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O ano de 2026 representa um momento de transição para a cafeicultura brasileira. Após um período marcado por condições climáticas desfavoráveis e instabilidade nas principais regiões produtoras, com geadas em Minas Gerais e secas na Bahia e no Espírito Santo ao longo de 2024 e 2025, a produção nacional deve se recuperar de forma expressiva. A recuperação da oferta, contudo, ainda não levou à normalização dos preços: embora as cotações internacionais tenham recuado, elas permanecem elevadas, sustentadas pelos estoques globais reduzidos, pelo consumo mundial ainda robusto e pelas incertezas climáticas nos principais países produtores, enquanto a entrada apenas gradual da nova safra limita a velocidade da queda.
Esse aparente paradoxo, entre uma oferta em recuperação e preços que resistem a cair, não é apenas um fenômeno de mercado, mas um canal relevante de transmissão macroeconômica. Como maior produtor e exportador mundial de café, o Brasil sente de forma direta os efeitos de oscilações nos preços internacionais, no câmbio e no clima, com repercussões sobre a balança comercial, a inflação ao consumidor, o crédito rural e a renda de milhares de municípios produtores.
Segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de café em 2026 deve alcançar 66,7 milhões de sacas, volume 18,2% superior ao produzido em 2025. Caso se confirme ao final do ciclo, tratar-se-á da maior safra já registrada na série histórica da instituição, revertendo dois anos consecutivos de produção pressionada por geadas em Minas Gerais e por secas nas regiões produtoras da Bahia e do Espírito Santo. Cabe registrar que as estimativas variam conforme a fonte: a StoneX, consultoria privada, projeta 77,2 milhões de sacas para o mesmo ciclo, diferença atribuível, em geral, a metodologias e datas de levantamento distintas.
Apesar da recuperação da oferta, as cotações internacionais permaneceram em patamar elevado. Na última semana de agosto de 2026, o café arábica negociado na Bolsa de Nova York apresentou cotação média de US$ 3,589 por libra-peso, queda de 8,1% em relação ao mesmo período de 2025, mas ainda distante de uma normalização completa. O café robusta, negociado na Bolsa de Londres, foi cotado a US$ 3.608,20 por tonelada, recuo mais acentuado, de 27,3% no mesmo intervalo, influenciado pela expectativa de aumento da produção brasileira e pela perspectiva de uma safra elevada no Vietnã, principal produtor mundial da variedade.
Como a cotação do arábica na Bolsa de Nova York é divulgada em dólares por libra-peso, é possível convertê-la para o equivalente em sacas de 60 quilogramas, unidade de referência do mercado brasileiro, considerando que uma saca corresponde a aproximadamente 132,28 libras-peso. A conversão pode ser representada pela seguinte fórmula:
\[P_{\text{saca}} \; (\text{US\$/saca}) = P_{\text{lb}} \times 132{,}28\]
Aplicando a cotação média:
\[P_{\text{saca}} = 3{,}589 \times 132{,}28 \approx 474{,}8\]
Assim, chega-se ao preço aproximado de US$ 475 por saca de 60 kg. Cabe a ressalva de que essa cifra corresponde apenas à conversão da cotação de bolsa, não devendo ser interpretada como o valor efetivamente recebido pelo produtor brasileiro, que varia de acordo com a qualidade do café, os diferenciais de origem, os custos de logística e comercialização e a taxa de câmbio vigente. A queda prosseguiu nas semanas seguintes: na primeira semana de setembro, o contrato de arábica para dezembro de 2026 recuou 5,5%, para 295,6 centavos de dólar por libra-peso (cerca de US$ 391 por saca), e o Gráfico 1 mostra a cotação se aproximando de US$ 400 por saca ao final da série.
A taxa de câmbio desempenha papel relevante nesse processo. Em doze meses, o dólar recuou de R$ 5,54 para R$ 5,16, queda de aproximadamente 6,9%, o que equivale a uma valorização do real de cerca de 7,4% frente à moeda americana. Como o café é negociado internacionalmente em dólares, essa valorização reduz o valor em reais recebido pelo produtor brasileiro, que passa a enfrentar simultaneamente a queda das cotações internacionais e um câmbio menos favorável (Gráfico 1).
