Este relatório analisa a qualidade do georreferenciamento dos registros de roubos e furtos de rua disponibilizados pelo ISP/PCERJ para o município do Rio de Janeiro em 2024 e 2025.
Para que a coordenada seja confiável no nível do imóvel, é preciso logradouro e número preenchidos no boletim. Em 2025, 53.732 dos 81.451 registros (66,0%) atendem a isso; em 2024, 21.804 dos 22.378 (97,4%), mas essa fonte cobre só roubo de rua e não é comparável à de 2025. A diferença de volume entre os anos não reflete aumento ou redução da criminalidade.
Nos registros com logradouro e número, comparamos a coordenada do ISP com duas referências independentes, o CNEFE/IBGE e a malha de logradouros do Data.Rio. No recorte em que as duas concordam entre si a menos de 50 metros, os 17.140 endereços completos e validados de 2024 e 2025, 65,1% das coordenadas do ISP ficam a menos de 50 metros do endereço e 34,9% ficam a 50 metros ou mais. No teste disponível para 2025, 8,9% caem em outra rua.
Esse recorte de 17.140 é o mais rigoroso possível, e por isso o menor. Em recortes maiores e menos exigentes, mais próximos do total da base, o padrão se mantém: em 32.866 registros aceitando também número aproximado, a taxa acima de 50 metros é 38,2%; em 81.402 registros de 2025 sem exigir validação dupla, a taxa de coordenada em outra rua é 21,7%.
Base de cada indicador: o primeiro é sobre o total de registros de 2025 (81.451); os demais dois são sobre os 17.140 endereços completos e validados, ou o subconjunto de 2025 dentro dele, quando o rótulo indicar.
O que o diagnóstico encontrou
Em 2025, 53.732 dos 81.451 registros (66,0%) têm logradouro e número preenchidos. Nos outros 27.719 (34,0%), não há número; uma geocodificação baseada apenas no endereço não consegue localizar o imóvel informado e tende a devolver uma posição aproximada da via.
| Preenchimento do endereço em 2025 | Ocorrências | % da base |
|---|---|---|
| Sem número no boletim | 27.719 | 34,0% |
| Com logradouro e número | 53.732 | 66,0% |
Na fonte disponível de 2024, 21.804 dos 22.378 registros (97,4%) têm número — mas essa fonte não é comparável à de 2025 (ver abertura).
A pergunta do diagnóstico é: quando o endereço está completo e pode ser validado de forma independente nos dois cadastros, a coordenada fornecida pelo ISP aponta o mesmo local?
A coordenada já vem pronta na base. Para checá-la, comparamos com dois cadastros oficiais independentes, um do IBGE e um da Prefeitura.2 Onde os dois concordam, temos uma referência confiável.9
A tabela abaixo usa os 17.140 endereços completos e validados de 2024 e 2025: registros com logradouro e número preenchidos, número localizado exatamente no CNEFE e na malha do Data.Rio, e posições das duas referências a menos de 50 metros uma da outra.
O quarteirão típico do Rio tem 59 metros.3 Uma diferença de 50 metros já joga a ocorrência para o quarteirão vizinho, o que é um problema de georreferenciamento.
| Distância entre a coordenada e o endereço | Ocorrências | % |
|---|---|---|
| menos de 50 m | 11.166 | 65,1% |
| 50 m a 250 m | 4.869 | 28,4% |
| 250 m a 500 m | 487 | 2,8% |
| 500 m a 1 km | 208 | 1,2% |
| 1 km a 2 km | 324 | 1,9% |
| acima de 2 km | 86 | 0,5% |
São 34,9% com distância entre o ponto e o endereço de pelo menos 50 metros. Quase todo esse volume está entre 50 e 250 metros, e 3,6% erram mais de 500 metros.
Para verificar esses casos, usamos a coordenada da base, achamos a rua mais próxima dela e comparamos o nome com o campo de endereço. Entre os endereços completos e validados, aqueles em que o número foi conferido em dois cadastros, 8,9% (1.079 de 12.167) têm a coordenada caindo em uma rua diferente do endereço registrado. E não fica no meio do caminho entre as duas ruas. Fica em cima da outra: na metade dos casos, a 2 metros ou menos dela.4 O ponto foi colocado sobre uma rua, só que a errada.
