A violência contra crianças e adolescentes representa um dos principais desafios para as políticas públicas de proteção integral. Embora os casos de violência letal despertem maior repercussão social, eles frequentemente constituem o desfecho extremo de processos de violência iniciados muito antes, manifestando-se sob diferentes formas de agressão, negligência e violações de direitos.
A recente morte de uma criança de 10 meses em Fortaleza reforça a importância de fortalecer os mecanismos de vigilância e prevenção, tornando essencial compreender como a violência não letal vem evoluindo no estado.
Este relatório apresenta uma análise preliminar das notificações registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), considerando os principais tipos de violência contra crianças e adolescentes no Ceará entre 2009 e 2025.
Foram utilizados os microdados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), abrangendo o período de 2009 a 2025 (dados de 2025 ainda em atualização).
A análise foi restrita às notificações realizadas no estado do Ceará. Contudo a base permite expandir para todos os 184 municipios cearenses.
Os registros foram agrupados em três faixas etárias:
Foram analisadas quatro categorias de violência:
Foram excluídas as notificações em que o provável autor da violência era a própria vítima, concentrando a análise nas situações de violência interpessoal.
As notificações de violência não letal apresentam tendência geral de crescimento ao longo da série histórica, embora esse comportamento varie conforme o tipo de violência e a faixa etária das vítimas.
Observa-se um aumento expressivo das notificações a partir de 2020. Esse comportamento coincide com o período da pandemia de Covid-19 e pode estar relacionado a diferentes fatores, como a intensificação das situações de vulnerabilidade e violência durante esse período, além do fortalecimento gradual da identificação e da notificação dos casos pelos serviços de saúde nos anos subsequentes.
Os resultados são apresentados nas seções seguintes, de acordo com o tipo de violência analisado.
| NU_ANO | 0 a 6 anos | 13 a 19 anos | 7 a 12 anos |
|---|---|---|---|
| 2009 | 22 | 1 | 2 |
| 2010 | 15 | 9 | 14 |
| 2011 | 54 | 27 | 13 |
| 2012 | 69 | 65 | 32 |
| 2013 | 51 | 19 | 17 |
| 2014 | 349 | 449 | 110 |
| 2015 | 436 | 375 | 159 |
| 2016 | 594 | 505 | 197 |
| 2017 | 523 | 445 | 216 |
| 2018 | 573 | 343 | 236 |
| 2019 | 678 | 312 | 217 |
| 2020 | 896 | 442 | 289 |
| 2021 | 1001 | 615 | 447 |
| 2022 | 1556 | 1003 | 851 |
| 2023 | 2102 | 1435 | 1182 |
| 2024 | 1602 | 1141 | 814 |
| 2025 | 1071 | 629 | 534 |
| NU_ANO | 0 a 6 anos | 13 a 19 anos | 7 a 12 anos |
|---|---|---|---|
| 2009 | 27 | 41 | 18 |
| 2010 | 33 | 65 | 30 |
| 2011 | 34 | 104 | 34 |
| 2012 | 54 | 230 | 59 |
| 2013 | 39 | 189 | 35 |
| 2014 | 151 | 641 | 134 |
| 2015 | 156 | 743 | 143 |
| 2016 | 162 | 664 | 106 |
| 2017 | 155 | 611 | 106 |
| 2018 | 214 | 755 | 162 |
| 2019 | 242 | 688 | 149 |
| 2020 | 262 | 729 | 141 |
| 2021 | 239 | 703 | 174 |
| 2022 | 269 | 798 | 239 |
| 2023 | 289 | 1007 | 291 |
| 2024 | 611 | 1510 | 663 |
| 2025 | 516 | 1300 | 425 |
| NU_ANO | 0 a 6 anos | 13 a 19 anos | 7 a 12 anos |
|---|---|---|---|
| 2009 | 17 | 19 | 12 |
| 2010 | 13 | 40 | 26 |
| 2011 | 15 | 41 | 25 |
| 2012 | 27 | 58 | 24 |
| 2013 | 16 | 61 | 24 |
| 2014 | 44 | 135 | 48 |
| 2015 | 59 | 185 | 67 |
| 2016 | 103 | 215 | 74 |
| 2017 | 70 | 163 | 76 |
| 2018 | 106 | 283 | 93 |
| 2019 | 89 | 313 | 95 |
| 2020 | 122 | 259 | 120 |
| 2021 | 74 | 268 | 149 |
| 2022 | 66 | 372 | 132 |
| 2023 | 82 | 537 | 186 |
| 2024 | 272 | 701 | 383 |
| 2025 | 314 | 650 | 424 |
| NU_ANO | 0 a 6 anos | 13 a 19 anos | 7 a 12 anos |
|---|---|---|---|
| 2009 | 14 | 17 | 13 |
| 2010 | 15 | 26 | 24 |
| 2011 | 16 | 29 | 28 |
| 2012 | 18 | 24 | 21 |
| 2013 | 21 | 45 | 34 |
| 2014 | 45 | 265 | 55 |
| 2015 | 73 | 135 | 82 |
| 2016 | 95 | 231 | 103 |
| 2017 | 100 | 295 | 99 |
| 2018 | 123 | 372 | 148 |
| 2019 | 154 | 504 | 173 |
| 2020 | 141 | 552 | 181 |
| 2021 | 209 | 790 | 328 |
| 2022 | 181 | 575 | 354 |
| 2023 | 359 | 853 | 524 |
| 2024 | 455 | 1070 | 571 |
| 2025 | 382 | 1014 | 451 |
Em conjunto, os resultados revelam que diferentes formas de violência apresentam padrões específicos ao longo do ciclo da infância e adolescência.
Enquanto a negligência concentra-se principalmente na primeira infância, as violências física e sexual tornam-se mais frequentes entre crianças maiores e adolescentes.
O crescimento das notificações após 2020 demonstra a importância da vigilância contínua e da utilização dos registros do SINAN para orientar políticas públicas voltadas à prevenção da violência.
Os resultados apresentados neste relatório preliminar reforçam que a violência contra crianças e adolescentes permanece como um importante desafio para o Ceará.
A recente morte de uma criança de 10 meses em Fortaleza evidencia que os casos fatais frequentemente são precedidos por diferentes formas de violência e vulnerabilidade já presentes no cotidiano das famílias.
Nesse contexto, o fortalecimento da vigilância, da notificação e da atuação integrada entre saúde, assistência social, educação, segurança pública e sistema de garantia de direitos constitui elemento essencial para prevenir novos casos e proteger crianças e adolescentes.
As informações apresentadas neste documento possuem caráter preliminar e destinam-se a subsidiar discussões técnicas e o aprimoramento das políticas públicas voltadas à proteção da infância.