O “Custo Brasil” designa o conjunto de fatores econômicos, políticos e institucionais que elevam o custo de produzir no país e inibem o investimento (CECHELLA, 2022), e sua estimativa gira em torno de 20% do PIB, ou cerca de R$ 2 trilhões em valores de 2022 (IMB, 2024). A literatura converge quanto aos componentes mais relevantes: segundo Cechella (2022), cinco dos doze temas do estudo do MBC, a saber, capital humano, tributos, infraestrutura, financiamento e insegurança jurídica, respondem por quase 80% do custo total, e o IMB (2024), ao regionalizar a metodologia para Goiás, aponta encargos trabalhistas, carga tributária, logística, saneamento e custo de capital entre os maiores itens. Esses são os eixos que estruturam este relatório (crédito, tributação e burocracia, trabalho, infraestrutura e instabilidade institucional). A relevância dessa escolha fica clara no próprio IMB (2024), em que abrir um negócio pesa apenas 0,05% do PIB. Isso reforça nossa tese de que o gargalo brasileiro não está na entrada, mas na permanência das empresas, já que só 37,9% das empregadoras nascidas em 2017 chegaram ao quinto ano.
A análise da demografia de empresas no Brasil revela um forte descompasso entre a capacidade de abertura de novos negócios e a viabilidade operacional de longo prazo do setor produtivo. Ao observarmos a evolução agregada de novos registros (Gráfico 1), a formalização no país apresenta uma trajetória expressiva, com a natalidade corporativa dobrando em poucos anos: o número de novos CNPJs abertos passou da faixa de 2,3 milhões em 2017 para se consolidar próximo à marca de 5 milhões em 2025.
Gráfico 1:
Nota metodológica: O pico atípico de mais de 2,4 milhões de fechamentos no Gráfico 1 em 2018 deve-se a um expurgo administrativo (baixa de ofício) realizado pela Receita Federal, que cancelou massivamente inscrições de Microempreendedores Individuais (MEIs) inativos na esteira da recessão de 2015-2016.
Entretanto, esse aparente dinamismo ampara-se majoritariamente no registro de MEIs(Microempreendedores Individuas). Quando filtramos a base de dados do Governo Federal para excluir o microempreendedor individual (Gráfico 2), isolando as organizações de maior complexidade e potencial empregador, a tendência de crescimento linear desaparece. Em seu lugar, nota-se um setor produtivo estagnado na faixa de 1 milhão de aberturas anuais e altamente vulnerável a choques conjunturais. O ano de 2021 exemplifica essa sensibilidade extrema: a expiração das carências do crédito subsidiado (Pronampe), aliada ao início do choque de juros da Selic, resultou em uma escalada vertical de fechamentos de CNPJs formais, que virtualmente anulou o saldo de aberturas daquele ano.
Gráfico 2:
Essa fragilidade latente é quantificada com precisão pela Pesquisa de Demografia das Empresas (IBGE). Ao monitorar longitudinalmente uma mesma coorte de negócios, focando exclusivamente em unidades locais empregadoras (empresas estruturadas com funcionários assalariados), os dados comprovam que o maior gargalo nacional não é a constituição legal da empresa, mas o asfixiante custo de manutenção de suas operações.
Como evidencia o Gráfico 3, a coorte de empregadoras nascidas em 2017 enfrentou um agudo funil de mortalidade: quase 40% encerraram as atividades até o segundo ano, e apenas 37,9% conseguiram sobreviver à marca de cinco anos de maturidade.
Gráfico 3:
Emerge destes dados o paradoxo central desta pesquisa: o avanço nas políticas de desburocratização reduziu o custo de entrada, mas mostrou-se incapaz de mitigar a mortalidade precoce das empresas que geram emprego e renda. A inviabilidade operacional documentada não é um mero sintoma de má gestão privada, mas o reflexo do “Custo Brasil”.
Para compreender por que o país apresenta dificuldade crônica em reter suas empresas produtivas, os capítulos seguintes deste relatório examinarão as raízes macroeconômicas desse fenômeno. Analisaremos como a política monetária, a restrição ao crédito corporativo, a complexidade tributária e a insegurança jurídica funcionam como forças que corroem sistematicamente a Produtividade Total dos Fatores (PTF) do empresariado brasileiro.
