Bioestatística

Análise de Variância, Correlação e Regressão

Prof. Marcelo R.P. Ferreira

Departamento de Estatística – UFPB

julho, 2026

Agenda da Apresentação

  • Bloco 1: Análise de Variância (Anova) — comparando três ou mais grupos
  • Bloco 2: Correlação — quantificando a relação entre duas variáveis
  • Bloco 3: Regressão — usando uma variável para prever outra
  • Síntese: Do delineamento experimental à previsão clínica

Por que estes temas importam na saúde?

  • Um ensaio clínico raramente compara só dois grupos — muitas vezes são três, quatro ou mais esquemas terapêuticos, e o teste t não serve mais.
  • Pesquisadores frequentemente perguntam: será que peso e pressão arterial variam juntos? Será que a idade prevê o risco cardiovascular?
  • Sem Anova, correlação e regressão, boa parte da pesquisa clínica moderna simplesmente não poderia ser analisada.
Anova 3+ grupos diferem? Correlação Duas variáveis variam juntas? Regressão Prever Y a partir de X De comparar grupos, a quantificar relações, a construir previsões clínicas

Bloco 1 — Análise de Variância (Anova)

Motivação: Comparando Mais de Dois Grupos

  • O teste t compara duas médias. Mas, e se um ensaio clínico testar quatro esquemas terapêuticos ao mesmo tempo?
  • Fazer testes t par a par (A×B, A×C, A×D, B×C…) infla o risco de erro tipo I — quanto mais comparações, maior a chance de um “falso positivo” por acaso.
  • É preciso um método que compare todos os grupos de uma vez: a Análise de Variância, ou Anova.

Anova = Analysis of Variance (análise de variância).

Análise de Variância — Definição

Definição

Anova compara médias de respostas de vários grupos para estabelecer se existe diferença entre elas — testando todos os grupos simultaneamente.

\[ H_0: \mu_1 = \mu_2 = \dots = \mu_t \qquad H_1: \text{pelo menos um } \mu_i \text{ é diferente} \]

  • Apesar do nome “análise de variância”, o objetivo é comparar médias — o nome vem da técnica usada para isso.

Lógica da Análise: Variação Entre vs. Dentro de Grupos

  • A Anova compara duas fontes de variação:
    • Variação entre grupos (between): o quanto as médias dos grupos diferem entre si.
    • Variação dentro de grupos (within, ou resíduo): a variabilidade natural dentro de cada grupo, devida ao acaso.
  • Se a variação entre grupos for muito maior que a variação dentro deles, é evidência de que os grupos realmente diferem.

Situação em que se Usa Anova

Exemplo: um ensaio completamente ao acaso comparou quatro grupos (A, B, C, D) com cinco unidades cada (\(t=4\) grupos, \(r=5\) unidades/grupo, \(n=20\)).

Grupo A Grupo B Grupo C Grupo D
25 31 22 33
26 25 26 29
20 28 28 31
23 27 25 34
21 24 29 28
Média: 23 Média: 27 Média: 26 Média: 31

Pergunta: essas diferenças entre médias são grandes o bastante para indicar diferença real, ou podem ser só acaso?

Visualizando a Variação Entre e Dentro de Grupos

Figura 1

Hipóteses e Nível de Significância

Para o exemplo dos quatro grupos:

\[ H_0: \mu_A = \mu_B = \mu_C = \mu_D \qquad H_1: \text{pelo menos um grupo difere} \]

\[ \alpha = 0{,}05 \]

  • Notação: \(t\) = número de grupos; \(r\) = unidades por grupo; \(n = t \times r\) = tamanho total da amostra.
  • Neste exemplo: \(t=4\); \(r=5\); \(n=20\).

