<style> @import url('https://fonts.googleapis.com/css2?family=DM+Sans:wght@400;500;600;700&family=Manrope:wght@500;600;700;800&display=swap'); :root { --ink:#172b4d; --teal:#087e82; --mint:#e8f5f3; --amber:#bf6b25; --paper:#f7f9fc; --line:#d9e2ec; } .remark-slide-content { font-family:'DM Sans',sans-serif; color:var(--ink); background:linear-gradient(145deg,#fff 0%,var(--paper) 100%); border-top:7px solid var(--teal); padding:1.0em 1.65em; font-size:21px; } .remark-slide-content h1 { font-family:'Manrope',sans-serif; color:var(--ink); font-size:1.55em; font-weight:800; letter-spacing:-.035em; margin:0 0 .42em; } .remark-slide-content h2 { color:var(--teal); font-family:'Manrope',sans-serif; font-size:1.03em; margin:.35em 0 .2em; } .remark-slide-content p { margin:.28em 0; } .remark-slide-content ul,.remark-slide-content ol { margin:.3em 0 .3em 1.1em; } .remark-slide-content li { margin:.18em 0; } .remark-slide-content table { font-size:.82em; width:100%; border-collapse:separate; border-spacing:0; 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O serviço vai falhar?</div> *Tópicos de Estatística para IA — Engenharia de Software e Sistemas de Informação* --- # O problema que vamos investigar Uma equipe acompanha implantações de software. Algumas são seguidas por falhas graves; um sistema de monitoramento emite alertas, mas nem todo alerta corresponde a uma falha. .question[Uma nova implantação acabou de gerar um alerta. O que precisamos saber para decidir se devemos interromper a liberação, investigar ou aguardar?] Não responda ainda com um palpite: primeiro vamos definir **o que observamos**, **quais resultados são possíveis** e **o que conta como evidência**. --- # O desafio como problema aberto Há pelo menos três perguntas diferentes escondidas em “o serviço vai falhar?” <div class="threecol"> <div class="card"><b>O que pode acontecer?</b><br>Definir resultados possíveis e eventos de interesse.</div> <div class="card"><b>Com que frequência?</b><br>Usar simetria, dados observados ou as duas coisas?</div> <div class="card"><b>O que significa o alerta?</b><br>Atualizar a chance de falha diante de uma evidência.</div> </div> **Roteiro da investigação:** experimento aleatório → espaço amostral e eventos → probabilidade clássica e frequentista → condicional e marginais → independência → probabilidade total → Bayes. --- # Pergunta investigativa 1 — o que é o experimento? Imagine que selecionamos ao acaso uma implantação já realizada e verificamos o que ocorreu nas **24 horas seguintes**. .question[Qual é o experimento aleatório? Que resultados diferentes podem ser observados?] Um experimento é aleatório quando seu resultado específico **não é conhecido de antemão**, embora os resultados possíveis e as condições possam ser descritos. <div class="box"><b>Experimento:</b> selecionar uma implantação e observar se houve falha grave em até 24 horas.</div> <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Esquema — resultados possíveis do experimento</div> <div class="outcomes"><div class="outcome hit"><b>F</b><br>falha grave</div><div class="outcome"><b>¬F</b><br>sem falha grave</div><div class="outcome"><b>Observação</b><br>24 horas</div><div class="outcome"><b>Registro</b><br>um resultado</div></div> </div> --- # Espaço amostral e eventos Para uma primeira análise, registremos apenas se ocorreu falha: - **Espaço amostral** `\(\Omega=\{F,\,\neg F\}\)`: todos os resultados possíveis nesta representação. - `\(F\)`: evento “a implantação foi seguida por falha grave em 24 horas”. - `\(\neg F\)`: evento complementar “não foi seguida por falha nesse período”. .question[Estamos descrevendo tudo o que pode acontecer ao sistema, ou apenas os resultados relevantes para esta pergunta?] O espaço amostral depende do **nível de detalhe**. Para estudar o alerta também, será necessário ampliar a representação. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Esquema — uma variável: falha nas próximas 24 horas</div> <div class="outcomes"><div class="outcome hit">F<br>falha</div><div class="outcome">¬F<br>sem falha</div></div> </div> --- # Quando ampliamos o que observamos Agora registramos duas características: falha e alerta. $$ \Omega=\{(F,A),\;(F,\neg A),\;(\neg F,A),\;(\neg F,\neg A)\} $$ <div class="twocol"> <div class="card"><b>Evento F ∩ A</b><br>Houve falha e o alerta disparou.