MCMV de 1 Quarto em Pernambuco: o mercado das famílias de até 2 pessoas

BCB Inteligência · PNAD Contínua Anual 2015–2025 · Pernambuco

MCMV de 1 Quarto em Pernambuco:
o mercado das famílias de até 2 pessoas

Desde 2015, os lares com 1 ou 2 moradores explicam todo o crescimento do número de domicílios em Pernambuco. Este estudo mede esse público, sua renda, quantos cabem no Minha Casa Minha Vida, quanto pagam de aluguel hoje e quanto o produto de 1 dormitório amplia o mercado, comparando com a oferta à venda na Região Metropolitana do Recife.

Microdados da PNAD Contínua Anual 2015–2025 (IBGE), com checagem no Censo 2022. Domicílios com até 2 moradores, classificados por renda domiciliar nas faixas do MCMV vigentes em 2026, idade do responsável e condição de ocupação. Oferta de imóveis novos na RMR: competência ago/2026.

01 Visão executiva

Por que o 1 dormitório no MCMV deixou de ser nicho em Pernambuco

1,8 mi
Famílias de até 2 pessoas
50,6% dos domicílios em 2025 (40,0% em 2015)
+626 mil
Novos lares ≤2 desde 2015
todo o crescimento dos domicílios
259 mil
Núcleo endereçável
urbano, 18–64 anos, F1–F3, sem imóvel próprio · +141% desde 2016
+98 mil
Famílias a mais que o 1Q alcança
vs. 2 dormitórios (+74%)
36,8%
Pagam aluguel ≥ parcela do 1Q
do núcleo que mora de aluguel (parcela ≈ R$ 722)
0,3%
Do estoque MCMV da RMR é 1 quarto
20 de 7.739 unidades (ago/2026)

Leitura central: entre 2015 e 2025, Pernambuco ganhou 607 mil de domicílios e os lares com 1 ou 2 moradores cresceram 626 mil. Todo o crescimento líquido do número de domicílios veio do público do 1 dormitório. Hoje eles são 50,6% dos domicílios; no Censo 2022 já eram 45,9%.

02 A virada na estrutura dos domicílios

Domicílios com até 2 moradores, Pernambuco (PNAD Contínua Anual 2015–2025)

Barras: lares com até 2 moradores. Linha: participação desses lares no total de domicílios (eixo da direita).

À esquerda, lares de 1 e 2 pessoas. À direita, os arranjos: unipessoal, casal sem filhos e outros lares de 2 pessoas (mãe/pai com filho, irmãos etc.).

Série e Censo: de 2022 para 2023 os lares ≤2 aumentaram 272 mil em um único ano; entre 2015 e 2022 a média foi de 20 mil por ano. O Censo 2022 ajuda a interpretar esse salto. Ele registra 45,9% de lares ≤2 em Pernambuco; a PNAD marcava 41,4% em 2022 e passou a 46,9% em 2023. O salto parece ser a PNAD se ajustando ao nível do Censo, e não um crescimento de um ano para o outro. Consequência prática: o nível de 2025 é confiável, e a velocidade de crescimento de 2015–2022 estava subestimada. As conclusões se apoiam na participação dos lares ≤2 no total de domicílios, que não depende desse ajuste.

03 Quem são: idade e arranjo

Idade do responsável pelo domicílio. Separa a demanda financiável do envelhecimento populacional.

À esquerda, lares ≤2 por faixa etária do responsável ao longo do tempo. À direita, arranjo × idade em 2025.

Leitura: 38,0% dos lares ≤2 são chefiados por pessoas com 60 anos ou mais. Esse grupo costuma ter imóvel quitado e prazo curto de financiamento (idade + prazo ≤ 80 anos e 6 meses); os com 65 anos ou mais ficam fora do núcleo endereçável. O restante, 1,1 mi, é formado por jovens que saem de casa, casais sem filhos e adultos que moram sozinhos. Esse é o comprador típico do 1 dormitório, e ele cresceu 351 mil desde 2015.

04 Renda e faixas do MCMV

Renda domiciliar habitual nas faixas vigentes em 2026, convertidas em múltiplos do salário mínimo

Famílias de até 2 pessoas por faixa MCMV, 2025. Social = até 1 SM; F1 até R$ 3.200; F2 até R$ 5.000; F3 até R$ 9.600; F4 até R$ 13.000 (valores de 2026).

Composição por faixa ao longo dos anos. A régua acompanha o SM de cada ano.