Graus de Liberdade

\[ gl_{total} = n-1 \qquad gl_{grupos} = t-1 \qquad gl_{resíduo} = (n-1)-(t-1) = n-t \]

Aplicando ao exemplo:

\[ gl_{total} = 20-1=19 \qquad gl_{grupos}=4-1=3 \qquad gl_{resíduo}=20-4=16 \]

Correção (C) — Fórmula

A “correção” é o quadrado do total geral, dividido pelo número de observações:

\[ C = \frac{(\text{Total geral})^2}{n} \]

Aplicando: Total geral \(= 23{+}27{+}26{+}31\) (médias) \(\times 5\), ou diretamente a soma de todas as 20 observações \(= 535\).

\[ C = \frac{535^2}{20} = 14.311{,}25 \]

Soma de Quadrados Total (SQT)

\[ SQT = \sum_{i} x_i^2 - C \]

Aplicando (soma dos quadrados de todas as 20 observações individuais):

\[ SQT = (25^2+26^2+\dots+28^2) - 14.311{,}25 = 275{,}75 \]

Soma de Quadrados de Grupos (SQG)

\[ SQG = \frac{\sum_i T_i^2}{r} - C \]

onde \(T_i\) é o total (soma) de cada grupo.

Aplicando: \(T_A=115\); \(T_B=135\); \(T_C=130\); \(T_D=155\).

\[ SQG = \frac{115^2+135^2+130^2+155^2}{5} - 14.311{,}25 = 163{,}75 \]

Soma de Quadrados de Resíduo (SQR)

\[ SQR = SQT - SQG \]

Aplicando:

\[ SQR = 275{,}75 - 163{,}75 = 112{,}00 \]

  • O resíduo (within) é o que sobra depois de descontar a variação explicada pelos grupos.

Quadrados Médios (QMG e QMR)

\[ QMG = \frac{SQG}{gl_{grupos}} \qquad QMR = \frac{SQR}{gl_{resíduo}} \]

Aplicando:

\[ QMG = \frac{163{,}75}{3} = 54{,}58 \qquad QMR = \frac{112{,}00}{16} = 7{,}00 \]

  • Um quadrado médio é, essencialmente, uma variância — soma de quadrados dividida pelos graus de liberdade correspondentes.

Estatística F e Tabela Anova

\[ F = \frac{QMG}{QMR} \]

Aplicando:

\[ F = \frac{54{,}58}{7{,}00} = 7{,}80 \]

Causa de variação gl SQ QM F
Entre grupos 3 163,75 54,58 7,80
Resíduo 16 112,00 7,00
Total 19 275,75

Exemplo: Resolução e Interpretação Clínica

  • Valor crítico de \(F\) (tabela F, \(\alpha=0{,}05\), \(gl=3,16\)): \(F = 3{,}24\).

\[ F_{calc} = 7{,}80 > 3{,}24 \]

Rejeita-se \(H_0\) no nível de 5% de significância (p-valor = 0,002).

Interpretação clínica: existe pelo menos um grupo com resposta média diferente dos demais — os quatro esquemas (ou tratamentos) representados pelos grupos A, B, C e D não produzem, em média, o mesmo efeito.

A Anova aponta que existe diferença — mas não diz entre quais grupos especificamente. Para isso, usam-se testes de comparações múltiplas (não tratados aqui).

Coeficiente de Determinação em Anova

\[ R^2 = \frac{SQG}{SQT} \]

  • Mesma lógica do coeficiente de determinação usado em regressão (Bloco 3): a proporção da variação total que é explicada pela variação entre grupos.

Exemplo: Coeficiente de Determinação — Parte 1

Situação: ensaio fictício com dois grupos (A e B), 5 unidades cada.

Grupo A Grupo B
10 25
11 26
15 28
13 24
16 27
Causa de variação gl SQ QM F
Grupos 1 422,50 422,50 93,89
Resíduo 8 36,00 4,50
Total 9 458,50

Exemplo: Coeficiente de Determinação — Resolução

\[ R^2 = \frac{SQG}{SQT} = \frac{422{,}50}{458{,}50} = 0{,}9215 \]

\(R^2 = 92{,}15\%\)

Interpretação clínica: 92,15% da variação total dos dados é explicada apenas pela diferença entre os grupos A e B — a variabilidade dentro de cada grupo (resíduo) é pequena, o que reforça a evidência de que o tratamento (grupo) tem efeito real e forte sobre a resposta.