</div> <div class="card"><b>Evento A</b><br>O alerta disparou, com ou sem falha.</div> </div> .question[Por que “alerta disparou” e “houve falha” não são o mesmo evento?] Eventos podem ocorrer juntos (interseção), não ocorrer ou formar complementos. Nomeá-los com precisão evita confundir evidência e conclusão. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Diagrama — quatro resultados ao observar falha e alerta</div> <div class="outcomes"><div class="outcome hit"><b>F ∩ A</b><br>falha + alerta</div><div class="outcome"><b>F ∩ ¬A</b><br>falha sem alerta</div><div class="outcome"><b>¬F ∩ A</b><br>alerta sem falha</div><div class="outcome"><b>¬F ∩ ¬A</b><br>nem falha nem alerta</div></div> </div> --- # Probabilidade clássica: quando os casos são equiprováveis A abordagem clássica calcula a razão entre casos favoráveis e casos possíveis **quando os resultados elementares são igualmente prováveis**: $$ P(E)=\frac{|E|}{|\Omega|} $$ **Exemplo no contexto de software:** entre 10 janelas de teste equivalentes e escolhidas com a mesma chance, 2 estão reservadas para manutenção. Para uma janela selecionada ao acaso, $$ P(M)=\frac{2}{10}=0{,}20. $$ <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Esquema — 10 janelas equiprováveis; 2 reservadas para manutenção</div> <div class="tile-grid"><div class="tile marked">M1</div><div class="tile marked">M2</div><div class="tile">J3</div><div class="tile">J4</div><div class="tile">J5</div><div class="tile">J6</div><div class="tile">J7</div><div class="tile">J8</div><div class="tile">J9</div><div class="tile">J10</div></div> <div class="small">Cada bloco representa uma janela com a mesma chance de ser selecionada; os dois blocos âmbar são casos favoráveis.</div> </div> .question[Podemos aplicar essa contagem diretamente às falhas de software? Todas as implantações têm a mesma chance de falhar?] --- # Um cuidado: equiprovável não significa “parece justo” A fórmula clássica é adequada quando a equiprobabilidade decorre do desenho do experimento, como sorteio uniforme de uma janela ou lançamento de um dado equilibrado. <div class="box"><b>Não é automaticamente adequado:</b> contar implantações históricas como se cada uma fosse um resultado igualmente provável de falha. Aplicações, mudanças e condições operacionais podem diferir.</div> Para estimar a frequência de falhas, recorremos aos dados. Mas a frequência observada também é uma estimativa sujeita a variação, não uma garantia sobre a próxima implantação. .question[Que evidências justificariam tratar os casos como comparáveis?] --- # Probabilidade frequentista: aprender pela repetição Na interpretação frequentista, a probabilidade é compreendida pelo comportamento de longo prazo de repetições do mesmo tipo de experimento, sob condições comparáveis. Se houve 40 falhas em 1.000 implantações históricas: $$ \widehat{P}(F)=\frac{\text{número de falhas observadas}}{\text{número de implantações}}=\frac{40}{1000}=0{,}04. $$ A frequência relativa observada é **4%**. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Esquema — frequência observada no histórico</div> <div class="bar-row"><b>Falha</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill amber" style="width:4%"></div></div><b>4% · 40</b></div> <div class="bar-row"><b>Sem falha</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill" style="width:96%"></div></div><b>96% · 960</b></div> <div class="small">Cada barra usa o mesmo total de referência: 1.000 implantações.