Artigo avaliado: Acemoglu, D.; Johnson, S.; Robinson, James A. The colonial origins of comparative development: an empirical investigation. The American Economic Review, vol. 91, n. 5, 2001, p. 1369-1401.

Introdução

Acemoglu et al. se propõem a estimar o efeito causal das instituições no desempenho econômico atual (income per capita), um problema de pesquisa investigado por outros autores antes. Segundo os pesquisadores, os principais desafios metodológicos residem na endogeneidade: causalidade reversa (países ricos podem “pagar” os custos de melhores instituições) e confundimento (variáveis omitidas podem afetar tando a renda quanto as instituições). Para solucionar isso, os autores utilizam um desenho de variáveis instrumentais com estimador de mínimos quadrados em dois estágios (2SLS). O instrumento escolhido é a mortalidade de colonos europeus, teorizando o seguinte mecanismo causal:

M → E → IP → IA → PE

Em que:

M = mortalidade dos colonos europeus

E = estabelecimento dos europeus nas colônias

IP = instituições anteriores/do passado

IA = instituições atuais

PE = performance econômica

Adicionalmente, os autores teorizam sobre a possibilidade de que o estabelecimento dos europeus na colônia (E) e instituições anteriores (IP) podem ter uma relação de causalidade direta com a performance econômica atual, justificando por que estas variáveis não seriam bons instrumentos para mensurar o efeito de instituições atuais (IA) sobre a performance econômica (PE), isto é, não satisfariam a condição de restrição de exclusão. As discussões teóricas e empíricas realizadas pelos autores antes dos seus próprios testes são bastante convincentes de que o mecanismo causal teorizado é plausível. O teste de força do instrumento também tem resultado persuasivo (Figura 3). Adicionalmente, ressalto como qualidades do artigo os testes de heterogeneidade do tratamento em diferentes subamostras, demonstrando consistência do efeito em diferentes contextos e, ainda, o enfrentamento de explicações causais concorrentes. Ao descartar que geografia e características dos países africanos são causas de desenvolvimento econômico, Acemoglu et al. não apenas demonstram o efeito causal de instituições (IA) sobre PE, mas testam e explicam “causas” apontadas por estudos anteriores, demonstrando que resultam apenas em correlações sem fundamento causal, em virtude dos desenhos de pesquisa desses estudos. Abaixo aponto duas observações resultantes da análise da metodologia do artigo.

1. Falta de especificação do tratamento

Os autores reconhecem que qualquer medida única de instituições, como o “risco de expropriação”, é uma representação incompleta da variável. Mesmo que os testes com outros indicadores (v.g., restrições ao executivo e eficiência do judiciário) tenham resultados muito similares, reforçando a validade estatística do artigo, não sabemos exatamente qual regra institucional importa para o desenvolvimento econômico. O risco de expropriação parece de fato estar captando um fenômeno real, mas o artigo não consegue dizer qual “cluster de instituições” (nota 3) é relevante para o resultado (PE). Dito de outro modo, Acemoglu et al. não isolam o mecanismo causal exato, tratando todas as “boas instituições” como um pacote que o instrumento (mortalidade dos colonos) moveu em conjunto.

2. Violação de SUTVA

De acordo com Sovey e Green (2010), violações ao SUTVA ocorrem quando os resultados (no presente estudo, PE) de uma unidade dependem do fato de outras unidades receberem o tratamento (IA). Acemoglu et al. reconhecem de algum modo esse risco e tentam mitigá-lo, conforme se depreende da nota 18, em que os autores afirmam que realizaram regressões com erros-padrão corrigidos para levar em conta um possível agrupamento das taxas de mortalidade atribuídas a países no mesmo contexto de doença (não houve alteração do principal resultado). Contudo, uma crítica teórica de SUTVA permaneceria: políticas de um país colonizador em uma colônia poderiam influenciar colônias vizinhas, um ponto que o desenho de pesquisa assume como inexistente. Como Acemoglu et al. argumentam que as instituições atuais são reflexos das instituições do passado que persistiram, qualquer interdependência histórica na fase de formação institucional torna o “tratamento” de hoje (IA) dependente entre os países. Como essas instituições anteriores são o mecanismo de persistência que gera o tratamento atual (variável independente), qualquer “contaminação” histórica entre colônias vizinhas acaba violando a premissa de que as unidades são independentes hoje.

3. Recomendação

Aceitar com revisão. O artigo é muito bem escrito, claro, aplica métodos robustos e apresenta diálogo importante com a literatura do campo. Sugiro apenas que o exposto no item 2 deste parecer seja objeto de consideração no artigo, indicando que a (teoricamente plausível) violação de SUTVA pode gerar estimativas enviesadas, conforme exposto por Sovey e Green (2010, p. 12).