Coeficiente de Variação em Anova

\[ CV = \frac{\sqrt{QMR}}{\bar{x}_{geral}} \times 100\% \]

  • Mede a precisão do experimento — quanto menor o CV, mais preciso (controlado) foi o ensaio.
  • Ensaios de laboratório costumam ter CV bem menor do que ensaios de campo.

Exemplo: Coeficiente de Variação — Parte 1

Situação: quatro técnicos de laboratório medem a quantidade de fósforo (mg/g) em 20 amostras da mesma fonte, distribuídas aleatoriamente entre eles.

Técnico 1 Técnico 2 Técnico 3 Técnico 4
34 37 34 36
36 36 37 34
34 35 35 37
35 37 37 34
34 37 36 35
Causa de variação gl SQ QM F p-valor
Técnico 3 9,00 3,00 2,40 0,106
Resíduo 16 20,00 1,25
Total 19 29,00

Exemplo: Coeficiente de Variação — Resolução

Média geral: \(\bar{x}_{geral} = 35{,}5\) mg/g. \(QMR = 1{,}25\).

\[ CV = \frac{\sqrt{1{,}25}}{35{,}5} \times 100\% \approx 3{,}15\% \]

Interpretação: $F=2{,}40 < $ valor crítico (implícito no p-valor \(=0{,}106 > 0{,}05\)) → não se rejeita \(H_0\): não há evidência de diferença entre os técnicos na medição de fósforo.

Interpretação clínica/laboratorial: o CV de 3,15% indica boa precisão na técnica de dosagem — e a Anova confirma que os quatro técnicos produzem, em média, resultados equivalentes, o que é desejável para a padronização do laboratório.

Resumo do Bloco 1

Somas de quadrados: \[SQT = \sum x_i^2 - C \qquad SQG = \frac{\sum T_i^2}{r}-C\] \[SQR = SQT-SQG\]

Estatística de teste: \[F = \frac{QMG}{QMR} \qquad R^2=\frac{SQG}{SQT} \qquad CV=\frac{\sqrt{QMR}}{\bar{x}_{geral}}\]

Causa gl Interpretação
Grupos \(t-1\) Efeito do tratamento
Resíduo \(n-t\) Variação ao acaso

Da Comparação de Grupos à Relação entre Variáveis

  • A Anova respondeu: grupos diferem entre si?
  • Mas, e se quisermos saber se duas variáveis contínuas (não grupos categóricos) variam juntas — como peso e altura, ou idade e pressão arterial?

Próximo Bloco: Correlação

Bloco 2 — Correlação

Motivação: Relações entre Duas Variáveis na Saúde

  • Você sabe que o risco de câncer de pulmão aumenta conforme o tempo de tabagismo, e que a pressão arterial se eleva com a idade.
  • Essas observações revelam a consciência de que pode haver relação entre duas variáveis.
  • Este bloco mostra como quantificar essa relação de forma objetiva.

Diagrama de Dispersão

Definição

Diagrama de dispersão (scatterplot) é um gráfico que exibe a relação entre duas variáveis quantitativas — cada ponto representa um par de valores \((X,Y)\) medido na mesma unidade.

Exemplo: um fisioterapeuta mediu altura (X) e peso (Y) de 22 universitários.

Figura 2

  • Observando a figura, “vemos” a variação conjunta: pesos tendem a ser maiores quando as alturas são maiores.

Correlação Positiva e Correlação Negativa

Definição

Existe correlação quando os pontos do diagrama de dispersão formam uma nuvem em forma aproximada de elipse. É positiva quando X e Y crescem juntos; negativa quando X cresce e Y decresce.

Figura 3

Correlação Forte, Fraca e Nula

Definição

A correlação é forte quando os pontos formam uma elipse fechada em torno de uma reta; fraca quando a elipse é mais arredondada; nula quando os pontos estão totalmente dispersos.

Figura 4

Correlação Linear vs. Não Linear

Definição

A correlação é linear quando a nuvem de pontos se dispersa em torno de uma reta; é não linear quando se dispersa em torno de uma curva.

