Curva de Phillips no Brasil

Author

Dinilson Pedroza Jr.

Quarto

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CURVA DE PHILLIPS NO BRASIL

Vamos estimar uma curva de Phillips para o Brasil. Como já vimos, a curva propõe uma relação negativa entre inflação e desemprego.

A curva de Phillips que vamos estimar é derivada da proposição de Blanchard (capítulos 7 e 8)

Relação de determinação de salários:

\[W = P^e.F(u, z)\]

Relação de determinação de preços:

\[P = (1+m).W\]

Deduzindo uma equação de Phillips

Juntando as duas relações:

\[P = (1+m).P^e.F(u,z) \tag{1}\]

Vamos assumir, como Blanchard (2026) o faz na p. 158, uma forma funcional linear para \(F(u,z)\):

\[F(u,z) = 1 -\alpha u + z\]

Onde \(\alpha\) informa o quanto o desemprego (\(u\)) afeta a função \(F(.)\) e \(z\) representa o impacto positivo das variáveis institucionais na mesma função \(F(.)\).

Desta forma, \(P\) fica agora assim:

\[P = (1+m).P^e.[1 - \alpha u + z]\]

Vamos reorganizar, inserir índices de tempo e dividir a equação acima por \(P_{t-1}\):

\[\frac{P_t}{P_{t-1}} = \frac{P^e_t}{P_{t-1}}.(1+m).[1-\alpha u_t+z] \tag{2}\]

Definindo inflação:

\[\pi_t\equiv\frac{P_t - P_{t-1}}{P_{t-1}}\]

inflação esperada:

\[\pi^e_t \equiv \frac{P^e_t - P_{t-1}}{P_{t-1}}\]

Podemos, então fazer:

\[\frac{P_t}{P_{t-1}} -1+1 = \frac{P_t - P_{t-1}}{P_{t-1}} + 1 = \pi_t + 1\]

O mesmo em relação à inflação esperada:

\[\frac{P^e_t}{P_{t-1}} -1+1 = \frac{P^e_t - P_{t-1}}{P_{t-1}} + 1 = \pi^e_t + 1\]

Vamos botar as duas expressões acima (inflação mais 1) na equação (2):

\[(\pi_t + 1) = (\pi^e_t + 1).(1+m).[1-\alpha u_t+z]\]

Vamos dividir a equação acima por \((\pi^e_t + 1).(1+m)\):

\[\frac{(\pi_t +1)}{(\pi^e_t +1).(1+m)} = [1 -\alpha u_t + z] \tag{3}\]

Assumindo que todas as taxas são pequenas, podemos simplificar a equação acima. Primeiro vamos tratar do denominador do termo à esquerda:

\[(\pi^e_t +1).(1+m) = \pi^e_t + \pi^e_t.m + 1 + m = \pi^e_t + 1 + m\]

Porque a multiplicação de taxas pequenas se anula.

O lado esquerdo da equação (3) fica, então:

\[\frac{(\pi_t + 1)}{\pi^e_t + 1 + m}\]

Ainda considerando taxas pequenas, vamos mostrar que podemos escrever a expressão acima do seguinte modo:

\[\frac{(\pi_t + 1)}{\pi^e_t + 1 + m} = \pi_t + 1 - \pi^e_t - m \tag{4}\]

Para demonstrar isso, façamos a seguinte multiplicação:

\[(\pi_t + 1 - \pi^e_t - m).(\pi^e_t + 1 + m) = \pi_t.\pi^e_t +\pi_t + \pi_t.m + \pi^e_t + 1 + m -(\pi^e_t)^2 - \pi^e_t - \pi^e_t.m - m.\pi^e_t - m - m ^2\]

Realizando a soma e cancelando as taxas multiplicadas entre si ou elevadas ao quadrado, ficamos com:

\[(\pi_t + 1 - \pi^e_t - m).(\pi^e_t + 1 + m) = (\pi_t + 1)\]

Basta dividir a expressão acima por \((\pi^e_t + 1 + m)\) para deduzir a equação (4).

Considerando as equações (3) e (4), ficamos com:

\[\pi_t + 1 - \pi^e_t - m = [1 -\alpha u_t + z]\]

Ou ainda, uma versão acabada para a equação da curva de Phillips:

\[\pi_t = \pi^e_t - \alpha u_t + (m+z) \tag{5}\]

Taxa natural de desemprego na curva de Phillips

Vimos no capítulo 8 do Blanchard que \(u=u_n\), quando \(P^e = P\). Ou, a taxa de desemprego é a de equilíbrio quando as previsões de preço são acertadas.

