LEME · Auditoria de dados · 2024 e 2025

Diagnóstico de Dados Georreferenciados

Este relatório analisa a qualidade do georreferenciamento dos registros de roubos e furtos de rua disponibilizados pelo ISP/PCERJ para o município do Rio de Janeiro em 2024 e 2025.

BASE: ISP/PCERJ · município inteiro 81.451 OCORRÊNCIAS EM 2025 (roubos e furtos) · 22.378 EM 2024 (roubos) RECORTE ANALÍTICO: 17.140 ENDEREÇOS COMPLETOS E VALIDADOS

Para que a coordenada seja confiável no nível do imóvel, é preciso logradouro e número preenchidos no boletim. Em 2025, 53.732 dos 81.451 registros (66,0%) atendem a isso; em 2024, 21.804 dos 22.378 (97,4%), mas essa fonte cobre só roubo de rua e não é comparável à de 2025. A diferença de volume entre os anos não reflete aumento ou redução da criminalidade.

Nos registros com logradouro e número, comparamos a coordenada do ISP com duas referências independentes, o CNEFE/IBGE e a malha de logradouros do Data.Rio. No recorte em que as duas concordam entre si a menos de 50 metros, os 17.140 endereços completos e validados de 2024 e 2025, 65,1% das coordenadas do ISP ficam a menos de 50 metros do endereço e 34,9% ficam a 50 metros ou mais. No teste disponível para 2025, 8,9% caem em outra rua.

Esse recorte de 17.140 é o mais rigoroso possível, e por isso o menor. Em recortes maiores e menos exigentes, mais próximos do total da base, o padrão se mantém: em 32.866 registros aceitando também número aproximado, a taxa acima de 50 metros é 38,2%; em 81.402 registros de 2025 sem exigir validação dupla, a taxa de coordenada em outra rua é 21,7%.

34%
dos registros de 2025 não têm número no endereço
34,9%
dos endereços completos e validados têm a coordenada a pelo menos 50 m do endereço
8,9%
dos endereços completos e validados de 2025 têm a coordenada em outra rua

Base de cada indicador: o primeiro é sobre o total de registros de 2025 (81.451); os demais dois são sobre os 17.140 endereços completos e validados, ou o subconjunto de 2025 dentro dele, quando o rótulo indicar.

O que o diagnóstico encontrou

01

Como o dado está sendo preenchido

Em 2025, 53.732 dos 81.451 registros (66,0%) têm logradouro e número preenchidos. Nos outros 27.719 (34,0%), não há número; uma geocodificação baseada apenas no endereço não consegue localizar o imóvel informado e tende a devolver uma posição aproximada da via.

Preenchimento do endereço em 2025Ocorrências% da base
Sem número no boletim27.71934,0%
Com logradouro e número53.73266,0%

Na fonte disponível de 2024, 21.804 dos 22.378 registros (97,4%) têm número — mas essa fonte não é comparável à de 2025 (ver abertura).

A pergunta do diagnóstico é: quando o endereço está completo e pode ser validado de forma independente nos dois cadastros, a coordenada fornecida pelo ISP aponta o mesmo local?

02

Em quantas ocorrências o endereço está diferente das coordenadas

A coordenada já vem pronta na base. Para checá-la, comparamos com dois cadastros oficiais independentes, um do IBGE e um da Prefeitura.2 Onde os dois concordam, temos uma referência confiável.9

A tabela abaixo usa os 17.140 endereços completos e validados de 2024 e 2025: registros com logradouro e número preenchidos, número localizado exatamente no CNEFE e na malha do Data.Rio, e posições das duas referências a menos de 50 metros uma da outra.

O quarteirão típico do Rio tem 59 metros.3 Uma diferença de 50 metros já joga a ocorrência para o quarteirão vizinho, o que é um problema de georreferenciamento.

