Exame Final — Ecologia Geral 2

Departamento de Botânica | Centro de Biociências | UFPE

Author

Disciplina de Ecologia Geral 2

Exame Final · Recuperação
Universidade Federal de Pernambuco · Departamento de Botânica · CB

Exame Final Integrador

Ecologia Geral 2 — Ecologia de Comunidades & Aplicações
Semestre 2026.1  ·  Avaliação Domiciliar  ·  Valor: 10,0 pontos

Instruções Gerais

Este é o Exame Final (recuperação). Ele é destinado a estudantes que não atingiram média suficiente nas avaliações anteriores. A avaliação é individual, domiciliar e com consulta. O prazo e o canal de submissão serão informados pelo docente.
⚠️ Sobre autoria: As questões deste exame foram elaboradas para exigir raciocínio situado, tomada de posição argumentada e interpretação de padrões contraditórios. Respostas genéricas, sem ancoragem nas situações-problema específicas apresentadas, não receberão pontuação integral. O que se avalia é como você pensa com os conceitos, não apenas se você os reconhece.

Quatro dimensões de avaliação, presentes em todas as questões:

Dimensão Descrição
Precisão conceitual Uso rigoroso e correto de termos, definições e princípios ecológicos
Aplicação Conexão dos conceitos ao cenário específico e ao bioma neotropical
Raciocínio abstrato Elaboração de hipóteses, inferências causais e avaliação de alternativas
Profundidade Integração entre tópicos, discussão de mecanismos e reconhecimento de nuances

O Cenário

Este exame se passa na mesma área apresentada na Última Avaliação Final: os 800 hectares de Mata Seca de Brejos de Altitude no Agreste pernambucano, com histórico de pecuária extensiva (1970–1990), abandono e recolonização espontânea (1990–2010), e monitoramento contínuo desde 2020.

Novos acontecimentos desde a avaliação anterior:

Em 2025, o programa de restauração completou seu primeiro ciclo de três anos de intervenção ativa. Foram plantadas mudas de 34 espécies nativas em 120 hectares, e realizadas duas rodadas de controle mecânico da gramínea invasora Melinis minutiflora. Os resultados foram ambíguos:

  • Nas parcelas em latossolos profundos (parcelas mais altas altas ou cotas altas), a sobrevivência das mudas foi de 73% e já se registram espécies de aves frugívoras ausentes há décadas visitando regularmente a área.
  • Nas encostas com solos rasos, a sobrevivência caiu para apenas 18% e a Melinis retomou cobertura quase plena em 14 meses após o controle.
  • Uma análise de solo revelou que os teores de matéria orgânica e nitrogênio nas parcelas restauradas de cotas altas já se diferenciam significativamente das parcelas controle — mas apenas nas parcelas onde Croton heliotropiifolius (espécie pioneira nativa de áras mais baixas e mais secas) foi plantado em maior densidade.
  • Um levantamento rápido de diversidade de besouros coprófagos (rola-bostas, família Scarabaeidae) nas parcelas revelou baixíssima riqueza de espécies em toda a área, independentemente do estágio de restauração — resultado inesperado, pois a paisagem ao redor apresenta diversidade moderada desse grupo.

Sua equipe agora precisa interpretar esses resultados e tomar decisões baseadas em evidências para o segundo ciclo de restauração.

Importante: As questões partem dos dados e contradições apresentados neste cenário. Responder sem ancorar nos padrões específicos descritos acima resultará em perda significativa de pontuação.


Questões

Questão 1 · Bases teóricas — comunidades e montagem
O que explica o sucesso diferencial entre as parcelas?
Recapitulando: sobrevivência de mudas de 73% nas cotas altas (latossolos profundos) versus 18% nas encostas (solos rasos). A matéria orgânica aumentou nas cotas altas apenas onde Croton heliotropiifolius foi plantado em maior densidade.

(a) Dois pesquisadores interpretam o padrão de sobrevivência diferencial de formas opostas:

"O fracasso nas encostas reflete uma limitação de nicho fundamental — as espécies plantadas simplesmente não toleram as condições abióticas daqueles microsítios, independentemente de qualquer intervenção."
— Pesquisador A
"O fracasso nas encostas é sobretudo um problema de limitação de estabelecimento mediada por interações bióticas e histórico de perturbação — com manejo adequado, aquelas espécies poderiam se estabelecer."
— Pesquisador B

Com qual dos dois pesquisadores você concorda — e por quê? Não basta escolher um lado: você deve apresentar os mecanismos ecológicos específicos que sustentam sua posição e reconhecer o que há de válido na posição contrária. Use os dados do cenário como evidência. (1,0 pt)

(b) O efeito positivo do Croton heliotropiifolius sobre a matéria orgânica e o nitrogênio do solo nas cotas altas pode ser interpretado como evidência de qual modelo de sucessão ecológica (dentre os propostos por Connell & Slatyer, 1977)? Justifique usando o mecanismo subjacente — não apenas o nome do modelo. (1,0 pt)

Precisão conceitual Raciocínio abstrato Tomada de posição Profundidade
Valor total: 2,0 pt

Questão 2 · Comunidades no espaço — o enigma dos besouros
Quando o resultado não é o esperado: riqueza baixa em área restaurada
Besouros coprófagos (Scarabaeidae): riqueza muito baixa em toda a área de estudo, inclusive nas parcelas mais avançadas de restauração — apesar de a paisagem ao redor apresentar diversidade moderada do grupo.