A viabilidade de qualquer negócio depende do equilíbrio entre sua rentabilidade operacional e o custo do capital utilizado para financiar suas atividades. No Brasil, esse custo é alicerçado pela taxa Selic, que atua como o principal instrumento do Banco Central para conter a inflação, encarecendo o crédito e desacelerando o consumo. Contudo, a manutenção de juros básicos em patamares reais restritivos gera um efeito de asfixia estrutural no setor produtivo.
Conforme projetado pelo boletim Focus, a taxa básica de juros deve encerrar 2026 em torno de 13,75% e recuar para 12% em 2027. No entanto, a política monetária atua com forte defasagem, a chamada “cauda longa” dos juros. O alívio de um corte na Selic leva meses para se refletir na renegociação de passivos corporativos, prolongando a restrição de liquidez e corroendo o capital de giro das empresas por muito mais tempo do que a curva nominal sugere. A trajetória histórica e as tendências da taxa básica podem ser observadas no painel abaixo.
Gráfico 2.1:
O impacto do aperto monetário é amplificado pelo “abismo do spread
bancário”. As empresas não captam recursos à taxa Selic pura. Ao longo
do processo de intermediação financeira, os juros médios aplicados a
operações com pessoas jurídicas chegam à 25,3% ao ano no crédito livre,
consumindo uma parcela expressiva da receita operacional estritamente
para o serviço da dívida.
Esse abismo desloca o Brasil da normalidade econômica global. Quando
comparado a outras economias, o spread bancário brasileiro atua como um
desvio padrão extremo.
Gráfico 2.2:
Para mensurar o peso real dessa distorção no dia a dia empresarial, é
necessário observar o Custo Efetivo Total (CET), que consolida todas as
saídas de caixa de um financiamento. O CET demonstra que o custo nominal
é apenas a primeira camada de despesas. A esse encargo soma-se o Imposto
sobre Operações Financeiras (IOF), que recentemente teve suas alíquotas
diárias duplicadas para pessoas jurídicas, além de tarifas de abertura
de crédito (TAC), seguros prestamistas frequentemente embutidos (venda
casada) e a exigência de reciprocidade bancária.
O Gráfico 2.3 decompõe o funil percorrido pela taxa básica até se
transformar no custo efetivo absorvido pelo empreendedor, revelando o
peso da “cunha bancária e tributária” em operações de capital de
giro.
Gráfico 2.3:
Para as micro e pequenas empresas, cuja dependência de linhas de curto prazo é maior, o choque de juros impõe uma asfixia financeira muito mais ágil. Sem margem de manobra, a barreira criada pela dívida força a rolagem de passivos em condições progressivamente mais caras. O colapso dessa estrutura de capital é o responsável direto pelo aumento da mortalidade corporativa. No período recente, o Brasil registrou marcas históricas que ultrapassaram 8,9 milhões de empresas inadimplentes. O encarecimento sistêmico empurrou as grandes companhias para negociações agudas, refletindo um salto de 66% nos casos de Recuperação Judicial entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026, consolidando um quadro de profundo estresse financeiro na economia real.
Gráfico 2.4:
Depois de discutir como a Selic e o spread bancário oneram o custo do capital, este capítulo investiga a segunda grande fonte do “Custo Brasil”: o peso direto do Estado sobre quem produz. Esse peso tem duas faces que caminham juntas, a carga tributária em si (quanto e como se paga) e a burocracia associada a ela (quanto tempo e esforço se gasta para cumprir as regras). Para situar o tamanho do problema regulatório antes de entrar nos números fiscais, vale observar como o Brasil se posiciona no principal índice internacional de ambiente de negócios. Em 2024, o Banco Mundial substituiu o descontinuado Doing Business pelo Business Ready (B-READY), índice que avalia cada país em três pilares: a qualidade das leis (Estrutura Regulatória), a infraestrutura de apoio ao cumprimento delas (Serviços Públicos) e o tempo e custo reais enfrentados na prática (Eficiência Operacional). O achado mais relevante do relatório é batizado de Public Service Gap: em praticamente todas as economias avaliadas, a nota de qualidade das leis supera a nota de capacidade de execução dos serviços públicos que deveriam viabilizá-las. Como mostra o Gráfico 3.1, a média global das 50 economias reflete bem isso, atingindo 76,45 em Estrutura Regulatória e 78,67 em Eficiência Operacional, mas caindo para 68,82 em Serviços Públicos. O Brasil ilustra esse padrão com precisão: apesar de reformas recentes, como a Lei da Liberdade Econômica e o Marco Legal das Startups, a infraestrutura estatal segue defasada. Isso evidencia que o entrave brasileiro está menos na letra da lei e mais na capacidade do Estado de fazê-la funcionar na ponta, por exemplo, pela falta de integração entre sistemas municipais, estaduais e federais.