Distância entre a coordenada e o endereçoOcorrências%
menos de 50 m11.16665,1%
50 m a 250 m4.86928,4%
250 m a 500 m4872,8%
500 m a 1 km2081,2%
1 km a 2 km3241,9%
acima de 2 km860,5%

São 34,9% com distância entre o ponto e o endereço de pelo menos 50 metros. Quase todo esse volume está entre 50 e 250 metros, e 3,6% erram mais de 500 metros.

Um caso, em escala

3.46 km de erroOnde o ISP diz que foicoordenada da planilhaOnde realmente ficaIBGE + Prefeitura + Google1 kmRua Conde De Bonfim, 1020, Tijucao traçado escuro é o próprio logradouro; o ponto do ISP caiu em outro trecho dele
Rua Conde de Bonfim, 1020, Tijuca. A coordenada fica a 3.459 metros do endereço. O traçado escuro é a própria Rua Conde de Bonfim: a coordenada caiu em outro trecho dela.

Quando a coordenada cai em outra rua

Para verificar esses casos, usamos a coordenada da base, achamos a rua mais próxima dela e comparamos o nome com o campo de endereço. Entre os endereços completos e validados, aqueles em que o número foi conferido em dois cadastros, 8,9% (1.079 de 12.167) têm a coordenada caindo em uma rua diferente do endereço registrado. E não fica no meio do caminho entre as duas ruas. Fica em cima da outra: na metade dos casos, a 2 metros ou menos dela.4 O ponto foi colocado sobre uma rua, só que a errada.

Na base de 2025, sem exigir validação pelos dois cadastros, a taxa é de 21,7% (17.646 de 81.402). A diferença entre as duas mostra que a validade do endereço pesa neste teste, e por isso o diagnóstico usa o recorte validado.

Tipo de via do endereçoEndereços completos e validadosCoordenada em outra rua
Rua8.6428,6%
Avenida2.82110,1%
Estrada4669,0%

No recorte validado, a diferença entre os tipos de via é pequena. O teste mostra que acontece, não explica a causa.

Uma possibilidade é que o problema da rua diferente venha do mau preenchimento dos dados. Porém não é isso que vemos.

Preenchimento do endereçoOcorrênciasCoordenada em outra rua
Sem número no boletim27.71324,4%
Com número53.68920,3%

Quando há número preenchido, a taxa é de 20,3%, contra 24,4% quando ele falta. A diferença de 4,1 pontos mostra que a ausência de número contribui, mas não explica sozinha a coordenada em outra rua.

O padrão da distância se mantém nos dois anos

Os 17.140 endereços completos e validados,7 por ano: 4.968 em 2024, 12.172 em 2025 — a diferença de cobertura já foi explicada na abertura. A tabela abaixo compara o padrão das distâncias, não o volume de crimes.

Distância da coordenada ao endereço20242025Total%
até 50 m3.3157.85111.16665,1%
50 a 100 m7772.2463.02317,6%
100 a 250 m5831.2631.84610,8%
250 a 500 m1503374872,8%
acima de 500 m1434756183,6%

Dentro de cada recorte disponível, a taxa a partir de 50 metros é de 33,3% em 2024 e 35,5% em 2025. A proximidade entre as taxas sustenta que o padrão aparece nos dois anos, mas não permite comparar a quantidade de crimes entre eles.

Vale o contraste com um recorte menos exigente. Aceitando também os endereços em que o número foi casado por aproximação, e não conferido exatamente, a taxa sobe para 38,2%. A validação exata reduz a taxa em 3,3 pontos percentuais, mas não elimina a divergência.

A referência foi checada com uma terceira fonte Cruzamos os dados com o Google — uma fonte independente — para ver se as duas bases de referência tinham algum erro parecido. Não tinham.

  • 500 endereços entre 50 e 500 metros: o Google bateu com as duas bases em 96,8%.
  • 1.600 endereços acima de 500 metros, chequei um por um: a distância se confirmou em 85,9%. Em 3,0% a coordenada da base estava certa e a referência não.
  • 60 endereços de controle (escolhidos entre os que batiam): o Google concordou com a base em 59 deles.