Leia F1 e F2 juntas. A renda declarada na PNAD se amontoa em múltiplos exatos do salário mínimo: em 2025, 15,9% dos lares ≤2 em Pernambuco declararam exatamente 1 SM e 7,9%, exatamente 2 SM. O teto da F1 (R$ 3.200) fica logo abaixo de 2 SM de 2026 (R$ 3.242), então esse segundo grupo cai na F2. Um ajuste pequeno na régua move muitas famílias entre F1 e F2. Para dimensionar o mercado, use F1+F2 (737 mil) ou F1–F3. Pernambuco tem 43,2% dos lares ≤2 com renda de até 1 SM, público de produção subsidiada (FAR/entidades) e não do 1Q financiado.

Ano Renda domiciliar mediana (R$ correntes) Renda domiciliar mediana (R$ de 2025) Em salários mínimos Renda per capita mediana (R$ de 2025)
2015 1.200 2.033 1,5 1.335
2016 1.000 1.558 1,1 1.371
2017 1.137 1.712 1,2 1.411
2018 1.200 1.743 1,3 1.386
2019 1.200 1.680 1,2 1.398
2022 1.500 1.720 1,2 1.389
2023 1.400 1.534 1,1 1.328
2024 1.670 1.754 1,2 1.483
2025 1.950 1.950 1,3 1.518

Medianas ponderadas das famílias de até 2 pessoas. Valores reais deflacionados pelo IPCA médio do ano. Variação real 2015→2025: -4,1%.

Classe de renda per capita

Renda domiciliar per capita em múltiplos do SM do ano. Serve para ler padrão de vida, não elegibilidade: para um casal, “E (<1 SM per capita)” pode significar até 2 SM de renda familiar, o que já é F1.

05 Do público total ao mercado endereçável

Funil aplicado aos lares de até 2 pessoas, Pernambuco, 2025

Cada etapa filtra a anterior. “Núcleo” = urbano, responsável de 18 a 64 anos, renda F1–F3 e mora de aluguel, cedido ou em outra condição sem imóvel próprio.

À esquerda, evolução do funil (2016–2025). À direita, condição de ocupação de todos os lares ≤2 (% por ano).

Faixa MCMV × condição de ocupação — 2025 (todas as famílias ≤2)
Faixa Alugado Cedido/outro Próprio (pagando) Próprio (quitado) Total % sem imóvel
Social (≤1 SM) 198.217 101.964 6.426 479.359 785.966 38,2%
F1 95.060 30.026 6.995 223.928 356.009 35,1%
F2 95.179 26.439 7.580 251.816 381.014 31,9%
F3 55.410 10.654 13.130 89.831 169.024 39,1%
F4 17.154 2.521 6.666 25.950 52.291 37,6%
Acima 29.398 1.428 5.057 37.162 73.046 42,2%
Precisão das estimativas-chave — 2025
Indicador Estimativa IC 95% CV Domicílios na amostra Uso
Famílias ≤2 pessoas 1.817.350 1.728.326 a 1.906.374 2,5% 3.127 Confiável
Famílias ≤2 de aluguel 490.418 442.844 a 537.991 4,9% 677 Confiável
F1–F3, urbano, 18–64 anos 569.852 518.910 a 620.795 4,6% 780 Confiável
Núcleo endereçável 258.890 223.990 a 293.790 6,9% 338 Confiável
Núcleo que paga aluguel 212.683 180.778 a 244.589 7,7% 270 Confiável

IC 95% = intervalo de confiança de 95%. CV = coeficiente de variação (quanto menor, mais precisa a estimativa).

Leitura: o núcleo endereçável passou de 107 mil em 2016 para 259 mil em 2025 (+141%), com CV de 6,9% (338 domicílios na amostra). Quem paga aluguel já tem o hábito de uma despesa mensal com moradia. Para essas 213 mil famílias, a parcela do financiamento substitui o aluguel.

06 O efeito ticket: quanto o 1 dormitório amplia o mercado

Simulação sobre a distribuição de renda do público-alvo (urbano, 18–64 anos, sem imóvel próprio), Pernambuco, 2025

R$ 2.406
Renda mínima · 1Q de R$ 180.000
1,5 SM · 231 mil famílias aptas
R$ 3.772
Renda mínima · 2Q de R$ 240.000
2,3 SM · 132 mil famílias aptas
+98 mil
Ampliação do mercado com o 1Q
+74% de famílias aptas

Famílias do público-alvo (base: 523 mil) com renda suficiente para financiar cada valor de imóvel. Linhas verticais: 1Q e 2Q.