Gráfico 3.1:
Esse gargalo de execução se soma a um problema de nível e de composição da carga tributária. A Carga Tributária Bruta do governo brasileiro gira historicamente entre 29% e 32% do PIB, o que é alto para uma economia emergente e segue em trajetória de alta, com projeção de 32,4% do PIB para 2025. Mais importante que o tamanho da carga, porém, é sua composição: enquanto os países da OCDE concentram a arrecadação sobre renda e patrimônio, o Brasil depende desproporcionalmente de tributos indiretos sobre bens e serviços e de contribuições sobre a folha de pagamento, como evidencia o Gráfico 3.2. Essa diferença de composição gera dois efeitos: um efeito distributivo, já que famílias de menor renda comprometem parcela maior do orçamento com o consumo tributado (regressividade); e um efeito alocativo, pois a tributação recai sobre a produção e o emprego formal em vez de renda e patrimônio, encarecendo artificialmente os fatores de produção.
Gráfico 3.2:
A carga tributária elevada soma-se à sua complexidade: a coexistência de tributos administrados pela União, por 27 estados e por mais de 5.500 municípios faz com que as empresas brasileiras gastem, em média, cerca de 1.958 horas por ano só para cumprir obrigações fiscais, contra 165 horas na média da OCDE, desviando tempo e capital que poderiam ir para inovação e expansão. É esse diagnóstico que motivou a Reforma Tributária (Emenda Constitucional nº 132/2023), que substitui cinco tributos cumulativos por dois impostos sobre valor agregado (IBS e CBS), com potencial de reduzir a complexidade, desde que a fase de transição seja bem executada. Tributação e burocracia não atuam isoladamente: juntas, elas compõem o que estudos da CNI e do Instituto Nexus chamam de Custo Brasil, estimado em R$ 1,7 trilhão por ano (cerca de 20% do PIB). O Gráfico 3.3 mostra como mais de mil executivos ranqueiam os componentes desse custo, com a carga e a complexidade tributária lideradas como o obstáculo mais citado, à frente até da escassez de mão de obra qualificada e do custo do capital.
Gráfico 3.3:
O quadro que emerge é o de uma economia rápida para abrir empresas no papel, mas lenta e cara para mantê-las operando: o peso conjunto da tributação e da burocracia empurra o empresário para a “armadilha da nanificação”, ou seja, manter o negócio pequeno ou informal para escapar do salto de exigências que vem com o crescimento e ajuda a explicar por que cerca de 60% das empresas brasileiras encerram as atividades nos primeiros cinco anos de vida. Esse atrito tributário e regulatório se soma ao custo do crédito discutido no capítulo anterior e prepara o terreno para os dois obstáculos tratados a seguir: a escassez de mão de obra qualificada e a instabilidade institucional que aprofunda a insegurança jurídica do país.
Depois de tratar da tributação e da burocracia estatal, o quarto obstáculo deste diagnóstico é o mercado de trabalho formal, que combina duas fricções distintas: de um lado, o custo monetário direto de contratar e demitir sob a CLT; de outro, um descompasso estrutural entre a mão de obra que as empresas precisam e a que o sistema educacional forma. Esse segundo ponto tem se agravado com rapidez: como mostra o Gráfico 4.1, a parcela de indústrias que aponta a escassez de mão de obra qualificada como um entrave relevante saltou de patamares próximos a 5% (2015-2020) para 23,1% no quarto trimestre de 2025 — o maior nível da série histórica. Hoje esse é o quarto principal entrave citado pela indústria, atrás apenas da carga tributária, dos juros elevados e da insuficiência de demanda; entre as pequenas empresas, o problema pesa ainda mais, sendo citado por 28,4% dos respondentes.