  • É possível ter correlação perfeita e, ainda assim, não linear — por exemplo, pontos alinhados perfeitamente sobre uma parábola.
  • Antes de calcular qualquer coeficiente, sempre desenhe o diagrama de dispersão primeiro.

Coeficiente de Correlação de Pearson

Definição

Coeficiente de correlação de Pearson (\(r\)) mede o grau de relação linear entre duas variáveis quantitativas.

\[ r = \frac{n\sum XY - \sum X \sum Y}{\sqrt{\left[n\sum X^2 - (\sum X)^2\right]\left[n\sum Y^2-(\sum Y)^2\right]}} \]

  • \(-1 \le r \le +1\). Se \(r=1\): correlação perfeita positiva. Se \(r=0\): correlação nula. Se \(r=-1\): correlação perfeita negativa.

Interpretação da Magnitude de r

Intensidade Intervalo (positivo) Intervalo (negativo)
Pequena \(0 < r < 0{,}25\) \(-0{,}25 < r < 0\)
Fraca \(0{,}25 \le r < 0{,}50\) \(-0{,}50 < r \le -0{,}25\)
Moderada \(0{,}50 \le r < 0{,}75\) \(-0{,}75 < r \le -0{,}50\)
Forte \(0{,}75 \le r < 1{,}00\) \(-1 < r \le -0{,}75\)
  • Nas ciências da saúde, coeficientes costumam ser menores do que nas ciências físicas, devido à grande variabilidade biológica.

Exemplo: Cálculo do Coeficiente de Correlação — Parte 1

Dados (Conjunto A):

\(X\) \(Y\) \(XY\) \(X^2\) \(Y^2\)
1 2 2 1 4
2 0 0 4 0
3 6 18 9 36
4 3 12 16 9
5 9 45 25 81
6 4 24 36 16
7 10 70 49 100
8 8 64 64 64
9 12 108 81 144
10 8 80 100 64

Exemplo: Cálculo do Coeficiente de Correlação — Parte 2

Somatórios (\(n=10\)):

\[ \sum X = 55 \qquad \sum Y = 62 \qquad \sum XY = 423 \qquad \sum X^2 = 385 \qquad \sum Y^2 = 518 \]

\[ r = \frac{10(423)-(55)(62)}{\sqrt{\left[10(385)-55^2\right]\left[10(518)-62^2\right]}} \]

Exemplo: Cálculo do Coeficiente de Correlação — Resolução

\[ r = \frac{4.230-3.410}{\sqrt{(3.850-3.025)(5.180-3.844)}} = \frac{820}{\sqrt{825 \times 1.336}} \approx 0{,}781 \]

Correlação positiva forte (\(0{,}75 \le r < 1{,}00\)).

Interpretação clínica/epidemiológica: as duas variáveis (X e Y) tendem fortemente a crescer juntas — conhecendo X, temos boa capacidade de prever a tendência de Y.

Exemplo: Correlação Negativa — Conjunto B

Mesmos valores de X, mas \(Y\) invertido: \(\sum Y=62\); \(\sum XY=259\); \(\sum Y^2=518\).

\[ r = \frac{10(259)-(55)(62)}{\sqrt{(3.850-3.025)(5.180-3.844)}} = \frac{-820}{\sqrt{825 \times 1.336}} \approx -0{,}781 \]

Correlação negativa forte.

Interpretação: aqui, quando X aumenta, Y tende fortemente a diminuir — por exemplo, poderia representar a relação entre horas de sedentarismo (X) e capacidade cardiorrespiratória (Y).

Pressupostos para o Cálculo de r

Para calcular corretamente o coeficiente de correlação, é necessário que:

  • Cada unidade da amostra forneça valores de ambas as variáveis, X e Y.
  • As unidades tenham sido selecionadas ao acaso, ou sejam representativas de uma população maior.
  • X e Y tenham sido medidas de forma independente.

Exemplo: Quando Não Calcular r

Situação: um professor quer correlacionar as notas de Matemática e Física de seus alunos — isso é válido, pois as notas são independentes entre si.

  • Porém, não faz sentido correlacionar a média final do curso com a nota de qualquer disciplina que compôs essa média — elas não são independentes (a nota de Matemática entra no cálculo da média final).