Como fica a equação (5) se \(P^e = P\)?

\[\pi_t = \pi^e_t\]

Pois:

\[\frac{P_t - P_{t-1}}{P_{t-1}} = \frac{P^e_t - P_{t-1}}{P_{t-1}}\]

A equação (5), fica, então:

\[\pi_t - \pi^e_t = 0 = -\alpha u_n + (m+z)\]

E:

\[\alpha u_n = (m+z)\]

Chegamos, portanto, a uma expressão para a taxa natural de desemprego (\(u_n\)):

\[u_n = \frac{(m+z)}{\alpha} \tag{6}\]

Vamos inserir o termo \(u_n\) na equação (5). Da equação (6) temos que:

\[(m+z) = \alpha u_n\]

Logo, a equação (5) pode ser escrita da seguinte forma:

\[\pi_t = \pi^e_t - \alpha u_t + \alpha u_n\]

Rearranjando:

\[\pi_t- \pi^e_t = -\alpha(u_t - u_n) \tag{7}\]

A equação (7) é uma versão bem popular para a curva de Phillips. Notem que se a taxa de desemprego está abaixo da taxa natural (\(u_t > u_n\)), a inflação é maior que a inflação esperada (\(\pi_t > \pi^e_t\)).

Versões da Curva de Phillips

1ª Versão - Original

Imagine que inflação é baixa e está há muito tempo em torno de um patamar histórico conhecido por todos.

Os agentes aprendem observando a realidade à sua volta. Então, suas expectativas logo se adaptam ao valor histórico notado. Dizemos que as expectativas estão “ancoradas”:

\[\pi^e = \bar{\pi} \tag{8}\]

Logo, a equação (7) fica:

\[\pi_t = \bar{\pi} + \alpha(u_t - u_n) \tag{9}\]

2ª Versão - Aceleracionista

Contudo, se a inflação aumenta, de forma continuada, as agentes econômicas devem reelaborar seu processo de formação de expectativas. Por exemplo:

\[\pi^e = (1 - \theta)\bar{\pi} + \theta\pi_{t-1} \tag{10}\]

Onde o \(\theta\) dá a importância das inflações ancorada (\(\bar{\pi})\) e do período imediatamente anterior (\(\pi_{t-1}\)) .

Notem que se a inflação tá crescendo tanto que não faz mais sentido ancorar as expectativas em um determinado valor histórico, só a inflação de ontem realmente importa (\(\theta = 1\)):

\[\pi_t = \pi_{t-1} - \alpha(u_t - u_n)\]

Ou, finalmente:

\[\pi_t - \pi_{t-1} = -\alpha(u_t - u_n) \tag{11}\]

Essa é a chamada versão aceleracionista da curva de Phillips. O desemprego afeta a variação da inflação e não só a inflação propriamente dita.

Hiperinflação

Quando a inflação é muito, muito alta, digamos mais de 50% ao mês, os agentes se preocupam não só com a inflação passada, mas com os indícios de inflação presente. Numa situação como essa, a curva de Phillips deve ser reescrita da seguinte maneira:

\[\pi_t = [\lambda\pi_t + (1-\lambda)\pi_{t-1}] -\alpha(u_t -u_n)\]

Onde a letra grega \(\lambda\) dá a proporção dos valores que são atualizados imediatamente com a inflação, o que é conhecido como indexação de preços e salários. Passando os termos dos colchetes para o outro lado:

\[\pi_t - \lambda\pi_t - (1-\lambda)\pi_{t-1} = -\alpha(u_t -u_n)\]

Ou:

\[(1-\lambda)\pi_t - (1-\lambda)\pi_{t-1} = -\alpha(u_t -u_n)\]

E, pondo, agora \((1-\lambda)\) em evidência no lado esquerdo da equação acima:

\[(1 -\lambda)(\pi_t - \pi_{t-1}) = -\alpha(u_t -u_n)\]

Então apresentamos uma fórmula de curva de Phillips que mostra como a variação da inflação responde a mudanças na taxa de desemprego (\(u_t\)) levando em conta o quão indexada está a economia (p. 170):

\[\pi_t - \pi_{t-1}= -\frac{\alpha}{1 - \lambda}(u_t -u_n)\tag{12}\]

Com números:

\(\alpha = 0,2\)

\(\lambda = 0,1\)

\(u_n = 0,06\)

\(u_t = 0,05\)

Então a variação da inflação vai ser de:

\[\pi_t - \pi_{t-1} = 0,22\%\]

Considere agora que a proporção de contratos indexados subiu para 90%:

\(\alpha = 0,2\)

\(\lambda = 0,90\)

\(u_n = 0,06\)

\(u_t = 0,05\)

A variação na inflação é agora de 2%.