Gráfico 4.1:
Mesmo quando a empresa encontra o profissional certo, formalizá-lo tem um custo elevado. O Gráfico 4.2 decompõe esse custo: partindo do salário bruto (100%), a soma de INSS patronal, FGTS, 13º salário, férias e demais provisões obrigatórias eleva o desembolso do empregador para 164,7% do salário nominal percentual que pode chegar a 183% quando somados benefícios usuais como vale-transporte, vale-refeição e plano de saúde. Essa distância entre o que a empresa paga e o que o trabalhador recebe é o que a literatura chama de cunha fiscal (tax wedge): considerando apenas a tributação patronal sobre a folha, o Brasil cobra 25,8%, a 2ª maior alíquota entre 42 economias acompanhadas pela OCDE, atrás somente da França. O paradoxo é que, em valores absolutos, o trabalho brasileiro é barato (cerca de US$ 8/hora na indústria, contra mais de US$ 40 na Alemanha e nos EUA); o problema é que essa carga de padrão europeu incide sobre uma produtividade muito mais baixa, o que comprime o salário líquido do trabalhador e empurra parte da contratação para fora da CLT, seja pela informalidade, seja pela “pejotização” de profissionais mais qualificados.
Gráfico 4.2:
A escassez de mão de obra qualificada, discutida no início deste capítulo, não é um gargalo conjuntural gerado por flutuações de mercado, mas sim o sintoma de uma deficiência estrutural na base do sistema educacional brasileiro. Segundo os resultados do PISA 2025, ilustrados no Gráfico 4.3, o Brasil registrou apenas 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 400 em ciências, situando-se abaixo das médias da OCDE (472, 476 e 485 pontos, respectivamente). Como os retornos da educação básica sobre a produtividade levam de dez a quinze anos para se concretizarem, o mercado de trabalho atual lida com restrições na oferta de capital humano qualificado. Esse descompasso dificulta a absorção de novas tecnologias pelas empresas e atua como uma barreira para a evolução da Produtividade Total dos Fatores (PTF) no país.
Gráfico 4.3:
O resultado combinado de um custo de contratação elevado e de uma força de trabalho pouco qualificada não se distribui de forma homogênea pelo país. Como mostra o Gráfico 4.4, a taxa de informalidade nacional (37,3% a 37,5% da população ocupada) esconde uma fratura regional relevante: em estados como Maranhão (57,6%) e Pará (56,5%), onde a produtividade local é mais baixa, o custo da CLT tende a superar o retorno gerado pelo trabalhador, empurrando a relação de trabalho para fora da formalidade; já em polos industriais como Santa Catarina (25,4%) ou no Distrito Federal (28,1%), a formalização é bem mais alta. Essa heterogeneidade reforça que a informalidade não é apenas uma escolha individual, mas uma resposta racional das empresas e dos trabalhadores a um custo regulatório que pesa de forma desigual sobre regiões com produtividades muito diferentes.
Gráfico 4.4:
A esse quadro soma-se ainda uma camada de instabilidade jurídica: a Reforma Trabalhista de 2017 dispensou a homologação sindical nas rescisões, mas decisões do TST e um projeto de lei em tramitação (PL 8.413/2017, aprovado em comissão da Câmara em dezembro de 2025) ameaçam reintroduzir essa exigência, criando incerteza sobre o custo futuro de desligamentos. O diagnóstico deste capítulo confirma, portanto, que o mercado de trabalho formal brasileiro combina encargos de padrão europeu, baixa produtividade e um sistema educacional que não acompanha a demanda por qualificação — um conjunto de fricções que se soma à complexidade tributária (Capítulo 3) e prepara o terreno para a discussão sobre infraestrutura e instabilidade institucional nos capítulos seguintes.
Para compreender a dificuldade de empreender no Brasil, é necessário analisar o atrito físico imposto à produção antes mesmo que ela chegue ao consumidor final. O encarecimento sistêmico da movimentação de cargas atua como uma âncora para a Produtividade Total dos Fatores (PTF) e drena a competitividade das empresas nacionais.
