Artigo avaliado: Ladd, J. M.; Lenz, G. S. Exploiting a rare communication shift to document the persuasive power of the news media. American Journal of Political Science, vol. 53, n. 2, 2009, p. 394-410.

1. Estratégias de identificação

O artigo de Ladd e Lenz busca identificar o efeito causal da persuasão da mídia sobre o comportamento eleitoral (voto), utilizando a mudança súbita de apoio editorial de jornais britânicos (The Sun, The Daily Star, Financial Times, The Independent) ao Partido Trabalhista em 1997. O texto utiliza como estratégias de inferência causal para dados em painel (British Election Panel Study 1992-97 - BEPS): DiD, matching (exato e genético) e variável instrumental, com checagens posteriores via testes de placebo e análise de sensibilidade para avaliar o viés da seleção não aleatória em variáveis não observáveis. Os autores usam o BEPS codificando como grupo tratado (n = 211) quem lia um desses jornais em 1996, antes da virada editorial, e como controle (n = 1.382) os leitores de jornais sem mudança de apoio e não-leitores. As estimativas resultantes variam entre 10% e 25% de leitores persuadidos, a depender do método.

Dentre as qualidades do artigo, destaco: a triangulação consistente entre DiD, matching e VI; e o aproveitamento de variação exógena genuína. Quer dizer, a mudança editorial abrupta e inesperada de alguns jornais, possibilitando a mensuração do efeito de persuasão da mídia num cenário de ausência de tendência prévia diferenciada entre os grupos tratado e controle (condição para o DiD).

2. Generalização

Os autores superestimam a generalidade de seus achados. Quando os autores afirmam que “Se, nas eleições britânicas de 1997, o apoio do The Sun foi uma troca por um ambiente regulatório favorável a Murdoch, essa concessão pode ter garantido a Blair entre 8% e 20% de sua margem de 3,9 milhões de votos sobre os conservadores” (p. 405), estão aplicando o efeito estimado sobre os tratados para toda a base eleitoral britânica. Mas o ATT é o efeito médio sobre quem efetivamente leu esses jornais (uma população específica, com perfil socioeconômico e político particular, conforme a Tabela 3 do artigo) e o LATE (estimando em VI) é o efeito causal médio para os “compliers”. Não há, portanto, justificativa para assumir que o efeito seria o mesmo sobre leitores de outros jornais ou sobre não-leitores. A passagem para votos absolutos requer o ATE, que o desenho metodológico não identifica.

Ainda, a conclusão de que a provável fonte da estabilidade democrática decorre de fluxos estáveis de comunicação da elite (também na p. 405) vai muito além do que o desenho permite inferir. O artigo identifica um efeito em um único país, em uma única eleição, com uma variação excepcionalmente favorável à identificação causal. Concluir a partir disso que elites midiáticas, e não preferências estáveis dos cidadãos, são a fonte geral da estabilidade democrática é uma generalização que o desenho não favorece: se o efeito só é identificável porque a variação foi excepcional, isso sugere que em contextos normais o efeito pode ser muito menor ou indetectável.

3. Identificação causal x precisão estatística

Apesar do rigor na neutralização de vieses de seleção e na busca por intercambialidade, as conclusões de Ladd e Lenz sobre o poder massivo da mídia devem ser lidas com cuidado. A imprecisão estatística (evidenciada pelos altos erros-padrão) e a natureza local do efeito (ATT/LATE) sugerem que o estudo prova com segurança que a mídia consegue persuadir, mas falha em definir com exatidão o quanto ela persuade (conclusões estimam entre 10% e 25%). Métodos como VI e matching são “famintos por dados” (Cunningham, 2021) e tendem a produzir estimativas com maior dispersão para garantir que o que está sendo medido é, de fato, causal e não apenas correlação. Nesse sentido, a amplitude do efeito encontrado parece ser mais um reflexo da fragilidade dos dados em suportar testes tão exigentes (como o matching genético) do que uma prova definitiva do superpoder da mídia. A retórica do artigo foca na magnitude do ponto estimado, mas uma visão cautelosa deve levar em conta também os erros-padrão.

4. Recomendação

Aceitar com revisão. Em função das limitações identificadas, recomenda-se que os autores façam dois ajustes. Quanto à generalização dos efeitos, restringir as afirmações da conclusão ao estimando efetivamente identificado (o ATT sobre leitores dos jornais que mudaram o apoio partidário em 1997 e o LATE sobre os compliers no modelo de variável instrumental) abstendo-se de converter essas estimativas em votos absolutos sobre a margem eleitoral de Blair. As afirmações sobre a estabilidade democrática em geral devem ser apresentadas como hipótese a investigar, não como conclusão do estudo. Segundo, quanto à precisão estatística, os autores devem reportar explicitamente os intervalos de confiança das estimativas (especialmente as provenientes do matching genético e do modelo IV) e reconhecer que a amplitude da faixa de 10% a 25% reflete em parte a imprecisão inerente a métodos exigentes aplicados a amostras de tratados relativamente pequenas, e não apenas heterogeneidade real do efeito.