library(sidrar)
library(tidyverse)
library(geobr)
library(sf)
library(patchwork)
library(DT)Participação Setorial no Valor Adicionado — São Paulo (2021)
Biblioteca
Para a execução deste projeto, foram utilizados pacotes do ecossistema R voltados à coleta de dados públicos, manipulação de dados, visualização espacial e apresentação de resultados interativos. Abaixo estão listados os pacotes necessários:
Coleta de Dados
Os dados utilizados nesta análise foram extraídos da Pesquisa do PIB dos Municípios (Tabela 5938), disponibilizada pelo IBGE por meio do Sistema SIDRA. Essa pesquisa integra o Sistema de Contas Regionais e fornece estimativas anuais do Valor Adicionado Bruto (VAB) desagregado por setor econômico para todos os municípios brasileiros.
A coleta foi realizada para o ano de 2021, recorte mais recente disponível à época da análise, e restrita ao estado de São Paulo (código IBGE: 35), que concentra a maior economia estadual do país. Foram coletadas as seguintes variáveis:
- Variável 498 — Valor Adicionado Bruto Total a preços correntes;
- Variável 513 — Valor Adicionado Bruto da Agropecuária;
- Variável 517 — Valor Adicionado Bruto da Indústria;
- Variável 6575 — Valor Adicionado Bruto dos Serviços (exclusive Administração Pública);
- Variável 525 — Valor Adicionado Bruto da Administração Pública.
Nota: O Valor Adicionado de Serviços foi obtido pela soma das variáveis 6575 e 525, de modo a capturar a totalidade do setor terciário, incluindo tanto os serviços privados quanto os serviços públicos.
va <- get_sidra(
x = 5938,
variable = 498,
period = "2021",
geo = "City",
geo.filter = list("State" = 35)
) |>
select(Município, `Município (Código)`, Valor) |>
rename(va = Valor, code_muni = `Município (Código)`, MUN = Município) |>
mutate(code_muni = as.double(code_muni))
agro <- get_sidra(
x = 5938,
variable = 513,
period = "2021",
geo = "City",
geo.filter = list("State" = 35)
) |>
select(Município, `Município (Código)`, Valor) |>
rename(va_agro = Valor, code_muni = `Município (Código)`, MUN = Município) |>
mutate(code_muni = as.double(code_muni))
ind <- get_sidra(
x = 5938,
variable = 517,
period = "2021",
geo = "City",
geo.filter = list("State" = 35)
) |>
select(Município, `Município (Código)`, Valor) |>
rename(va_ind = Valor, code_muni = `Município (Código)`, MUN = Município) |>
mutate(code_muni = as.double(code_muni))
serv1 <- get_sidra(
x = 5938,
variable = 6575,
period = "2021",
geo = "City",
geo.filter = list("State" = 35)
) |>
select(Município, `Município (Código)`, Valor) |>
rename(va_serv1 = Valor, code_muni = `Município (Código)`, MUN = Município) |>
mutate(code_muni = as.double(code_muni))
serv2 <- get_sidra(
x = 5938,
variable = 525,
period = "2021",
geo = "City",
geo.filter = list("State" = 35)
) |>
select(Município, `Município (Código)`, Valor) |>
rename(va_serv2 = Valor, code_muni = `Município (Código)`, MUN = Município) |>
mutate(code_muni = as.double(code_muni))
serv <- inner_join(serv1, serv2, by = c("code_muni", "MUN")) |>
mutate(va_serv = va_serv1 + va_serv2) |>
select(code_muni, MUN, va_serv)
rm(serv1, serv2)Participação Setorial
Com os dados coletados, calculou-se a participação relativa de cada setor no Valor Adicionado Bruto total de cada município. Esse indicador expressa, em termos percentuais, o quanto cada atividade econômica — agropecuária, indústria e serviços — contribui para a geração de riqueza local.
participacao <- va |>
inner_join(agro, by = c("code_muni", "MUN")) |>
inner_join(ind, by = c("code_muni", "MUN")) |>
inner_join(serv, by = c("code_muni", "MUN")) |>
mutate(
part_agro = va_agro / va,
part_ind = va_ind / va,
part_serv = va_serv / va
) |>
select(code_muni, MUN, part_agro, part_ind, part_serv)Mapas de Participação Setorial
Os mapas a seguir apresentam a distribuição espacial da participação de cada setor no Valor Adicionado Bruto dos municípios paulistas em 2021. Cada mapa utiliza uma escala de cores gradual, em que tons mais escuros indicam maior predominância do respectivo setor na economia local.
