Introdução

Este relatório tem o objetivo de analisar o estado atual dos Estados Unidos sob uma perspectiva ampla e integrada, abrangendo os principais eixos que definem o momento americano em 2026: a geopolítica, a política fiscal, o ambiente monetário e a solidez de suas instituições democráticas. A partir de dados concretos e eventos recentes — das operações militares no hemisfério ocidental e no Oriente Médio ao crescimento acelerado da dívida pública.

1. Análise Geopolítica

1.1 Cenário em 2026

A administração Trump inaugurou 2026 com uma das intervenções militares mais audaciosas da história recente do hemisfério ocidental. Na madrugada de 3 de janeiro, os EUA lançaram a Operação “Absolute Resolve” contra a Venezuela, capturando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa em Caracas com apoio do Delta Force e da CIA, transferindo-os a Nova York para responderem a acusações de narcoterrorismo. Council on Foreign Relations A ação foi precedida por meses de escalada: em agosto de 2025, Trump havia assinado uma diretriz secreta autorizando o uso de força militar contra cartéis latino-americanos, dobrado a recompensa por Maduro para US$ 50 milhões e enviado uma frota naval com mais de 4.500 militares para águas venezuelanas. Council on Foreign Relations A justificativa oficial foi o combate ao narcotráfico, mas analistas identificaram um triplo objetivo: enfraquecer o regime, interromper rotas de tráfico e garantir acesso às vastas reservas de petróleo venezuelanas.

No Oriente Médio, a tensão acumulada desde a “Guerra dos Doze Dias” de junho de 2025 atingiu seu ápice. Após rodadas de negociações nucleares fracassadas em Genebra, em 28 de fevereiro de 2026 os EUA e Israel lançaram a Operação “Epic Fury”, com quase 900 ataques nas primeiras 12 horas, visando instalações nucleares, infraestrutura militar e a liderança do regime iraniano. A ofensiva foi catalisada também pelos massacres de manifestantes durante os maiores protestos iranianos desde a Revolução de 1979, que haviam deixado milhares de mortos nos meses anteriores. Diferentemente do conflito anterior, a estratégia desta vez adotou um caráter de “decapitação” da liderança, eliminando o Aiatolá Ali Khamenei já no primeiro dia de operações e travando a região em uma guerra de atrito sem saídas diplomáticas claras.

A morte de Khamenei desencadeou uma série de consequências geopolíticas e econômicas de alcance global. Em resposta direta aos ataques, o IRGC transmitiu alertas a todas as embarcações declarando que “nenhum navio tem permissão de passar pelo Estreito de Ormuz”, efetivamente fechando o principal corredor energético do mundo. O Petróleo Brent superou US$ 118 por barril no pico, numa alta descrita como a maior disrupção ao fornecimento global de energia desde a crise dos anos 1970. Além do petróleo, outros mercados foram severamente atingidos, incluindo alumínio, fertilizantes e hélio , com impacto direto sobre a inflação americana. O Irã, percebendo o peso estratégico que o controle do Estreito lhe confere, passou a exigir o reconhecimento de sua soberania sobre a via marítima como condição para o fim do conflito — uma demanda sem precedentes que redefine os termos do impasse e aprofunda a incerteza sobre os rumos da economia global em 2026.

1.2 Custo da Operação Epic Fury

A Operação Epic Fury apresenta um perfil de gastos que redefine o conceito de “guerra relâmpago” sob a ótica fiscal. O pico de consumo na abertura do conflito foi avassalador: apenas nas primeiras 24 horas, o Pentágono incinerou US$ 4,2 bilhões — um valor superior ao orçamento anual de defesa de muitas nações médias. Esse fluxo decresceu para US$ 2,8 bilhões no segundo dia e US$ 1,7 bilhão no terceiro, configurando uma queima de recursos sem paralelo na história militar moderna. Ao fim do sexto dia, o gasto acumulado de US$ 11,3 bilhões já forçava o Congresso a discutir créditos suplementares de emergência, uma vez que a operação operava totalmente fora do orçamento previsto.

A partir do quarto dia, a curva de gastos diários sofreu uma alteração qualitativa. O que o mercado e o CSIS identificaram como “transição de munições” não foi uma escolha estratégica, mas uma necessidade logística: o consumo frenético de mísseis de cruzeiro Tomahawk (a US$ 3,6 milhões por unidade) exauriu os estoques de prontidão, obrigando a migração para sistemas de bombardeio gravitacional e munições guiadas de menor custo (JDAMs). Mesmo com essa “downgrade” tecnológico, o custo de manutenção da soberania aérea e naval estabilizou-se em um patamar elevado, entre US$ 800 e US$ 900 milhões diários durante a segunda semana, elevando o total acumulado para US$ 16,5 bilhões no 12º dia.

