Imagine viver em uma época em que as seguintes tecnologias simplesmente não existiam:
No século XVI, a tecnologia de cálculo da humanidade resumia-se a lápis, papel e muita paciência.
O desenvolvimento do período exigia multiplicar e dividir números gigantescos (com dezenas de casas decimais) para impulsionar três áreas:
Prever a posição dos astros e estudar o cosmos.
Planejar com precisão as rotas marítimas pelo mundo.
Dar suporte às complexas transações do mercado global.
Processos extremamente demorados.
Esgotamento físico e mental.
Um erro arruinava tudo.
Transformar operações complexas em um método simples.
John Napier of Merchiston (1550 - 1617)
Discoverer of logarithms.
O matemático, físico e astrônomo escocês John Napier mudou a história da matemática no início do século XVII.
Napier não inventou sua técnica da noite para o dia. Ele dedicou cerca de 20 anos de sua vida investigando metodicamente uma única coisa:
“Uma forma de simplificar definitivamente os cálculos gigantescos da época.”
O célebre astrônomo alemão Johann Kepler comemorou efusivamente a chegada dessa nova ferramenta matemática.
O Motivo: A descoberta revolucionou e acelerou drasticamente a capacidade de computação e análise de dados dos astrônomos da época.
Hoje, os logaritmos estão presentes em diversas situações do nosso cotidiano e da ciência:
Cálculo exato do pH.
Escala Richter para terremotos.
Análise de modelos biológicos.
Imagine que estamos no ano de 1615. Você é o principal astrônomo assistente de Johannes Kepler! 🔭
Para prever a rota dos planetas, você precisa calcular urgentemente o produto e o quociente de números gigantescos.
Sem calculadoras, computadores ou celulares, um único erro de cálculo manual custa meses de trabalho perdido.
Vocês têm exatamente 2 minutos para resolverem as duas operações abaixo sem usar calculadora (apenas lápis e papel):
\[32.768 \times 65.536 = ?\]
\[2.147.483.648 \div 32.768 = ?\]
Na prática…
\[ \begin{array}{r} 32768 \\ \times \quad 65536 \\ \hline 196608 \\ 98304\phantom{0} \\ 163840\phantom{00} \\ 163840\phantom{000} \\ 196608\phantom{0000} \\ \hline 2147483648 \end{array} \]
\[ \begin{array}{rl} 2147483648 & \begin{array}{|l} \underline{32768} \end{array} \\ \underline{196608\phantom{0000}} & 65536 \\ 181403\phantom{000} & \\ \underline{163840\phantom{000}} & \\ 175636\phantom{00} & \\ \underline{163840\phantom{00}} & \\ 117964\phantom{0} & \\ \underline{98304\phantom{0}} & \\ 196608 & \\ \underline{196608} & \\ (0) & \end{array} \]
Aqueles números assustadores não foram escolhidos por acaso. Eles são potências exatas da base 2! O “disfarce” dos números:
Vamos reescrever as contas usando as regras de potências:
Na Multiplicação: \[2^{15} \times 2^{16} = 2^{15+16} = 2^{31}\] A multiplicação virou uma simples soma de expoentes (\(15 + 16 = 31\))!
Na Divisão: \[2^{31} \div 2^{15} = 2^{31-15} = 2^{16}\] A divisão virou uma simples subtração (\(31 - 15 = 16\))!
O problema no século XVII é que nem todo número no céu tinha uma potência inteira e bonitinha como \(2^{15}\). Os números reais eram quebrados!
Foi aí que Napier percebeu:
“E se criarmos uma ferramenta matemática — o logaritmo — cuja única função seja isolar e extrair o expoente de qualquer número?”
Vamos provar que isso funciona para qualquer número (base 10). Use a calculadora do celular, aperte a tecla log e preencha a tabela arredondando para 3 casas decimais!
| Número (\(x\)) | \(\log_{10}(x)\) (O expoente) | Na prática |
|---|---|---|
| 1 | 0 | \(10^0 = 1\) |
| 2 | 0,301 | \(10^{0,301} \approx 2\) |
| 3 | 0,477 | \(10^{0,477} \approx 3\) |
| 4 | 0,602 | \(10^{0,602} \approx 4\) |
| 5 | 0,699 | \(10^{0,699} \approx 5\) |
| 10 | 1 | \(10^1 = 10\) |
Olhe para a tabela e faça este desafio:
\[\log(2) + \log(3) = 0,301 + 0,477 = \mathbf{0,778}\]
\[\log(6) = \mathbf{0,778}\]
Teste isso para outros valores de \(\log (x)\)!