Regra prática: sempre pergunte se uma variável foi calculada, em parte, a partir da outra.

Cuidados na Interpretação: Correlação Não Implica Causalidade

  • Uma correlação positiva mostra que duas variáveis crescem no mesmo sentido — não que uma causa o crescimento da outra.
  • Uma correlação negativa mostra apenas que variam em sentidos opostos — não implica relação causal.
  • É possível existir uma relação de causa e efeito real, mas a correlação sozinha nunca prova isso.

Correlação não é causa.

Exemplo Clássico: Correlação Espúria

Caso histórico: na década de 1930, em uma cidade da Dinamarca, à medida que aumentava o número de cegonhas, o número de recém-nascidos também aumentava.

  • Existe correlação entre as duas variáveis — mas não há relação de causa e efeito entre cegonhas e nascimentos.
  • A explicação real: uma terceira variável (o tamanho da cidade) afeta ambas — cidades maiores têm mais nascimentos e mais casas com chaminés, onde cegonhas fazem ninhos.

Lição para a saúde: sempre pergunte se existe uma terceira variável (fator de confusão) por trás de uma correlação observada.

Resumo do Bloco 2

\[ r = \frac{n\sum XY-\sum X \sum Y}{\sqrt{\left[n\sum X^2-(\sum X)^2\right]\left[n\sum Y^2-(\sum Y)^2\right]}} \]

  • \(-1 \le r \le 1\); interpretar magnitude com a escala pequena/fraca/moderada/forte.
  • Sempre desenhar o diagrama de dispersão antes de calcular \(r\).
  • Correlação não implica causalidade — cuidado com variáveis de confusão.

Da Correlação à Previsão

  • A correlação nos diz o quão forte é a relação entre duas variáveis.
  • Mas, se quisermos usar uma variável para prever valores da outra — não apenas descrever a relação — precisamos de outra ferramenta.

Próximo Bloco: Regressão

Bloco 3 — Regressão

Motivação: Da Correlação à Previsão

  • Na área da saúde, é comum encontrar variáveis que explicam a variação de outra: idade, peso, hábito de fumar e colesterol explicam a pressão arterial.
  • A variável que explica é chamada variável explicativa (X); a que é explicada, variável resposta (Y).
Variável Explicativa (X) ex.: peso, idade, tempo Variável Resposta (Y) ex.: pressão arterial

Análise de Regressão — Definição

Definição

Análise de regressão é um método estatístico que possibilita examinar o efeito de uma (ou mais) variável explicativa sobre uma variável resposta.

  • Neste bloco: regressão linear simples — uma única variável explicativa X, relação em linha reta com Y.

Equação da Reta

\[ Y = a + bX \]

  • \(a\) é o coeficiente linear: altura em que a reta corta o eixo Y.
    • Positivo → corta acima da origem. Negativo → corta abaixo. Zero → passa pela origem.
  • \(b\) é o coeficiente angular: inclinação da reta.
    • Positivo → reta ascendente. Negativo → reta descendente. Zero → reta horizontal (paralela ao eixo X).

A Reta de Regressão — Ideia de Ajuste

  • Em Matemática, uma reta passa exatamente por dois pontos. Em Estatística, temos uma nuvem de pontos.
  • A reta de regressão é a reta que melhor descreve o conjunto de pontos \((X,Y)\) — ela passa entre os pontos, minimizando o total dos erros de previsão.

Fórmulas dos Coeficientes de Regressão

\[ b = \frac{n\sum XY - \sum X \sum Y}{n \sum X^2 - (\sum X)^2} \]

\[ a = \bar{Y} - b\bar{X} \]

  • \(\bar{X}\) e \(\bar{Y}\) são as médias de X e de Y, respectivamente.

Exemplo: Cálculo dos Coeficientes — Parte 1

Situação: quantidade de procaína hidrolisada (Y, em 10 mol/l) no plasma humano, em função do tempo decorrido (X, em minutos).