</div> </div> .question[Isso prova que exatamente 4 em cada 100 próximas implantações falharão?] --- # Clássica e frequentista: respondem sob condições diferentes | Abordagem | Ideia de cálculo | Exemplo da aula | Condição importante | |---|---|---|---| | **Clássica** | Casos favoráveis ÷ casos possíveis | 2 de 10 janelas equiprováveis | Resultados elementares equiprováveis | | **Frequentista** | Frequência relativa em observações | 40 falhas em 1.000 implantações | Repetições comparáveis e dados informativos | **Ponte com o problema:** o valor de 4% descreve a frequência histórica de falha; ainda não diz qual é a chance de falha **sabendo que um alerta disparou**. --- # Do problema aos dados do monitoramento Considere o histórico de **1.000 implantações**. Houve 40 falhas graves nas 24 horas seguintes; o sistema detectou 32 delas. Entre as 960 sem falha, emitiu 96 alertas. | Resultado observado | Alerta `\(A\)` | Sem alerta `\(\neg A\)` | Total | |---|---:|---:|---:| | Falha `\(F\)` | 32 | 8 | 40 | | Sem falha `\(\neg F\)` | 96 | 864 | 960 | | **Total** | **128** | **872** | **1.000** | **Pense:** que denominador usaríamos para calcular a proporção de falhas? E se soubermos que houve alerta? <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Leitura visual da tabela — duas variáveis observadas</div> <div class="outcomes"><div class="outcome hit"><b>32</b><br>falha + alerta</div><div class="outcome"><b>8</b><br>falha sem alerta</div><div class="outcome"><b>96</b><br>alerta sem falha</div><div class="outcome"><b>864</b><br>sem falha e sem alerta</div></div> <div class="small">Os quatro grupos são disjuntos e, juntos, cobrem as 1.000 implantações.</div> </div> --- # Probabilidades marginais: olhar uma variável de cada vez Uma probabilidade **marginal** descreve a probabilidade de um evento sem condicionar ao outro. Na tabela, obtemos os totais somando linhas ou colunas: $$ P(F)=\frac{40}{1000}=0{,}04;\qquad P(A)=\frac{128}{1000}=0{,}128. $$ Assim, a frequência marginal de falha é **4%**, e a frequência marginal de alerta é **12,8%**. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Marginais — totais de linha e coluna, sempre sobre 1.000</div> <div class="bar-row"><b>Falha F</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill amber" style="width:4%"></div></div><b>4,0%</b></div> <div class="bar-row"><b>Alerta A</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill" style="width:12.8%"></div></div><b>12,8%</b></div> </div> <div class="box">“Marginal” não quer dizer irrelevante: é a distribuição de cada variável considerada separadamente, sem fixar o valor da outra.</div> .question[O que muda quando não perguntamos mais “qual é a frequência de falha?”, mas “qual é a frequência de falha entre as implantações alertadas?”] --- # Probabilidade condicional: restringir o grupo de referência A probabilidade de falha **dado que** houve alerta é calculada apenas entre as implantações alertadas: $$ P(F\mid A)=\frac{P(F\cap A)}{P(A)}=\frac{32}{128}=0{,}25. $$ Portanto, no histórico, **25% dos alertas foram seguidos por falha**. <div class="box"><b>Definição:</b> para P(B) > 0, P(A | B) = P(A ∩ B) / P(B). O evento após a barra define a população de referência.</div> <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Condicionar em A: restringimos a análise às 128 implantações alertadas</div> <div class="bar-row"><b>Alertas seguidos de falha</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill amber" style="width:25%"></div></div><b>32 / 128</b></div> <div class="bar-row"><b>Alertas sem falha</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill" style="width:75%"></div></div><b>96 / 128</b></div> <div class="formula-chip">P(F | A) = 32/128 = 25%</div><span class="small">O denominador é o grupo condicionado: alertas.</span> </div> .question[Por que o denominador é 128, e não 1.000 nem 40?] --- # A mesma tabela, agora em probabilidades Dividindo cada contagem por 1.000, obtemos probabilidades conjuntas e marginais: | | Alerta A | Sem alerta ¬A | Marginal | |---|---:|---:|---:| | Falha F | P(F ∩ A) = 0,032 | P(F ∩ ¬A) = 0,008 | **P(F) = 0,040** | | Sem falha ¬F | P(¬F ∩ A) = 0,096 | P(¬F ∩ ¬A) = 0,864 | **P(¬F) = 0,960** | | **Marginal** | **P(A) = 0,128** | **P(¬A) = 0,872** | **1,000** | A célula interna é **conjunta**; a soma da linha ou coluna fornece a **marginal**. Para obter uma condicional, dividimos a conjunta pelo marginal da condição. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Como ler a tabela — conjunta, soma marginal e condicional</div> <div class="flowrow"><div class="flowbox">Célula conjunta<br><b>P(F ∩ A) = 0,032</b></div><div class="flowarrow">÷</div><div class="flowbox">Marginal da condição<br><b>P(A) = 0,128</b></div><div class="flowarrow">=</div><div class="flowbox emphasis">Condicional<br><b>P(F | A) = 0,25</b></div></div> </div> --- # Ler condicionais em qualquer direção A tabela permite formular duas perguntas distintas: <div class="twocol"> <div class="card"><b>Entre as falhas, quantas tiveram alerta?</b><br>P(A | F) = 32/40 = 0,80<br>O sistema detectou 80% das falhas.</div> <div class="card"><b>Entre os alertas, quantos foram seguidos de falha?</b><br>P(F | A) = 32/128 = 0,25<br>Um em cada quatro alertas correspondeu a falha no histórico.</div> </div> **Não confunda:** `\(P(A\mid F)\)` com `\(P(F\mid A)\)`. Muda o grupo de referência e muda a resposta. .question[Qual das duas probabilidades responde à pergunta “o serviço vai falhar, dado que o alerta disparou”?] --- # Árvore de probabilidade — primeiro o estado, depois o alerta Cada caminho multiplica a probabilidade do primeiro ramo pela probabilidade condicional do segundo. Os ramos que saem do mesmo nó somam 1. <svg class="tree" viewBox="0 0 1120 390" role="img" aria-label="Árvore: falha 0,04 e não falha 0,96; condicionadas à falha, alerta 0,80 e sem alerta 0,20; condicionadas a não falha, alerta 0,10 e sem alerta 0,90"> <path class="edge" d="M145 195 L350 95 M145 195 L350 295 M440 95 L760 55 M440 95 L760 145 M440 295 L760 255 M440 295 L760 345"/> <circle class="root" cx="115" cy="195" r="32"/><text x="115" y="202" text-anchor="middle" font-size="18" fill="white" style="fill:white">Início</text> <rect class="branch" x="350" y="70" width="150" height="50" rx="12"/><text x="425" y="91" text-anchor="middle" font-size="18">Falha F</text><text x="425" y="111" text-anchor="middle" font-size="16">P(F) = 0,04</text> <rect class="branch" x="350" y="270" width="150" height="50" rx="12"/><text x="425" y="291" text-anchor="middle" font-size="18">Sem falha ¬F</text><text x="425" y="311" text-anchor="middle" font-size="16">P(¬F) = 0,96</text> <text x="238" y="125" font-size="16">0,04</text><text x="238" y="280" font-size="16">0,96</text> <rect class="leaf" x="760" y="30" width="320" height="52" rx="10"/><text x="920" y="52" text-anchor="middle" font-size="17">Alerta A | P(A|F) = 0,80</text><text x="920" y="72" text-anchor="middle" font-size="16">Conjunta: 0,04 × 0,80 = 0,032</text> <rect class="leaf" x="760" y="120" width="320" height="52" rx="10"/><text x="920" y="142" text-anchor="middle" font-size="17">Sem alerta ¬A | P(¬A|F) = 0,20</text><text x="920" y="162" text-anchor="middle" font-size="16">Conjunta: 0,04 × 0,20 = 0,008</text> <rect class="leaf" x="760" y="230" width="320" height="52" rx="10"/><text x="920" y="252" text-anchor="middle" font-size="17">Alerta A | P(A|¬F) = 0,10</text><text x="920" y="272" text-anchor="middle" font-size="16">Conjunta: 0,96 × 0,10 = 0,096</text> <rect class="leaf" x="760" y="320" width="320" height="52" rx="10"/><text x="920" y="342" text-anchor="middle" font-size="17">Sem alerta ¬A | P(¬A|¬F) = 0,90</text><text x="920" y="362" text-anchor="middle" font-size="16">Conjunta: 0,96 × 0,90 = 0,864</text> <text x="586" y="76" font-size="15">0,80</text><text x="586" y="132" font-size="15">0,20</text><text x="586" y="276" font-size="15">0,10</text><text x="586" y="333" font-size="15">0,90</text> </svg> **Leitura guiada:** comece na raiz, siga um caminho completo e multiplique os ramos. O resultado é a probabilidade conjunta daquele percurso. --- # Independência: o alerta muda a informação sobre falha? Dois eventos `\(F\)` e `\(A\)` são independentes se a ocorrência de um não altera a probabilidade do outro: $$ P(F\mid A)=P(F)\quad\text{(equivalentemente, se as probabilidades estão definidas, }P(F\cap A)=P(F)P(A)\text{).} $$ Neste exemplo: $$ P(F\mid A)=0{,}25\ne 0{,}04=P(F). $$ Logo, falha e alerta **não são independentes**: saber que houve alerta altera a proporção histórica de falhas. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Teste visual — compare a taxa-base com a taxa entre alertas</div> <div class="bar-row"><b>Sem condicionar</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill amber" style="width:4%"></div></div><b>4%</b></div> <div class="bar-row"><b>Sabendo que A</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill" style="width:25%"></div></div><b>25%</b></div> <div class="small">Se fossem independentes, conhecer o alerta não mudaria a probabilidade de falha.</div> </div> .question[O alerta é informativo? Ser informativo significa que ele determina o resultado?] --- # Um teste adicional de independência Se falha e alerta fossem independentes, esperaríamos: $$ P(F\cap A)=P(F)P(A)=0{,}04\times0{,}128=0{,}00512. $$ Mas a probabilidade conjunta observada é: $$ P(F\cap A)=\frac{32}{1000}=0{,}032. $$ Como `\(0{,}032\ne0{,}00512\)`, os eventos não são independentes. O alerta está associado à falha, mas ainda há falsos alertas e falhas sem alerta. <div class="box">**Independência não é exclusão mútua.** Eventos mutuamente exclusivos não podem ocorrer juntos; eventos independentes não alteram as probabilidades uns dos outros.</div> --- # Probabilidade total: de onde vêm todos os alertas? Todo alerta ocorre em uma de duas situações mutuamente exclusivas: houve falha ou não houve falha. Portanto, somamos as contribuições dos dois caminhos que terminam em alerta: $$ `\begin{aligned} P(A)&=P(A\mid F)P(F)+P(A\mid\neg F)P(\neg F)\\ &=(0{,}80)(0{,}04)+(0{,}10)(0{,}96)\\ &=0{,}032+0{,}096=0{,}128. \end{aligned}` $$ **Resultado:** 12,8% das implantações geram alerta no histórico. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Probabilidade total — duas fontes de alertas</div> <div class="flowrow"><div class="flowbox">Falha + alerta<br><b>4% × 80% = 3,2%</b></div><div class="flowarrow">+</div><div class="flowbox">Sem falha + alerta<br><b>96% × 10% = 9,6%</b></div><div class="flowarrow">=</div><div class="flowbox emphasis">Todos os alertas<br><b>12,8%</b></div></div> </div> .question[Por que não basta usar apenas 80%, a taxa de detecção entre as falhas?] --- # Teorema da Probabilidade Total — a estrutura Se `\(B_1,\dots,B_n\)` formam uma partição do espaço amostral e `\(P(B_i)>0\)`, então, para qualquer evento `\(A\)`: $$ P(A)=\sum_{i=1}^{n}P(A\mid B_i)P(B_i). $$ No problema, os eventos `\(F\)` e `\(\neg F\)` particionam os resultados. A fórmula reconstrói a probabilidade marginal de alerta a partir de cada cenário. <div class="box"><b>Intuição:</b> calcule a chance do resultado de interesse em cada cenário; pese cada chance pela frequência daquele cenário; some as contribuições.</div> --- # Bayes: inverter a pergunta diante de uma evidência Já calculamos a chance de alerta em cada cenário e a chance geral de alerta. Agora queremos inverter a direção: > Sabendo que o alerta disparou, qual é a probabilidade de ter ocorrido uma falha? O Teorema de Bayes combina: - **probabilidade anterior:** `\(P(F)=0{,}04\)`; - **verossimilhança do alerta se há falha:** `\(P(A\mid F)=0{,}80\)`; - **probabilidade total do alerta:** `\(P(A)=0{,}128\)`. .question[Como essas três quantidades se combinam para responder à pergunta da equipe?] --- # Aplicando o Teorema de Bayes $$ `\begin{aligned} P(F\mid A)&=\frac{P(A\mid F)P(F)}{P(A)}\\ &=\frac{(0{,}80)(0{,}04)}{0{,}128}\\ &=\frac{0{,}032}{0{,}128}=0{,}25. \end{aligned}` $$ Dado o alerta, a frequência histórica de falha é **25%** — não 80%. <div class="visual-panel"> <div class="visual-title">Bayes — dos 128 alertas, quais tiveram falha?</div> <div class="bar-row"><b>Alerta + falha</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill amber" style="width:25%"></div></div><b>32 casos</b></div> <div class="bar-row"><b>Alerta sem falha</b><div class="bar-track"><div class="bar-fill" style="width:75%"></div></div><b>96 casos</b></div> <div class="formula-chip">P(F | A) = P(A | F) P(F) / P(A) = 0,25</div> </div> <div class="box"><b>Conferência pela tabela:</b> dos 128 alertas, 32 foram seguidos de falha; 32/128 = 0,25.</div> **O alerta aumenta a estimativa de 4% para 25%, mas não prova que a falha ocorrerá.** --- # Por que uma detecção de 80% não significa risco de 80%? O valor de 80% responde: **entre as implantações que falharam, qual proporção gerou alerta?