Análise Crítica:

Do Leme a Santa Cruz: a territorialização eleitoral de Jair Bolsonaro no município do Rio de Janeiro

M.Sc. Renato Barreira; M.Sc. Frederico Thiers
Programa de Pós-Graduação em Informática · UNIRIO

Métodos Quantitativos - Prof. Márcio Barros

RESUMO DO ARTIGO:

RQ1: Como os indicadores sociais territorializados podem dar pistas sobre a ampliação da base eleitoral de Jair Bolsonaro em sua carreira como parlamentar e, posteriormente, como presidenciável

RQ2: Qual o perfil do eleitor de Jair Bolsonaro ao longo de sua trajetória parlamentar? Houve mudanças nesse perfil? Como se deu a ampliação de suas bases eleitorais no processo de construção de sua candidatura à presidência da República?

Metodologia: Correlação entre o Índice de Desenvolvimento Social da cidade do Rio de Janeiro e o desempenho eleitoral espacializado do então candidato nas eleições de 2002, 2006, 2010, 2014 e 2018.

A QUASE FALÁCIA ECOLÓGICA

Primeiro problemas de muitos

“Qual o perfil do eleitor de Jair Bolsonaro ao longo de sua trajetória parlamentar? Houve mudanças nesse perfil?” pg. 94

A pergunta envolve características dos indivíduos, mas o desenho quantitativo utiliza regiões administrativas como unidades de observação.

Falácia Ecológica: fazer suposições desagregadas com dados agregados.

A QUASE FALÁCIA ECOLÓGICA:

Inferências desagragadas com dados agregados:

“Esse resultado demonstra que Bolsonaro obteve melhor desempenho nas regiões com maior grau de desenvolvimento na cidade, o que reforça a hipótese de que suas bases eleitorais consistiam de grupos de classe média.” pg.107

“A ampliação geográfica da base eleitoral de Jair Bolsonaro em direção às RAs periféricas é um indicativo de que seu crescimento eleitoral se formulou a partir de um processo de inclusão de novos segmentos sociais ao seu núcleo de apoio […]” pg. 118


Sem dados individuais ou estimativas ecológicas específicas, essas explicações não podem ser distinguidas adequadamente.

A QUASE FALÁCIA ECOLÓGICA

Mea culpa

“As interpretações dos resultados referem-se ao território delimitado pela unidade espacial escolhida e não aos eleitores individualmente.” pg. 103

“Embora não tenhamos evidências para sustentar essa afirmação, uma vez que trabalhamos com dados agregados […]”



Limitação quantitativa para testar as interpretações sobre o eleitor formuladas a partir de resultados agregados.

PROBLEMAS NA CORRELAÇÃO

PROBLEMAS COM A CORRELAÇÃO:

Pares de observações devem ser independentes.

Se essas regiões compartilham características territoriais, tratá-las como observações estatisticamente independentes pode (muito provavelmente vai) exagerar os resultados.

Primeira Lei da Geografia de Tobler: tudo está relacionado com tudo, mas coisas próximas tendem a estar mais relacionadas do que coisas distantes.

Isso resultada em problemas como “inflação” dos resultados E correlação espacial espuria.

Como solucionar isso? Usar autocorrelação espacial (índice de Moran) entre outros meios.

PROBLEMAS COM A CORRELAÇÃO:

A retirada de Realengo do modelo: ciência free-style

Os autores identificam Realengo como uma região que não acompanha a tendência da correlação entre IDS e votação, por isso o retiram.

A interpretação é que Realengo teria uma elevada presença de militares, o que explicaria seu comportamento eleitoral.
mas a pesquisa não incorpora uma medida quantitativa da presença militar.

Apresentar uma análise leave-one-out, retirando separadamente cada RA e verificando quanto cada exclusão altera os resultados.

PROBLEMAS COM A CORRELAÇÃO:

Outros problemas

  1. Tamanho amostral: só 27, 28 regiões administrativas;
  2. Correlação não é explicação causal;
  3. Ausência de correlações alternativas: é sempre bom fazer vários testes (Spearman, regressões robustas e análise de observações influentes etc.).
  4. Comparar uma serie de eleição proporcional com a de presidente;
  5. Falta de transparência com os dados;

PROBLEMAS COM A INFERÊNCIA

Ausência de variáveis de controle

O IDS incorpora saneamento, habitação, escolaridade e renda.
Porém, o artigo atribui relevância a vários outros fatores que não entram no modelo:
Presença de militares, influência religiosa, antipetismo, mobilidade social, identificação com a classe média, lideranças políticas locais.

Ou seja, eles criam um ABISMO entre a hipótese e a metodologia com o argumento teórico final.

PROBLEMAS COM A INFERÊNCIA

Pra finalizar

Se a presença militar é utilizada para explicar o comportamento excepcional de Realengo, por que essa variável não foi operacionalizada quantitativamente, em vez de simplesmente retirar a região e recalcular as correlações?