Na base de 2025, sem exigir validação pelos dois cadastros, a taxa é de 21,7% (17.646 de 81.402). A diferença entre as duas mostra que a validade do endereço pesa neste teste, e por isso o diagnóstico usa o recorte validado.
| Tipo de via do endereço | Endereços completos e validados | Coordenada em outra rua |
|---|---|---|
| Rua | 8.642 | 8,6% |
| Avenida | 2.821 | 10,1% |
| Estrada | 466 | 9,0% |
No recorte validado, a diferença entre os tipos de via é pequena. O teste mostra que acontece, não explica a causa.
Uma possibilidade é que o problema da rua diferente venha do mau preenchimento dos dados. Porém não é isso que vemos.
| Preenchimento do endereço | Ocorrências | Coordenada em outra rua |
|---|---|---|
| Sem número no boletim | 27.713 | 24,4% |
| Com número | 53.689 | 20,3% |
Quando há número preenchido, a taxa é de 20,3%, contra 24,4% quando ele falta. A diferença de 4,1 pontos mostra que a ausência de número contribui, mas não explica sozinha a coordenada em outra rua.
Os 17.140 endereços completos e validados,7 por ano: 4.968 em 2024, 12.172 em 2025 — a diferença de cobertura já foi explicada na abertura. A tabela abaixo compara o padrão das distâncias, não o volume de crimes.
| Distância da coordenada ao endereço | 2024 | 2025 | Total | % |
|---|---|---|---|---|
| até 50 m | 3.315 | 7.851 | 11.166 | 65,1% |
| 50 a 100 m | 777 | 2.246 | 3.023 | 17,6% |
| 100 a 250 m | 583 | 1.263 | 1.846 | 10,8% |
| 250 a 500 m | 150 | 337 | 487 | 2,8% |
| acima de 500 m | 143 | 475 | 618 | 3,6% |
Dentro de cada recorte disponível, a taxa a partir de 50 metros é de 33,3% em 2024 e 35,5% em 2025. A proximidade entre as taxas sustenta que o padrão aparece nos dois anos, mas não permite comparar a quantidade de crimes entre eles.
Vale o contraste com um recorte menos exigente. Aceitando também os endereços em que o número foi casado por aproximação, e não conferido exatamente, a taxa sobe para 38,2%. A validação exata reduz a taxa em 3,3 pontos percentuais, mas não elimina a divergência.
A referência foi checada com uma terceira fonte Cruzamos os dados com o Google — uma fonte independente — para ver se as duas bases de referência tinham algum erro parecido. Não tinham.
Detalhes em nota.5
A primeira objeção esperada é que uma unidade preencha melhor que outra, e que a diferença entre elas venha daí. Ela procede em parte, porque o preenchimento varia bastante. A seção 01 mostrou que 34% dos boletins de 2025 no município não trazem número, e esse número esconde uma variação grande entre unidades.
| Delegacia | Ocorrências | Sem número no boletim |
|---|---|---|
| 1ª DP | 2.603 | 58,4% |
| 17ª DP | 1.919 | 48,5% |
| 25ª DP | 1.406 | 47,7% |
| 18ª DP | 4.167 | 44,9% |
| município (todas as unidades) | 81.402 | 34,0% |
| 23ª DP | 1.333 | 20,3% |
| 41ª DP | 1.202 | 15,7% |
Entre as 41 unidades com pelo menos 300 registros, a taxa de boletins sem número vai de 15,7% a 58,4%. A diferença de preenchimento entre unidades é real e grande.
Mesmo considerando isso, ainda vemos erros. As medidas a seguir mostram que a divergência entre coordenada e endereço não acompanha essa variação de preenchimento.1
O prefixo do RO diz qual unidade registrou a ocorrência. A pergunta aqui é se o problema se concentra em alguma parte da cidade. As duas medidas foram refeitas por unidade, sempre dentro do recorte de endereços completos e validados. O piso para uma unidade entrar caiu de 300 para 150 registros, porque o recorte é menor; com 300 sobrariam 27 e 16 unidades, pouco para comparar.