Existe uma propriedade de logarítmos que garante que:
\[\begin{align*} \log \ (32.768 \times 65.536) &= \log \ (32.768)+\log \ (65.536) \\ &= 4,5154 + 4,8165 \\ &= 9,3319 \end{align*}\]
Use sua calculadora para calcular/conferir esses logarítmos!
Outra propriedade de logarítmos também nos garante que:
\[\begin{align*} \log \ (32.768 \times 65.536) &= \log \ (2^{15} \times 2^{16})\\ &= \log \ (2^{15}) + \log \ (2^{16})\\ &= 15 \times \log \ (2) + 16 \times \log \ (2)\\ \end{align*}\]
De acordo com os valores tabelados \(\log \ (2) \approx 0,301\), então:
\[\begin{align*} \log \ (32.768 \times 65.536) & \approx 15 \times 0,301 + 16 \times 0,301\\ &\approx 4,515 + 4,816\\ &\approx 9,331 \end{align*}\]
Calcule, com a auxílio da calculadora, o valor de:
\(\log \ (2.147.483.648) =\) \(9,3319\)
\(\log \ (32.768 \times 65.536) =\) \(9,3319\)
\(15 \times \log \ (2) + 16 \times \log \ (2) =\) \(9,331\)
Observe que fazendo das três formas o resultado é sempre o mesmo. Ou seja, ao invez de multiplicar os números, podemos apenas somar seus logarítmos. Ou ainda, caso sejam possíveis de escrever em forma de potências, seus expoentes podem “descer” e multiplicar o \(\log\) de sua base!
Lembram da tabela que construímos com a tecla log?
Os astrônomos do passado tinham livros inteiros chamados ‘Tábuas de Logaritmos’.
Em vez de gastarem dias multiplicando números gigantescos à mão, eles olhavam o logaritmo dos números na tabela, faziam uma simples adição e depois consultavam a tabela de volta.
Sendo dados dois números reais e positivos \(a\) e \(b\), com \(a \neq 1\), define-se o logaritmo do número \(b\) na base \(a\) como sendo o expoente \(x\) ao qual se deve elevar a base \(a\) de modo que a potência resultante seja igual a \(b\).
Em notação matemática formal:
\[\log_a b = x \iff a^x = b\]
Onde:
Para que o logaritmo seja válido e pertença ao conjunto dos números reais, as seguintes restrições impostas à base e ao logaritmando devem ser obrigatoriamente respeitadas:
Considerando sempre as condições de existência (\(0 < a \neq 1\) e \(b > 0\)), temos as seguintes consequências fundamentais:
1ª Consequência (\(\log_a 1 = 0\)): O logaritmo da unidade em qualquer base válida é sempre igual a zero, pois qualquer base estritamente positiva elevada a zero resulta em \(1\) (\(a^0 = 1\)).
2ª Consequência (\(\log_a a = 1\)): O logaritmo cuja base e o logaritmando são iguais resulta sempre em \(1\), pois qualquer base elevada a um é igual a ela mesma (\(a^1 = a\)).
3ª Consequência (\(\log_a a^n = n\)): O logaritmo de uma potência cujo logaritmando tem a mesma base do logaritmo é igual ao próprio expoente \(n\).
4ª Consequência (\(a^{\log_a b} = b\)): Uma potência cuja base é \(a\) e cujo expoente é o logaritmo de \(b\) na base \(a\) tem como resultado o próprio logaritmando \(b\).
5ª Consequência (\(\log_a x = \log_a y \iff x = y\)): Dois logaritmos em uma mesma base são perfeitamente equivalentes (iguais) se, e somente se, os seus logaritmandos também forem iguais.