Detalhes em nota.5

03

Como isso se distribui no espaço

Antes de tudo: as unidades preenchem de forma diferente

A primeira objeção esperada é que uma unidade preencha melhor que outra, e que a diferença entre elas venha daí. Ela procede em parte, porque o preenchimento varia bastante. A seção 01 mostrou que 34% dos boletins de 2025 no município não trazem número, e esse número esconde uma variação grande entre unidades.

DelegaciaOcorrênciasSem número no boletim
1ª DP2.60358,4%
17ª DP1.91948,5%
25ª DP1.40647,7%
18ª DP4.16744,9%
município (todas as unidades)81.40234,0%
23ª DP1.33320,3%
41ª DP1.20215,7%

Entre as 41 unidades com pelo menos 300 registros, a taxa de boletins sem número vai de 15,7% a 58,4%. A diferença de preenchimento entre unidades é real e grande.

Mesmo considerando isso, ainda vemos erros. As medidas a seguir mostram que a divergência entre coordenada e endereço não acompanha essa variação de preenchimento.1

Por delegacia

O prefixo do RO diz qual unidade registrou a ocorrência. A pergunta aqui é se o problema se concentra em alguma parte da cidade. As duas medidas foram refeitas por unidade, sempre dentro do recorte de endereços completos e validados. O piso para uma unidade entrar caiu de 300 para 150 registros, porque o recorte é menor; com 300 sobrariam 27 e 16 unidades, pouco para comparar.

Primeiro a distância entre a coordenada e o endereço: quantos casos ficam a 50 metros ou mais, dentro dos 17.140 endereços completos e validados. Trinta e seis unidades têm registro suficiente. A linha do município é a taxa sobre os 17.140 juntos, sem separar por unidade — 34,9%, o mesmo número das seções anteriores.

DelegaciaEndereços completos e validadosA 50 m ou mais do endereço
13ª DP47064,9%
35ª DP33855,6%
15ª DP22255,4%
16ª DP31349,8%
município inteiro17.14034,9%
9ª DP56524,8%
44ª DP28423,2%
5ª DP92421,1%

Agora o teste da rua diferente: quantas coordenadas caem sobre uma rua de nome diferente do que está no boletim, entre os 12.167 endereços completos e validados de 2025. Trinta e duas unidades têm registro suficiente. A linha do município é a taxa sobre os 12.167 juntos — 8,9%, o mesmo número da seção anterior.

DelegaciaEndereços completos e validadosCoordenada em outra rua
4ª DP24821,0%
1ª DP40018,5%
28ª DP18314,8%
5ª DP69213,0%
município inteiro12.1678,9%
12ª DP5494,0%
26ª DP2274,0%
41ª DP2193,2%

Ponha as duas tabelas lado a lado. A 5ª DP é a melhor do município em distância, com 21,1%, e a quarta pior em rua diferente, com 13,0%. A 13ª DP faz o contrário: 64,9% em distância, a pior de todas, e não aparece entre as piores em rua diferente. Nas oito piores de cada medida, apenas duas unidades se repetem, e a correlação entre as duas medidas é de −0,20: fraca e de sinal negativo, ou seja, quem vai pior numa tende a ir um pouco melhor na outra.

Uma delegacia que trabalhasse pior apareceria no topo das duas listas. As diferenças entre unidades existem, mas não são de nenhuma unidade em particular, e persistem mesmo depois de exigir endereços completos e validados em todas. As duas partes seguintes testam as explicações ligadas ao registro, uma por uma. Nenhuma se sustenta.

04

Entendendo o problema

Coordenadas empilhadas

Parte dos casos dá para ver na planilha, sem cálculo nenhum. Estes seis registros vêm da Avenida Presidente Vargas. Os números vão do 20 ao 3077 e a coordenada é a mesma nos seis.