Gráfico 1:
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Fonte: Elaboração própria. Ibmacro bh
A Tabela 1 combina os dois efeitos. Em reais, a queda por saca é maior do que em dólares: cerca de 14% no arábica, contra 8,1% em dólares por libra-peso, e cerca de 32% no robusta, contra 27,3%, porque a valorização do real se soma à queda das cotações.
Tabela 1 – Cotação de bolsa convertida em reais por saca de 60 kg (última semana de agosto)
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tabela1 <- data.frame( Café = c(“Arábica (Nova
York)”, “Robusta (Londres)”), 2025 (US\\$/saca) =
c(“516,6”, “297,8”), 2026 (US\\$/saca) = c(“474,8”,
“216,5”), 2025 (R\\$/saca) = c(“2.862”, “1.650”),
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Variação em R\\$ = c(“−14,4%”, “−32,3%”), check.names =
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kable(tabela1, align = c(“l”, rep(“r”, 5)))
Fonte: Elaboração própria. Ibmacro bh
O comércio exterior também refletiu a recuperação da oferta brasileira. Em agosto de 2026, os embarques de café alcançaram 3,8 milhões de sacas, aumento de 43,2% em relação ao mesmo mês de 2025, enquanto a receita atingiu aproximadamente US$ 1,2 bilhão, alta de 22,7% na mesma comparação. Esse movimento já havia sido antecipado pelo levantamento da Conab referente aos primeiros quinze dias úteis de agosto, que registrou aumento de 50,7% na exportação média diária de café não torrado e de 28,8% na de café torrado, extratos, concentrados e produtos afins em relação ao mesmo período do mês anterior, base de comparação distinta das variações anuais citadas acima. Os resultados indicam que a entrada da nova safra ampliou a disponibilidade de café destinado ao mercado externo, embora seus efeitos sobre os preços internos e internacionais devam ocorrer de forma gradual.
A resistência dos preços decorre de um princípio básico dos mercados de commodities: o preço não depende apenas da safra do ano, mas da relação entre os estoques e o consumo. Quando os estoques globais estão baixos, o mercado tem pouca margem para absorver imprevistos, e qualquer risco de oferta, como o clima, é rapidamente incorporado às cotações. Uma safra maior só reduz os preços de forma duradoura se for suficiente para recompor esses estoques, o que leva tempo, pois a colheita, a comercialização e o embarque ocorrem ao longo de vários meses. Por isso, a resposta do mercado ao aumento da oferta é defasada, e não instantânea.
Em síntese, o mercado de café em 2026 combina uma expectativa de safra recorde com preços internacionais que, embora em recuo frente aos picos de 2024 e 2025, permanecem elevados na comparação histórica. A evolução das cotações nos próximos meses dependerá da entrada efetiva da nova safra no mercado, da recomposição dos estoques internacionais, do comportamento do câmbio e das condições climáticas nos principais países produtores. Para o Brasil, esses fatores serão determinantes tanto para a receita das exportações quanto para a renda dos produtores e para a transmissão dos preços ao mercado interno: a safra maior favorece a oferta e as exportações, mas os estoques globais reduzidos, o consumo mundial elevado e os riscos climáticos associados ao ciclo seguinte impedem que o mercado retorne de imediato a uma situação de normalidade plena.
O café possui importância econômica para o Brasil, devido a geração de divisas e a transmissão de preços internacionais ao mercado interno; a inflação ao consumidor, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA); o crédito rural e a taxa de juros; e a concentração da atividade produtiva em municípios especializados, com efeitos diretos sobre emprego e renda regional. O primeiro canal decorre do fato de o café ser uma commodity cotada em dólares nas bolsas internacionais e de grande parte da produção brasileira ser exportada: embora o Brasil seja o maior produtor mundial, o preço é definido pelo mercado global, e não internamente. Embora sua participação direta no Produto Interno Bruto (PIB) nacional seja relativamente limitada, a cadeia cafeeira exerce influência relevante sobre o comércio exterior, o custo de vida das famílias, o sistema de crédito agrícola e a atividade econômica dos municípios produtores, como discutido nas subseções a seguir.