Quanto mais indexada for a economia, mais os preços sobem:

\(\alpha = 0,2\)

\(\lambda = 0,99\)

\(u_n = 0,06\)

\(u_t = 0,05\)

Quando \(\lambda\) se aproxima muito de 1, o denominador de \(\frac{\alpha}{1 - \lambda}\) fica muito pequeno, fazendo a sensibilidade da inflação explodir. Assim, um desemprego apenas 1 ponto percentual abaixo do desemprego natural gera um aumento extremamente forte da inflação, de cerca de 20%.

Estimando a curva de Phillips para o Brasil (1ª Versão)

Dados:

Inflação: IPCA mensal (Tabela 1737)

Desemprego: variação mensal da taxa de desemprego da PNADc (Tabela 6381).

As duas séries devem começar em janeiro de 2015.

Taxa de desemprego.

tx_d <-read.csv("tx_desocup.csv", header = T)

Explicando o código: os dados foram salvos do SIDRA no formato CSV.US. Depois de baixar os dados em nosso PC, devemos limpar a planilha, deixando apenas os números e o nome da coluna. Exclua também a coluna com as datas. Isso torna a leitura dos dados com a função read.csv() mais direta. O argumento header=T pede que o cabeçalho dos dados seja preservado.

Inflação.

ipca <- read.csv("ipca.csv", header = T)

Explicando o código: os mesmos procedimentos do caso acima.

Agora vamos criar uma sequência de datas.

datas <- seq(as.Date("2015-01-01"), as.Date("2026-03-01"), by = "month")

Explicando o código: a função seq() cria uma sequencia. No primeiro argumento, informamos o primeiro valor e no segundo argumento o ultimo valor. A função as.Date() cria datas no formato padrão, o argumento by=“month” especifica que a variação de datas no intervalo considerado será mensal, ou seja, “2015-01-01”, “2015-02-01”, etc.

Vamos juntar tudo feito até agora em uma tabela (data frame). A sigla CP faz referência, claro, à Curva de Phillips.

CP <- data.frame(
  data = datas,
  inflacao = ipca,
  desemprego = tx_d
)

Explicando o código: usamos a função data.frame() para criar a tabela com as variáveis descritas em seu argumento.

plot(CP$tx_des, CP$ipca,
     pch = 16, col="red",
     xlab = "Desemprego",
     ylab = "Inflação (IPCA)",
     main = "Curva de Phillips para o Brasil (2015-2026)")

Explicando o código: a nossa base dados é o CP. Para desenhar linhas correspondentes às colunas de inflação e desemprego, sinalizamos isso com o operador “$”; o argumento “pch=16” especifica o tipo de ponto, no caso redondo.

Regressão linear

Vamos ajustar os dados a uma reta que melhor os represente. O método empregado será o de regressão linear simples.

modelo <- lm( CP$ipca ~ CP$tx_des, data = CP)
summary(modelo)

Call:
lm(formula = CP$ipca ~ CP$tx_des, data = CP)

Residuals:
     Min       1Q   Median       3Q      Max 
-1.13938 -0.23366 -0.04807  0.25147  1.15799 

Coefficients:
            Estimate Std. Error t value Pr(>|t|)    
(Intercept) 0.447422   0.132403   3.379 0.000954 ***
CP$tx_des   0.001315   0.012408   0.106 0.915781    
---
Signif. codes:  0 '***' 0.001 '**' 0.01 '*' 0.05 '.' 0.1 ' ' 1

Residual standard error: 0.4017 on 133 degrees of freedom
Multiple R-squared:  8.439e-05, Adjusted R-squared:  -0.007434 
F-statistic: 0.01123 on 1 and 133 DF,  p-value: 0.9158

Explicando o código: a função lm() produz os coeficientes da regressão. Note que estamos dizendo que a inflação é a variável dependente (a que queremos explicar) e que a taxa de desemprego é a variável independente (a que explica). A função summary() apresenta os resultados estatísticos.

