Análise de Variância, Correlação e Regressão
Departamento de Estatística – UFPB
julho, 2026
Anova = Analysis of Variance (análise de variância).
Definição
Anova compara médias de respostas de vários grupos para estabelecer se existe diferença entre elas — testando todos os grupos simultaneamente.
\[ H_0: \mu_1 = \mu_2 = \dots = \mu_t \qquad H_1: \text{pelo menos um } \mu_i \text{ é diferente} \]
Exemplo: um ensaio completamente ao acaso comparou quatro grupos (A, B, C, D) com cinco unidades cada (\(t=4\) grupos, \(r=5\) unidades/grupo, \(n=20\)).
| Grupo A | Grupo B | Grupo C | Grupo D |
|---|---|---|---|
| 25 | 31 | 22 | 33 |
| 26 | 25 | 26 | 29 |
| 20 | 28 | 28 | 31 |
| 23 | 27 | 25 | 34 |
| 21 | 24 | 29 | 28 |
| Média: 23 | Média: 27 | Média: 26 | Média: 31 |
Pergunta: essas diferenças entre médias são grandes o bastante para indicar diferença real, ou podem ser só acaso?
Figura 1
Para o exemplo dos quatro grupos:
\[ H_0: \mu_A = \mu_B = \mu_C = \mu_D \qquad H_1: \text{pelo menos um grupo difere} \]
\[ \alpha = 0{,}05 \]
\[ gl_{total} = n-1 \qquad gl_{grupos} = t-1 \qquad gl_{resíduo} = (n-1)-(t-1) = n-t \]
Aplicando ao exemplo:
\[ gl_{total} = 20-1=19 \qquad gl_{grupos}=4-1=3 \qquad gl_{resíduo}=20-4=16 \]
A “correção” é o quadrado do total geral, dividido pelo número de observações:
\[ C = \frac{(\text{Total geral})^2}{n} \]
Aplicando: Total geral \(= 23{+}27{+}26{+}31\) (médias) \(\times 5\), ou diretamente a soma de todas as 20 observações \(= 535\).
\[ C = \frac{535^2}{20} = 14.311{,}25 \]
\[ SQT = \sum_{i} x_i^2 - C \]
Aplicando (soma dos quadrados de todas as 20 observações individuais):
\[ SQT = (25^2+26^2+\dots+28^2) - 14.311{,}25 = 275{,}75 \]
\[ SQG = \frac{\sum_i T_i^2}{r} - C \]
onde \(T_i\) é o total (soma) de cada grupo.
Aplicando: \(T_A=115\); \(T_B=135\); \(T_C=130\); \(T_D=155\).
\[ SQG = \frac{115^2+135^2+130^2+155^2}{5} - 14.311{,}25 = 163{,}75 \]
\[ SQR = SQT - SQG \]
Aplicando:
\[ SQR = 275{,}75 - 163{,}75 = 112{,}00 \]
\[ QMG = \frac{SQG}{gl_{grupos}} \qquad QMR = \frac{SQR}{gl_{resíduo}} \]
Aplicando:
\[ QMG = \frac{163{,}75}{3} = 54{,}58 \qquad QMR = \frac{112{,}00}{16} = 7{,}00 \]
\[ F = \frac{QMG}{QMR} \]
Aplicando:
\[ F = \frac{54{,}58}{7{,}00} = 7{,}80 \]
| Causa de variação | gl | SQ | QM | F |
|---|---|---|---|---|
| Entre grupos | 3 | 163,75 | 54,58 | 7,80 |
| Resíduo | 16 | 112,00 | 7,00 | |
| Total | 19 | 275,75 |
\[ F_{calc} = 7{,}80 > 3{,}24 \]
✅ Rejeita-se \(H_0\) no nível de 5% de significância (p-valor = 0,002).
Interpretação clínica: existe pelo menos um grupo com resposta média diferente dos demais — os quatro esquemas (ou tratamentos) representados pelos grupos A, B, C e D não produzem, em média, o mesmo efeito.