Como maior produtor e exportador mundial, detendo cerca de 40% da oferta global, o Brasil influencia a formação dos preços internacionais, mas não os determina isoladamente. O café é uma commodity cotada em dólares nas bolsas de Nova York (arábica) e Londres (robusta), e seu preço resulta da oferta e da demanda mundiais, dos estoques globais e das safras de outros países, como o Vietnã e a Colômbia. Como grande parte da produção brasileira é exportada, o produtor vende, na prática, ao preço definido nesse mercado. Por isso o Brasil está diretamente exposto às oscilações das cotações internacionais, do câmbio e das condições climáticas. O preço recebido em reais resulta da cotação internacional convertida pela taxa de câmbio: a queda das cotações ou a valorização do real reduzem a renda do produtor, e o movimento inverso a eleva. A própria dimensão do Brasil reforça essa exposição, pois geadas ou secas no país reduzem a oferta mundial e elevam os preços, enquanto safras recordes os pressionam para baixo.
A transmissão ocorre em camadas, com ritmos diferentes. A bolsa antecipa a safra e reage primeiro, inclusive a previsões de clima e de produção. O preço recebido pelo produtor responde em seguida, conforme a safra é colhida e comercializada. O preço ao consumidor é o último a se ajustar, pois depende dos custos de matéria-prima já contratados pela indústria e pelo varejo. Esse encadeamento explica por que o mercado pode registrar queda nas cotações e aumento dos embarques enquanto o preço no varejo ainda reflete os custos anteriores.
Em 2026, a safra maior amplia a disponibilidade para exportação, mas esse efeito ocorre com defasagem, pois os embarques só se intensificam à medida que a nova safra é colhida e comercializada. Até agosto, o Brasil havia exportado aproximadamente 24,6 milhões de sacas, com receita de US$ 8,7 bilhões, o que representa queda de 6,6% no volume e de 12,5% na receita em relação ao mesmo período de 2025. Como a receita caiu mais do que o volume, o valor médio por saca embarcada também recuou, em linha com a queda das cotações. Segundo o Gráfico 2, os embarques de 2026 ficaram abaixo dos de 2025 de janeiro a março e superaram-nos em abril, junho e agosto. Em agosto, os embarques foram 43,2% superiores e a receita 22,7% maior que em agosto de 2025, o que indica recuperação do volume, ainda que a receita cresça menos do que os embarques em razão dos preços mais baixos. (Gráfico 2)
Gráfico 2:
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Fonte: Elaboração própria. Ibmacro bh
Esses dados mostram que a cafeicultura contribui diretamente para a entrada de divisas. Sua influência sobre a taxa de câmbio, contudo, é limitada, pois o café é apenas um dos componentes da pauta exportadora e o comportamento do real depende também da política de juros, do fluxo de capitais, dos preços de outras commodities e do cenário econômico internacional. Em outras palavras, o câmbio afeta o café mais do que o café afeta o câmbio.
A transmissão de choques externos para o mercado brasileiro ocorre por diferentes canais, entre os quais se destacam: a variação das cotações internacionais; a variação da taxa de câmbio; a alteração dos custos de transporte e insumos; as mudanças na oferta de países concorrentes, como o Vietnã; as expectativas sobre o clima e as safras futuras; e a recomposição ou redução dos estoques mundiais.
O café torrado e moído integra a cesta do IPCA, índice de referência da política de metas de inflação no Brasil, e do IPCA-15, uma prévia do IPCA cujo período de coleta vai do dia 16 do mês anterior ao dia 15 do mês corrente. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o item apresentou valorização expressiva ao consumidor em 2024 e 2025, superando com folga a inflação média da economia: o café moído acumulou alta de 77,78% em doze meses até março de 2025, período em que o IPCA geral acumulava 5,48%, ou seja, o item subiu cerca de catorze vezes mais do que o índice geral. Esse descolamento ilustra de forma direta o quanto um único item pode se distanciar da tendência geral de preços.