\(X\) (min) \(Y\) \(XY\) \(X^2\)
2 3,5 7,0 4
3 5,7 17,1 9
5 9,9 49,5 25
8 16,3 130,4 64
10 19,3 193,0 100
12 25,7 308,4 144
14 28,2 394,8 196
15 32,6 489,0 225

Exemplo: Cálculo dos Coeficientes — Parte 2

Somatórios (\(n=8\)):

\[ \sum X = 69 \qquad \sum Y = 141{,}2 \qquad \sum XY = 1.589{,}2 \qquad \sum X^2 = 767 \]

\[ b = \frac{8(1.589{,}2) - (69)(141{,}2)}{8(767)-69^2} \]

Exemplo: Cálculo dos Coeficientes — Resolução

\[ b = \frac{12.713{,}6 - 9.742{,}8}{6.136-4.761} = \frac{2.970{,}8}{1.375} \approx 2{,}161 \]

\[ \bar{X} = \frac{69}{8}=8{,}625 \qquad \bar{Y}=\frac{141{,}2}{8}=17{,}65 \]

\[ a = 17{,}65 - 2{,}161 \times 8{,}625 \approx -0{,}985 \]

\[ \hat{Y} = -0{,}985 + 2{,}161X \]

Exemplo: Estimando Valores de Y

A equação permite estimar Y para qualquer X dentro do intervalo estudado (2 a 15 minutos):

\[ X=5: \quad \hat{Y} = -0{,}985+2{,}161(5) = 9{,}82 \]

\[ X=13: \quad \hat{Y} = -0{,}985+2{,}161(13) = 27{,}10 \]

\[ X=15: \quad \hat{Y} = -0{,}985+2{,}161(15) = 31{,}42 \]

Interpretação farmacológica: mesmo sem medir diretamente aos 13 minutos, podemos estimar que cerca de 27,10 (×10 mol/l) de procaína já estará hidrolisada no plasma.

Visualizando a Reta de Regressão

Figura 5

Condições para o Ajuste da Regressão Linear Simples

Para ajustar uma regressão linear simples, é preciso que:

  • As variáveis em estudo sejam contínuas.
  • A relação entre as duas variáveis seja linear (verifique sempre com o diagrama de dispersão).
  • As observações sejam independentes.

Exemplo: Quando a Regressão Não Faz Sentido

Situação: 10 alunos fizeram duas provas. O professor quer prever a nota da 2ª prova a partir da 1ª — mas os pontos, no diagrama de dispersão, estão muito dispersos (sem relação linear aparente).

  • Além disso, seria errado tentar prever a média das duas provas a partir da nota da 1ª prova — a média depende diretamente da nota da 1ª prova, violando a condição de independência.

Regra prática: assim como na correlação, nunca regrida uma variável contra outra da qual ela depende matematicamente.

Escolha da Variável Explicativa

  • Quando os valores de X são fixados antes da coleta (como o tempo no exemplo da procaína), ajusta-se Y contra X.
  • Quando isso não é claro, identifique qual variável você quer prever — e ajuste essa variável (resposta) contra a outra (explicativa).

Exemplo: ajuste a pressão arterial (Y) contra o peso (X) de cães — é o peso que pode explicar a pressão, não o contrário.

Exemplo: Peso e Pressão Arterial em Cães — Parte 1

Situação: peso (kg) e pressão arterial (mmHg) de 30 cães adultos.

\[ \sum X = 587 \qquad \sum Y = 3.473 \qquad n=30 \]

\[ b = \frac{n\sum XY-\sum X \sum Y}{n\sum X^2-(\sum X)^2} \approx 1{,}846 \]

\[ a = \bar{Y}-b\bar{X} \approx 79{,}64 \]

\[ \hat{Y} = 79{,}64 + 1{,}846X \]

Exemplo: Peso e Pressão Arterial em Cães — Resolução

Figura 6

Interpretação clínica/veterinária: a reta mostra tendência de a pressão aumentar com o peso, mas os pontos estão muito dispersos — a previsão tem grande margem de erro.