A “ressaca fiscal” tornou-se evidente a partir do 13º dia. Embora o custo diário tenha recuado para a casa dos US$ 500 milhões com a entrada em modo de manutenção e patrulha, o estrago nas contas públicas já era sistêmico. Projeções do Penn Wharton Budget Model sugerem que, além dos custos diretos (que podem chegar a US$ 95 bilhões), as perdas econômicas por choques nas cadeias de suprimentos e energia podem alcançar US$ 210 bilhões no pior cenário. Ao atingir o 26º dia com um acumulado de US$ 25 bilhões, a Operação Epic Fury prova que, na guerra moderna, a exaustão financeira pode chegar muito antes da exaustão militar.

1.3 Impacto no Petróleo

Nenhum mercado capturou a escalada das tensões no Oriente Médio com tamanha precisão quanto o petróleo. Antes do início da Operação Epic Fury, o Brent operava em um regime de relativa estabilidade, oscilando em torno de US$ 74 por barril — um patamar sustentado por um excesso de oferta global e perspectivas de demanda moderada. Esse equilíbrio foi rompido nos primeiros dias após os ataques de 28 de fevereiro, quando os preços saltaram imediatamente para US$ 83 (Ponto A).

A influência do Irã no xadrez energético vai muito além de sua produção direta como membro da OPEP. Ao controlar o Estreito de Hormuz, a artéria mais vital do comércio mundial, o país pode neutralizar a capacidade da OPEP de estabilizar o mercado. Com o bloqueio, a capacidade ociosa de produtores como Arábia Saudita fica fisicamente “ilhada”, tornando qualquer esforço de coordenação do cartel inútil diante da interrupção logística de cerca de 20% do consumo global.

O ponto de inflexão sistêmico ocorreu em 8 de março, com a confirmação do fechamento total do Estreito. O Brent rompeu barreiras importantes, alcançando o patamar de US$ 95 (Ponto B) e escalando rapidamente até um pico de US$ 118 (Ponto C) em 20 de março — uma das altas mais agressivas registradas na história recente. O movimento configurou o choque energético mais severo para a economia global desde a década de 1970.

A volatilidade do período revelou uma extrema sensibilidade às sinalizações diplomáticas. Em 23 de março (Ponto D), declarações sobre possíveis negociações provocaram uma correção súbita para US$ 102, evidenciando como o mercado opera sob um “pânico de curto prazo”. Entretanto, o fracasso das conversas e a intensificação dos bloqueios devolveram o fôlego à alta.

Ao final, mais do que o preço nominal, o Índice de Volatilidade do Petróleo (OVX) — o “VIX do Petróleo” — consolidou-se como o indicador real da incerteza. No gráfico abaixo, apresentamos a evolução deste índice onde todos os marcos, do Ponto A ao Ponto E, revelam como o prêmio de risco acompanhou cada etapa do conflito. O novo Ponto E indica o preço mais recente e o maior valor desde o início das hostilidades, em torno de US$ 121. Esse patamar recorde no OVX mostra que o mercado não lida apenas com o custo do barril, mas com a incapacidade total de prever o fornecimento futuro enquanto o prêmio de risco geopolítico não for dissipado.

2. Política Fiscal

2.1 Déficit e Dívida: A Conta que Não Fecha

O governo americano gasta US$7,4 trilhões por ano. Arrecada US$5,6 trilhões. A diferença, US$1,9 trilhão, é o déficit projetado pelo CBO (Congressional Budget Office) para o ano fiscal de 2026, o que representa cerca de 5,8% do PIB.

Esse número impressiona por um motivo simples: normalmente, déficits desse tamanho só aparecem em recessões profundas ou guerras mundiais. Os EUA não estão em recessão. O desemprego está em 4,4%. A economia ainda cresce. O que isso nos diz é que o déficit americano não é conjuntural. Ele é estrutural. Mesmo em condições econômicas razoáveis, o governo não consegue fechar suas contas.

A aritmética que explica tudo

Para entender por que esse déficit é tão difícil de resolver, basta olhar as quatro maiores linhas de despesa do governo federal:

  • Social Security (aposentadorias e pensões): ~US$1,6 trilhão
  • Programas de saúde (Medicare, Medicaid e subsídios do ACA): ~US$1,7 trilhão
  • Juros da dívida: ~US$1,0 trilhão
  • Defesa: ~US$885 bilhões

Somadas, essas quatro categorias consomem mais de US$5,1 trilhões. A receita federal total é de US$5,6 trilhões. Sobram aproximadamente US$500 bilhões para financiar todo o restante do governo: educação, infraestrutura, ciência, diplomacia, agências reguladoras, programas sociais como food stamps e seguro desemprego.