A Anova aponta que existe diferença — mas não diz entre quais grupos especificamente. Para isso, usam-se testes de comparações múltiplas (não tratados aqui).
\[ R^2 = \frac{SQG}{SQT} \]
Situação: ensaio fictício com dois grupos (A e B), 5 unidades cada.
| Grupo A | Grupo B |
|---|---|
| 10 | 25 |
| 11 | 26 |
| 15 | 28 |
| 13 | 24 |
| 16 | 27 |
| Causa de variação | gl | SQ | QM | F |
|---|---|---|---|---|
| Grupos | 1 | 422,50 | 422,50 | 93,89 |
| Resíduo | 8 | 36,00 | 4,50 | |
| Total | 9 | 458,50 |
\[ R^2 = \frac{SQG}{SQT} = \frac{422{,}50}{458{,}50} = 0{,}9215 \]
✅ \(R^2 = 92{,}15\%\)
Interpretação clínica: 92,15% da variação total dos dados é explicada apenas pela diferença entre os grupos A e B — a variabilidade dentro de cada grupo (resíduo) é pequena, o que reforça a evidência de que o tratamento (grupo) tem efeito real e forte sobre a resposta.
\[ CV = \frac{\sqrt{QMR}}{\bar{x}_{geral}} \times 100\% \]
Situação: quatro técnicos de laboratório medem a quantidade de fósforo (mg/g) em 20 amostras da mesma fonte, distribuídas aleatoriamente entre eles.
| Técnico 1 | Técnico 2 | Técnico 3 | Técnico 4 |
|---|---|---|---|
| 34 | 37 | 34 | 36 |
| 36 | 36 | 37 | 34 |
| 34 | 35 | 35 | 37 |
| 35 | 37 | 37 | 34 |
| 34 | 37 | 36 | 35 |
| Causa de variação | gl | SQ | QM | F | p-valor |
|---|---|---|---|---|---|
| Técnico | 3 | 9,00 | 3,00 | 2,40 | 0,106 |
| Resíduo | 16 | 20,00 | 1,25 | ||
| Total | 19 | 29,00 |
Média geral: \(\bar{x}_{geral} = 35{,}5\) mg/g. \(QMR = 1{,}25\).
\[ CV = \frac{\sqrt{1{,}25}}{35{,}5} \times 100\% \approx 3{,}15\% \]
Interpretação: $F=2{,}40 < $ valor crítico (implícito no p-valor \(=0{,}106 > 0{,}05\)) → não se rejeita \(H_0\): não há evidência de diferença entre os técnicos na medição de fósforo.
✅ Interpretação clínica/laboratorial: o CV de 3,15% indica boa precisão na técnica de dosagem — e a Anova confirma que os quatro técnicos produzem, em média, resultados equivalentes, o que é desejável para a padronização do laboratório.
Somas de quadrados: \[SQT = \sum x_i^2 - C \qquad SQG = \frac{\sum T_i^2}{r}-C\] \[SQR = SQT-SQG\]
Estatística de teste: \[F = \frac{QMG}{QMR} \qquad R^2=\frac{SQG}{SQT} \qquad CV=\frac{\sqrt{QMR}}{\bar{x}_{geral}}\]
| Causa | gl | Interpretação |
|---|---|---|
| Grupos | \(t-1\) | Efeito do tratamento |
| Resíduo | \(n-t\) | Variação ao acaso |
Definição
Diagrama de dispersão (scatterplot) é um gráfico que exibe a relação entre duas variáveis quantitativas — cada ponto representa um par de valores \((X,Y)\) medido na mesma unidade.
Exemplo: um fisioterapeuta mediu altura (X) e peso (Y) de 22 universitários.
Figura 2
Definição
Existe correlação quando os pontos do diagrama de dispersão formam uma nuvem em forma aproximada de elipse. É positiva quando X e Y crescem juntos; negativa quando X cresce e Y decresce.
Figura 3
Definição
A correlação é forte quando os pontos formam uma elipse fechada em torno de uma reta; fraca quando a elipse é mais arredondada; nula quando os pontos estão totalmente dispersos.
Figura 4
Definição
A correlação é linear quando a nuvem de pontos se dispersa em torno de uma reta; é não linear quando se dispersa em torno de uma curva.
Definição
Coeficiente de correlação de Pearson (\(r\)) mede o grau de relação linear entre duas variáveis quantitativas.