ROLogradouroLatitudeLongitude
004-04697/2025Av. Presidente Vargas149-22.906586-43.194403
004-04660/2025Av. Presidente Vargas482-22.906586-43.194403
004-04694/2025Av. Presidente Vargas3077-22.906586-43.194403
004-04757/2025Av. Presidente Vargas20-22.906586-43.194403
004-04776/2025Av. Presidente Vargas1326-22.906586-43.194403
004-04812/2025Av. Presidente Vargas2727-22.906586-43.194403

Os números 20, 149, 482, 1326, 2727 e 3077 ficam a quilômetros um do outro na avenida. Todos receberam a mesma coordenada, igual até a última casa decimal. Imprecisão de medida espalharia os pontos. Coordenada repetida dígito por dígito é valor atribuído automaticamente.

Qualquer sistema de geocodificação funciona assim. Quando não acha o número na base de referência, devolve um ponto genérico da rua. O problema não é isso. É que o arquivo entregue não separa esse caso do caso resolvido, e as duas coordenadas ficam com a mesma aparência.

Esse ponto genérico não é o meio da avenida. Ele fica sobre a via, mas num lugar arbitrário — na Atlântica, a um quilômetro e meio do meio dela.

Em 2025, no município:

  • 55.741 coordenadas diferentes para 81.451 ocorrências;
  • 7.434 registros (9,1%) em coordenadas usadas por 5 ou mais endereços;
  • as duas coordenadas mais repetidas são ambas da Avenida Atlântica, com 350 e 313 ocorrências. A da Avenida Presidente Vargas mostrada acima é a sétima, com 184.
  • uma avenida longa tem vários desses pontos: a Atlântica tem sete e a Presidente Vargas, dez.
Nos 17.140 endereços completos e validadosnA 50 m ou maisDistância típica
Coordenada compartilhada por 5+ endereços38093,4%1,9 km
Coordenada própria16.76033,5%24 m

Entre os endereços completos e validados, 380 registros receberam coordenadas compartilhadas por cinco ou mais endereços diferentes. Desses 380, 93,4% ficam a 50 metros ou mais do endereço e 66% passam de um quilômetro.6

O conjunto é pequeno. São 355 casos, concentrados em 61 coordenadas e 114 endereços. Avenida Atlântica responde por 188 deles, Presidente Vargas por 26, Avenida das Américas por 18. A lista completa está no repositório.

10.59 km de erroOnde o ISP diz que foicoordenada da planilhaOnde realmente ficaIBGE + Prefeitura + Google1 kmAvenida Das Americas, 7907, Barra da Tijucao traçado escuro é o próprio logradouro; o ponto do ISP caiu em outro trecho dele
Avenida das Américas, 7907, Barra da Tijuca. Maior distância encontrada em maio de 2026: 10,59 quilômetros. Os dois cadastros e o Google apontam praticamente o mesmo ponto.

Outros casos

A coordenada repetida é a parte menor do total. Dos 5.974 casos a 50 metros ou mais em endereços completos e validados, só 355 têm esse padrão. Os outros 5.619 têm coordenada própria e nenhuma marca que os identifique.

  • Na maioria a distância é pequena, em torno de 24 metros.
  • Um terço passa de 50 metros e muda de quarteirão.
  • São 15 vezes mais numerosos que os de coordenada repetida.
  • Não há como isolá-los usando só a planilha.

Para esse grupo, a única saída é conferir a coordenada contra outra fonte antes de publicar. É o que a seção seguinte trata.

As taxas de 2024 e 2025 são equivalentes No teste restrito aos três roubos cobertos nos dois anos, as taxas são quase idênticas: distância típica de 29 metros nos dois anos; acima de 500 metros em 4,5% e 4,0%; coordenada repetida em 39,8% e 35,3%; rua em 3,0% e 2,8%; avenida em 9,5% e 7,5%. Isso se manteve mesmo com a coordenada de 2024 vindo de outro processo e o campo de número indo de 2,6% para 31,0% de vazio.