Resultados do modelo de regressão

O modelo resultou na seguinte fórmula:

\[\hat{\pi_t} = 0.447422 + 0.001315.u_t\]

Na equação acima o “chapéu” ou circunflexo em cima da variável inflação informa que estamos diante de uma estimativa. O primeiro valor é o intercepto e o segundo o \(\alpha\) da Curva de Phillips.

Vamos acrescentar ao gráfico de pontos observados a reta de regressão (em azul)

plot(CP$tx_des, CP$ipca,
     pch = 16, col="red",
     xlab = "Desemprego",
     ylab = "Inflação (IPCA)",
     main = "Curva de Phillips para o Brasil (2015-2026)")
abline(modelo, col = "blue", lwd = 2)

Explicando o código: apenas repetimos o código anterior acrescentando abline(). Essa função desenha a reta do modelo de regressão.

O sinal do coeficiente da taxa de desemprego está positivo, quando pela Curva de Phillips deveria ser negativo.

Além disso, o valor-p associado à variável de desemprego está muito alto (0,9158). Isso não nos permite rejeitar \(H_0: \alpha = 0\). Ou seja, do ponto de vista estatístico o desemprego não afeta a inflação.

Por fim o \(R^2 = 0,00008439\) está baixíssimo, indicando que o modelo não explica nada da inflação.

Precisamos testar, agora, uma curva de Phillips aceleracionista.


Exercício 1: façam um gráfico relacionando a variação na inflação e desemprego. Em seguida, façam uma regressão com essas variáveis.


“LEI” DE OKUN NO BRASIL

Arthur Melvin Okun (1928-1980) foi um economista norte-americano que desenvolveu a chamada “Lei de Okun”, uma relação estável entre a taxa de desemprego e o crescimento da economia.

Não confundir com a “Navalha de Occham”, do frade franciscano William (ou Guilherme) de Occham (1288-1347): “Em igualdade de condições, a explicação mais simples é geralmente a mais provável”. (Fonte:Wikipédia).

Há uma boa e rápida explicação sobre a Navalha de Occham no canal Ciência todo dia. Por sinal, um excelente canal de divulgação científica.

Deduzindo a Lei de Okun

Para deduzir uma fórmula para a “Lei” de Okun, na verdade uma regularidade que pode ser observada ou não, vamos transformar nossa curva de Phillips numa CP (curva de Phillips no plano inflação x produto).

A curva de Phillips, sem os índices de tempo:

\[\pi = \pi^e -\alpha(u-u_n)\tag{13}\]

Da definição de taxa de desemprego, temos que (Blanchard, p. 179):

\[u \equiv \frac{U}{L} = \frac{L - N}{L} = 1 - N/L\]

Sendo que:

\(u\) = taxa de desemprego

\(U\) = total de pessoas desempregadas

\(L\) = total da força de trabalho

\(N\) = total de pessoas empregadas

Rearranjando:

\[N/L = 1 - u \tag{14}\]

Ou:

\[N = L(1-u)\]

Como já havíamos suposto que produto é igual a emprego, ficamos com:

\[Y = L(1-u)\]

A mesma relação é válida para a taxa natural de desemprego e o produto natural:

\[Y_n = L(1-u_n)\]

Vamos definir o hiato do produto como a diferença entre produto e produto natural:

\[Y - Y_n = L(1-u) - L(1-u_n) = L(1-u - 1 + u_n) = L(-u + u_n) = -L(u - u_n)\]

Ou seja,

\[-(u-u_n) = \frac{Y-Y_n}{L}\]

Inserindo esse resultado na equação (13), ficamos com:

\[\pi - \pi^e = \frac{\alpha}{L}(Y - Y_n) \tag{15}\]

Nessa versão para a curva de Phillips um aumento no hiato do produto provoca um aumento na inflação.

