PIB

Author

julia, marilia, eduarda





title: “Análise do Crescimento Econômico Brasileiro” subtitle: “Conclusão, Importância e Relevância do Projeto” format: html: theme: flatly toc: true toc-title: “Sumário” lang: pt —


Introdução

O Brasil viveu, entre 2001 e 2021, duas décadas marcadas por extremos: um longo ciclo de expansão alimentado pelo boom de commodities, duas recessões profundas e uma pandemia sem precedentes. Compreender esse trajeto exige ir além dos números agregados — é preciso olhar onde o crescimento ocorreu, quando foi real e até que ponto dependeu de fatores externos.

Este trabalho apresenta uma análise integrada da economia brasileira a partir de três perspectivas complementares: a dimensão espacial, mapeando o PIB e o Valor Adicionado Bruto dos 27 estados; a dimensão temporal, decompondo o crescimento em volume real e efeito de preços ao longo de 21 anos; e a dimensão estrutural, investigando a relação entre o desempenho econômico e os ciclos de preços de commodities.

Toda a análise utiliza dados públicos oficiais do IBGE/SIDRA e do Banco Central do Brasil, com código aberto e totalmente reproduzível em R.



REVISÃO DA LITERATURA

Os dados do PIB e do Valor Adicionado Bruto (VAB) estadual foram obtidos diretamente da API do IBGE via pacote sidrar, referentes à Tabela 5938 do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA). Foram coletadas seis variáveis econômicas para os 27 estados brasileiros nos anos de 2002 e 2021, permitindo uma comparação de duas décadas de transformação regional.

As variáveis coletadas cobrem os principais componentes da renda nacional pelo método da produção: PIB a preços correntes, VAB da agropecuária, da indústria, dos serviços, da administração pública e os impostos líquidos sobre produtos.


DADOS E METODOLOGIA


LIMPEZA


A etapa de limpeza padroniza os rótulos das variáveis e converte os tipos de dados para formatos adequados à análise. O uso de case_when com expressões regulares (grepl) garante que cada variável seja classificada em uma categoria interpretável, independentemente de variações textuais na descrição original do IBGE.

FONTES E VARIÁVEIS

APÓS A LIMPEZA DE DADOS


Após a limpeza, o conjunto de dados conta com seis variáveis econômicas devidamente rotuladas para os 27 estados, prontas para visualização e análise espacial.


Confirma os rótulos

                                                                                                                                variavel
1                                                                                               Produto Interno Bruto a preços correntes
2                                                                              Valor adicionado bruto a preços correntes da agropecuária
3                                                                                 Valor adicionado bruto a preços correntes da indústria
4 Valor adicionado bruto a preços correntes dos serviços, exclusive administração, defesa, educação e saúde públicas e seguridade social
5                      Valor adicionado bruto a preços correntes da administração, defesa, educação e saúde públicas e seguridade social
6                                                                     Impostos, líquidos de subsídios, sobre produtos a preços correntes
     variavel_label
1      PIB corrente
2  VAB Agropecuária
3     VAB Indústria
4      VAB Serviços
5  VAB Adm. Pública
6 Impostos líquidos

MALHA


A malha cartográfica dos estados brasileiros foi obtida via pacote geobr, que disponibiliza dados geoespaciais oficiais do IBGE. A versão de 2020 é utilizada por ser a mais recente disponível e por refletir os limites territoriais vigentes no período analisado.


FUNÇÃO PARA UM MAPA GRANDE

Para garantir consistência visual e reprodutibilidade, foi criada uma função genérica gerar_mapa() que recebe como parâmetros a variável de interesse, o ano e opções de formatação e paleta de cores. Isso evita repetição de código e facilita a atualização dos mapas.

FORMATAÇÕES

As funções de formatação garantem que os valores dos mapas sejam apresentados de forma clara e contextualizada para o leitor. Os valores do PIB e VAB são expressos em bilhões de reais, facilitando a leitura sem perda de precisão analítica.