Em termos práticos, o governo americano já opera em déficit antes mesmo de financiar suas atividades básicas. O orçamento está comprimido por compromissos que crescem no piloto automático e que nenhum político quer tocar.

O dado mais revelador desse gráfico é o seguinte: dos US$7,4 trilhões em gastos, mais de US$5,5 trilhões, cerca de 75%, são despesas que o Congresso não controla. Os gastos obrigatórios (Social Security, Medicare, Medicaid e outros programas) acontecem automaticamente por lei. Os juros da dívida também. Somados, consomem praticamente toda a receita federal antes que qualquer parlamentar vote um único centavo. A única fatia que o Congresso efetivamente decide a cada ano são os gastos discricionários, e dentro deles, quase metade é defesa. É justamente sobre essa fatia que a guerra com o Irã está jogando pressão.

A conta de juros: o elefante que ninguém controla

Se existe uma linha do orçamento que deveria tirar o sono de qualquer analista fiscal, são os juros da dívida. Em FY2026, os EUA vão gastar aproximadamente US$1 trilhão só para servir sua dívida. Isso equivale a cerca de US$2,8 bilhões por dia.

Para dar escala: os juros já são maiores do que todo o orçamento de defesa (US$885 bi). São maiores do que todo o gasto com Medicaid (US$708 bi). São a segunda maior linha de despesa do governo federal, atrás apenas do Social Security. E a tendência é de piora acelerada: o CBO projeta que os juros vão dobrar para US$2,1 trilhões até 2036, saltando de 14% para quase 19% de todos os gastos federais.

O mecanismo aqui é o de uma espiral. Quanto maior o déficit, mais o governo precisa se endividar. Quanto maior a dívida, mais juros precisa pagar. Quanto mais juros paga, maior o déficit. E cada ponto percentual a mais nos yields de Treasuries torna essa dinâmica ainda pior. É uma bola de neve que, uma vez em movimento, se torna progressivamente mais difícil de parar.

O orçamento militar e o custo fiscal da guerra

Os EUA gastam mais com defesa do que os próximos dez países combinados. O orçamento de FY2025 foi de US$886 bilhões, e o pedido para FY2026 deve superar US$900 bilhões. Dentro do orçamento federal, a defesa representa cerca de 13% do total, mas corresponde a quase metade de todo o gasto discricionário, aquele que o Congresso efetivamente vota e decide a cada ano. Em tempos de paz, a defesa é, pelo menos em teoria, a despesa mais ajustável do orçamento. Na prática, porém, cortes em defesa raramente acontecem. E em tempos de guerra, se tornam politicamente impossíveis.

A Operação Epic Fury adiciona uma camada de pressão sobre um orçamento que já não fecha. Até 26 de março, o custo estimado da guerra contra o Irã é de aproximadamente US$25 bilhões, segundo projeções do Center for American Progress baseadas em dados do CSIS. O ritmo atual gira em torno de US$500 milhões por dia. Nenhum desses gastos estava previsto no orçamento federal, e a Casa Branca está preparando um pedido de US$200 bilhões em fundos suplementares ao Congresso para sustentar as operações.

A análise detalhada dos custos militares, incluindo a dinâmica de munições e a linha do tempo operacional, será apresentada na seção de geopolítica deste relatório. Para a análise fiscal, o que importa é o seguinte: a defesa já consome quase metade do gasto discricionário, e em tempos de guerra essa fatia se torna politicamente intocável. O espaço para cortar outras despesas e acomodar o custo do conflito simplesmente não existe.

E a receita que viria das tarifas IEEPA, a principal aposta do governo Trump para fechar a conta, foi eliminada pela Suprema Corte justamente semanas antes da guerra começar. Falaremos disso na próxima seção.

A dívida: rumo ao recorde

Todo esse acúmulo de déficits se traduz em uma dívida que cresce em trajetória explosiva. A dívida pública americana está em aproximadamente 101% do PIB em FY2026. O CBO projeta que ela vai ultrapassar o recorde histórico de 106% do PIB, estabelecido em 1946 logo após a Segunda Guerra Mundial, por volta de 2030. Até 2036, o número chega a 120%.

Em 17 de março de 2026, a dívida bruta nacional ultrapassou US$39 trilhões pela primeira vez.

E talvez o dado mais preocupante para o longo prazo: o trust fund do Social Security, o fundo que financia as aposentadorias americanas, está projetado pelo CBO para se tornar insolvente em FY2032. Daqui a seis anos. Quando isso acontecer, a lei exige cortes automáticos de 24% nos benefícios, a menos que o Congresso aprove uma reforma antes. Dado o nível de polarização política atual nos EUA, a probabilidade de uma reforma preventiva é baixa.