Com base na equação (14) ao inserirmos índices de tempo ficamos e presumindo uma força de trabalho ($L$) estável, ficamos com:

\[N_t = L(1-u_t)\]

E

\[N_{t-1} = L(1 - u_{t-1})\]

A variação fica, portanto:

\[N_t - N_{t-1} = L(1 - u_t) - L(1-u_{t-1}) = L(1 - u_t - 1 + u_{t-1}) = -L(u_t - u_{t-1})\]

\[N_t - N_{t-1} = -L(u_t - u_{t-1})\]

Vamos dividir a equação acima por \(N_{t-1}\):

\[\frac{N_t - N_{t-1}}{N_{t-1}} = \frac{-L(u_t - u_{t-1})}{N_{t-1}}\]

O termo no lado esquerdo da equação acima é uma taxa de crescimento do emprego. Vamos representá-lo por \(g_N\):

\[g_N \equiv \frac{N_t - N_{t-1}}{N_{t-1}}\]

Como estamos assumindo que \(Y = N\), podemos fazer:

\[g_Y = \frac{-L(u_t - u_{t-1})}{N_{t-1}}\]

Normalmente, \(L/N\) é um número próximo a 1. As taxas de desemprego estão, muitas vezes, próximas 5 ou 6%.

Digamos que:

\(L = 100.000\)

\(u = 0,04\)

Então:

\[L/N = \frac{100.000}{96.000} = 1,042\]

Vamos assumir, então, que \(L/N = 1\):

\[g_Y \approx -(u_t - u_{t-1})\]

Chegamos, então, a uma equação que representa a Lei de Okun:

\[(u_t - u_{t-1}) \approx -g_Y \tag{16}\]

Estimando a Lei de Okun para o Brasil

Primeiro vamos simplificar a notação:

\[\Delta u_t = u_t - u_{t-1}\]

Vamos rodar a seguinte equação:

\[\Delta u_t = \beta_0 + \beta_1g_{Y_{t}} + \varepsilon_t \tag{17}\]

Dados:

Desemprego: PNADc do IBGE.

Produto: PIB constante do IBGE.


Exercício 2. Primeiro um gráfico relacionando as duas variáveis, \(\Delta u_t\) e \(g_{Y_{t}}\). Em seguida, estimem uma reta de regressão em que a variação no desemprego (\(\Delta u_t\)) responde à taxa de crescimento da economia (\(g_Y\)). Nesse exercício use dados trimestrais, tanto para o crescimento econômico (PIB Trimestral) quanto para o desemprego (PNADc Trimestral). A seguir, desenvolvo um exemplo com dados anuais.


Lei de Okun no Brasil

Vamos estimar a equação (17) para o Brasil. Os dados serão:

  • Taxa de crescimento da economia em termos reais (CONAC - IBGE, Tabela 6784 do SIDRA).

  • Variação da taxa de desemprego (PNADc - IBGE, Tabela 4562 do SIDRA).

Como antes, vamos baixar os dados do SIDRA. Como antes, baixamos as tabelas de preferência em CSV.US, abrimos os arquivos e os limpamos, deixando apenas o nome de cada variável (coluna). Notem que só há dados de desemprego pela PNADc a partir de 2012. Por outro lado, só há taxa de crescimento até 2023. Precisamos harmonizar as duas tabelas com o mesmo número de observações.

Vamos carregar os dados. Primeiro a taxa de desemprego.

tx_cresc <- read.csv("cresc_pib.csv", header = T)
tx_u <- read.csv("tx_u.csv", header = T)

Explicando o código: como baixamos os dados em CSV.US, a leitura é direta pelo com a função read.csv().

Vamos criar uma coluna de datas (Anos) para o data frame que iremos montar:

Anos <- seq(as.Date("2012-01-01"), as.Date("2023-01-01"), by = "year")

Explicando o código: apesar de criarmos uma coluna de dados anuais, a notação empregada inclui anos, meses e dias, nessa ordem e entre aspas.

Vamos juntar tudo em um data frame (Okun_df).

Okun_df <- data.frame(
  Anos, tx_u, tx_cresc
)

Explicando o código: usamos a função data.frame() para juntar os três data frames já criados, Anos, tx_u e tx_cresc.

Contudo, quero a variação na taxa de desemprego e não a taxa propriamente dita.

Primeiro vamos carregar o pacote de ciência de dados dplyr.

library(dplyr)

Anexando pacote: 'dplyr'
Os seguintes objetos são mascarados por 'package:stats':

    filter, lag
Os seguintes objetos são mascarados por 'package:base':

    intersect, setdiff, setequal, union

Explicando o código: quando você instala a suíte tidyverse, o pacote dplyr vem junto, assim como o ggplot2 e alguns outros. A mensagem diz o seguinte: a partir de agora, quando você usar as funções filter() e as outras mencionadas no aviso, você estará usando as versões do dplyr e não as do R-base, por exemplo.