\[ r = \frac{n\sum XY - \sum X \sum Y}{\sqrt{\left[n\sum X^2 - (\sum X)^2\right]\left[n\sum Y^2-(\sum Y)^2\right]}} \]
| Intensidade | Intervalo (positivo) | Intervalo (negativo) |
|---|---|---|
| Pequena | \(0 < r < 0{,}25\) | \(-0{,}25 < r < 0\) |
| Fraca | \(0{,}25 \le r < 0{,}50\) | \(-0{,}50 < r \le -0{,}25\) |
| Moderada | \(0{,}50 \le r < 0{,}75\) | \(-0{,}75 < r \le -0{,}50\) |
| Forte | \(0{,}75 \le r < 1{,}00\) | \(-1 < r \le -0{,}75\) |
Dados (Conjunto A):
| \(X\) | \(Y\) | \(XY\) | \(X^2\) | \(Y^2\) |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 2 | 1 | 4 |
| 2 | 0 | 0 | 4 | 0 |
| 3 | 6 | 18 | 9 | 36 |
| 4 | 3 | 12 | 16 | 9 |
| 5 | 9 | 45 | 25 | 81 |
| 6 | 4 | 24 | 36 | 16 |
| 7 | 10 | 70 | 49 | 100 |
| 8 | 8 | 64 | 64 | 64 |
| 9 | 12 | 108 | 81 | 144 |
| 10 | 8 | 80 | 100 | 64 |
Somatórios (\(n=10\)):
\[ \sum X = 55 \qquad \sum Y = 62 \qquad \sum XY = 423 \qquad \sum X^2 = 385 \qquad \sum Y^2 = 518 \]
\[ r = \frac{10(423)-(55)(62)}{\sqrt{\left[10(385)-55^2\right]\left[10(518)-62^2\right]}} \]
\[ r = \frac{4.230-3.410}{\sqrt{(3.850-3.025)(5.180-3.844)}} = \frac{820}{\sqrt{825 \times 1.336}} \approx 0{,}781 \]
✅ Correlação positiva forte (\(0{,}75 \le r < 1{,}00\)).
Interpretação clínica/epidemiológica: as duas variáveis (X e Y) tendem fortemente a crescer juntas — conhecendo X, temos boa capacidade de prever a tendência de Y.
Mesmos valores de X, mas \(Y\) invertido: \(\sum Y=62\); \(\sum XY=259\); \(\sum Y^2=518\).
\[ r = \frac{10(259)-(55)(62)}{\sqrt{(3.850-3.025)(5.180-3.844)}} = \frac{-820}{\sqrt{825 \times 1.336}} \approx -0{,}781 \]
✅ Correlação negativa forte.
Interpretação: aqui, quando X aumenta, Y tende fortemente a diminuir — por exemplo, poderia representar a relação entre horas de sedentarismo (X) e capacidade cardiorrespiratória (Y).
Para calcular corretamente o coeficiente de correlação, é necessário que:
Situação: um professor quer correlacionar as notas de Matemática e Física de seus alunos — isso é válido, pois as notas são independentes entre si.
✅ Regra prática: sempre pergunte se uma variável foi calculada, em parte, a partir da outra.
Correlação não é causa.
Caso histórico: na década de 1930, em uma cidade da Dinamarca, à medida que aumentava o número de cegonhas, o número de recém-nascidos também aumentava.
✅ Lição para a saúde: sempre pergunte se existe uma terceira variável (fator de confusão) por trás de uma correlação observada.
\[ r = \frac{n\sum XY-\sum X \sum Y}{\sqrt{\left[n\sum X^2-(\sum X)^2\right]\left[n\sum Y^2-(\sum Y)^2\right]}} \]
Definição
Análise de regressão é um método estatístico que possibilita examinar o efeito de uma (ou mais) variável explicativa sobre uma variável resposta.
\[ Y = a + bX \]
\[ b = \frac{n\sum XY - \sum X \sum Y}{n \sum X^2 - (\sum X)^2} \]
\[ a = \bar{Y} - b\bar{X} \]
Situação: quantidade de procaína hidrolisada (Y, em 10 mol/l) no plasma humano, em função do tempo decorrido (X, em minutos).
| \(X\) (min) | \(Y\) | \(XY\) | \(X^2\) |
|---|---|---|---|
| 2 | 3,5 | 7,0 | 4 |
| 3 | 5,7 | 17,1 | 9 |
| 5 | 9,9 | 49,5 | 25 |
| 8 | 16,3 | 130,4 | 64 |
| 10 | 19,3 | 193,0 | 100 |
| 12 | 25,7 | 308,4 | 144 |
| 14 | 28,2 | 394,8 | 196 |
| 15 | 32,6 | 489,0 | 225 |
Somatórios (\(n=8\)):
\[ \sum X = 69 \qquad \sum Y = 141{,}2 \qquad \sum XY = 1.589{,}2 \qquad \sum X^2 = 767 \]
\[ b = \frac{8(1.589{,}2) - (69)(141{,}2)}{8(767)-69^2} \]
\[ b = \frac{12.713{,}6 - 9.742{,}8}{6.136-4.761} = \frac{2.970{,}8}{1.375} \approx 2{,}161 \]
\[ \bar{X} = \frac{69}{8}=8{,}625 \qquad \bar{Y}=\frac{141{,}2}{8}=17{,}65 \]
\[ a = 17{,}65 - 2{,}161 \times 8{,}625 \approx -0{,}985 \]
\[ \hat{Y} = -0{,}985 + 2{,}161X \]
A equação permite estimar Y para qualquer X dentro do intervalo estudado (2 a 15 minutos):
\[ X=5: \quad \hat{Y} = -0{,}985+2{,}161(5) = 9{,}82 \]
\[ X=13: \quad \hat{Y} = -0{,}985+2{,}161(13) = 27{,}10 \]
\[ X=15: \quad \hat{Y} = -0{,}985+2{,}161(15) = 31{,}42 \]
✅ Interpretação farmacológica: mesmo sem medir diretamente aos 13 minutos, podemos estimar que cerca de 27,10 (×10 mol/l) de procaína já estará hidrolisada no plasma.