sp_muni <- read_municipality(code_muni = 35, year = 2020)
sp_map <- sp_muni |>
left_join(participacao, by = "code_muni")
sp1 <- ggplot(sp_map, aes(fill = part_agro)) +
geom_sf() +
scale_fill_distiller(palette = "Greens", direction = 1, labels = scales::percent) +
labs(title = "Agropecuária", fill = NULL) +
theme_void()
sp2 <- ggplot(sp_map, aes(fill = part_ind)) +
geom_sf() +
scale_fill_distiller(palette = "Oranges", direction = 1, labels = scales::percent) +
labs(title = "Indústria", fill = NULL) +
theme_void()
sp3 <- ggplot(sp_map, aes(fill = part_serv)) +
geom_sf() +
scale_fill_distiller(palette = "Blues", direction = 1, labels = scales::percent) +
labs(title = "Serviços", fill = NULL) +
theme_void()
sp1 + sp2 + sp3 +
plot_annotation(title = "Participação setorial no Valor Adicionado — São Paulo (2021)")Análise Econômica — Mapas
A leitura espacial dos mapas revela padrões estruturais bem definidos na economia paulista. O mapa da agropecuária evidencia que os municípios com maior participação desse setor estão concentrados no interior do estado, especialmente nas regiões oeste e noroeste, que abrigam importantes polos de produção de cana-de-açúcar, soja, laranja e pecuária de corte. Esses municípios caracterizam-se por economias de menor porte absoluto, onde a agropecuária ocupa papel central na geração de renda e emprego local.
O mapa da indústria destaca o peso do setor secundário no eixo metropolitano e nas cidades médias do interior, como Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos. Essa distribuição reflete a histórica concentração industrial paulista ao longo das principais rodovias e ferrovias, além da presença de polos tecnológicos e petroquímicos de relevância nacional.
Por fim, o mapa de serviços confirma a predominância do setor terciário na maioria dos municípios, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), onde a economia é dominada por finanças, comércio, tecnologia e serviços especializados de alto valor agregado. A universalidade dos serviços reflete também a presença da administração pública como componente relevante do VAB em municípios menores.
Gráfico — Composição Setorial dos Maiores Municípios
O gráfico a seguir apresenta a composição setorial do Valor Adicionado dos 15 maiores municípios de São Paulo em 2021, ordenados por VA total. As barras empilhadas permitem comparar visualmente a estrutura produtiva de cada município, revelando diferenças significativas em suas vocações econômicas.
grafico_data <- va |>
inner_join(participacao, by = c("code_muni", "MUN")) |>
slice_max(va, n = 15) |>
select(MUN, part_agro, part_ind, part_serv) |>
pivot_longer(
cols = starts_with("part_"),
names_to = "setor",
values_to = "participacao"
) |>
mutate(
setor = recode(setor,
part_agro = "Agropecuária",
part_ind = "Indústria",
part_serv = "Serviços"
),
MUN = str_remove(MUN, " \\(SP\\)")
)
ggplot(grafico_data, aes(x = participacao, y = reorder(MUN, participacao), fill = setor)) +
geom_col(position = "fill") +
scale_x_continuous(labels = scales::percent) +
scale_fill_manual(values = c(
"Agropecuária" = "#4daf4a",
"Indústria" = "#ff7f00",
"Serviços" = "#377eb8"
)) +
labs(
title = "Composição setorial do VA — Top 15 municípios de São Paulo (2021)",
x = "Participação (%)",
y = NULL,
fill = "Setor"
) +
theme_minimal(base_size = 12) +
theme(legend.position = "bottom")Análise Econômica — Gráfico
O gráfico reforça a hegemonia do setor de serviços entre os maiores municípios paulistas, com participações que frequentemente superam 70% do VAB total. O município de São Paulo, maior economia do país, apresenta uma estrutura produtiva inteiramente orientada para o terciário, reflexo de sua posição como principal centro financeiro, comercial e corporativo da América Latina.