Vamos agora criar uma coluna com as variações na taxa de desemprego.

Okun_dados <- Okun_df %>%
  arrange(Anos) %>%
  mutate(
    var_u = u - lag(u)
  )

Explicando o código: vamos ordenar os dados pelos anos com a função arrange(). A função mutate() vai acrescentar a coluna de u diferenciada: ou seja, o valor de u menos o valor de u defasado (lag(u)). Como sempre, prestem atenção ao operador pipe (%>%).

Vamos excluir a primeira linha de nosso data frame, pois na diferenciação perdemos, claro, o primeiro valor (ele está como NA).

Okun_dados <- Okun_dados %>%
  filter(!is.na(var_u))

Explicando o código: o nosso interesse aqui é o de excluir a linha com valor NA na variável var_u. Por isso fazemos a seleção com a função filter(). O símbolo “!” é usado como negação lógica no R. Não queremos, portanto a linhas de var_u cujo valor é NA (is.na). Só ficam, portanto, no data frame linhas com valores de var_u diferentes de NA.

Vamos recorrer ao pacote ggplot2 para fazer um gráfico de dispersão com os valores de var_u e g_t.

library(ggplot2)

ggplot(Okun_dados, aes(x = g_t, y = var_u)) +
  geom_point(size = 3, col="darkorange") +
  labs(
    x = "Crescimento do PIB (g_t)",
    y = expression(Delta*u[t]),
    title = "Lei de Okun: variação do desemprego vs crescimento do PIB"
  ) +
  theme_minimal()

Explicando o código: notem que na denominação do eixo y, usamos a função expression(). Ela serve para escrever em fórmulas.

Cada ponto do gráfico corresponde a um ano específico. Vamos acrescentar essa camada de informação ao nosso gráfico?


Exercício 3: quando fizer o gráfico de dispersão, acrescente ao lado de cada ponto o ano correspondente.


Finalmente, vamos inserir uma reta de regressão ao nosso gráfico. Para isso basta acrescentar mais uma camada ao código.

ggplot(Okun_dados, aes(x = g_t, y = var_u)) +
  geom_point(size = 3, col="darkorange") +
  geom_smooth(method = "lm", se = FALSE) +
  labs(
    x = "Crescimento do PIB (g_t)",
    y = expression(Delta*u[t]),
    title = "Lei de Okun: variação do desemprego vs crescimento do PIB"
  ) +
  theme_minimal()
`geom_smooth()` using formula = 'y ~ x'

Explicando o código: a função geom_smooth() vai desenhar uma linha no gráfico. Mas que linha? A de uma reta de regressão (através da função lm() - “linear model”). O argumento se=False exclui o desenho das faixas correspondentes aos intervalos de confiança.

Note que a linha azul está de acordo com a Lei de Okun: quanto maior for o crescimento da economia, menor será a variação no desemprego.

Mas essa reta é válida do ponto de vista puramente estatístico? Para saber precisamos estimar o modelo de regressão e analisar seus resultado.

modelo_regressao_okun <- lm(var_u ~ g_t, data = Okun_dados)
summary(modelo_regressao_okun)

Call:
lm(formula = var_u ~ g_t, data = Okun_dados)

Residuals:
    Min      1Q  Median      3Q     Max 
-3.3793 -0.3140 -0.0858  0.8264  2.1745 

Coefficients:
            Estimate Std. Error t value Pr(>|t|)  
(Intercept)   0.4025     0.4660   0.864   0.4102  
g_t          -0.4744     0.1613  -2.941   0.0165 *
---
Signif. codes:  0 '***' 0.001 '**' 0.01 '*' 0.05 '.' 0.1 ' ' 1

Residual standard error: 1.486 on 9 degrees of freedom
Multiple R-squared:  0.4901,    Adjusted R-squared:  0.4335 
F-statistic: 8.651 on 1 and 9 DF,  p-value: 0.01645

Explicando o código: usamos a função lm() com seus respectivos argumentos e pedimos um sumário do modelo, apresentando suas estatísticas.


Exercício 4: analise os resultados de sua regressão.


Bibliografia: Macroeconomia, Olivier Blanchard. 9 ed. Porto Alegre: Pearson/Bookman, 2026.