07 Aluguel de hoje × parcela do 1 quarto

Núcleo endereçável que mora de aluguel, Pernambuco, 2025 — aluguel mensal em reais de 2026

R$ 722
Parcela estimada do 1Q
ticket R$ 180.000 · 2Q: R$ 1.132
R$ 587
Aluguel mediano do núcleo
270 domicílios na amostra
36,8%
Pagam aluguel ≥ parcela 1Q
78 mil famílias · ≥80% da parcela: 51,1%
17,4%
Pagam aluguel ≥ parcela 2Q
mesma régua, ticket 2Q
17,6%
Comprometem >30% da renda com aluguel
ônus excessivo (IBGE/FJP)
213 mil
Núcleo que paga aluguel
base desta seção

Distribuição do aluguel mensal pago pelo núcleo endereçável (R$ de 2026). A parcela estimada do 1Q é de R$ 722.

Leitura: só 36,8% das famílias do núcleo que moram de aluguel já pagam o valor da parcela do 1Q, porque o aluguel em Pernambuco é barato (mediana de R$ 587). Para a maioria, comprar significa aumentar o gasto mensal com moradia. A venda precisa se apoiar em subsídio, FGTS e prazo para aproximar a parcela do aluguel, e não na troca direta. O 2Q exige parcela de R$ 1.132, compatível com o aluguel atual de só 17,4% desse público.

08 A oferta na RMR: o 1 quarto que falta

Estoque à venda de imóveis novos, Região Metropolitana do Recife e litoral sul, competência ago/2026

20
Unidades MCMV de 1 quarto à venda
0,3% do estoque MCMV (7.739 un.)
10,6%
VSO líquida do MCMV 2 quartos
por mês, jul/2026→ago/2026 · 885 vendas líquidas no MCMV
R$ 11.515
R$/m² do 1Q de mercado até R$ 350 mil
vs. R$ 5.995/m² no MCMV · área mediana 23,6 m²
46,7%
Do estoque de 1Q de mercado está no litoral
Tamandaré e Ipojuca: segunda residência e aluguel de temporada
4,0%
VSO líquida do 1Q acima de R$ 350 mil
até R$ 350 mil: -4,8% (distratos superaram as vendas)
R$ 180.000
Ticket de um 1Q com R$/m² de MCMV
30 m² × R$ 5.995/m²

À esquerda, unidades em estoque por segmento. À direita, VSO mensal (jul/2026→ago/2026): vendas do mês ÷ estoque.

Segmento Produtos com estoque Estoque (un.) Preço mediano Área mediana R$/m² VSO líquida/mês Pares VSO
MCMV · 1 quarto 5 20 R$ 220.990 36,4 m² R$ 6.078 4,8% 5
MCMV · 2 quartos 54 7.698 R$ 240.000 40,4 m² R$ 5.995 10,6% 52
MCMV · 3 quartos 1 21 R$ 376.500 54,5 m² R$ 6.906 60,9% 2
1 quarto mercado · até R$ 350 mil 55 1.337 R$ 290.000 23,6 m² R$ 11.515 -4,8% 49
1 quarto mercado · acima de R$ 350 mil 114 2.592 R$ 504.393 33,8 m² R$ 15.000 4,0% 107
2 quartos mercado 158 2.403 R$ 608.067 54,2 m² R$ 11.456 5,8% 155
Estoque por cidade (unidades)
Cidade MCMV (todas) 1 quarto mercado 2 quartos mercado
Recife 2.137 1.842 1.179
Paulista 3.270 59 221
Tamandaré 0 1.489 416
Jaboatão dos Guararapes 764 97 163
Camaragibe 743 0 0
Ipojuca 0 346 224
Olinda 110 96 175
São Lourenço da Mata 319 0 0
Igarassu 318 0 0
Cabo de Santo Agostinho 78 0 25
Leitura: o mercado da RMR já mostra os dois lados da tese. O produto MCMV gira rápido (10,6% do estoque por mês no 2 quartos) e o público de 1–2 pessoas é o que mais cresce. Mesmo assim, o MCMV de 1 quarto praticamente não existe: são 20 unidades. O 1 quarto oferecido hoje é outro produto: studio compacto de investidor ou de praia, a R$ 11.515/m², que vende devagar. O espaço está no 1 quarto urbano com preço de MCMV. A R$ 5.995/m², uma unidade de 30 m² sairia por cerca de R$ 180.000.
09 Onde estão as famílias ≤2 em Pernambuco

Municípios pelo Censo 2022 — a PNAD não desce abaixo da UF, o Censo sim

9º
Posição da UF no núcleo endereçável
entre as 27 UFs · 259 mil
666 mil
Lares ≤2 na RMR (Censo 2022)
45,6% dos lares ≤2 do estado
48,2%
Dos domicílios da RMR têm até 2 pessoas
estado: 45,9%
9.187
Unidades MCMV financiadas na RMR em 2025
50,8% do estado (18.097)

15 municípios com mais domicílios de até 2 moradores (Censo 2022).

Município RMR Domicílios 2022 Lares ≤2 % ≤2 Domicílios 2030 (proj.) MCMV financiado 2024 MCMV financiado 2025
Recife Sim 548.030 273.719 49,9% 606.350 1.477 2.095
Jaboatão dos Guararapes Sim 235.331 113.981 48,4% 264.813 1.677 1.455
Caruaru Não 138.573 67.335 48,6% 176.610 1.995 1.969
Olinda Sim 127.451 62.112 48,7% 137.965 256 495
Paulista Sim 124.430 59.874 48,1% 153.717 2.621 2.658
Petrolina Não 128.460 52.433 40,8% 175.638 1.174 1.332
Cabo de Santo Agostinho Sim 71.791 32.406 45,1% 87.531 156 100
Camaragibe Sim 53.411 25.049 46,9% 62.415 409 629
Vitória de Santo Antão Não 48.348 22.444 46,4% 55.358 121 84
Garanhuns Não 49.046 21.423 43,7% 58.781 584 388
Igarassu Sim 40.539 18.272 45,1% 49.889 1.113 1.117
São Lourenço da Mata Sim 39.436 18.162 46,1% 46.968 389 275
Abreu e Lima Sim 34.686 16.314 47,0% 39.866 108 255
Gravatá Não 32.091 15.774 49,2% 39.648 144 190
Santa Cruz do Capibaribe Não 34.769 15.697 45,1% 42.311 934 790

Projeção 2030 com base no crescimento dos domicílios entre os Censos 2010 e 2022. MCMV financiado: unidades contratadas com recursos do FGTS (todas as tipologias).

10 Do mercado ao VGV: projeção e conversão

Quanto esse público vai crescer e quanto dele pode virar venda

+220 mil
Lares ≤2 a mais até 2030
tendência · participação constante: +178 mil
190 mil
Núcleo apto ao 1Q
sem imóvel, urbano, 18–64, renda entre R$ 2.406 e o teto F3
11 mil
Demanda potencial por ano
30% de intenção ÷ 5 anos
18.097
MCMV financiado em 2025
unidades, todas as tipologias, Pernambuco
Cenários de captura da demanda anual pelo 1 quarto
Captura da demanda anual Unidades/ano VGV/ano (ticket 1Q) Equivale a (% do MCMV financiado 2025)
5% 571 R$ 102,8 mi 3,2%
10% 1.142 R$ 205,6 mi 6,3%
20% 2.284 R$ 411,2 mi 12,6%

Leitura: mantida a tendência de 2015–2022, os lares ≤2 em Pernambuco passam de 1,8 mi para 2,0 mi em 2030 (51,7% dos domicílios). O núcleo apto ao 1Q soma 190 mil. Com 30% de intenção de compra realizada em 5 anos, a demanda potencial é de 11.422 unidades por ano. Esse número mede espaço, não previsão de vendas. A régua de realidade é o MCMV financiado em Pernambuco em 2025: 18.097 unidades de todas as tipologias. Um cenário de 10% de captura dá 1.142 unidades por ano e R$ 205,6 mi de VGV.

11 Conclusão

O domicílio de Pernambuco encolheu. Os lares de até 2 pessoas passaram de 40,0% para 50,6% do total entre 2015 e 2025 e explicam todo o crescimento do número de domicílios. O Censo 2022 confirma esse nível (45,9%).

Esse público não é só de idosos: os lares ≤2 chefiados por pessoas com menos de 60 anos cresceram 351 mil . Filtrando por área urbana, idade financiável, renda F1–F3 e ausência de imóvel próprio, o núcleo endereçável é de 259 mil . O ticket menor põe 98 mil de famílias a mais ao alcance do financiamento, em comparação com o 2 dormitórios.

Na RMR, o MCMV vende 10,6% do estoque por mês , mas só 20 unidades desse estoque são de 1 quarto. O 1Q hoje à venda é studio de investidor ou de praia, a R$ 11.515 /m². Um 1Q urbano a preço de MCMV (≈ R$ 180.000 ) não tem concorrência direta. O ponto de atenção em Pernambuco é o aluguel barato: só 36,8 % do núcleo de aluguel paga a parcela do 1Q, então subsídio, FGTS e prazo são parte da venda.

Síntese
O MCMV de 1 quarto em Pernambuco passa a ser atrativo por razões que se somam: o público cresce enquanto o restante da demanda está parado; a renda desse público se encaixa nas faixas F1–F3; o ticket menor amplia o número de famílias que conseguem financiar; e a oferta atual não atende esse produto. Próximos passos: testar o produto com a CAIXA na praça, detalhar a demanda por bairro com o Censo (setores) e acompanhar a VSO de um lançamento-piloto.