Primeiro a distância entre a coordenada e o endereço: quantos casos ficam a 50 metros ou mais, dentro dos 17.140 endereços completos e validados. Trinta e seis unidades têm registro suficiente. A linha do município é a taxa sobre os 17.140 juntos, sem separar por unidade — 34,9%, o mesmo número das seções anteriores.
| Delegacia | Endereços completos e validados | A 50 m ou mais do endereço |
|---|---|---|
| 13ª DP | 470 | 64,9% |
| 35ª DP | 338 | 55,6% |
| 15ª DP | 222 | 55,4% |
| 16ª DP | 313 | 49,8% |
| município inteiro | 17.140 | 34,9% |
| 9ª DP | 565 | 24,8% |
| 44ª DP | 284 | 23,2% |
| 5ª DP | 924 | 21,1% |
Agora o teste da rua diferente: quantas coordenadas caem sobre uma rua de nome diferente do que está no boletim, entre os 12.167 endereços completos e validados de 2025. Trinta e duas unidades têm registro suficiente. A linha do município é a taxa sobre os 12.167 juntos — 8,9%, o mesmo número da seção anterior.
| Delegacia | Endereços completos e validados | Coordenada em outra rua |
|---|---|---|
| 4ª DP | 248 | 21,0% |
| 1ª DP | 400 | 18,5% |
| 28ª DP | 183 | 14,8% |
| 5ª DP | 692 | 13,0% |
| município inteiro | 12.167 | 8,9% |
| 12ª DP | 549 | 4,0% |
| 26ª DP | 227 | 4,0% |
| 41ª DP | 219 | 3,2% |
Ponha as duas tabelas lado a lado. A 5ª DP é a melhor do município em distância, com 21,1%, e a quarta pior em rua diferente, com 13,0%. A 13ª DP faz o contrário: 64,9% em distância, a pior de todas, e não aparece entre as piores em rua diferente. Nas oito piores de cada medida, apenas duas unidades se repetem, e a correlação entre as duas medidas é de −0,20: fraca e de sinal negativo, ou seja, quem vai pior numa tende a ir um pouco melhor na outra.
Uma delegacia que trabalhasse pior apareceria no topo das duas listas. As diferenças entre unidades existem, mas não são de nenhuma unidade em particular, e persistem mesmo depois de exigir endereços completos e validados em todas. As duas partes seguintes testam as explicações ligadas ao registro, uma por uma. Nenhuma se sustenta.
Parte dos casos dá para ver na planilha, sem cálculo nenhum. Estes seis registros vêm da Avenida Presidente Vargas. Os números vão do 20 ao 3077 e a coordenada é a mesma nos seis.
| RO | Logradouro | Nº | Latitude | Longitude |
|---|---|---|---|---|
| 004-04697/2025 | Av. Presidente Vargas | 149 | -22.906586 | -43.194403 |
| 004-04660/2025 | Av. Presidente Vargas | 482 | -22.906586 | -43.194403 |
| 004-04694/2025 | Av. Presidente Vargas | 3077 | -22.906586 | -43.194403 |
| 004-04757/2025 | Av. Presidente Vargas | 20 | -22.906586 | -43.194403 |
| 004-04776/2025 | Av. Presidente Vargas | 1326 | -22.906586 | -43.194403 |
| 004-04812/2025 | Av. Presidente Vargas | 2727 | -22.906586 | -43.194403 |
Os números 20, 149, 482, 1326, 2727 e 3077 ficam a quilômetros um do outro na avenida. Todos receberam a mesma coordenada, igual até a última casa decimal. Imprecisão de medida espalharia os pontos. Coordenada repetida dígito por dígito é valor atribuído automaticamente.
Qualquer sistema de geocodificação funciona assim. Quando não acha o número na base de referência, devolve um ponto genérico da rua. O problema não é isso. É que o arquivo entregue não separa esse caso do caso resolvido, e as duas coordenadas ficam com a mesma aparência.
Esse ponto genérico não é o meio da avenida. Ele fica sobre a via, mas num lugar arbitrário — na Atlântica, a um quilômetro e meio do meio dela.