Os besouros coprófagos são frequentemente usados como indicadores de qualidade de habitat e de conectividade ecológica. Sua presença e diversidade dependem de: (i) disponibilidade de fezes de vertebrados de médio e grande porte, (ii) conectividade estrutural da paisagem, e (iii) tolerância individual das espécies às condições microclimáticas do solo e da serapilheira.

(a) Proponha duas hipóteses não mutuamente excludentes que expliquem a baixa riqueza de besouros na área, mesmo após três anos de restauração e com diversidade moderada na paisagem ao redor. Para cada hipótese, indique que dado adicional você coletaria para testá-la. (1,5 pt)

(b) Um dos princípios centrais da Teoria de Metacomunidades é que a diversidade local é moldada tanto por processos locais quanto por processos regionais. Aplique esse raciocínio ao caso dos besouros: que processo regional poderia estar limitando a colonização da área restaurada, e que processo local poderia estar limitando o estabelecimento mesmo das espécies que chegam? (1,0 pt)

(c) Questão de tomada de posição: Seu coordenador sugere que a baixa riqueza de besouros é “esperada para uma área em restauração e não deve ser considerada um indicador de insucesso ainda”. Você concorda ou discorda? Construa um argumento ecologicamente fundamentado em no máximo 10 linhas, sem recorrer a generalidades. (0,5 pt)

Raciocínio abstrato Aplicação Tomada de posição
Valor total: 3,0 pt

Questão 3 · Determinantes abióticos e o retorno da Melinis
A persistência do invasor como problema de nicho e de estado
Nas encostas com solos rasos: Melinis minutiflora retomou cobertura plena em 14 meses após controle mecânico, independentemente das mudas plantadas.

(a) O retorno da Melinis após apenas 14 meses pode ser interpretado à luz do conceito de estados alternativos estáveis: a encosta com solo raso parece estar “travada” em um estado dominado pela gramínea exótica. Explique dois mecanismos distintos pelos quais M. minutiflora pode estar ativamente mantendo esse estado — e não apenas ocupando espaço disponível. (3,0 pt)

Precisão conceitual Aplicação Profundidade
Valor total: 3,0 pt

Questão 4 · Integração — O segundo ciclo de restauração
Síntese: aprendendo com a ambiguidade dos dados

Esta questão exige que você integre os resultados ambíguos do primeiro ciclo para propor e justificar decisões para o segundo ciclo de restauração.

Resumo dos resultados do 1º ciclo:
  • ✅ Cotas altas: alta sobrevivência de mudas, retorno de aves frugívoras, melhora de atributos de solo associada ao Croton
  • ❌ Encostas: baixa sobrevivência, retorno rápido da Melinis após controle
  • ❓ Besouros coprófagos: baixíssima riqueza em toda a área, resultado inesperado

Redija um texto dissertativo (mínimo 35 linhas, máximo 60 linhas) estruturado em torno das três perguntas a seguir. Você não deve responder cada pergunta separadamente — o que se espera é um argumento contínuo e coeso que as integre:

  1. O que os dados do 1º ciclo revelam sobre os processos ecológicos que operam diferentemente nas cotas altas e nas encostas? Nomeie e explique ao menos três processos ou mecanismos ecológicos distintos.

  2. Com base nisso, qual deveria ser a estratégia diferenciada para o 2º ciclo — ou seja, o que fazer de diferente nas encostas versus nas cotas altas? Sua proposta deve ser baseada em mecanismos, não em procedimentos técnicos isolados.

  3. O resultado dos besouros muda ou não muda sua avaliação do sucesso do programa? Justifique sua resposta usando o conceito de função ecológica e pelo menos um princípio de organização de comunidades trabalhado na disciplina.

Critério de avaliação da Q4: A pontuação máxima será atribuída a respostas que demonstrem capacidade de raciocinar a partir de dados contraditórios — reconhecendo o que funcionou, explicando o que não funcionou com base em mecanismos, e propondo estratégias coerentes com esses mecanismos. Listas de ações sem fundamentação ecológica não serão pontuadas com nota máxima.
Precisão conceitual Aplicação Raciocínio abstrato Profundidade Tomada de posição
Valor total: 2,0 pt

Universidade Federal de Pernambuco · Departamento de Botânica · Centro de Biociências
Disciplina: Ecologia Geral 2 · Semestre 2026.1 · Exame Final