\[\log_a (b \cdot c) = \log_a b + \log_a c\]
Exemplos:
\[\log_a \left(\frac{b}{c}\right) = \log_a b - \log_a c\]
Exemplo:
\[\log_a b^\alpha = \alpha \cdot \log_a b\]
Exemplos:
Quando a base do logaritmo está elevada a um expoente, esse expoente “sai para fora” multiplicando o logaritmo, mas na posição de denominador (ou seja, dividindo)
\[\log_{a^\beta} b = \frac{1}{\beta} \cdot \log_a b \quad \text{ou} \quad \log_{a^\beta} b = \frac{\log_a b}{\beta}\]
Exemplos
Exemplos
\(\log_8 4 = x \implies 8^x = 4 \implies (2^3)^x = 2^2 \\ \implies 2^{3x} = 2^2 \implies 3x=2 \implies x = \dfrac{2}{3}\)
\(\log_3 \left(\frac{a^3 b^2}{c^4}\right) \implies \log_3 (a^3 b^2) - \log_3 (c^4) \\ \implies (\log_3 a^3 + \log_3 b^2) - \log_3 (c^4) \\ \implies 3 \cdot \log_3 a + 2 \cdot \log_3 b - 4 \cdot \log_3 c\)
\[\log_5 \left(\frac{5a}{bc}\right)\]
\[\log_2 (a^2 \sqrt{b})\]
Em muitas situações, precisamos converter logaritmos de bases diferentes para uma única base conveniente. Isso ocorre, por exemplo, quando precisamos unificar bases para aplicar propriedades operatórias ou quando queremos calcular o valor de um logaritmo usando calculadoras ou planilhas que trabalham predominantemente na base \(10\).
Se \(a\), \(b\) e \(c\) são números reais positivos, com \(a \neq 1\) e \(c \neq 1\), o logaritmo de \(b\) na base \(a\) pode ser expresso como o quociente entre o logaritmo de \(b\) e o logaritmo de \(a\), ambos em uma nova base \(c\):
\[\log_a b = \frac{\log_c b}{\log_c a}\]
\[\log_3 5 = \frac{\log_2 5}{\log_2 3}\]
\[\log_2 7 = \frac{\log_{10} 7}{\log_{10} 2}\]
\[\log_{100} 3 = \frac{\log_{10} 3}{\log_{10} 100} = \frac{\log_{10} 3}{2} = \frac{1}{2} \cdot \log_{10} 3\]
Se \(a\) e \(b\) são números reais positivos e diferentes de \(1\), o logaritmo de \(b\) na base \(a\) é igual ao inverso do logaritmo de \(a\) na base \(b\):
\[\log_a b = \frac{1}{\log_b a} \quad \text{ou} \quad \log_a b \cdot \log_b a = 1\]
Exemplos
\[\log_2 8 = \frac{\log_{10} 8}{\log_{10} 2}\]
\[0,25 = \frac{25}{100} = \frac{1}{4} = 2^{-2} \text{ e } 128 = 2^7\]
\[\log_{2^{-2}} (2^7) = \frac{7}{-2} \cdot \log_2 2 = -\frac{7}{2}\]
\[\log_8 m = \dfrac{\log_2 m}{\log_2 8}=\dfrac{k}{3}\]
\[\log_9 20 = \dfrac{\log_{10} 20}{\log_{10} 9} = \dfrac{\log_{10}(2 \cdot 10)}{\log_{10}(3^2)}=\frac{\log_{10} 2 + \log_{10} 10}{2 \cdot \log_{10} 3} = \frac{a + 1}{2b}\]
\[\log_3 2\cdot\log_4 3 \cdot \log_5 4 \cdot \log_6 5 \cdot \dots \cdot \log_{10} 9\]
\[\frac{\log 2}{\log 3} \cdot \frac{\log 3}{\log 4} \cdot \frac{\log 4}{\log 5} \cdot \dots \cdot \frac{\log 9}{\log 10}=\frac{\log 2}{\log 10} = \log_{10} 2\]
Usando a aproximação \(\log 2 = 0,30\), para que esse elemento se decomponha até atingir um oitavo da massa inicial passarão:
\[B(t) = -30 \cdot \log_3(t + 21) + 150\]
em que \(t\) é o tempo decorrido, em minutos, após o início da pesquisa. Nessas condições, ao fim da primeira hora da pesquisa, quantas bactérias havia em tal cultura?
\[ R = \frac{2}{3} \cdot \log\left(\frac{E}{E_0}\right) \]
em que \(R\) é a magnitude do terremoto na escala Richter e \(E\) é a energia liberada pelo terremoto na unidade kWh, sendo \(E_0 = 7 \cdot 10^{-3} \text{ kWh}\).
Considerando \(\log 7 = 0,85\), se um terremoto atingir a magnitude 7,5 na Escala Richter, a energia liberada por ele, em kWh, será igual a
O tempo decorrido, em hora, até que a liga atinja 30 °C é mais próximo de