Videoaula 03 – Probabilidades usando a tabela normal

Como transformar escore-z em área, proporção e probabilidade

Autor

Prof. Marcelo Ribeiro

Pergunta guia

Como transformar um escore-z em uma probabilidade?

Objetivo da videoaula

Ao final desta videoaula, o aluno deverá compreender como usar a tabela normal padrão para associar valores de escore-z a áreas sob a curva normal, interpretando essas áreas como proporções ou probabilidades.

Dica de navegação

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Conexão com a Videoaula 02

Na Videoaula 02, vimos que o escore-z localiza um valor dentro da distribuição. Agora, vamos usar essa localização para calcular áreas e probabilidades na curva normal.

1. Da posição à probabilidade

Na aula anterior, aprendemos que o escore-z informa quantos desvios-padrão um valor está acima ou abaixo da média.

Por exemplo, dizer que um indivíduo tem z=1,20z = 1{,}20 significa que esse valor está 1,20 desvio-padrão acima da média.

Mas, em muitas análises, queremos dar um passo além:

Qual é a proporção de indivíduos abaixo desse valor?

ou:

Qual é a probabilidade de observar um valor maior que esse?

Essas perguntas são respondidas por meio da área sob a curva normal.

Ideia central

Na curva normal, área representa proporção ou probabilidade.

2. O que a tabela normal informa?

A tabela normal padrão associa cada valor de zz a uma área sob a curva normal padronizada.

A forma mais comum da tabela informa a área acumulada à esquerda de zz, isto é:

P(Zz) P(Z \leq z)

Essa notação significa:

probabilidade de uma variável normal padronizada ZZ assumir valor menor ou igual a um determinado zz.

Ideia da tabela normal padrão

A tabela transforma um valor de z em uma área acumulada à esquerda.

z P(Z ≤ z)
-1,00 0,1587
0,00 0,5000
1,00 0,8413
1,96 0,9750
z P(Z ≤ z) área acumulada à esquerda do valor z
Atenção

Existem diferentes tipos de tabela normal. Algumas fornecem a área à esquerda de zz; outras fornecem a área entre 0 e zz. Nesta videoaula, vamos trabalhar com a tabela acumulada à esquerda, isto é, P(Zz)P(Z \leq z).

3. Três perguntas fundamentais

Ao usar a curva normal, três perguntas aparecem com frequência:

  1. Qual é a probabilidade de estar abaixo de um valor?
  2. Qual é a probabilidade de estar acima de um valor?
  3. Qual é a probabilidade de estar entre dois valores?

Essas três perguntas usam a mesma lógica, mas exigem interpretações diferentes da área sob a curva.

Três formas de ler áreas na curva normal

Abaixo de z

Usamos diretamente a tabela acumulada.

P(Z ≤ z)
Acima de z

Usamos o complemento da área acumulada.

P(Z ≥ z) = 1 − P(Z ≤ z)
Entre dois valores

Subtraímos duas áreas acumuladas.

P(a ≤ Z ≤ b) = P(Z ≤ b) − P(Z ≤ a)

4. Exemplo 1: probabilidade abaixo de um valor

Suponha que queremos calcular:

P(Z1,20) P(Z \leq 1{,}20)

Na tabela normal acumulada, procuramos o valor z=1,20z = 1{,}20.

O resultado é aproximadamente:

P(Z1,20)=0,8849 P(Z \leq 1{,}20) = 0{,}8849

Isso significa que aproximadamente 88,49% dos valores estão abaixo de z=1,20z = 1{,}20.

Interpretação

Se um indivíduo apresenta z=1,20z = 1{,}20, ele está acima da média, mas ainda dentro de uma região relativamente comum da distribuição. Aproximadamente 88,49% dos valores estão abaixo dele.

5. Exemplo 2: probabilidade acima de um valor

Agora queremos calcular:

P(Z1,20) P(Z \geq 1{,}20)

Como a área total sob a curva normal é igual a 1, usamos o complemento:

P(Z1,20)=1P(Z1,20) P(Z \geq 1{,}20) = 1 - P(Z \leq 1{,}20)

Substituindo:

P(Z1,20)=10,8849=0,1151 P(Z \geq 1{,}20) = 1 - 0{,}8849 = 0{,}1151

Portanto, aproximadamente 11,51% dos valores estão acima de z=1,20z = 1{,}20.

