Mortalidade por Tuberculose no ERJ- 2024

Introdução

A tuberculose (TB) permanece como uma das doenças infecciosas mais letais do mundo, representando um grave desafio para a saúde pública global e nacional. No Brasil, o monitoramento da mortalidade associada à TB baseia-se tradicionalmente na identificação da doença como causa básica do óbito. Contudo, a análise isolada da causa básica tende a subestimar a real magnitude do agravo, negligenciando o papel da tuberculose como uma causa associada (comorbidade ou condição contribuinte) em indivíduos que faleceram por outras razões principais, como a coinfecção pelo HIV. Investigar quem são as pessoas que morrem por tuberculose e com tuberculose é fundamental para compreender a vulnerabilidade social e clínica dessa população, permitindo o aprimoramento de políticas públicas mais eficazes de prevenção e assistência.

Metodologia

O presente estudo é de caráter epidemiológico, descritivo, de corte transversal, utilizando dados secundários de mortalidade. O estudo abrangeu a população residente e que evoluiu para óbito no estado do Rio de Janeiro, cujas Declarações de Óbito (DOs) apresentaram qualquer menção à tuberculose no ano de 2024.

Os dados brutos foram obtidos a partir do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do DATASUS. Foram extraídas e tratadas as seguintes variáveis: - Identificação da Tuberculose (CID-10): Códigos de A15 a A19. Foi criada a variável mencao_tb para classificar o óbito em: “Causa básica por TB” (quando o código principal estava na linha de causa básica), “Causa associada por TB” (quando a TB foi identificada em qualquer uma das outras linhas da DO: A, B, C, D ou II) ou “Não teve menção de TB”.

A análise foi executada no software R através do ambiente RMarkdown, utilizando pacotes específicos para importação, limpeza, manipulação e organização das informações. Realizou-se a filtragem da base para selecionar estritamente os registros que continham “Causa básica por TB” ou “Causa associada por TB”. Os dados foram limpos e reclassificados, convertendo categorias ignoradas em valores nulos (NA) e redefinindo níveis faltantes explicitamente como “Sem preenchimento”. Foram geradas tabelas de contingência utilizando o desfecho (mencao_tb) cruzado com as variáveis independentes, acompanhadas de gráficos univariados e bivariados para a visualização da distribuição do perfil epidemiológico.

Contribuições

Bruna Barros: Manipulação dos dados (Script) e gráficos pizza e de linhas (RMarkdown)

Bruna Camelo: Limpeza dos dados (Script) e gráficos de barras verticais (RMarkdown)

Giovanna Ismerim: Limpeza dos dados (Script) e gráficos de barras horizontais (RMarkdown)

Todas contribuíram na parte textual e na análise dos gráficos.

Características gerais

Tabela 1 - Características gerais dos óbitos por tuberculose, Rio de Janeiro, 2024.

