Introdução
A tuberculose (TB) permanece como uma das doenças infecciosas mais letais do mundo, representando um grave desafio para a saúde pública global e nacional. No Brasil, o monitoramento da mortalidade associada à TB baseia-se tradicionalmente na identificação da doença como causa básica do óbito. Contudo, a análise isolada da causa básica tende a subestimar a real magnitude do agravo, negligenciando o papel da tuberculose como uma causa associada (comorbidade ou condição contribuinte) em indivíduos que faleceram por outras razões principais, como a coinfecção pelo HIV. Investigar quem são as pessoas que morrem por tuberculose e com tuberculose é fundamental para compreender a vulnerabilidade social e clínica dessa população, permitindo o aprimoramento de políticas públicas mais eficazes de prevenção e assistência.
Metodologia
O presente estudo é de caráter epidemiológico, descritivo, de corte transversal, utilizando dados secundários de mortalidade. O estudo abrangeu a população residente e que evoluiu para óbito no estado do Rio de Janeiro, cujas Declarações de Óbito (DOs) apresentaram qualquer menção à tuberculose no ano de 2024.
Os dados brutos foram obtidos a partir do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do DATASUS. Foram extraídas e tratadas as seguintes variáveis: - Identificação da Tuberculose (CID-10): Códigos de A15 a A19. Foi criada a variável mencao_tb para classificar o óbito em: “Causa básica por TB” (quando o código principal estava na linha de causa básica), “Causa associada por TB” (quando a TB foi identificada em qualquer uma das outras linhas da DO: A, B, C, D ou II) ou “Não teve menção de TB”.
Geográficas: Município de residência, posteriormente categorizado em “Capital” ou “Interior” a partir dos primeiros 6 dígitos do código IBGE.
Sociodemográficas: Sexo, Raça/cor (Branca, Preta /Parda, Outras), Escolaridade (Sem escolaridade, Fundamental, Médio, Superior) e Idade (categorizada nas faixas etárias: 0-14 anos, 15-19 anos, 20-29 anos, 30-49 anos, 50-64 anos, 65 anos ou mais).
Temporais e Clínicas: Mês do óbito e Local de ocorrência (Hospital, Outros estabelecimentos de Saúde e Outros).
A análise foi executada no software R através do ambiente RMarkdown, utilizando pacotes específicos para importação, limpeza, manipulação e organização das informações. Realizou-se a filtragem da base para selecionar estritamente os registros que continham “Causa básica por TB” ou “Causa associada por TB”. Os dados foram limpos e reclassificados, convertendo categorias ignoradas em valores nulos (NA) e redefinindo níveis faltantes explicitamente como “Sem preenchimento”. Foram geradas tabelas de contingência utilizando o desfecho (mencao_tb) cruzado com as variáveis independentes, acompanhadas de gráficos univariados e bivariados para a visualização da distribuição do perfil epidemiológico.
Contribuições
Bruna Barros: Manipulação dos dados (Script) e gráficos pizza e de linhas (RMarkdown)
Bruna Camelo: Limpeza dos dados (Script) e gráficos de barras verticais (RMarkdown)
Giovanna Ismerim: Limpeza dos dados (Script) e gráficos de barras horizontais (RMarkdown)
Todas contribuíram na parte textual e na análise dos gráficos.
Tabela 1 - Características gerais dos óbitos por tuberculose, Rio de Janeiro, 2024.