Mensagem para guardar

Para calcular a área acima de um valor, use sempre: área acima = 1 − área acumulada à esquerda.

6. Exemplo 3: probabilidade entre dois valores

Agora queremos calcular:

P(1Z1) P(-1 \leq Z \leq 1)

Pela tabela acumulada:

P(Z1)=0,8413 P(Z \leq 1) = 0{,}8413

e

P(Z1)=0,1587 P(Z \leq -1) = 0{,}1587

Então:

P(1Z1)=0,84130,1587=0,6826 P(-1 \leq Z \leq 1) = 0{,}8413 - 0{,}1587 = 0{,}6826

Portanto, aproximadamente 68,26% dos valores estão entre z=1z = -1 e z=1z = 1.

Conexão com a regra 68%–95%–99,7%

Esse resultado explica a primeira parte da regra empírica: em uma distribuição normal, cerca de 68% dos valores estão entre a média menos 1 desvio-padrão e a média mais 1 desvio-padrão.

7. Calculadora visual de probabilidades normais

Use o painel abaixo para visualizar as três situações: área abaixo, área acima e área entre dois valores.

Calculadora visual da curva normal padrão

Escolha o tipo de probabilidade e ajuste os valores de z para ver a área correspondente.

Área0,8849
1,20
1,00
Interpretação

A área acumulada à esquerda de z = 1,20 é 0,8849, ou 88,49%.

Mensagem para destacar na fala

A tabela normal não “cria” a probabilidade. Ela apenas nos ajuda a consultar a área correspondente a um valor de zz.

8. Aplicação com variável original

Em situações reais, muitas vezes começamos com uma variável na escala original. Por exemplo, suponha que a glicemia em jejum de uma população de referência seja aproximadamente normal, com:

μ=95 mg/dL \mu = 95 \text{ mg/dL}

e

σ=10 mg/dL \sigma = 10 \text{ mg/dL}

Queremos calcular a proporção esperada de indivíduos com glicemia acima de 115 mg/dL.

Primeiro, transformamos o valor original em escore-z:

z=1159510=2 z = \frac{115 - 95}{10} = 2

Depois, usamos a tabela normal:

P(Z2)=0,9772 P(Z \leq 2) = 0{,}9772

Como queremos a área acima:

P(Z2)=10,9772=0,0228 P(Z \geq 2) = 1 - 0{,}9772 = 0{,}0228

Portanto, aproximadamente 2,28% dos indivíduos dessa população de referência teriam glicemia acima de 115 mg/dL, assumindo normalidade.

Interpretação responsável

Esse resultado depende da suposição de que a glicemia nessa população de referência segue distribuição normal ou aproximadamente normal. Além disso, a interpretação clínica deve considerar critérios diagnósticos, contexto individual e diretrizes específicas.

9. Erros comuns ao usar a tabela normal

Alguns erros são muito frequentes:

  1. confundir área à esquerda com área à direita;
  2. esquecer de usar o complemento quando a pergunta pede “acima de”;
  3. subtrair as áreas na ordem errada ao calcular intervalo entre dois valores;
  4. esquecer que a tabela é da normal padronizada, ou seja, trabalha com zz, não com xx diretamente;
  5. interpretar probabilidade estatística como diagnóstico clínico automático.
Roteiro mental

Antes de usar a tabela, pergunte: quero a área abaixo, acima ou entre valores?

Antes de seguir

Antes da próxima videoaula, tente responder:

  1. O que a área sob a curva normal representa?
  2. Quando usamos diretamente a área acumulada da tabela?
  3. Quando precisamos calcular o complemento 1P(Zz)1 - P(Z \leq z)?
  4. Como calculamos a área entre dois valores de zz?
  5. Por que é necessário transformar xx em zz antes de usar a tabela normal padrão?

Fechamento da videoaula

A tabela normal transforma uma posição padronizada em uma área interpretável.

Nesta videoaula, vimos que o escore-z localiza o valor na curva, e a tabela normal permite transformar essa localização em área, proporção ou probabilidade.

Na próxima videoaula, vamos avançar para aplicações mais completas da distribuição normal, combinando transformação em escore-z, consulta de áreas e interpretação no contexto da Saúde e Nutrição.