Quando Ninguém governa o Ministério da Educação

Roberto Sobral

É como se fazer antropologia requisitasse uma disposição permanente de partida (..). Partia-se em busca dos dragões tendo como guia a compreensão clara da natureza construída, em coautoria, da teoria etnográfica — sempre parcial, embora eventualmente propondo totalizações provisórias — e como bagagem o tesouro etnográfico que cada um conseguiu tornar seu. Sem qualquer afetação ou alarde, era-nos requerida a coragem da vulnerabilidade. (Christine Chaves)

  • Excessos da coragem

saturadíssimo tema do Estado

trabalhar no campo

vulnerabilidades existenciais e teóricas (política de afetos em tempos de entristecimento)

  • Fontes da coragem

a força do vivido (Peirano)

necessidade sincera de saber no que literalmente estamos metidos

ESCRAVO EM PAPELÓPOLIS

Ó burocratas!

Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio…

É ainda o sentimento

da vida que perdi sendo um dos vossos.

(Carlos Drummond de Andrade, colega do MEC)

A cada qual que carrega o sentimento da vida que perdeu por ser um dos nossos.

Política de afetos

  • todo poder é triste (poder x potência)

  • alegria x tristeza

  • bons encontros x maus encontros

  • admiração x desprezo

  • amadorismo (afeto que deixa permanente em aberto o que pode emergir de uma relação)

  • antropologia amadora

  • amor como grau superior de atenção

Escrever sobre o vivido, como disse Mariza Peirano, envolve a complicada tarefa de transposição de algo de seu respectivo plano de indexicalidade — de imbricação e dependência do contexto — para um texto referencial: “É preciso colocar em palavras seqüenciais, em frases consecutivas, parágrafos, capítulos, o que foi ação. Aqui, talvez esteja um dos desafios maiores da etnografia e, certamente, não há receitas preestabelecidas de como fazê-lo”.

Estrutura do texto

Situação I. Por que os ministros choram?

Adorando despedidas

Metido com equipes derrotadas e entristecidas

Arre, melhor não os nomear!

A vida perdida

O lirismo do monstro frio

Situação II. Trabalhando no campo

A influência da profissão dos pais

Trabalho de campo para quem tem mais o que fazer

Antropologia de servidores públicos

Amor, um grau superior de atenção

Situado na copa

Festa oficial, festas paralelas

Pesquisa sem lugar e sem jeito

Para onde vai essa Educação?

O suor e o sentar como diretrizes de RH

Aos olhos alheios, ninguém faz nada

Os ensinamentos de Dona Francisca

Situação III. Quando Ninguém governa

O efeito feito

Brincadeirinhas levadas a sério

Nas colunas sociais da Esplanada

Planejando sem culpa

A entremeada lápide da educação

À altura do Estado

Ao ventre do Estado

Medo de bicho no escuro

Conversas de corredor

Navegando no Peixe-Cão

O poder do Executivo

Quando a caixa de ferramentas vira caixa preta

Em direção a um responsável

Burocracia da atenção

Burocracia do contágio

Autoridades desocupadas

Ninguém entronizado consegue trabalhar

Tristeza dá trabalho

Em direção a Um irresponsável

Logicamente, a cara da educação

Situação IV. Futuros tristes

Os riscos da alegria

Num túnel do tempo

Vestígios imorredouros

História dos futuros do Ministério da Educação

Mais uma ilusão biográfica

Preocupações de fachada: é legal ser diferente

Oficialmente diverso

Verticalmente diverso

Horizontalmente diverso

O poder dos enxugamentos

Questões de hospedagem

Seres alegres não trabalham pra Ninguém

Quem paga a banda escolhe a música

A alegria de Todos e as calendas gregas

Claro, uma conclusão

Situação I. Por que os ministros choram?

  • No que estamos literalmente metidos?

Habitávamos, diuturnamente, como Geppetto e Pinóquio no conto de Carlo Collodi (2011), o ventre de um gigantesco e terrível Peixe-Cão, empenhado em seus próprios desígnios, seguindo seu curso com força de locomotiva.

  • Adorando despedidas (a tristeza da chefia de auto escalão)

De 2005 a 2019 , foram nomeados doze ministros

Momento altivo de ascensão ao cargo x presença quebrantada na despedida

Não conheci chefia que, em sua despedida, transmitisse um grau de vitalidade superior ao que se viu em sua chegada. Sem exceção, estavam envelhecidos, entristecidos, cansados, adoentados

Precipitação nostálgica diante das feições de pessoas recém-chegadas: retratos vivos do passado, da vida que em breve perderão por serem um dos nossos

A realidade que eu aprendi no ministério é que eu, como um ministro, não tinha poder de fazer nada [..] chego à conclusão de que eu não tenho poder nenhum, nem de ensinar, eu tenho a obrigação de virar uma outra coisa. Virar um artista de teatro. Sei lá. Arranjar um emprego num circo. Fazer uma outra coisa, porque não é possível! (Roberto DaMatta)

  • Relação com gente metida em campo

No departamento… arre, é melhor não mencionar o departamento. […] Hoje em dia qualquer indivíduo acha que tocar no seu nome já significa ofender toda a sociedade” (Nikolai Gógol, O Capote)

para evitar complicações, é melhor chamarmos o departamento de que falamos… de um departamento. Pois bem, num departamento trabalhava um funcionário (Gógol)

Melindre se justifica por ser difícil prever a reação dos antigos, atuais e futuros czares, bem como de seus apendiciais czarzinhos

Mas não se preocupar apenas em salvar a própria pele: a da expectativa de se salvar o próprio campo. Estratégia descritiva correspondente à névoa de indistinção e de anonimato que repousa sobre o Ministério