Características Total1 Menção a TB p-valor2
Causa associada, N = 4411 Causa básica, N = 8291
Sexo 0,002
    0 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%)
    Masculino 889 (70,0%) 284 (64,4%) 605 (73,0%)
    Feminino 381 (30,0%) 157 (35,6%) 224 (27,0%)
Raça/cor 0,3
    Branca 324 (25,5%) 109 (24,7%) 215 (25,9%)
    Preta/Parda 936 (73,7%) 326 (73,9%) 610 (73,6%)
    Outras 2 (0,2%) 1 (0,2%) 1 (0,1%)
    Sem preenchimento 8 (0,6%) 5 (1,1%) 3 (0,4%)
Escolaridade <0,001
    Sem escolaridade 90 (7,1%) 22 (5,0%) 68 (8,2%)
    Fundamental 701 (55,2%) 219 (49,7%) 482 (58,1%)
    Médio 269 (21,2%) 111 (25,2%) 158 (19,1%)
    Superior 47 (3,7%) 24 (5,4%) 23 (2,8%)
    Sem preenchimento 163 (12,8%) 65 (14,7%) 98 (11,8%)
Local de ocorrência 0,007
    Hospital 874 (68,8%) 324 (73,5%) 550 (66,3%)
    Outros estabelecimentos de saúde 279 (22,0%) 75 (17,0%) 204 (24,6%)
    Outros 117 (9,2%) 42 (9,5%) 75 (9,0%)
    NA 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%)
Faixa Etária <0,001
    0-19 28 (2,2%) 12 (2,7%) 16 (1,9%)
    20-29 130 (10,2%) 54 (12,2%) 76 (9,2%)
    30-49 439 (34,6%) 207 (46,9%) 232 (28,0%)
    50-64 333 (26,2%) 100 (22,7%) 233 (28,1%)
    65 ou mais 340 (26,8%) 68 (15,4%) 272 (32,8%)
Capital e Interior 0,004
    Capital 803 (63,2%) 303 (68,7%) 500 (60,3%)
    Interior 185 (14,6%) 62 (14,1%) 123 (14,8%)
    Sem preenchimento 282 (22,2%) 76 (17,2%) 206 (24,8%)
Mês do óbito 0,4
    Janeiro 106 (8,3%) 33 (7,5%) 73 (8,8%)
    Fevereiro 111 (8,7%) 34 (7,7%) 77 (9,3%)
    Março 126 (9,9%) 34 (7,7%) 92 (11,1%)
    Abril 106 (8,3%) 35 (7,9%) 71 (8,6%)
    Maio 109 (8,6%) 38 (8,6%) 71 (8,6%)
    Junho 106 (8,3%) 39 (8,8%) 67 (8,1%)
    Julho 114 (9,0%) 48 (10,9%) 66 (8,0%)
    Agosto 111 (8,7%) 35 (7,9%) 76 (9,2%)
    Setembro 87 (6,9%) 32 (7,3%) 55 (6,6%)
    Outubro 100 (7,9%) 43 (9,8%) 57 (6,9%)
    Novembro 89 (7,0%) 31 (7,0%) 58 (7,0%)
    Dezembro 105 (8,3%) 39 (8,8%) 66 (8,0%)
1 n (%)
2 Fisher’s exact test; Pearson’s Chi-squared test

Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Gráficos

Óbitos Totais de Tuberculose

Sexo

Figura 1 - Distribuição de óbitos por sexo, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

A Figura 1 demonstra predominância dos óbitos entre indivíduos do sexo masculino, correspondendo a 70% dos registros analisados. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de que os homens apresentam, em geral, menor procura pelos serviços de saúde, resultando em diagnóstico e início do tratamento mais tardios. Além disso, fatores comportamentais, como maior frequência de tabagismo, consumo de álcool e exposição a condições de vulnerabilidade social, também podem contribuir para o aumento da mortalidade por tuberculose.

Raça/cor

Figura 2 - Distribuição de óbitos por raça/cor, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Observou-se maior concentração de óbitos entre indivíduos de raça/cor autodeclarada preta/parda (n= 936). Esse resultado pode ser reflexo de desigualdades sociais e raciais presentes no país.

Escolaridade

Figura 3 - Distribuição de óbitos por escolaridade, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Na Figura 3, os indivíduos, em sua maioria, possuem ensino fundamental como maior nível de escolaridade (n= 701). Seguido daqueles com ensino médio (n= 269), sem escolaridade (n= 90) e com ensino superior (n= 47), representando a menor parcela entre os óbitos. A baixa escolaridade é considerada um importante indicador das condições socioeconômicas e pode estar associada a menor acesso à informação sobre prevenção, dificuldades no acesso aos serviços de saúde e menor adesão ao tratamento, fatores que favorecem o agravamento da doença.

Local de ocorrência

Figura 4 - Distribuição de óbitos por local de ocorrência, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Os óbitos ocorreram predominantemente em ambiente hospitalar (n= 874). Esse resultado pode indicar que muitos indivíduos foram hospitalizados devido ao agravamento do quadro clínico ou apresentavam comorbidades importantes, necessitando de assistência de maior complexidade antes do óbito.

Faixa etária

Figura 5 - Distribuição de óbitos por faixa etária, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Os óbitos concentraram-se principalmente entre adultos maiores de 30 anos (n= 772) e idosos com 65+ anos (n= 340). Entre os idosos, fatores como maior presença de doenças crônicas e fragilidades clínicas podem contribuir para maior risco de evolução desfavorável. Já entre adultos, a elevada frequência pode refletir a maior exposição aos determinantes sociais da doença e à coinfecção com HIV, especialmente nas faixas etárias economicamente ativas.

Capital X Interior

Figura 6 - Distribuição de óbitos por local de residência, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

A capital concentrou a maior parte dos óbitos com 81,3%. Esse resultado pode ser explicado pela maior densidade populacional, intensa urbanização e maior concentração de serviços de saúde especializados, onde também ocorre maior registro e investigação dos óbitos.