05

O que pode ser feito

Em 7.434 registros de 2025 (9,1% da base), a coordenada aponta um ponto genérico da rua, sem o número. Duas bases públicas e gratuitas, do IBGE e da Prefeitura do Rio, localizam o endereço exato em 78% deles — 74,6% pelo cadastro do IBGE, 57,5% pela malha da Prefeitura.

1. Conferir a coordenada contra dois cadastros antes de publicar

Essa medida tem o maior impacto, e não exige trocar o sistema que já está no ar. É o mesmo procedimento desta auditoria, virado rotina: para cada endereço, o cadastro do IBGE e a malha da Prefeitura devolvem uma posição cada um. Quando os dois concordam entre si e discordam da coordenada do arquivo, o registro é sinalizado.

O ganho vem de não depender de uma fonte só. Um cadastro sozinho pode errar; dois cadastros independentes errando no mesmo lugar é raro, e foi o que sustentou os números deste diagnóstico. As duas bases são públicas e gratuitas, e a conferência roda sobre o arquivo pronto, sem tocar na etapa que gera a coordenada.

O que fazer com o registro sinalizado é decisão de quem opera: substituir pela posição dos cadastros, manter a atual e marcar a divergência, ou mandar para conferência manual. Qualquer das três já é melhor que entregar sem distinção. A Prefeitura do Rio mantém um serviço de geocodificação próprio, o que reduz o custo dessa etapa a configuração.

2. Informar no arquivo como cada coordenada foi obtida

Na geocodificação, existe um campo que separa "imóvel encontrado" de "número não encontrado, devolvido ponto da rua". Esse campo fica na etapa de geração, mas não chega no arquivo final. Incluí-lo não corrige nada. Ainda assim, é a medida mais útil — porque permite filtrar os casos rebaixados. Outra opção é informar uma margem de erro por coordenada.

3. Enquanto isso, marcar as coordenadas repetidas

Contar quantos endereços diferentes usam cada coordenada se faz dentro da planilha, sem consultar nada. Entre as ocorrências que dá para conferir contra uma referência, a marca cobre 41% de todos os casos acima de 500 metros, e recai sobre 9,1% dos registros da base. Para os marcados, os cadastros do IBGE e da Prefeitura dão posição com precisão de dezenas de metros.

Um limite que essas medidas não removem A coordenada vem de um endereço escrito, e 34% das ocorrências não têm número. O ideal seria registrar a posição na origem — um ponto no mapa no momento do registro, ou a coordenada da equipe que atendeu. Enquanto a posição for calculada a partir do endereço, há um limite que nenhum ajuste técnico ultrapassa.