O movimento de alta se estendeu ao longo do ano: 2025 fechou com variação acumulada de 41,84% em doze meses segundo o IPCA-15, o que tornou o café o segundo item de maior impacto individual no índice do período (contribuição de 0,20 ponto percentual), superado apenas pela energia elétrica residencial, em um ano no qual o IPCA-15 geral fechou em 4,41%. Esse movimento começou a se reverter a partir de julho de 2025, quando o preço do café ao consumidor recuou 1,01%, a primeira queda em dezoito meses, refletindo a redução do preço pago ao produtor após a colheita daquele ano. Convém distinguir a variação mensal da acumulada em doze meses: mesmo com quedas mensais, o acumulado permanece elevado enquanto os meses de forte alta continuam na base de comparação, e só recua de forma expressiva quando eles saem do cálculo (efeito de base).
É plausível que a alta do café tenha afetado mais as famílias de menor renda, caso o produto pese mais no orçamento delas, mas este relatório não dispõe de dados para confirmar essa hipótese. Um teste possível seria comparar a variação do IPCA, que cobre famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos, com a do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que cobre as de 1 a 5 salários mínimos.
O quadro de juros elevados no Brasil ao longo de 2025 e 2026 constitui o terceiro canal relevante de transmissão entre a macroeconomia e o mercado de café. Após permanecer em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026 (o maior patamar em quase vinte anos), a taxa Selic passou por cortes sucessivos de 0,25 ponto percentual nas reuniões de março, abril, junho e agosto do Comitê de Política Monetária (Copom), recuando para 14,75%, 14,5%, 14,25% e 14% ao ano. Em 16 de setembro de 2026, o Copom promoveu novo corte, para 13,75% ao ano, patamar no qual o Boletim Focus de meados do mês também projetava o fechamento do ano. Mesmo com os cortes, a Selic permanece elevada em termos reais.
Essa trajetória de juros afeta a cafeicultura por uma via específica. O Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé), criado em 1986, é o principal instrumento de crédito rural do setor. Seus recursos, enquanto estão em caixa, são corrigidos pela Selic, e o fundo empresta a taxas inferiores a ela. A taxa cobrada do produtor tem sido mantida, em ciclos recentes, em 11% ao ano, dos quais 8 pontos percentuais remuneram o próprio Fundo e até 3 pontos percentuais remuneram o agente financeiro operador do crédito. Por isso, consultores do setor têm alertado que uma queda mais acentuada da Selic, embora barateie o crédito em geral, tende a reduzir o rendimento dos recursos do Funcafé, podendo limitar o volume disponível para financiar safras futuras. A taxa de 11% está abaixo da Selic, mas ainda representa custo financeiro relevante quando incorporada a investimentos de retorno mais lento, como a renovação de lavouras.
Para a safra 2026/2027, o Funcafé teve seus recursos fixados em R$ 7,37 bilhões distribuídos entre 36 instituições financeiras credenciadas (bancos públicos, privados, cooperativas de crédito e bancos de desenvolvimento), conforme resultado do Edital de Chamamento Público nº 001/2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com desembolso previsto a partir de julho de 2026. A maior parcela dos recursos, R$ 2,713 bilhões (37% do total), foi destinada à linha de comercialização, seguida pelas linhas de custeio, capital de giro para cooperativas e indústrias, e recuperação de cafezais danificados por eventos climáticos. Chama atenção a participação crescente do cooperativismo de crédito nesse mercado: os sistemas Sicredi, Sicoob e Cresol reuniram, em conjunto, cerca de 35% dos recursos do Funcafé 2026/2027 (aproximadamente R$ 2,6 bilhões), com o Banco Cooperativo Sicredi figurando como a maior instituição individual credenciada, à frente dos bancos tradicionais, o que sinaliza a importância desse tipo de instituição para levar crédito a produtores de menor porte e mais distantes dos grandes centros financeiros.