| Características | Total1 | Menção a TB | p-valor2 | |
|---|---|---|---|---|
| Causa associada, N = 4411 | Causa básica, N = 8291 | |||
| Sexo | 0,002 | |||
| 0 | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | |
| Masculino | 889 (70,0%) | 284 (64,4%) | 605 (73,0%) | |
| Feminino | 381 (30,0%) | 157 (35,6%) | 224 (27,0%) | |
| Raça/cor | 0,3 | |||
| Branca | 324 (25,5%) | 109 (24,7%) | 215 (25,9%) | |
| Preta/Parda | 936 (73,7%) | 326 (73,9%) | 610 (73,6%) | |
| Outras | 2 (0,2%) | 1 (0,2%) | 1 (0,1%) | |
| Sem preenchimento | 8 (0,6%) | 5 (1,1%) | 3 (0,4%) | |
| Escolaridade | <0,001 | |||
| Sem escolaridade | 90 (7,1%) | 22 (5,0%) | 68 (8,2%) | |
| Fundamental | 701 (55,2%) | 219 (49,7%) | 482 (58,1%) | |
| Médio | 269 (21,2%) | 111 (25,2%) | 158 (19,1%) | |
| Superior | 47 (3,7%) | 24 (5,4%) | 23 (2,8%) | |
| Sem preenchimento | 163 (12,8%) | 65 (14,7%) | 98 (11,8%) | |
| Local de ocorrência | 0,007 | |||
| Hospital | 874 (68,8%) | 324 (73,5%) | 550 (66,3%) | |
| Outros estabelecimentos de saúde | 279 (22,0%) | 75 (17,0%) | 204 (24,6%) | |
| Outros | 117 (9,2%) | 42 (9,5%) | 75 (9,0%) | |
| NA | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | |
| Faixa Etária | <0,001 | |||
| 0-19 | 28 (2,2%) | 12 (2,7%) | 16 (1,9%) | |
| 20-29 | 130 (10,2%) | 54 (12,2%) | 76 (9,2%) | |
| 30-49 | 439 (34,6%) | 207 (46,9%) | 232 (28,0%) | |
| 50-64 | 333 (26,2%) | 100 (22,7%) | 233 (28,1%) | |
| 65 ou mais | 340 (26,8%) | 68 (15,4%) | 272 (32,8%) | |
| Capital e Interior | 0,004 | |||
| Capital | 803 (63,2%) | 303 (68,7%) | 500 (60,3%) | |
| Interior | 185 (14,6%) | 62 (14,1%) | 123 (14,8%) | |
| Sem preenchimento | 282 (22,2%) | 76 (17,2%) | 206 (24,8%) | |
| Mês do óbito | 0,4 | |||
| Janeiro | 106 (8,3%) | 33 (7,5%) | 73 (8,8%) | |
| Fevereiro | 111 (8,7%) | 34 (7,7%) | 77 (9,3%) | |
| Março | 126 (9,9%) | 34 (7,7%) | 92 (11,1%) | |
| Abril | 106 (8,3%) | 35 (7,9%) | 71 (8,6%) | |
| Maio | 109 (8,6%) | 38 (8,6%) | 71 (8,6%) | |
| Junho | 106 (8,3%) | 39 (8,8%) | 67 (8,1%) | |
| Julho | 114 (9,0%) | 48 (10,9%) | 66 (8,0%) | |
| Agosto | 111 (8,7%) | 35 (7,9%) | 76 (9,2%) | |
| Setembro | 87 (6,9%) | 32 (7,3%) | 55 (6,6%) | |
| Outubro | 100 (7,9%) | 43 (9,8%) | 57 (6,9%) | |
| Novembro | 89 (7,0%) | 31 (7,0%) | 58 (7,0%) | |
| Dezembro | 105 (8,3%) | 39 (8,8%) | 66 (8,0%) | |
| 1 n (%) | ||||
| 2 Fisher’s exact test; Pearson’s Chi-squared test | ||||
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.
Figura 1 - Distribuição de óbitos por
sexo, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
A Figura 1 demonstra predominância dos óbitos entre indivíduos do sexo masculino, correspondendo a 70% dos registros analisados. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de que os homens apresentam, em geral, menor procura pelos serviços de saúde, resultando em diagnóstico e início do tratamento mais tardios. Além disso, fatores comportamentais, como maior frequência de tabagismo, consumo de álcool e exposição a condições de vulnerabilidade social, também podem contribuir para o aumento da mortalidade por tuberculose.
Figura 2 - Distribuição de óbitos por
raça/cor, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Observou-se maior concentração de óbitos entre indivíduos de raça/cor autodeclarada preta/parda (n= 936). Esse resultado pode ser reflexo de desigualdades sociais e raciais presentes no país.
Figura 3 - Distribuição de óbitos por
escolaridade, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Na Figura 3, os indivíduos, em sua maioria, possuem ensino fundamental como maior nível de escolaridade (n= 701). Seguido daqueles com ensino médio (n= 269), sem escolaridade (n= 90) e com ensino superior (n= 47), representando a menor parcela entre os óbitos. A baixa escolaridade é considerada um importante indicador das condições socioeconômicas e pode estar associada a menor acesso à informação sobre prevenção, dificuldades no acesso aos serviços de saúde e menor adesão ao tratamento, fatores que favorecem o agravamento da doença.
Figura 4 - Distribuição de óbitos por
local de ocorrência, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Os óbitos ocorreram predominantemente em ambiente hospitalar (n= 874). Esse resultado pode indicar que muitos indivíduos foram hospitalizados devido ao agravamento do quadro clínico ou apresentavam comorbidades importantes, necessitando de assistência de maior complexidade antes do óbito.