Como evidencia o Gráfico 5.1, o custo logístico total no Brasil consome aproximadamente 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Quando comparamos com economias desenvolvidas, como Estados Unidos (8,5%) e a média da OCDE (9,2%), a desvantagem brasileira atua como um “imposto oculto”. Curiosamente, a China também apresenta um custo logístico historicamente elevado, mas a natureza desse custo é diametralmente oposta. Enquanto o peso logístico chinês reflete o volume colossal de sua economia baseada na manufatura pesada escoada de forma eficiente, o custo brasileiro é inflado pela ineficiência. No Brasil, o custo logístico encarece a aquisição do insumo antes da produção e a entrega depois dela, estrangulando diretamente o fluxo de caixa das PMEs brasileiras.
Gráfico 5.1:
A origem primária dessa ineficiência reside na assimetria de nossa infraestrutura frente à geografia do país. O Gráfico 5.2 ilustra a distorção da matriz de transporte de cargas. O Brasil, possuindo dimensões continentais equivalentes às dos EUA e da China, adota uma matriz excessivamente dependente do modal rodoviário, que responde por 65% do escoamento nacional. Trata-se de um gargalo estratégico, uma vez que o transporte rodoviário é economicamente indicado apenas para curtas e médias distâncias, devido ao alto custo agregado por tonelada e à vulnerabilidade ao preço do diesel.
A título de comparação, os Estados Unidos mantêm um modelo operacional muito mais equilibrado, destinando 31% de sua carga à rede ferroviária. A China, por sua vez, alavanca sua escala utilizando de forma maciça os modais aquaviário e marítimo de cabotagem (53%). Essa diversificação reduz drasticamente o custo do frete por tonelada por quilômetro rodado nessas economias.
Gráfico 5.2:
Conforme demonstrado no Gráfico 5.3, o país sofre de um subinvestimento crônico em infraestrutura. O investimento federal despencou de patamares próximos a 0,38% do PIB em 2010 para mínimas históricas (0,08% em 2021). Embora os dados mais recentes apontem uma recuperação na margem, atingindo cerca de 0,21% do PIB em 2024, a realidade macroeconômica ainda é de estrangulamento: o país investe praticamente a metade do patamar mínimo exigido (estimado em ~0,40% do PIB) apenas para compensar a depreciação física da malha existente.
Gráfico 5.3:
A consequência macroeconômica direta da ausência de aporte público é a transferência compulsória desse custo para a iniciativa privada. Sem estradas adequadas e alternativas intermodais, o setor produtivo é forçado a arcar com frotas prematuramente sucateadas, despesas contínuas com manutenção e prêmios de seguro elevados devido ao roubo de cargas. Essa dinâmica retroalimenta os 15,5% do Custo Logístico e amarra o país aos caminhões.
A superação desse abismo logístico e a modernização da matriz de transportes dependem, invariavelmente, da atração de capital privado de longo prazo por meio de concessões e parcerias. No entanto, a estruturação de projetos que exigem décadas de maturação esbarra diretamente em outro gargalo central para o empreendedorismo nacional: a crônica instabilidade institucional e a insegurança jurídica do país, tema que será explorado no Capítulo 6.
A estabilidade institucional é um pré-requisito fundamental para a formação de capital de longo prazo. No entanto, o ambiente de negócios brasileiro é historicamente marcado por uma crônica imprevisibilidade de regras. Crises políticas agudas, mudanças abruptas na legislação tributária e guinadas na condução da política econômica desorganizam sistematicamente as expectativas das famílias e das empresas. Quando a incerteza se eleva, o planejamento financeiro torna-se inviável, forçando o empreendedor a adiar contratações e paralisar investimentos produtivos. Essa dinâmica de sobressaltos contínuos pode ser visualizada no Gráfico 6.1, pela evolução do Índice de Incerteza da Economia (IIE-Br), que registra saltos expressivos justamente nos momentos de ruptura institucional.