O custo do crédito rural para a cafeicultura não se limita ao Funcafé: parte dos produtores também acessa as linhas gerais do Plano Safra, principal política de financiamento agrícola do país. O Plano Safra 2026/2027 para a agricultura empresarial, lançado em 30 de junho de 2026, disponibilizou R$ 525,1 bilhões em crédito, um aumento de R$ 9 bilhões (1,7%) em relação ao ciclo anterior, divididos entre R$ 414,7 bilhões para custeio e comercialização e R$ 110,3 bilhões para investimentos. Mesmo em um cenário de Selic ainda elevada, o governo anunciou reduções nas taxas de juros da maior parte das linhas, de um patamar de 14% para 12% ao ano na maioria delas, e de 10% para 9% ao ano em outras. O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), com R$ 72,6 bilhões disponíveis, passou a operar com teto de 9% ao ano, enquanto os R$ 452,5 bilhões restantes atenderam aos demais produtores e cooperativas. Produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado e que adotam práticas agropecuárias sustentáveis ainda contam com desconto de até 1 ponto percentual nas operações de custeio.
Já o Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 destinou R$ 97,3 bilhões ao setor, dos quais R$ 85,2 bilhões ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), uma expansão de quase 9% em relação ao ciclo anterior, com elevação do limite de microcrédito rural para R$ 74 mil e taxas de juros reduzidas para linhas voltadas a alimentos básicos e práticas agroecológicas, chegando a 1% ao ano em algumas modalidades. Essas condições mais favoráveis tendem a beneficiar, em particular, os pequenos cafeicultores enquadrados no Pronaf, mas não eliminam a assimetria estrutural do setor: como a renovação de uma lavoura de café leva, em geral, de três a quatro anos para atingir plena capacidade produtiva, produtores de maior porte e cooperativas mais capitalizadas seguem em vantagem para atravessar esse intervalo entre investimento e retorno, seja por meio de capital próprio, seja pelo acesso a instrumentos de proteção de preço, como contratos futuros e Cédulas de Produto Rural (CPR). Pequenos produtores, ainda que beneficiados por linhas subsidiadas como o Pronaf, permanecem mais dependentes do crédito rural para sustentar a lavoura até a colheita, o que os torna mais sensíveis a qualquer reversão no ciclo de cortes de juros atualmente em curso.
A taxa de juros afeta o café ainda por dois caminhos adicionais. Primeiro, juros reais elevados encarecem a retenção de estoques pelo produtor e pelas cooperativas, que esperam melhores preços para vender, e a renovação das lavouras. Segundo, a trajetória de juros influencia o câmbio: a redução do diferencial de juros em relação ao exterior tende, mantidas as demais condições, a enfraquecer o real, o que elevaria a renda em reais do produtor, efeito oposto ao observado em 2026, quando a valorização do real reduziu essa renda. O desfecho do ciclo de cortes da Selic, portanto, importa para o café tanto pelo custo do crédito quanto pelo câmbio.
Se o café pesa pouco no PIB nacional, ele é, em compensação, decisivo para a economia de municípios específicos.
Em Minas Gerais, a cafeicultura é o principal motor econômico de aproximadamente 600 dos 853 municípios do estado. De acordo com dados consolidados pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa-MG) e pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (FAEMG), o faturamento bruto da cafeicultura mineira alcançou o recorde de R$ 64,8 bilhões, cerca de 39% do faturamento bruto de todas as lavouras do estado.
No Espírito Santo, a cafeicultura é decisiva para a economia dos municípios, tanto pela dimensão produtiva quanto pelo alcance social e pela capacidade de dinamizar o comércio e os serviços locais. O estado é o maior produtor brasileiro de café conilon, com cerca de 65% da produção nacional, e o segundo maior produtor de café do país, com aproximadamente 425 mil hectares cultivados, 60 mil propriedades e 131 mil famílias diretamente envolvidas, segundo o relatório Especial Café do Connect Fecomércio-ES. Presente em todos os municípios do estado, exceto Vitória, o café é cultivado em dois terços das propriedades agrícolas capixabas, e cerca de 73% dos produtores pertencem à agricultura familiar, o que fortalece a geração de renda e a permanência das famílias no campo. O peso da atividade vai além da porteira: cada saca movimenta transportadoras, cooperativas, armazéns, exportadores, indústrias e pequenos negócios, distribuindo riqueza por diferentes regiões e impulsionando setores que nem sempre são associados ao agronegócio. No mercado de trabalho, durante a colheita de 2025, o café respondeu por mais de oito mil vagas formais líquidas (saldo entre admissões e desligamentos) apenas entre abril e maio, o maior saldo para o período desde o início da série do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). O indicador mede apenas o emprego formal e não captura o trabalho informal.