06

O que este diagnóstico não afirma

  • Não é a taxa da base inteira. Os números principais deste diagnóstico valem sobre os 17.140 endereços completos e validados, e não sobre todas as ocorrências disponíveis. Nesse recorte, o número foi localizado exatamente nos dois cadastros e as referências concordaram a menos de 50 metros. Os resultados não devem ser generalizados para os registros que não puderam ser validados. Onde aparecem taxas de outros recortes (as 32.866 com referência confiável, ou as 81.402 do teste da rua diferente), elas vêm identificadas ao lado.
  • O Google não é medição em campo. É outro sistema de geocodificação. O que sustenta a conclusão é a convergência de três fontes independentes, e não o Google isoladamente.
  • Não se afirma qual sistema gera as coordenadas. Nenhum dos serviços testados reproduz os valores da base. O que se mostra é que os endereços com coordenada repetida são os mesmos que ferramentas profissionais também resolvem apenas no nível da rua.
  • Os cadastros de referência também erram. Em 3,0% dos casos verificados, a coordenada da base estava certa e a referência não. Desses 48 casos, 39 vieram de um recurso do cadastro do IBGE que aproxima pelo número mais próximo, e 43 estão fora do recorte de endereços completos e validados.
  • A comparação entre 2024 e 2025 tem ressalva. A coordenada de 2024 vem de outro processo e cobre só os três roubos de rua. O que se sustenta é que o padrão se manteve; não se afirma melhora nem piora.
  • Não é diferença de sistema de coordenadas. Essa seria a explicação mais confortável: um parâmetro de conversão errado, que se corrige de uma vez e sem culpa de ninguém. Foi testada e não se sustenta. Conversão errada empurra todo mundo para o mesmo lado, pela mesma distância — e o erro do ISP aponta para os oito lados da bússola em proporções parecidas, com centro a menos de dois metros do lugar certo, enquanto os pontos individuais se espalham por centenas. Também não aparece o rastro que o uso de um sistema antigo deixaria, nem o erro aumenta conforme a ocorrência se afasta do centro do mapa. As coordenadas repetidas são a única exceção, e por outro motivo: nelas o desvio tem direção, mas ela aponta para o ponto genérico da rua.8
  • O teste da rua diferente não diz de onde vem a divergência. Quando a coordenada cai em outra via, pode haver problema no endereço ou na coordenada. O teste sozinho não separa os dois. As seções 03 e 04 tratam disso.
07

Notas técnicas

  1. Correlação entre preenchimento e divergência. Calculada entre a proporção de endereços com número preenchido em cada delegacia e sua taxa de divergência, uma vez para cada medida do diagnóstico. Para a distância acima de 50 metros, sobre as 36 unidades com pelo menos 300 registros no conjunto comparável, o coeficiente de Pearson é +0,08 — na prática, ausência de relação. Para o teste da rua diferente, sobre as 41 unidades com pelo menos 300 registros em 2025, é −0,22: relação fraca e no sentido esperado, já que quem preenche melhor erra um pouco menos de rua — é a mesma coisa que os 4 pontos de diferença medidos na seção 02. Nenhum dos dois tem tamanho para explicar a diferença entre as unidades. Cálculo em scripts/analise_por_dp_diagnostico.py.
  2. As duas referências e como foram combinadas. O CNEFE (IBGE, Censo 2022) traz 3,28 milhões de endereços do Rio, com a posição de cada imóvel levantada em campo. A malha de logradouros do Data.Rio (Prefeitura) traz a faixa de números de cada quarteirão, o que permite calcular onde fica um número dentro dele. Uma é federal, a outra municipal, feitas em épocas e por métodos diferentes: quando as duas apontam o mesmo lugar, é improvável que estejam erradas juntas.

