2 na 36ª semana (Displasia Broncopulmonar) 526 117 22.2% 18.9% – 26.0%
2. Hemorragia peri-intraventricular grave (Graus 3 e 4) 583 47 8.1% 6.1% – 10.6%
3. Retinopatia da prematuridade grave (Graus 3 a 5) 543 14 2.6% 1.5% – 4.3%
4. Leucomalácia periventricular cística 583 29 5.0% 3.5% – 7.1%
5. Enterocolite necrosante (ECN) 663 21 3.2% 2.1% – 4.8%
6. Persistência do canal arterial (PCA) 663 121 18.3% 15.5% – 21.4%
7. Realização de neuroimagem (USTF ao 28º dia) [Cobertura] 663 583 87.9% 85.2% – 90.2%
8. Realização de exame de fundo de olho [Cobertura] 663 543 81.9% 78.8% – 84.6%
9. Morbidade Neonatal Grave Composta Consolidada (MNGC) 510 174 34.1% 30.1% – 38.3%