Na Bahia, a importância da cafeicultura se concentra no Extremo Sul, única região do estado que produz café conilon, cultura que chegou ali por influência de produtores capixabas atraídos pelo baixo custo da terra. Segundo Almeida et al. (2023), com dados do IBGE e da Conab entre 1988 e 2019, o café ocupa cerca de 27% da área plantada da região, atrás apenas da cana-de-açúcar (33%) e à frente do cacau (19%), e sua área cresceu mais de 1.000% no período. Prado, Itamaraju, Porto Seguro, Eunápolis, Teixeira de Freitas e Itabela são os principais municípios produtores. Em cinco deles (Eunápolis, Itabela, Porto Seguro, Itamaraju e Prado), o café foi a atividade agropecuária com maior contribuição ao PIB municipal em 2018, o que indica especialização produtiva e peso real na economia local. Os autores relacionam esse desempenho ao caráter perene da cultura, em contraste com o ciclo anual da cana-de-açúcar. Ressalvam, porém, que o crescimento do PIB regional também se deve à celulose e ao etanol e que a expansão dessas culturas pouco contribuiu para o desenvolvimento humano: o IDHM de educação permaneceu entre “muito baixo” e “baixo”, e a população rural diminuiu. Os dados baianos, portanto, referem-se a 2018 e 2019, anteriores aos demais citados nesta seção.
Em municípios especializados de Minas Gerais, do Espírito Santo e da Bahia, a cafeicultura chega a responder por 15% a 30% da renda local. Choques de preço, de clima ou de crédito no setor cafeeiro, portanto, afetam de forma direta e concentrada a renda e o emprego dos municípios que dependem da cultura, efeito que a análise agregada em nível nacional tende a diluir e, por isso, a subestimar.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, que altera os padrões de temperatura e de chuva em diferentes regiões do planeta. Para a cafeicultura, o risco está na sensibilidade da lavoura ao clima em fases decisivas, como a floração e o enchimento dos grãos. O episódio de 2015/16 ilustra esse risco, mas é preciso delimitar a atribuição das perdas: a seca no Espírito Santo teve início em 2014, antes do El Niño de 2015/16, que a agravou, de modo que os prejuízos do período não podem ser atribuídos apenas ao fenômeno. Nesse contexto, a escassez de chuvas comprometeu a produção de conilon: a Conab projetou queda de 16,7% na produção nacional de robusta em 2015/16, e levantamento do governo capixaba estimou quebra de 22,6% na produção de café do estado, com 2,8 milhões de sacas a menos e prejuízo de R$ 824 milhões. Esse valor integra a perda de cerca de R$ 1,2 bilhão estimada para toda a agropecuária estadual no mesmo levantamento, o que indica que a cafeicultura concentrou cerca de dois terços do prejuízo e que a menor oferta reduziu a renda dos municípios produtores.
Para o ciclo atual, os especialistas esperam um El Niño de forte intensidade, com potencial para figurar entre os três mais intensos em 76 anos. A safra 2026/27 não deve ser diretamente afetada, mas há preocupação com a de 2027/28. As chuvas volumosas têm antecipado as floradas, o que deixa os frutos pequenos mais suscetíveis à queda, e temperaturas elevadas no enchimento dos grãos podem reduzir a produtividade. Com os estoques mundiais ainda baixos, uma frustração de safra tenderia a ter efeito amplificado sobre os preços. Não há, até o momento, estimativa consolidada de perdas, e o Brasil já registrou aumento de produção em anos de El Niño, de modo que o resultado dependerá das condições climáticas entre janeiro e março de 2027.