Extrapolação — Cuidados

  • A equação da reta permite calcular Y para qualquer X — mas isso não significa que devemos fazê-lo sem critério.
  • Nunca estime Y para valores de X muito além do intervalo estudado: a relação pode não ser linear fora dele.

Exemplo: Extrapolação Indevida

Situação: temperaturas médias mensais (jan–jul) de uma cidade do Sul do Brasil, decrescendo ao longo do semestre.

Figura 7

  • Extrapolar essa reta para dezembro (mês 12) resulta em temperatura negativa — absurdo, pois o fenômeno é cíclico (estações do ano), não linear ao longo de todo o ano.

Coeficiente de Determinação em Regressão

\[ R^2 = r^2 \]

Definição

O coeficiente de determinação é a proporção da variação de Y que é explicada pela variação de X.

  • Varia entre 0 e 1 (ou 0% a 100%). É simplesmente o quadrado do coeficiente de correlação de Pearson visto no Bloco 2.

Exemplo: Cálculo do R² — Comparando os Dois Exemplos

Procaína (tempo × hidrólise): \(r \approx 0{,}997\)

\[ R^2 = (0{,}997)^2 \approx 0{,}994 = 99{,}4\% \]

Peso × Pressão Arterial (cães): \(r \approx 0{,}516\)

\[ R^2 = (0{,}516)^2 \approx 0{,}266 = 26{,}6\% \]

Interpretação clínica: no primeiro caso, o tempo quase totalmente explica a hidrólise da procaína. No segundo, o peso explica só 26,6% da variação da pressão arterial — fatores como idade, sedentarismo e hereditariedade também importam.

Regressão Não Linear — Panorama

Nem toda relação entre X e Y é uma reta. Alguns modelos alternativos comuns:

Modelo Equação
Exponencial \(Y = ae^{bX}\)
Logarítmico \(Y = \alpha + \beta \log X\)
Potência \(Y = \alpha X^{\beta}\)
  • Sempre desenhe o diagrama de dispersão primeiro — se os pontos não se distribuem em torno de uma reta, considere um desses modelos.

Transformação de Variáveis

  • Uma forma comum de ajustar um modelo não linear é transformar uma das variáveis (ex.: aplicar logaritmo) para tornar a relação linear.
  • Exemplo: se \(Y=ae^{bX}\), aplicando logaritmo natural: \(\ln Y = \ln a + bX\) — agora é uma reta de \(\ln Y\) contra \(X\).

✅ Após ajustar a reta na escala transformada, os coeficientes originais (\(a\) e \(b\)) podem ser recuperados.

Resumo do Bloco 3

Coeficientes da reta: \[b = \frac{n\sum XY-\sum X\sum Y}{n\sum X^2-(\sum X)^2}\] \[a = \bar{Y}-b\bar{X}\]

Coeficiente de determinação: \[R^2 = r^2\]

Cuidado: nunca extrapole além do intervalo estudado.

Síntese Geral

Do Delineamento Experimental à Previsão Clínica

Anova Grupos diferem entre si? Correlação Qual o grau de relação? Regressão Previsão de Y a partir de X Os três métodos decompõem a variação total dos dados em partes explicadas e residuais

Síntese das Fórmulas-Chave

Anova: \[F = \frac{QMG}{QMR} \qquad R^2_{Anova} = \frac{SQG}{SQT}\]

Correlação: \[r = \frac{n\sum XY-\sum X\sum Y}{\sqrt{[n\sum X^2-(\sum X)^2][n\sum Y^2-(\sum Y)^2]}}\]

Regressão: \[b = \frac{n\sum XY-\sum X\sum Y}{n\sum X^2-(\sum X)^2} \qquad a = \bar{Y}-b\bar{X}\]

\[R^2_{regressão} = r^2\]

Referências Bibliográficas

VIEIRA, Sonia. Introdução à Bioestatística. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.

Capítulos utilizados:

  • Capítulo 13 — Análise de Variância (Anova)
  • Capítulo 5 — Correlação
  • Capítulo 6 — Noções sobre Regressão

Fonte adicional citada:

ZAR, J. H. Biostatistical Analysis. 4. ed. Upper Saddle River: Prentice Hall, 1999.