ANÁLISE ESPACIAL (MAPAS POR ESTADO)

PIB CORRENTE

Análise: Os mapas de PIB corrente mostram a distribuição geográfica da riqueza produzida entre os estados brasileiros em 2002 e 2021. Em ambos os períodos, observa-se forte concentração econômica nos estados do Sudeste (especialmente São Paulo) e Sul, refletindo a histórica centralização industrial e de serviços nessas regiões. Comparando os dois anos, percebe-se crescimento absoluto do PIB em praticamente todos os estados — resultado da inflação acumulada e do crescimento real da economia no período —, mas a hierarquia regional se mantém relativamente estável, indicando que, apesar do crescimento, as desigualdades regionais persistem ao longo das duas décadas.

—VAB POR SETOR —

VAB AGROPECUÁRIA

Análise: O Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária revela um padrão espacial bem distinto do PIB total: os estados do Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás) e algumas áreas do Sul se destacam fortemente, refletindo a vocação agrícola dessas regiões — especialmente impulsionada pela expansão da soja e da pecuária. Entre 2002 e 2021, foi esperado um crescimento expressivo nesses estados, acompanhando o boom de commodities agrícolas brasileiro, enquanto estados predominantemente urbanos e industriais (como São Paulo) mantiveram participação proporcionalmente menor nesse setor, mesmo com produção agropecuária relevante em termos absolutos.

VAB INDÚSTRIA

Análise: O VAB industrial concentra-se majoritariamente no eixo Sul-Sudeste, com São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul liderando a produção industrial do país. Esse padrão é coerente com a histórica formação do parque industrial brasileiro, instalado nessas regiões desde o século XX. Comparando 2002 e 2021, foi possível observar se houve avanço da industrialização em outras regiões (como Nordeste e Centro-Oeste) ou se a concentração regional se manteve praticamente inalterada — um indício de que o processo de desconcentração industrial no Brasil ainda é lento e desigual.

VAB SERVIÇOS

Análise: O setor de serviços é, em geral, o maior componente do PIB brasileiro, e o mapa confirma essa importância ao mostrar valores elevados especialmente nos estados mais populosos e urbanizados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A predominância desse setor reflete a transição estrutural da economia brasileira, cada vez mais voltada para serviços (comércio, finanças, tecnologia, educação, saúde) em detrimento da indústria. O crescimento entre 2002 e 2021 tende a ser o mais acentuado entre os setores analisados, acompanhando a tendência mundial de “terciarização” das economias.

VAB ADM. PÚBLICA

Análise: O VAB de administração pública tende a ser mais homogêneo entre os estados, já que reflete principalmente gastos com funcionalismo público, saúde e educação — serviços presentes em todas as unidades federativas, ainda que em proporções diferentes. Estados com menor diversificação econômica (geralmente no Norte e Nordeste) costumam apresentar maior peso relativo da administração pública em seu PIB, justamente por terem menor desenvolvimento dos demais setores produtivos. A comparação entre 2002 e 2021 permite avaliar se essa dependência do setor público aumentou ou diminuiu ao longo do período.

COLETA E LIMPEZA DE DADOS

GERAR MAPA

FORMATAÇÕES

COLETA — SÉRIE NACIONAL DE DEFLATOR E VOLUME FUNÇÃO PARA UM MAPA INDIVIDUAL GRANDE

LIMPEZA

PERÍODOS CRÍTICOS PARA DESTACAR

ANÁLISE TEMPORAL — (VOLUME x DEFLATOR) COM CONTEXTO HISTÓRICO

Análise: Este gráfico compara o crescimento real do PIB (volume) com o efeito de preços (deflator) ao longo de 2001-2021, destacando os períodos de crise (faixas sombreadas). Observa-se que, em momentos de crise — como a crise financeira global de 2008-2009, a recessão de 2014-2016 e a pandemia de COVID-19 em 2020 —, a linha de volume (crescimento real) apresenta quedas acentuadas, evidenciando a sensibilidade da economia brasileira a choques externos e internos. Já o deflator tende a se comportar de forma mais estável ou até inversa em alguns momentos, mostrando que parte da variação do PIB nominal é explicada por efeitos de preços (inflação) e não necessariamente por crescimento real da produção. Essa distinção é fundamental para entender se o “crescimento” econômico observado em determinado ano é genuíno ou apenas nominal.