Figura 5
Para ajustar uma regressão linear simples, é preciso que:
Situação: 10 alunos fizeram duas provas. O professor quer prever a nota da 2ª prova a partir da 1ª — mas os pontos, no diagrama de dispersão, estão muito dispersos (sem relação linear aparente).
✅ Regra prática: assim como na correlação, nunca regrida uma variável contra outra da qual ela depende matematicamente.
Exemplo: ajuste a pressão arterial (Y) contra o peso (X) de cães — é o peso que pode explicar a pressão, não o contrário.
Situação: peso (kg) e pressão arterial (mmHg) de 30 cães adultos.
\[ \sum X = 587 \qquad \sum Y = 3.473 \qquad n=30 \]
\[ b = \frac{n\sum XY-\sum X \sum Y}{n\sum X^2-(\sum X)^2} \approx 1{,}846 \]
\[ a = \bar{Y}-b\bar{X} \approx 79{,}64 \]
\[ \hat{Y} = 79{,}64 + 1{,}846X \]
Figura 6
Interpretação clínica/veterinária: a reta mostra tendência de a pressão aumentar com o peso, mas os pontos estão muito dispersos — a previsão tem grande margem de erro.
Situação: temperaturas médias mensais (jan–jul) de uma cidade do Sul do Brasil, decrescendo ao longo do semestre.
Figura 7
\[ R^2 = r^2 \]
Definição
O coeficiente de determinação é a proporção da variação de Y que é explicada pela variação de X.
Procaína (tempo × hidrólise): \(r \approx 0{,}997\)
\[ R^2 = (0{,}997)^2 \approx 0{,}994 = 99{,}4\% \]
Peso × Pressão Arterial (cães): \(r \approx 0{,}516\)
\[ R^2 = (0{,}516)^2 \approx 0{,}266 = 26{,}6\% \]
✅ Interpretação clínica: no primeiro caso, o tempo quase totalmente explica a hidrólise da procaína. No segundo, o peso explica só 26,6% da variação da pressão arterial — fatores como idade, sedentarismo e hereditariedade também importam.
Nem toda relação entre X e Y é uma reta. Alguns modelos alternativos comuns:
| Modelo | Equação |
|---|---|
| Exponencial | \(Y = ae^{bX}\) |
| Logarítmico | \(Y = \alpha + \beta \log X\) |
| Potência | \(Y = \alpha X^{\beta}\) |
✅ Após ajustar a reta na escala transformada, os coeficientes originais (\(a\) e \(b\)) podem ser recuperados.
Coeficientes da reta: \[b = \frac{n\sum XY-\sum X\sum Y}{n\sum X^2-(\sum X)^2}\] \[a = \bar{Y}-b\bar{X}\]
Coeficiente de determinação: \[R^2 = r^2\]
Cuidado: nunca extrapole além do intervalo estudado.
Anova: \[F = \frac{QMG}{QMR} \qquad R^2_{Anova} = \frac{SQG}{SQT}\]
Correlação: \[r = \frac{n\sum XY-\sum X\sum Y}{\sqrt{[n\sum X^2-(\sum X)^2][n\sum Y^2-(\sum Y)^2]}}\]
Regressão: \[b = \frac{n\sum XY-\sum X\sum Y}{n\sum X^2-(\sum X)^2} \qquad a = \bar{Y}-b\bar{X}\]
\[R^2_{regressão} = r^2\]
VIEIRA, Sonia. Introdução à Bioestatística. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
Capítulos utilizados:
Fonte adicional citada:
ZAR, J. H. Biostatistical Analysis. 4. ed. Upper Saddle River: Prentice Hall, 1999.
Bioestatística Aplicada à Saúde – UFPB