    Entram na referência apenas os endereços em que o IBGE localizou o número exato (sem aproximação por número vizinho) e a malha da Prefeitura calculou a posição dentro da faixa do quarteirão, com os dois resultados a no máximo 50 metros um do outro. A posição de referência é o ponto médio entre eles. Nesse conjunto, os dois cadastros ficam a 22 metros um do outro na metade dos casos.
  3. Tamanho do quarteirão. Mediana de 58,5 metros para o comprimento dos trechos de logradouro da malha do Data.Rio. Metade dos trechos é menor que isso.
  4. Distância à rua em que a coordenada caiu. Mediana de 2 metros, com 90% dos casos abaixo de 9 metros. A coordenada está sobre o eixo da outra via, e não a meio caminho entre as duas.
  5. Verificação no Google. Na amostra de 500 endereços da faixa de 50 a 500 metros, a posição do Google ficou a 21 metros da referência e a 110 metros da coordenada da base (medianas), e mais próxima da referência em 96,8% dos casos (intervalo de confiança de 95%: 94,9% a 98,0%). No censo dos 1.600 endereços acima de 500 metros, a divergência se confirmou em 85,9% (intervalo de 84,1% a 87,5%) contra 3,0% em que a coordenada da base estava correta. Confirmação aqui quer dizer que o ponto do Google ficou a 200 metros ou menos da referência; correção da base, que ficou a 200 metros ou menos da coordenada do ISP. Com um limiar de 100 metros no lugar de 200, a confirmação cai para 79,9% e a correção da base para 2,1% — o sentido do resultado não muda. A amostra foi sorteada com semente fixa e embaralhada, para que uma interrupção da coleta ainda produzisse amostra aleatória.
  6. Coordenadas compartilhadas em endereços completos e validados. Dentro dos 17.140 registros desse recorte, 380 têm uma coordenada compartilhada por cinco ou mais endereços diferentes. Desses 380, 355 estão a 50 metros ou mais do endereço: os 93,4% têm 380 como denominador, não 355. Os 355 equivalem a 2,1% dos 17.140 e se concentram em apenas 61 coordenadas e 114 endereços, o que permite corrigir um a um. A distância mediana dos 380 é de 1.912 metros, contra 24 metros nos registros de coordenada própria, e 66% deles passam de um quilômetro.
  7. Definição de endereço completo e validado. Quatro condições simultâneas: o número está preenchido no boletim; foi encontrado exatamente no cadastro do IBGE, sem aproximação; cai dentro da faixa de números do quarteirão na malha da Prefeitura; e os dois cadastros ficam a menos de 50 metros um do outro.
  8. Teste de sistema de coordenadas. Erro de datum ou de projeção é sistemático: move todos os pontos para o mesmo lado, pela mesma distância. Quatro testes, sobre os 16.760 endereços completos e validados sem coordenada repetida. Deslocamento médio: o desvio da coordenada do ISP contra a referência tem centro em −1,6 m no eixo norte-sul e +0,2 m no leste-oeste, com dispersão de 172 m e 632 m — o deslocamento é 2% do espalhamento. Direção: o erro se reparte pelos oito setores da bússola entre 8,7% e 16,3%, contra 12,5% esperados por acaso. Datum antigo: uma conversão de SAD69 não feita deixaria um aglomerado a 60 m ao norte e 20 m a leste; ali estão 1,55% dos pontos, contra 1,67% numa janela espelhada que não significa nada. Fator de escala: o erro não cresce conforme o ponto se afasta do meridiano central da zona UTM (correlação −0,07). As coordenadas repetidas são a exceção e por outro motivo: nelas há direção preferencial, mas ela aponta para o ponto genérico do logradouro, não para um lado da bússola. Cálculo em scripts/testa_projecao_isp.py.
  9. Sistemas de referência das fontes. As fontes usam sistemas diferentes, e por isso a convergência entre elas foi medida, não suposta. A malha da Prefeitura vem em SIRGAS 2000 / UTM 23S (EPSG:31983), projetada em metros, e é convertida para coordenadas geográficas no processamento; o CNEFE traz latitude e longitude em SIRGAS 2000; o Google devolve WGS84. Sobre as 43.876 ocorrências em que as duas referências resolveram o endereço com precisão, o deslocamento sistemático entre elas é de 0,9 metro (mediana de +0,5 m no eixo leste-oeste e −0,7 m no norte-sul). Mistura de datum produziria deslocamento constante de 60 a 70 metros numa direção fixa, o que não aparece. A distância mediana de 29 metros entre as duas é dispersão de método, não viés: varia conforme o tipo de via, coisa que erro de datum não faria. O que essa medição sustenta, e o que não sustenta: como o limiar deste diagnóstico é de 50 metros, um erro de datum de 65 metros mudaria o resultado, e por isso a afirmação se apoia na medição acima e não em margem de segurança. Já os cortes maiores são insensíveis: deslocar artificialmente toda a referência em 65 metros move a taxa acima de 500 metros de 5,4% para 5,7%, e a taxa acima de 1 quilômetro não se move. A nota 8 testa a questão pelo outro lado, verificando se o erro do próprio ISP tem assinatura de datum.