Municípios como Cubatão e São José dos Campos se destacam pela elevada participação industrial, explicada, respectivamente, pela presença do Polo Industrial de Cubatão (petroquímica, siderurgia e fertilizantes) e pelo Polo Tecnológico do Vale do Paraíba (aeronáutica, defesa e tecnologia). Essas economias revelam uma especialização setorial mais pronunciada, o que pode representar tanto uma vantagem competitiva quanto uma maior vulnerabilidade a ciclos setoriais específicos.
A quase ausência da agropecuária entre os 15 maiores municípios confirma que, em termos de valor absoluto, a agricultura paulista está dispersa por centenas de pequenos e médios municípios do interior, sem concentração expressiva nos grandes centros urbanos.
Tabela de Participação Setorial
A tabela interativa abaixo reúne a participação setorial de todos os municípios do estado de São Paulo, possibilitando consultas individuais, ordenações por setor e filtragens por faixas de participação. Trata-se de um instrumento útil para identificar municípios com perfis econômicos específicos — seja por elevada especialização agrícola, industrial ou terciária.
participacao |>
mutate(
part_agro = scales::percent(part_agro, accuracy = 0.1),
part_ind = scales::percent(part_ind, accuracy = 0.1),
part_serv = scales::percent(part_serv, accuracy = 0.1)
) |>
select(
Município = MUN,
Agropecuária = part_agro,
Indústria = part_ind,
Serviços = part_serv
) |>
datatable(
caption = "Participação setorial no Valor Adicionado dos municípios de São Paulo — 2021",
rownames = FALSE,
filter = "top",
options = list(
pageLength = 10,
language = list(url = "//cdn.datatables.net/plug-ins/1.13.6/i18n/pt-BR.json")
)
)Análise Econômica — Tabela
A consulta à tabela permite identificar casos extremos de especialização setorial que passariam despercebidos em análises agregadas. Municípios como Ilha Comprida e Barra do Turvo, situados no litoral sul e no Vale do Ribeira, respectivamente, apresentam participações agropecuárias elevadas, revelando economias locais fortemente dependentes de atividades primárias com baixo valor agregado. Em contrapartida, municípios do ABC Paulista — como Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul — exibem participações industriais historicamente altas, embora em declínio progressivo frente ao avanço do setor de serviços.
A tabela também evidencia a heterogeneidade econômica do estado: enquanto os grandes centros urbanos concentram serviços de alto valor, centenas de municípios menores sustentam suas economias em atividades agropecuárias e agroindustriais, compondo um mosaico produtivo que caracteriza a complexidade econômica de São Paulo.
Conclusão
A análise da participação setorial no Valor Adicionado Bruto dos municípios paulistas em 2021 revela uma estrutura econômica marcada por forte heterogeneidade espacial e por uma clara hierarquia urbano-regional.
O setor de serviços domina a economia da grande maioria dos municípios, especialmente nos grandes centros urbanos e na Região Metropolitana de São Paulo, refletindo o avançado grau de urbanização e a diversificação produtiva que caracterizam as economias mais desenvolvidas. Essa predominância do terciário é consistente com a trajetória de transformação estrutural observada em economias maduras, nas quais o crescimento da produtividade e da renda per capita tende a deslocar a demanda em direção a serviços de maior complexidade.
A indústria mantém papel relevante em cidades médias e em polos especializados, como o ABC Paulista, o Vale do Paraíba e o litoral santista, embora sua participação relativa venha cedendo espaço ao longo das últimas décadas — fenômeno conhecido na literatura econômica como desindustrialização relativa. Essa tendência não implica necessariamente enfraquecimento produtivo, mas sinaliza uma reconfiguração das cadeias de valor, com maior incorporação de serviços especializados aos processos industriais.
A agropecuária, por sua vez, concentra-se no interior do estado, cumprindo papel estruturante nas economias municipais de menor porte. Apesar de sua participação relativa ser menor no cômputo estadual, o setor continua sendo o principal vetor de geração de emprego e renda em centenas de municípios, além de sustentar cadeias agroindustriais de alcance nacional e internacional.
Em síntese, São Paulo consolida-se como um estado de economia dual e diversificada: de um lado, uma metrópole global orientada para serviços de alta complexidade; de outro, um vasto interior agrícola e industrial que ancora a produção material do país. Compreender essa heterogeneidade é condição necessária para a formulação de políticas públicas regionais mais eficazes e equitativas.