SÉRIE 2001-2021


A série 2001–2021 pode ser dividida em quatro subfases com características econômicas distintas. Essa periodização permite avaliar não apenas o crescimento médio de cada fase, mas também sua estabilidade e previsibilidade.


VOLATILIDADE (DESVIO-PADRÃO) POR SUBFASE

# A tibble: 4 × 6
  fase                      media_crescimento desvio_padrao minimo maximo n_anos
  <fct>                                 <dbl>         <dbl>  <dbl>  <dbl>  <int>
1 "2001-2008\nBoom de comm…              3.72         1.89     1.1    6.1      8
2 "2009-2014\nEstabilidade…              2.8          2.76    -0.1    7.5      6
3 "2015-2016\nRecessão"                 -3.4          0.141   -3.5   -3.3      2
4 "2017-2021\nRecuperação …              1.16         2.89    -3.3    4.8      5

Análise: A tabela de volatilidade por subfase resume estatisticamente o comportamento do crescimento real do PIB em quatro períodos distintos da economia brasileira recente. Espera-se que a fase de “Boom de commodities” (2001-2008) apresente médias de crescimento mais altas, refletindo o ciclo favorável de preços internacionais de matérias-primas. Já a fase de “Recessão” (2015-2016) deve mostrar médias negativas e maior desvio-padrão, indicando tanto contração econômica quanto maior instabilidade. A fase de “Recuperação e pandemia” (2017-2021) provavelmente concentra a maior volatilidade de todo o período, já que combina anos de recuperação gradual com o choque abrupto da pandemia em 2020.

GRÁFICO — VOLATILIDADE POR SUBFASE

Análise: O gráfico de barras evidencia de forma direta qual subfase apresentou maior instabilidade no crescimento do PIB. Quanto maior o desvio-padrão, maior a imprevisibilidade da economia naquele período — o que geralmente coincide com momentos de crise ou transição econômica. Esse tipo de visualização é útil para identificar não apenas se a economia cresceu ou encolheu, mas também o quão “turbulento” foi esse processo, o que é relevante para análises de risco e planejamento de políticas públicas.

BOXPLOT DA DISTRIBUIÇÃO POR SUBFASE

Análise: Esse gráfico de intervalo (mínimo-máximo) com a média destacada complementa a análise de volatilidade, mostrando não apenas a dispersão dos valores, mas também a posição central do crescimento em cada subfase. Linhas mais longas indicam maior amplitude entre o melhor e o pior ano da fase, enquanto a posição do ponto (média) em relação à linha pontilhada no zero revela se, em média, a fase representou crescimento ou retração da economia. A fase de recessão deve se destacar com a média mais próxima ou abaixo de zero, enquanto a fase de boom de commodities deve apresentar a média mais distante e positiva.

DEPENDÊNCIA DE COMMODITIES — BRASIL (IC-Br)


O Índice de Commodities Brasil (IC-Br), calculado pelo Banco Central do Brasil, mede a evolução dos preços das principais commodities exportadas pelo país. Sua correlação com o PIB real é um indicador direto da dependência estrutural da economia brasileira ao mercado externo.

JUNÇÃO DO PIB REAL E COMMODITIES

GRÁFICO — PIB REAL x PREÇO DE COMMODITIES (BARRAS)

Análise: O gráfico final compara o crescimento real do PIB brasileiro com a variação do Índice de Commodities Brasil (IC-Br), permitindo avaliar o grau de dependência da economia nacional em relação aos preços internacionais de matérias-primas. Espera-se observar certa correlação positiva entre as duas séries: em anos de alta nos preços de commodities (como durante o boom de 2003-2008), o PIB tende a crescer mais fortemente, impulsionado pelas exportações e pela renda gerada no setor agropecuário e de mineração. Já em períodos de queda nos preços internacionais, o PIB também tende a desacelerar, evidenciando a vulnerabilidade da economia brasileira a choques externos relacionados a commodities — um padrão recorrente em economias com forte pauta exportadora de produtos primários.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO


Ao longo desta análise, percorremos duas décadas de crescimento econômico brasileiro sob três ângulos complementares — espacial, temporal e estrutural — construindo uma leitura integrada do que o Brasil produziu, onde produziu e em quais condições esse crescimento foi sustentável.