Mês do óbito

Figura 7 - Distribuição de óbitos por mês, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Os óbitos apresentaram distribuição relativamente homogênea durante os meses do ano, sem evidência de sazonalidade importante. Esse comportamento sugere que a mortalidade por tuberculose ocorre de forma contínua ao longo do ano.

Menção a TB

Figura 8 - Distribuição de óbitos por menção a tuberculose, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

A Figura 8 apresenta a distribuição percentual total dos óbitos com menção à tuberculose no Rio de Janeiro durante o ano de 2024. Os dados demonstram que a maioria dos óbitos (65,3%) teve a tuberculose classificada como a causa básica.

Óbitos Totais por tipo de causa

Sexo

Figura 1 - Distribuição de óbitos por sexo e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Ao comparar sexo segundo tipo de menção à tuberculose, o sexo masculino continua predominando em ambos. Os classificados como causa básica contam com 605 óbitos e os classificados como causa associada com 284; em contraponto ao sexo feminino com 224 e 157 óbitos, respectivamente.

Raça/cor

Figura 2 - Distribuição de óbitos por raça/cor e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

A distribuição por raça/cor manteve padrão semelhante entre os dois grupos, com maioria de óbitos entre indivíduos pretos e pardos independente da menção da tuberculose como causa básica (n= 610) e associada (n= 326).

Escolaridade

Figura 3 - Distribuição de óbitos por escolaridade e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Na comparação entre os grupos, o maior número de óbitos entre ambas as causas (básica ou associada) foram de indivíduos com ensino fundamental (n= 482; n= 219). Chama atenção a semelhança do número de óbitos entre os grupos com ensino médio (n= 158; n=111) e superior (n= 23; n= 24) em ambas as causas, em contraponto com indíviduos sem escolaridade (n= 68; n= 22).

Local de ocorrência

Figura 4 - Distribuição de óbitos por local de ocorrência e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

Os óbitos ocorreram predominantemente em hospitais em ambas as classificações do tipo de menção ao óbito (n= 550; n= 324), embora tenham sido observadas diferenças relevantes entre os demais locais de ocorrências (outros estabelecimentos de saúde e outros)

Faixa etária

Figura 5 - Distribuição de óbitos por faixa etária e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

A análise comparativa revelou diferenças no perfil etário entre os grupos. Os óbitos com tuberculose como causa associada concentraram-se principalmente entre adultos de 30 a 49 anos (n=207), enquanto os óbitos por causa básica apresentaram maior frequência entre indivíduos com 65 anos ou mais (n=272).

Capital X Interior

Figura 6 - Distribuição de óbitos por local de residência e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

A distribuição dos óbitos segundo o local de residência mostrou que a maioria dos óbitos ocorrem na capital, independente do tipo de menção ao óbito, mantendo o mesmo padrão.

Mês do óbito

Figura 7 - Distribuição de óbitos por mês e tipo de causa, Rio de Janeiro, 2024. Fonte: Declarações de Óbito do Sistema de Informação de Mortalidade - DOSIM.

A Figura 7 evidencia que, ao longo de 2024 no Rio de Janeiro, a tuberculose atuou predominantemente como a causa básica dos óbitos, mantendo-se consistentemente superior aos registros em que a doença foi classificada como causa associada. Ambas as curvas mantém números semelhantes durante todo o ano, sem mostrar relação dos óbitos com a sazonalidade.

Considerações finais

A análise dos óbitos ocorridos no estado do Rio de Janeiro em 2024 evidenciou que a tuberculose atua predominantemente como causa básica (65,3%), entretanto mantém parcela como causa associada (34,7%). O perfil mais vulnerável corresponde aos indivíduos do sexo masculino, pretos e pardos, com baixo nível de escolaridade e concentrados na capital fluminense. Além disso, o estudo demonstrou que a população na faixa etária de 30 a 49 anos sofre um impacto desproporcional da tuberculose como causa associada, em oposição ao perfil das faixas etárias acima, 50 a 64 anos e 65 ou mais, onde a tuberculose atua diretamente como a causa básica do óbito. A elevada distribuição de óbitos registrados em ambiente hospitalar eleva a atenção sobre as deficiências no diagnóstico precoce da tuberculose, assim como, a análise geral dos óbitos reforça a necessidade de aprimoramento quanto ao preenchimento de dados secundários.