** É `\(P(A\mid F)\)`. A equipe pergunta: **entre as implantações alertadas, qual proporção falha?** É `\(P(F\mid A)\)`. A diferença depende também da taxa-base: falhas são relativamente raras (4%), enquanto implantações sem falha são numerosas. Por isso, mesmo 10% de falsos alertas entre 960 casos sem falha geram 96 alertas. .question[Que outros dados operacionais poderiam alterar a probabilidade anterior ou a interpretação do alerta?] --- # Retomada do problema — qual decisão tomar? **Dados do histórico:** `\(P(F)=4\%\)`, `\(P(A\mid F)=80\%\)`, `\(P(A\mid\neg F)=10\%\)` e `\(P(F\mid A)=25\%\)`. Isso justifica ignorar o alerta? Não. Isso prova que o serviço vai falhar? Também não. <div class="threecol"> <div class="card"><b>Investigar</b><br>Buscar evidências adicionais: latência, erros, memória, dependências e histórico da mudança.</div> <div class="card"><b>Comparar custos</b><br>Quanto custa uma falha não detectada em relação a uma investigação desnecessária?</div> <div class="card"><b>Reavaliar</b><br>As taxas permanecem válidas para a versão, a carga e o ambiente atuais?</div> </div> **Probabilidade informa a decisão; não a substitui.** --- # Verificação formativa: resolva e explique Uma nova implantação gerou alerta. Responda individualmente e depois compare o raciocínio com uma pessoa ao lado: 1. Qual é o experimento aleatório e qual evento queremos estimar? 2. Qual a diferença entre `\(P(A\mid F)\)` e `\(P(F\mid A)\)`? 3. Os eventos falha e alerta são independentes? Mostre uma comparação numérica. 4. Por que usamos probabilidade total antes de Bayes? 5. O resultado de 25% é uma certeza sobre esta implantação? **Critério de sucesso:** declarar corretamente o evento, o grupo de referência, o denominador e o limite da conclusão. --- # Síntese da investigação <div class="threecol"> <div class="card"><b>1. Definir</b><br>Experimento aleatório, espaço amostral e eventos deixam explícito o que está sendo estudado.</div> <div class="card"><b>2. Quantificar</b><br>Probabilidades clássicas dependem de equiprobabilidade; frequências observadas estimam o comportamento em dados comparáveis.</div> <div class="card"><b>3. Atualizar</b><br>Condicionais, independência, probabilidade total e Bayes explicam como a evidência altera uma avaliação.</div> </div> **Resposta provisória ao problema-mote:** o alerta eleva a frequência histórica de falha de 4% para 25%; a ação depende de evidência adicional, consequências e validade dos dados. --- # Bilhete de saída Em até quatro linhas: 1. Escreva uma diferença entre probabilidade marginal e condicional. 2. Complete: `\(P(F\mid A)\)` usa como denominador o total de ________. 3. Explique por que o alerta não implica 80% de chance de falha. 4. Dê um exemplo de condição que poderia tornar o histórico pouco comparável ao sistema atual. .keep[Use suas respostas para identificar qual etapa da investigação merece retomada na próxima aula.] --- # Nota de condução docente A sequência foi desenhada para uma abordagem de **Aprendizagem Baseada em Problemas**: o caso abre a investigação, as perguntas tornam explícitas as lacunas, os conceitos aparecem como ferramentas para resolvê-las e a turma retorna ao problema para justificar uma decisão. Sugestão de condução: apresente o problema sem revelar a tabela; recolha hipóteses iniciais; introduza cada conceito no ponto em que ele se torna necessário; peça que estudantes expliquem os denominadores e os ramos da árvore; encerre retomando decisão, incerteza e limites dos dados. **Ponto de atenção:** os números são dados didáticos hipotéticos, internamente coerentes; não representam desempenho observado de uma ferramenta ou empresa real. --- # Referências essenciais - Blitzstein, J. K., & Hwang, J. (2019). *Introduction to Probability* (2nd ed.). CRC Press. - DeGroot, M. H., & Schervish, M. J. (2012). *Probability and Statistics* (4th ed.). Pearson. - Ross, S. M. (2014). *Introduction to Probability Models* (11th ed.). Academic Press. - Wasserman, L. (2004). *All of Statistics: A Concise Course in Statistical Inference*. Springer. ---