O conjunto de evidências reunido neste relatório indica que o mercado de café brasileiro atravessa, em 2026, um momento de transição marcado por uma defasagem entre a recuperação da oferta e a queda dos preços internacionais, que, embora já em recuo, permanecem elevados. A safra recorde estimada pela Conab, de 66,7 milhões de sacas, alta de 18,2% sobre 2025, amplia a disponibilidade do produto e a capacidade exportadora do país. No entanto, os estoques mundiais reduzidos, o consumo global elevado e a incerteza climática nos principais países produtores limitam a queda das cotações no curto prazo. Para o produtor brasileiro, a valorização do real frente ao dólar agrava o quadro por saca, pois reduz a renda em reais obtida com cada saca vendida, de modo que a queda das cotações é acompanhada por uma perda adicional. O maior volume colhido compensa parte dessa perda: com os números deste relatório, uma safra 18,2% maior vendida a um preço em reais cerca de 14% menor por saca resultaria em receita bruta aproximadamente estável (exercício ilustrativo, que aplica a variação da safra total ao preço do arábica e desconsidera hedge, diferenciais e composição da safra).
Essa defasagem, contudo, não é apenas um fenômeno de mercado: ela se propaga pela economia brasileira por, ao menos, quatro canais distintos. Como maior produtor e exportador mundial, o Brasil sente de forma direta os efeitos de oscilações nos preços internacionais, no câmbio e no clima. O desempenho das exportações cafeeiras, que voltou a crescer com força em agosto após um primeiro semestre mais fraco, repercute diretamente sobre a entrada de divisas e o saldo comercial do país, ainda que a influência do café sobre o câmbio não deva ser superestimada diante do peso de outras variáveis da economia internacional. Ao mesmo tempo, a alta expressiva do café medida pelo IPCA e pelo IPCA-15 em 2024 e 2025, que chegou a configurar o segundo item de maior impacto individual no índice do ano, mostra como um choque de preço concentrado em um único item pode pressionar o orçamento das famílias, e sugere, sem comprovar, um efeito maior sobre as de menor renda, pois a mensuração exata desse efeito distributivo depende de dados aos quais este relatório não teve acesso direto.
O canal do crédito rural mostra-se igualmente relevante. A trajetória de corte da Selic ao longo de 2026, de 15% para 13,75% ao ano até setembro, tem acompanhado reduções nas taxas das linhas gerais do Plano Safra, enquanto a taxa do Funcafé foi mantida em 11%. Ao mesmo tempo, a queda da Selic reduz o rendimento dos recursos do fundo, o que pode limitar o crédito futuro. Essas condições, entretanto, não eliminam a assimetria entre pequenos e grandes produtores diante de investimentos de retorno lento, como a renovação de lavouras. Por fim, a concentração da atividade cafeeira em municípios específicos de Minas Gerais, do Espírito Santo e da Bahia, onde a cultura pode responder por até 30% da renda local, reforça que os efeitos desse mercado, embora modestos na ótica do PIB nacional agregado, são economicamente decisivos em nível regional.
Quanto às perspectivas para os próximos ciclos, previsões recentes de analistas de mercado reforçam a possibilidade de que o processo de normalização dos preços, embora gradual, avance com a recuperação da oferta. Em setembro de 2026, a StoneX elevou sua estimativa para a safra brasileira 2026/27 a um recorde de 77,2 milhões de sacas, alta de 23,9% sobre o ciclo anterior, impulsionada por condições climáticas favoráveis durante a fase de enchimento dos grãos de arábica, e sinalizou perspectiva igualmente favorável para a safra seguinte, 2027/28, caso as condições de chuva observadas no início do segundo semestre se mantenham nas principais regiões produtoras. Paralelamente, a Hedgepoint Global Markets registrou, na primeira semana de setembro, recuo de 5,5% no contrato de café arábica para dezembro de 2026 na Bolsa de Nova York, para 295,6 centavos de dólar por libra-peso, e de 2,8% no robusta negociado em Londres. Esse movimento foi associado à confirmação da recuperação dos embarques brasileiros, à melhora do clima para a safra 2027/28 e ao fluxo robusto de exportações do Vietnã. Esses sinais reforçam a possibilidade de uma maior disponibilidade de café nos próximos ciclos e, consequentemente, de uma redução gradual da pressão sobre os preços.
