O texto a seguir trata-se de uma análise crítica referente à notícia “Juro alto leva inadimplência de empresas ao recorde de 9 milhões de CNPJs”, publicada pela Revista Oeste, no qual foram utilizadas, como base para a análise, as 5 perguntas propostas por Darrell Huff no livro “Como mentir com estatísticas”.
A notícia, publicada em 5 de junho de 2026, tem como afirmação principal a de que o Brasil atingiu o marco histórico de 9 milhões de CNPJs negativados. A tese central da matéria foca quase que exclusivamente na manutenção de uma alta taxa de juros como principal causa.
As estatísticas principais apresentadas são:
As fontes em que a matéria se embasa são a Serasa Experian e a consultoria RK Partners. Apesar dessa primeira instituição ser notória no que diz respeito à gestão de informações de crédito, e a segunda possuir dados verídicos acerca da Bolsa de Valores, é essencial considerar o veículo de comunicação que está passando esses dados.
Nesse caso, estamos falando da Revista Oeste, um órgão de imprensa abertamente comprometido com a defesa do capitalismo e do livre mercado, dois ideais econômicos indiscutivelmente alinhados a uma perspectiva pró-mercado e favorável a interesses empresariais. Tal posicionamento pode levar a vieses e, em muitos casos, a uma manipulação no modo com que os dados estatísticos são apresentados.
Os dados obtidos pela RK Partners foram adquiridos através de um levantamento de registros reais de empresas documentadas na Bolsa de Valores. Ademais, a Serasa utiliza seu banco de dados para descobrir a “quantidade bruta” de empresas que possuem o nome sujo.
O problema dessa metodologia é que, no caso da RK Partners, foram utilizadas, como elementos da amostra, apenas 282 empresas das mais de 8 milhões existentes no país. Além disso, a amostragem incluiu apenas empresas de capital aberto, o que considera grandes companhias e exclui por completo micro e pequenos empreendimentos.
Em estatística, um dos princípios mais fundamentais é que, quanto menor o número de observações, maior é a margem de erro e incerteza. Para mais, a amostra deveria ser escolhida aleatoriamente, objetivando informações heterogêneas, o que também foi desrespeitado ao desconsiderar a realidade da maioria das empresas. Dito isso, é impreciso utilizar tão poucos dados para uma representação correta do cenário atual.
Conforme o presente no título da matéria, o foco se dá quase que de modo exclusivo no número absoluto de 9 milhões de inadimplentes como o maior da história, e é justamente nesse detalhe que está o erro.
Ao analisar somente o valor pleno de empresas devedoras, a notícia esconde o verdadeiro contexto em que se passa esse total: a razão entre o número de empresas ativas, no Brasil, e o total de CNPJs negativados interfere diretamente no entendimento completo do panorama. A revista não informa o número de empresas criadas desde 2016.
Há uma implicação natural de que, por exemplo, se o número de CNPJs dobrou nesse período, é natural que o número de inadimplentes também aumente, fator que não é apresentado em nenhum momento. Por conseguinte, os 9 milhões podem ser usados de forma sensacionalista para passar a imagem de uma realidade mais alarmante do que de fato é.
Ao afirmar que o “juro alto leva à inadimplência…” a mídia comete uma confusão entre dois termos estatísticos muito importantes, mas nem sempre interligados: Correlação e causalidade.
Ao passo que a correlação mede o grau de associação entre duas variáveis, sem necessariamente existir uma relação de causa e consequência entre elas, a causalidade ocorre quando uma variável realmente provoca mudanças em outra. Diante disso, é verdade que uma manutenção alta dos juros causa inadimplência. Todavia, o conteúdo deixa de lado outros fatores que podem causar, do mesmo modo, inadimplência, sendo estes queda de vendas, aumento de impostos, má gestão, inflação de custos variáveis, dentre outros.
A afirmação de que a situação é grave faz sentido, dado o montante de 220,9 bilhões de reais de dívidas. Contudo, a conclusão de que a taxa de juros é a única culpada exige cautela: se uma empresa deve determinado valor monetário, o juro alto dificulta a quitação, mas raramente é o motivo inicial pelo qual ela deixou de pagar o primeiro boleto. O bom senso sugere que a crise é um reflexo de uma economia estagnada como um todo, e não apenas de uma única taxa do Banco Central.
“O número de empresas brasileiras com inadimplência atingiu 9 milhões em abril de 2026. Embora esse seja o maior valor já registrado pela Serasa Experian, é importante levar em consideração o crescimento do empreendedorismo no país na última década para entender a real gravidade dessa proporção. É factual afirmar que o cenário é agravado pelo alto valor da taxa Selic, que dificulta o empréstimo para a capital de giro de empresas e pagamento de dívidas. No entanto, também é imprescindível ponderar uma combinação de vários outros fatores, como baixa no faturamento e aumento dos custos operacionais, o que acaba por afetar, majoritariamente, pequenos negócios.”
Disponível em: https://revistaoeste.com/economia/juro-alto-leva-inadimplencia-de-empresas-ao-recorde-de-9-milhoes-de-cnpjs/
Acesso em: 05 jun. 2026.