Gráfico 6.1:
Conforme ilustrado no Gráfico 6.1, a economia brasileira foi submetida a quatro grandes choques de incerteza nas últimas duas décadas. Cada um desorganizou o ambiente de negócios por vetores distintos. Em 2002, a forte polarização e transição política geraram estresse cambial e fuga de capitais, inviabilizando o planejamento financeiro das empresas expostas ao dólar. Em 2008, o choque foi externo: a Crise Financeira Global secou a liquidez internacional, travando as linhas de crédito corporativo e o fluxo de comércio. Já no biênio 2015-2016, a combinação de uma rápida deterioração fiscal com uma aguda crise institucional que culminou em um processo de impeachment produziu um choque duplo de incerteza, resultando em uma das mais profundas recessões da história recente do país. Por fim, a Pandemia de COVID-19 em 2020 registrou o maior pico da série histórica, paralisando as cadeias de suprimento e rompendo abruptamente as premissas de demanda e operação de quase todos os setores da economia.
O traço comum entre esses quatro eventos é o impacto letal na formação bruta de capital fixo (investimento). Quando o IIE-Br atinge esses patamares críticos, o custo de oportunidade de investir no negócio real torna-se desproporcionalmente alto frente ao risco de mudanças abruptas nas regras do jogo. A reação racional das companhias é paralisar a contratação de mão de obra e suspender a compra de maquinário ou o desenvolvimento de novos projetos. O capital produtivo busca refúgio na liquidez ou na renda fixa, evidenciando como a vulnerabilidade institucional brasileira atua como um freio estrutural à expansão do setor privado.
Se no nível macroeconômico a incerteza paralisa o investimento, no nível microeconômico, a insegurança jurídica multiplica os riscos. A ineficiência e a morosidade do sistema judiciário brasileiro tornam a resolução de litígios contratuais um processo exaustivo e imprevisível. Enquanto em países membros da OCDE a resolução de uma disputa comercial tramita com relativa celeridade — conferindo a previsibilidade necessária para a celebração de contratos de longo prazo —, no Brasil, o excesso de formalismo processual e o esmagador volume de recursos impõem um “Custo Tempo” proibitivo. Essa assimetria temporal evidencia como a lentidão da justiça atua como um entrave prático à competitividade das empresas nacionais.
Gráfico 6.2:
Esse abismo temporal de até 51 meses, ilustrado no Gráfico 6.2, não é apenas um problema administrativo do Judiciário; ele tem um efeito cascata imediato no mercado de crédito. Quando um contrato é quebrado ou uma dívida não é paga, o capital oferecido como garantia fica imobilizado por anos à espera de uma decisão final. Sabendo da extrema dificuldade e lentidão para executar essas garantias legalmente, as instituições financeiras embutem um elevadíssimo prêmio de risco no custo do dinheiro. Para compensar as perdas com a inadimplência irrecuperável e custear as amplas estruturas jurídicas criadas apenas para acompanhar esses litígios, o sistema financeiro é forçado a elevar os spreads bancários em patamares que historicamente variam de 10% a 30%. Na prática, a ineficiência de um tribunal na ponta do sistema encarece e drena diretamente o capital de giro das empresas na outra ponta, sufocando o empreendedor e inviabilizando projetos que seriam economicamente viáveis em um ambiente de normalidade institucional.
Em síntese, a análise evidencia que a dificuldade de sobrevivência e expansão das empresas brasileiras não pode ser atribuída a um único fator, mas resulta da interação de diferentes fricções econômicas e institucionais. O elevado custo do capital, a complexidade tributária, os encargos e limitações do mercado de trabalho, os gargalos de infraestrutura e logística e a incerteza institucional atuam sobre diferentes etapas da atividade produtiva, elevando custos, restringindo o investimento e reduzindo a capacidade de planejamento das empresas. Os dados apresentados indicam que, embora o Brasil tenha ampliado significativamente a capacidade de abertura e formalização de negócios, esse dinamismo de entrada não se converte, na mesma proporção, em sobrevivência e crescimento sustentado. O desafio, portanto, não está apenas em facilitar a criação de empresas, mas em construir um ambiente econômico no qual seja viável investir, contratar, produzir e crescer ao longo do tempo. Nesse sentido, a redução do Custo Brasil deve ser compreendida como um processo de melhoria simultânea das condições de financiamento, do sistema tributário, da qualificação da força de trabalho, da infraestrutura e da previsibilidade institucional, criando condições mais favoráveis à produtividade, ao investimento e à consolidação do setor produtivo brasileiro.
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