Situação II. Trabalhando no campo

  • sitio próprio vs sitio inimigo (na varanda do Estado)

  • Antropologia amadora

  • A influência da profissão dos pais e herança disciplinar

  • Antropologia antes da Antropologia

  • Certo-Malinowski (sitio inimigo e tédio tropical)

Certo-Malinowski é Malinowski, mas nem tudo em Malinowski é Certo

amador com longa permanência era capaz de enxergar as árvores, mas não a floresta (Malinowski)

  • A latência arborescente do bosque

Los árboles no dejan ver el bosque, y gracias a que así es, en efecto, el bosque existe. […] sólo cuando nos damos perfecta cuenta de que el paisaje visible está ocultando otros paisajes invisibles nos sentimos dentro de un bosque (Ortega y Gasset)

  • Conhecimento Irresponsável

  • Trabalho de campo como trabalho no campo

Trabalho de campo para quem tem mais o que fazer

  • Antrologia de servidores públicos (punto de hablada, lugar que fala)

  • Amor como grau superior de atenção

  • Alegria x tristeza (política dos afetos)

  • Admiração x desprezo

  • Bom encontro x mau encontro

  • Pasmo essencial (como aprendo a estranharPonto Zero da Antropologia)

Desconfiança de que alguma metodologia nos colocaria no controle de eventos arbitrários que “dependem […] da potencialidade de estranhamento, do insólito da experiência, da necessidade de examinar por que alguns eventos, vividos ou observados, nos surpreendem” (Mariza Peirano)

  • Mundo coiote (um sem-fim de estopins etnográficos)

  • Festa oficial x festas paralelas (sabotagem de eventos)

  • Diálogo com Francisca Antonia (conhecendo o próprio sitio)

  • Trabalhar sentado e não produzir suor

  • Aos olhos alheios, ninguém faz nada

Situação III. Quando Ninguém governa

  • O efeito feito (anterioridade do Estado)

  • O Mágico de Oz (ilusionismo x magia real)

  • Estado como autoengano e alter-engano

  • Brincadeirinhas Inúteis

  • A Coluna Social da Esplanada e disposição dos agentes

  • O Triplo Corporativismo

  • Burocracia Privada

  • Políticas de governo x políticas de Estado (e um Terceiro)

  • Autoritarismo de esquerda e de direita

  • Espaciosidade Originária (Geometria Burocrática)

  • Geometria da Burocracia (espaciosidade física x geometria existencial e espaciosidade originária)

  • Birô Crático (dança das cadeiras)

  • Verticalidade e alturidade

  • Captura e Encompassamento

  • O fora do Estado (exterioridade estatal e questões de fronteira)

  • Contra-Estado

  • Urstaat

  • Ocultismo Estatal

  • Estado, embruxamento e o ficar na berlinda

  • Medo de bicho no escuro

  • Corredores arteriais (rádio-corredor e o fluxo intersetorial)

  • Puxadores de alavancas (máquina Pública e Arquimedes)

  • Teleologia da navegação, nas mãos do timoneiro

Ciclo de posição: determinar a posição atual do navio; projetar sua posição futura (Hutchins)

  • Sistema Cognitivo Distribuído (cognição de Ministério)

  • Invenção e Contrainvenção

  • Despossessão perspectiva (quase-objetos, fronteiras executivas)

  • Caixa de Ferramentas que vira Caixa-Preta

  • A qualidade da antropologia (mereologia antropológica)

  • Força centrípeta x força centrífuga

  • O Um (a vocação unificadora)

  • Burocracia da Atenção (número de Dunbar e tratar mal é da função)

  • Magia por contágio e Alma Externa

  • Transubstanciação política (traição do muitos em Um x Um em muitos)

  • Teoria do Órgão e Pessoa Jurídica (duplicidade de corpos)

  • Desocupar o cargo (potência destituinte e o Presidente operário)

  • Numa varanda estatal

  • Desvalor estrutural da vida administrativa (irresponsabilidade constitutiva)

  • maior x menor (maioria vs minoria)

  • Ninguém (lógica-Estado e padrões abstratos)

maioria é ninguém e a minoria é todo mundo (Deleuze).

  • Rostidade e quadriculamento estatístico (Ideb)

  • O Homem Futuro (Homem brasileiro, Celso Antônio)

Situação IV. Futuros tristes

  • O Encostado e identificado com o precário

  • Alegria de Contraturno

  • Alegria Responsável

  • Túnel do tempo (corredor diacrônico)

  • Ir parar na parede (mortalidade, imortalidade e eternidade)

  • História dos Futuros do MEC

  • Mais uma ilusão, a biográfica (constância nominal)

  • Preocupações de fachada (oficialmente diverso)

  • Círculos de cultura x lógica massificadora (horizontalmente diverso x verticalmente diverso)

  • Diversidade como selo corporativo e business case

  • A contradição da autoridade horizontal

  • O poder do Enxugamentos

  • Escalabilidade (scalability)

  • Perspectiva heliocêntrica (crença espontânea x copernicana)

  • A retórica da falta (prova negativa por ausência)

  • Burocracia Privada em duplo vínculo (formação de lideranças)

  • A Coluna Social dos Hotéis

Em hotéis, falando mal de professor da rede pública

5 metas de um workshop hoteleiro de dois dias, abril de 2006 (80 representantes de diversos setores mapeando questões estruturais da educação). Bases conceituais para uma equipe técnica consolidar 5 metas mensuráveis para alcance até 2022.

Jardim digital e aprendizado em público (https://www.mecemdebate.com.br/)

  • Quem paga a banda escolhe a música (Capitalismo filantrópico e dívida Moral)

  • O atual silêncio das escadarias do Ipiranga (a seriedade da calendas gregas)