Em 2025, no município:
| Nos 17.140 endereços completos e validados | n | A 50 m ou mais | Distância típica |
|---|---|---|---|
| Coordenada compartilhada por 5+ endereços | 380 | 93,4% | 1,9 km |
| Coordenada própria | 16.760 | 33,5% | 24 m |
Entre os endereços completos e validados, 380 registros receberam coordenadas compartilhadas por cinco ou mais endereços diferentes. Desses 380, 93,4% ficam a 50 metros ou mais do endereço e 66% passam de um quilômetro.6
O conjunto é pequeno. São 355 casos, concentrados em 61 coordenadas e 114 endereços. Avenida Atlântica responde por 188 deles, Presidente Vargas por 26, Avenida das Américas por 18. A lista completa está no repositório.
A coordenada repetida é a parte menor do total. Dos 5.974 casos a 50 metros ou mais em endereços completos e validados, só 355 têm esse padrão. Os outros 5.619 têm coordenada própria e nenhuma marca que os identifique.
Para esse grupo, a única saída é conferir a coordenada contra outra fonte antes de publicar. É o que a seção seguinte trata.
As taxas de 2024 e 2025 são equivalentes No teste restrito aos três roubos cobertos nos dois anos, as taxas são quase idênticas: distância típica de 29 metros nos dois anos; acima de 500 metros em 4,5% e 4,0%; coordenada repetida em 39,8% e 35,3%; rua em 3,0% e 2,8%; avenida em 9,5% e 7,5%. Isso se manteve mesmo com a coordenada de 2024 vindo de outro processo e o campo de número indo de 2,6% para 31,0% de vazio.
Em 7.434 registros de 2025 (9,1% da base), a coordenada aponta um ponto genérico da rua, sem o número. Duas bases públicas e gratuitas, do IBGE e da Prefeitura do Rio, localizam o endereço exato em 78% deles — 74,6% pelo cadastro do IBGE, 57,5% pela malha da Prefeitura.
Essa medida tem o maior impacto, e não exige trocar o sistema que já está no ar. É o mesmo procedimento desta auditoria, virado rotina: para cada endereço, o cadastro do IBGE e a malha da Prefeitura devolvem uma posição cada um. Quando os dois concordam entre si e discordam da coordenada do arquivo, o registro é sinalizado.
O ganho vem de não depender de uma fonte só. Um cadastro sozinho pode errar; dois cadastros independentes errando no mesmo lugar é raro, e foi o que sustentou os números deste diagnóstico. As duas bases são públicas e gratuitas, e a conferência roda sobre o arquivo pronto, sem tocar na etapa que gera a coordenada.
O que fazer com o registro sinalizado é decisão de quem opera: substituir pela posição dos cadastros, manter a atual e marcar a divergência, ou mandar para conferência manual. Qualquer das três já é melhor que entregar sem distinção. A Prefeitura do Rio mantém um serviço de geocodificação próprio, o que reduz o custo dessa etapa a configuração.
Na geocodificação, existe um campo que separa "imóvel encontrado" de "número não encontrado, devolvido ponto da rua". Esse campo fica na etapa de geração, mas não chega no arquivo final. Incluí-lo não corrige nada. Ainda assim, é a medida mais útil — porque permite filtrar os casos rebaixados. Outra opção é informar uma margem de erro por coordenada.
Contar quantos endereços diferentes usam cada coordenada se faz dentro da planilha, sem consultar nada. Entre as ocorrências que dá para conferir contra uma referência, a marca cobre 41% de todos os casos acima de 500 metros, e recai sobre 9,1% dos registros da base. Para os marcados, os cadastros do IBGE e da Prefeitura dão posição com precisão de dezenas de metros.
Um limite que essas medidas não removem A coordenada vem de um endereço escrito, e 34% das ocorrências não têm número. O ideal seria registrar a posição na origem — um ponto no mapa no momento do registro, ou a coordenada da equipe que atendeu. Enquanto a posição for calculada a partir do endereço, há um limite que nenhum ajuste técnico ultrapassa.
scripts/analise_por_dp_diagnostico.py. ↩scripts/testa_projecao_isp.py. ↩