Essa perspectiva, entretanto, depende das condições climáticas. Os especialistas esperam um El Niño de forte intensidade entre o fim de 2026 e o início de 2027, o que representa risco para a safra 2027/28, pois alterações de temperatura e de chuva podem prejudicar a floração e o enchimento dos grãos, fases decisivas para a produtividade. Se o clima for desfavorável, a oferta de 2027/28 poderá ficar abaixo do esperado, e a queda de preços projetada com a recuperação da oferta será menor ou será adiada. Esse efeito tende a ser ampliado pelos estoques mundiais ainda reduzidos, que diminuem a capacidade do mercado de absorver uma frustração de safra. Assim, a normalização gradual dos preços em 2027/28 não deve ser tratada como resultado garantido, mas como um cenário que depende da consolidação da produção e de condições climáticas favoráveis. O El Niño deve, portanto, ser acompanhado em conjunto com os estoques internacionais, a demanda mundial e as safras dos demais países produtores, em especial o Vietnã, principal produtor de robusta, e a Colômbia. No caso brasileiro, o monitoramento deve concentrar-se nos efeitos do fenômeno sobre a chuva e a temperatura nas regiões produtoras durante a floração e o enchimento dos grãos, entre o fim de 2026 e o início de 2027. Se o comportamento for favorável, com chuvas bem distribuídas e temperaturas amenas, a safra 2027/28 tende a se consolidar, a produção superaria o consumo e os estoques mundiais poderiam ser recompostos, o que favoreceria a queda gradual dos preços. Se for desfavorável, com excesso de chuva, estiagem ou calor intenso nessas fases, a produtividade poderá ficar abaixo do esperado, os estoques continuariam a diminuir ou permaneceriam em níveis baixos e os preços tenderiam a se manter elevados ou a voltar a subir.
As estimativas de produção e de preços aqui discutidas são condicionadas ao andamento da colheita e ao comportamento do clima, de modo que seus valores podem ser atualizados nas próximas divulgações da Conab e das consultorias de mercado. O conjunto de sinais recentes, contudo, é consistente com a hipótese central deste relatório: a resposta do mercado a um choque positivo de oferta ocorre de forma defasada, e não instantânea. Os primeiros sinais dessa resposta já podem ser observados nas cotações futuras e no aumento dos embarques brasileiros, antes mesmo de seus efeitos se refletirem integralmente nos preços à vista e na renda do produtor. Ao mesmo tempo, a possibilidade de eventos climáticos adversos, como os associados ao El Niño, demonstra que a recuperação da oferta não é um processo linear e pode ser interrompida ou limitada caso as condições de produção se deteriorem.
Este relatório tem limitações. Não inclui a evolução do preço do café ao consumidor em 2026, dados quantitativos sobre estoques mundiais e consumo, nem custos de produção, que determinam a margem do produtor. Os dados regionais também se referem a períodos distintos, entre 2018 e 2025.
Conclui-se, portanto, que o mercado de café constitui um exemplo ilustrativo de como um setor específico pode funcionar simultaneamente como vetor de geração de divisas, canal de transmissão inflacionária, elo do sistema de crédito rural e determinante da renda regional, conectando decisões de produtores individuais a variáveis macroeconômicas centrais como o câmbio, a inflação, a taxa de juros e o comércio exterior. A trajetória de preços e o ritmo de normalização do mercado nos próximos ciclos dependerão da consolidação da nova safra, da recomposição dos estoques internacionais, da evolução das condições climáticas nos principais países produtores, especialmente diante dos riscos associados ao El Niño, e do desfecho do atual ciclo de cortes da Selic. Essas variáveis devem continuar sendo acompanhadas de perto tanto pelos agentes econômicos do setor quanto pelos formuladores de política.
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Outras fontes consultadas: