Análise Exploratória de Dados para Aprendizado de Máquina

Prof. Letícia Raposo

Por que a estatística descritiva é a base do aprendizado de máquina

Um algoritmo de aprendizado de máquina não “entende” uma tabela de dados — ele opera sobre distribuições: escalas, formas, centros e dispersões. Cada decisão de pré-processamento (normalizar, transformar, codificar) é, na prática, uma resposta a uma pergunta estatística.


flowchart LR
    A["Dado bruto"] --> B["Estatística descritiva"]
    B --> C["Visualização"]
    C --> D["Caracterização"]
    D --> E["Decisão de modelagem"]
    style E fill:#12283F,color:#ffffff,stroke:#12283F

TIPOS DE VARIÁVEIS Tipos de variáveis: qualitativas e quantitativas

  • Qualitativa (esquerda): candidata a one-hot/ordinal encoding.
  • Quantitativa (direita): candidata a normalização, padronização e transformação.

TIPOS DE VARIÁVEIS Tipos de variável e pré-processamento em modelos de ML

  • Variáveis categóricas não têm ordem aritmética — somar ou tirar média de códigos numéricos atribuídos a categorias produz números sem significado.
  • Algoritmos baseados em distância (k-NN, k-means, SVM) e em gradiente (redes neurais, regressão logística) só operam sobre números — toda variável categórica precisa virar número de forma explícita.
  • Modelos baseados em árvores (decision trees, Random Forest, XGBoost) lidam melhor com variáveis categóricas e são mais tolerantes a escalas diferentes entre variáveis.
  • A escolha de codificação afeta diretamente a dimensionalidade e a interpretabilidade do modelo final.

TIPOS DE VARIÁVEIS Cardinalidade de variáveis categóricas

  • Cardinalidade é o número de categorias distintas de uma variável (ex.: “UF” tem 27; “CEP” pode ter milhares).
  • Alta cardinalidade + one-hot encoding gera centenas ou milhares de colunas — aumenta dimensionalidade, esparsidade e risco de overfitting.
  • Categorias raras (poucas observações) tornam algumas colunas one-hot quase sempre zero, pouco informativas para o modelo.

MEDIDAS DE POSIÇÃO Média, mediana e moda

  • Média (x̄): soma dos valores dividida pelo total — sensível a cada observação, inclusive extremas.
  • Mediana: valor central da distribuição ordenada — robusta a outliers e a caudas longas.
  • Moda: valor mais frequente — única medida de posição aplicável a variáveis nominais.
  • Quartis e percentis generalizam a mediana, dividindo a distribuição em partes iguais de probabilidade.

MEDIDAS DE POSIÇÃO Média e mediana em distribuições assimétricas

  • Em distribuição simétrica, média e mediana coincidem.
  • Em distribuição assimétrica (ex.: tempo de espera, renda, valor de sinistro), a média é puxada pela cauda longa; a mediana permanece estável.
  • Reportar só a média em dados assimétricos é uma forma comum — e enganosa — de resumir mal um conjunto de dados.

MEDIDAS DE POSIÇÃO Medidas de posição e imputação de dados ausentes

  • Imputação pela média: apropriada quando a variável é aproximadamente simétrica e sem outliers relevantes.
  • Imputação pela mediana: preferível em variáveis assimétricas ou com valores extremos — não distorce o restante da distribuição.
  • Imputação pela moda: única opção sensata para variáveis categóricas com valores faltantes.
  • Métodos mais avançados (KNN imputer, imputação por regressão, MICE) estimam o valor faltante a partir de outras variáveis correlacionadas.
  • Criar uma coluna indicadora (“valor foi imputado?”) preserva a informação de que aquele dado era originalmente ausente.
  • A escolha errada de imputação introduz viés sistemático antes mesmo do modelo ser treinado.

MEDIDAS DE DISPERSÃO Medidas de dispersão

  • Amplitude: diferença entre máximo e mínimo — simples, mas extremamente sensível a outliers.
  • Variância (s²) e desvio-padrão (s): medem o espalhamento em torno da média; o desvio-padrão devolve a escala original da variável.
  • Intervalo interquartil (IQR = Q3 − Q1): dispersão robusta, baseada em quartis — não é afetado por outliers extremos.
  • Coeficiente de variação (CV = s / x̄): dispersão relativa, útil para comparar variáveis em escalas diferentes.
  • Essas medidas alimentam diretamente os métodos de escalonamento usados antes de treinar um modelo.

MEDIDAS DE DISPERSÃO Exemplo: mesma média, dispersões diferentes

Os dois grupos têm média aproximadamente igual, mas o Grupo B tem desvio-padrão maior. Essa diferença afeta diretamente algoritmos baseados em distância.

MEDIDAS DE DISPERSÃO Escala das variáveis em algoritmos baseados em distância

  • Se “idade” varia de 0 a 100 e “renda” varia de 0 a 100.000, a distância euclidiana entre dois pontos é dominada quase inteiramente pela renda.
  • Isso afeta k-NN, k-means, SVM com kernel e qualquer método baseado em distância ou produto interno.
  • Redes neurais e métodos de gradiente também convergem mais devagar (ou de forma instável) quando as variáveis têm dispersões muito diferentes.
  • Modelos baseados em árvores (Random Forest, XGBoost) são invariantes à escala — nesses casos, a padronização não é estritamente necessária.

Conexão com ML

Padronização (z-score): subtrai a média e divide pelo desvio-padrão — centraliza em 0, variância 1. Normalização (min-max): reescala para um intervalo fixo, ex. [0,1]. RobustScaler: usa mediana e IQR em vez de média e desvio-padrão — mais adequado quando há outliers.

MEDIDAS DE FORMA Assimetria e curtose

Duas variáveis podem ter a mesma média e o mesmo desvio-padrão e, ainda assim, formatos diferentes.

MEDIDAS DE FORMA A distribuição normal como referência

  • Muitos métodos estatísticos clássicos (testes t, regressão linear com inferência) assumem, explícita ou implicitamente, resíduos aproximadamente normais.
  • Em ML, vários modelos não exigem normalidade das variáveis, mas se beneficiam de distribuições mais simétricas para uma convergência mais estável.
  • Verificar a forma da distribuição (via assimetria, curtose ou gráfico) evita aplicar um método fora de suas condições de validade.

Conexão com ML

Quando transformar uma variável: assimetria forte e valores estritamente positivos → transformação logarítmica é o primeiro candidato. Assimetria com zeros ou negativos → família Box-Cox / Yeo-Johnson. O objetivo é estabilizar variância e reduzir a influência da cauda.

GRÁFICOS Gráficos para variáveis qualitativas e quantitativas

  • Qualitativa → gráfico de barras (ordenado por frequência).
  • Quantitativa → histograma, boxplot ou dispersão, conforme a pergunta.

GRÁFICOS Matriz de correlação e seleção de variáveis

  • Uma matriz de dispersão mostra, de uma vez, a relação entre todos os pares de variáveis numéricas de uma base.
  • Correlações muito altas entre duas variáveis (multicolinearidade) prejudicam a interpretabilidade de modelos lineares e podem ser redundantes para o modelo.
  • Correlações muito baixas entre uma variável e o alvo são um indício — não uma prova — de que essa variável pode ter pouco poder preditivo isoladamente.

GRÁFICOS Multicolinearidade e VIF

  • Duas ou mais variáveis fortemente correlacionadas entre si tornam os coeficientes de um modelo linear instáveis e difíceis de interpretar.
  • O VIF (Variance Inflation Factor) quantifica o quanto a variância de um coeficiente é inflada pela correlação com as demais features.
  • Regra prática: VIF > 5 (ou 10, dependendo da área) sinaliza multicolinearidade relevante — considerar remover ou combinar variáveis redundantes.

Conexão com ML

Multicolinearidade não costuma prejudicar a capacidade preditiva de modelos como Random Forest ou XGBoost, mas ainda compromete a interpretação de importância de variáveis nesses modelos.

GRÁFICOS Boas práticas na construção de gráficos

Mesmos dados, dois eixos: cortar o eixo y (à direita) faz uma diferença de 4 pontos parecer maior do que é. É importante verificar a escala antes de interpretar um gráfico.

CARACTERIZAÇÃO DE DADOS Tabela descritiva (“Tabela 1”)

Variável Tipo Resumo recomendado
Idade Quantitativa contínua Média ± desvio-padrão (se simétrica) ou mediana [IQR]
Sexo Qualitativa nominal Frequência absoluta e relativa (n, %)
Estágio da doença Qualitativa ordinal Frequência por categoria, respeitando a ordem
Tempo de internação Quantitativa contínua (assimétrica) Mediana [Q1–Q3]
Número de comorbidades Quantitativa discreta Mediana [IQR] ou média se distribuição regular

Esse tipo de tabela, comum em artigos científicos, também serve como ficha técnica inicial de uma base usada para treinar um modelo.

CARACTERIZAÇÃO DE DADOS Caracterização da base como etapa inicial do pipeline de ML

  • Antes de qualquer linha de código de modelagem, é preciso responder: quantas observações? Quantas variáveis? Quais tipos? Quantos valores faltantes?
  • Essa etapa expõe inconsistências (categorias digitadas de formas diferentes, unidades trocadas) antes que elas se propaguem para o modelo.
  • Uma base bem caracterizada é também um documento de comunicação: permite que outra pessoa entenda os dados sem precisar reexecutar toda a análise.

Checklist adicional para ML

  • Linhas duplicadas: duplicatas infladas artificialmente enviesam treino e avaliação.
  • Balanceamento do alvo (classificação): classes muito desbalanceadas exigem métricas e estratégias específicas (não apenas acurácia).
  • Cardinalidade das variáveis categóricas, revisitada aqui já pensando na etapa de modelagem.

EXPLORAÇÃO DE DADOS Objetivos da análise exploratória de dados (EDA)

  • Objetivo 1: entender a estrutura da base — dimensões, tipos, faixas de valores plausíveis.
  • Objetivo 2: detectar problemas — valores ausentes, outliers, inconsistências — antes que virem erros silenciosos no modelo.
  • Objetivo 3: gerar hipóteses sobre relações entre variáveis que orientarão a escolha de variáveis e do próprio modelo.
  • Objetivo 4: evitar vazamento de dados (data leakage) — estatísticas de imputação, escalonamento e encoding devem ser calculadas apenas no conjunto de treino, nunca na base completa antes da divisão dos dados.

EXPLORAÇÃO DE DADOS Mecanismos de dados ausentes

  • MCAR (Missing Completely At Random): a ausência não depende de nenhuma variável, observada ou não. Imputação simples costuma ser segura.
  • MAR (Missing At Random): a ausência depende de outras variáveis observadas (ex.: renda ausente com mais frequência entre respondentes mais jovens). Imputação usando essas variáveis é mais adequada.
  • MNAR (Missing Not At Random): a ausência depende do próprio valor não observado (ex.: quem tem renda muito alta tende a não informar). Nenhuma imputação corrige totalmente esse viés — é preciso investigar a causa.

Conexão com ML

Identificar o mecanismo por trás dos dados ausentes, antes de escolher a técnica de imputação, evita introduzir um viés sistemático que o modelo aprenderá como se fosse um padrão real.

EXPLORAÇÃO DE DADOS Valores ausentes e outliers

O padrão de valores ausentes e a presença de outliers influenciam a estratégia de imputação e podem afetar os coeficientes de modelos lineares. Uma regra prática comum para detectar outliers univariados é sinalizar valores além de 1,5×IQR acima de Q3 ou abaixo de Q1 — a mesma regra usada para desenhar os “bigodes” do boxplot.

EXPLORAÇÃO DE DADOS Fluxo da EDA ao modelo

flowchart LR
    A["Dado bruto<br/>base sem tratamento"] --> B["EDA<br/>tipos, posição, dispersão,<br/>forma, gráficos"]
    B --> C["Achados<br/>faltantes · outliers ·<br/>escalas · assimetria"]
    C --> D["Pré-processamento<br/>imputação · normalização ·<br/>encoding · transformação"]
    D --> E["Modelo<br/>treinamento com<br/>dados prontos"]
    style B fill:#1B4F7A,color:#ffffff,stroke:#1B4F7A
    style D fill:#3A7CB0,color:#ffffff,stroke:#3A7CB0
    style E fill:#12283F,color:#ffffff,stroke:#12283F

Cada etapa do pré-processamento é definida a partir dos resultados da EDA.

Conclusões

A estatística descritiva faz parte do processo de construção de um modelo de aprendizado de máquina

  • O tipo de variável determina o pré-processamento; posição, dispersão e forma afetam como o modelo interpreta os dados.
  • Gráficos e tabelas descritivas fazem parte da verificação dos dados, antes do treinamento do modelo.
  • A EDA conecta a estatística descritiva às decisões de engenharia de features do pipeline de ML.
  • Cardinalidade, multicolinearidade, mecanismos de dados ausentes e vazamento de dados são verificações que só a EDA revela — e que nenhum algoritmo detecta sozinho.
  • Um modelo bem ajustado sobre dados mal compreendidos não garante resultados confiáveis.

Referências

  • BUSSAB, W. O.; MORETTIN, P. A. Estatística Básica. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.
  • JAMES, G.; WITTEN, D.; HASTIE, T.; TIBSHIRANI, R. An Introduction to Statistical Learning. 2. ed. Springer, 2021.