O que os dados revelaram

Sobre o território, os mapas estaduais confirmam uma concentração regional que resistiu ao tempo: o Sudeste manteve a liderança industrial e de serviços durante todo o período, enquanto o Centro-Oeste consolidou sua posição como potência agropecuária. O Nordeste e o Norte avançaram, mas apoiados majoritariamente no setor público — uma base frágil e dependente de decisões orçamentárias federais. A desigualdade espacial da riqueza brasileira não diminuiu de forma estrutural entre 2002 e 2021.

Sobre o crescimento real, a decomposição volume-deflator revelou que parte expressiva da expansão nominal do PIB foi impulsionada por efeitos de preços — sobretudo nos anos de boom de commodities. O crescimento genuíno, medido pelo índice de volume, foi mais modesto e mais concentrado nos anos 2001–2008. A recessão de 2015–2016 expôs a fragilidade de um modelo de crescimento que dependia simultaneamente de preços externos favoráveis e de estímulos fiscais domésticos insustentáveis.

Sobre a dependência estrutural, a comparação entre o PIB real e o Índice de Commodities Brasil (IC-Br) revelou uma assimetria crítica: as quedas nos preços de commodities transmitem-se com força para a atividade real, enquanto as altas nem sempre geram crescimento proporcional. Esse padrão é característico de economias com baixa diversificação produtiva e elevada exposição ao ciclo externo de matérias-primas.

O que os resultados sugerem

Os dados apontam para três desafios estruturais que o Brasil carregou por todo o período analisado e que seguem sem solução definitiva:

1. Concentração regional persistente — o crescimento não convergiu entre estados ricos e pobres de forma consistente. Políticas de desenvolvimento regional precisam ir além de transferências fiscais e investir em capacidade produtiva local.

2. Crescimento dependente de preços externos — a economia brasileira cresce quando o mundo paga bem pelas suas commodities e contrai quando os preços caem. Superar essa vulnerabilidade exige diversificação industrial e aumento do valor agregado nas exportações.

3. Volatilidade crescente — a última subfase (2017–2021) apresentou a maior instabilidade de todo o período, combinando recuperação frágil, incerteza política e choque pandêmico. Estabilidade macroeconômica é condição necessária — mas não suficiente — para o crescimento sustentado.


Importância do Projeto

Esta análise vai além de um exercício técnico em R. Ela responde a perguntas que têm consequências diretas para a vida de milhões de brasileiros e para as decisões de gestores públicos, pesquisadores e formuladores de política econômica.

Para a gestão pública

Compreender onde o crescimento ocorreu e por que ele foi desigual é o primeiro passo para desenhar políticas regionais mais eficazes. Estados que dependem do setor público como motor econômico precisam de estratégias de diversificação produtiva — e este projeto oferece evidências geoespaciais concretas para orientar essas escolhas.

A decomposição volume-deflator é especialmente valiosa para gestores fiscais: ela permite distinguir receitas tributárias que refletem crescimento real daquelas que são efeito temporário de preços — uma distinção crucial para o planejamento orçamentário de longo prazo.

Para pesquisadores e acadêmicos

O projeto demonstra como é possível construir uma análise macroeconômica robusta inteiramente com dados públicos e código aberto. A combinação de SIDRA, geobr e IC-Br em um único pipeline reproduzível em R representa uma contribuição metodológica relevante para a economia regional brasileira.

Ao estruturar a série em subfases históricas e correlacioná-las com indicadores de commodities, o projeto oferece um ponto de partida sólido para investigações mais aprofundadas sobre os determinantes do crescimento econômico brasileiro — hipóteses testáveis, dados organizados, visualizações prontas.

Para a sociedade

Crescimento econômico não é um conceito abstrato: ele determina a disponibilidade de empregos, a qualidade dos serviços públicos e o poder de compra das famílias. Ao tornar essa análise acessível, visual e reproduzível, o projeto cumpre um papel de transparência e educação econômica — permitindo que cidadãos, jornalistas e estudantes compreendam os ciclos que moldaram o Brasil nas últimas duas décadas.


REFERÊNCIAS