Figura 5 - Distribuição de óbitos por
faixa etária, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Os óbitos concentraram-se principalmente entre adultos maiores de 30 anos (n= 772) e idosos com 65+ anos (n= 340). Entre os idosos, fatores como maior presença de doenças crônicas e fragilidades clínicas podem contribuir para maior risco de evolução desfavorável. Já entre adultos, a elevada frequência pode refletir a maior exposição aos determinantes sociais da doença e à coinfecção com HIV, especialmente nas faixas etárias economicamente ativas.
Figura 6 - Distribuição de óbitos por
local de residência, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
A capital concentrou a maior parte dos óbitos com 81,3%. Esse resultado pode ser explicado pela maior densidade populacional, intensa urbanização e maior concentração de serviços de saúde especializados, onde também ocorre maior registro e investigação dos óbitos.
Figura 7 - Distribuição de óbitos por
mês, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Os óbitos apresentaram distribuição relativamente homogênea durante os meses do ano, sem evidência de sazonalidade importante. Esse comportamento sugere que a mortalidade por tuberculose ocorre de forma contínua ao longo do ano.
Figura 8 - Distribuição de óbitos por
menção a tuberculose, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
A Figura 8 apresenta a distribuição percentual total dos óbitos com menção à tuberculose no Rio de Janeiro durante o ano de 2024. Os dados demonstram que a maioria dos óbitos (65,3%) teve a tuberculose classificada como a causa básica.
Figura 1 - Distribuição de óbitos por
sexo e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Ao comparar sexo segundo tipo de menção à tuberculose, o sexo masculino continua predominando em ambos. Os classificados como causa básica contam com 605 óbitos e os classificados como causa associada com 284; em contraponto ao sexo feminino com 224 e 157 óbitos, respectivamente.
Figura 2 - Distribuição de óbitos por
raça/cor e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
A distribuição por raça/cor manteve padrão semelhante entre os dois grupos, com maioria de óbitos entre indivíduos pretos e pardos independente da menção da tuberculose como causa básica (n= 610) e associada (n= 326).
Figura 3 - Distribuição de óbitos por
escolaridade e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Na comparação entre os grupos, o maior número de óbitos entre ambas as causas (básica ou associada) foram de indivíduos com ensino fundamental (n= 482; n= 219). Chama atenção a semelhança do número de óbitos entre os grupos com ensino médio (n= 158; n=111) e superior (n= 23; n= 24) em ambas as causas, em contraponto com indíviduos sem escolaridade (n= 68; n= 22).
Figura 4 - Distribuição de óbitos por
local de ocorrência e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
Os óbitos ocorreram predominantemente em hospitais em ambas as classificações do tipo de menção ao óbito (n= 550; n= 324), embora tenham sido observadas diferenças relevantes entre os demais locais de ocorrências (outros estabelecimentos de saúde e outros)
Figura 5 - Distribuição de óbitos por
faixa etária e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
A análise comparativa revelou diferenças no perfil etário entre os grupos. Os óbitos com tuberculose como causa associada concentraram-se principalmente entre adultos de 30 a 49 anos (n=207), enquanto os óbitos por causa básica apresentaram maior frequência entre indivíduos com 65 anos ou mais (n=272).
Figura 6 - Distribuição de óbitos por
local de residência e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
A distribuição dos óbitos segundo o local de residência mostrou que a maioria dos óbitos ocorrem na capital, independente do tipo de menção ao óbito, mantendo o mesmo padrão.
Figura 7 - Distribuição de óbitos por
mês e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024.
Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de
Mortalidade - DOSIM.
A Figura 7 evidencia que, ao longo de 2024 no Rio de Janeiro, a tuberculose atuou predominantemente como a causa básica dos óbitos, mantendo-se consistentemente superior aos registros em que a doença foi classificada como causa associada. Ambas as curvas mantém números semelhantes durante todo o ano, sem mostrar relação dos óbitos com a sazonalidade.
Considerações finais
A análise dos óbitos ocorridos no estado do Rio de Janeiro em 2024 evidenciou que a tuberculose atua predominantemente como causa básica (65,3%), entretanto mantém parcela como causa associada (34,7%). O perfil mais vulnerável corresponde aos indivíduos do sexo masculino, pretos e pardos, com baixo nível de escolaridade e concentrados na capital fluminense. Além disso, o estudo demonstrou que a população na faixa etária de 30 a 49 anos sofre um impacto desproporcional da tuberculose como causa associada, em oposição ao perfil das faixas etárias acima, 50 a 64 anos e 65 ou mais, onde a tuberculose atua diretamente como a causa básica do óbito. A elevada distribuição de óbitos registrados em ambiente hospitalar eleva a atenção sobre as deficiências no diagnóstico precoce da tuberculose, assim como, a análise geral dos óbitos reforça a necessidade de aprimoramento quanto ao preenchimento de dados secundários.