O que levar desta seção

O déficit americano não é um problema de crise. É um problema de design. O orçamento foi construído sobre compromissos que crescem automaticamente (aposentadorias, saúde, juros) e que nenhum político quer tocar. A receita não acompanha. A dívida sobe. A guerra adiciona gastos bilionários sobre um orçamento que já não fechava.

A pergunta que conecta esta seção com a próxima é: se o governo não tem espaço fiscal, o que acontece quando ele perde sua principal fonte nova de receita? É exatamente o que a Suprema Corte fez ao derrubar as tarifas IEEPA. Esse é o assunto da seção 2.2.


2.2 Tarifas: A Receita que Evaporou

O que aconteceu

Desde janeiro de 2025, Trump usou a IEEPA (International Emergency Economic Powers Act) para impor tarifas sobre praticamente todas as importações americanas: 20% sobre a China (combate ao fentanil), 25% sobre Canadá e México (imigração), e tarifas “recíprocas” de 10% a 50% sobre o restante do mundo (déficit comercial). No pico, em meados de 2025, consumidores americanos enfrentavam uma tarifa efetiva média de 18,6%, o maior patamar desde 1933, segundo o Budget Lab de Yale. O custo médio por família chegou a US$2.400 por ano.

Ao longo de 2025, a administração negociou acordos bilaterais com dezenas de países usando as tarifas IEEPA como moeda de troca: o acordo com a União Europeia (tarifa de 15% em troca de abertura para produtos americanos e US$750 bilhões em compras de energia), o pacote de US$550 bilhões com o Japão, e US$350 bilhões com a Coreia do Sul. No início de 2026, com os acordos já em vigor e algumas taxas reduzidas, a tarifa efetiva tinha caído para 14,3%, ainda a mais alta desde 1939.

Em 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte decidiu, por 6 a 3, que a IEEPA não autoriza o presidente a impor tarifas (Learning Resources, Inc. v. Trump). O Chief Justice Roberts concluiu que o poder de tributar importações pertence ao Congresso. No mesmo dia, Trump encerrou as tarifas IEEPA e as substituiu por uma tarifa global temporária de 10% sob a Section 122 do Trade Act de 1974, que expira em 150 dias (julho de 2026) e tem teto de 15%. Em paralelo, o USTR abriu investigações sob a Section 301 contra 16 economias por excesso de capacidade industrial e contra 60 economias por trabalho forçado, buscando reconstruir a base legal para tarifas permanentes.

Esse é o contexto. O que interessa para a análise fiscal são os números.

O antes e o depois: o impacto nos números

A Table 1 do Budget Lab de Yale (março de 2026) permite uma comparação direta entre os cenários. Os números abaixo usam o cenário base do Budget Lab, em que a Section 122 expira após 150 dias conforme previsto em lei.

Tarifa efetiva média

Antes da decisão, a tarifa efetiva pré-substituição era de 14,3%. Imediatamente após a decisão, com a queda das tarifas IEEPA, caiu para 7,3%. Com a Section 122 de 10% em vigor, subiu para 10,5%. Quando a Section 122 expirar em julho, voltará a 7,3%, a mais alta desde 1967, mas quase metade do que era antes da decisão.

Receita de tarifas na década (2026-2035)

Esse é o número mais importante para a análise fiscal. Antes da decisão, as tarifas de Trump gerariam US$2,32 trilhões em receita convencional na década (US$2,10 trilhões em base dinâmica, descontando o efeito negativo sobre a economia). Com a decisão, assumindo que a Section 122 expire, a receita cai para US$900 bilhões convencionais (US$830 bilhões dinâmicos). Uma queda de mais de US$1,4 trilhão na década. Mesmo se a Section 122 for estendida permanentemente, a receita sobe para US$1,6 trilhão convencional, ainda US$700 bilhões abaixo do cenário anterior.

Impacto sobre preços e famílias

Antes da decisão, as tarifas elevavam os preços ao consumidor em 1,0% (pré-substituição), o equivalente a uma perda de renda de US$1.380 por família por ano. Com a Section 122 expirando, o impacto cai para 0,4%, uma perda de US$570 por família. Se a Section 122 for estendida, o impacto é de 0,7% e US$940 por família. Em qualquer cenário pós-decisão, o custo para as famílias é pelo menos 40% menor do que antes.

Isso pode parecer uma boa notícia para o consumidor, e é. Mas para o governo, é o oposto: menos tarifas significa menos receita, num momento em que cada dólar conta.

Impacto sobre o PIB e emprego

As tarifas sempre tiveram um custo econômico. No cenário pré-decisão, o PIB de longo prazo era 0,25% menor e o desemprego 0,21 ponto percentual mais alto no final de 2026. Com a queda das tarifas IEEPA, esses efeitos se atenuam: o PIB de longo prazo é apenas 0,07% menor e o desemprego sobe apenas 0,04 pp. A economia respira, mas o caixa do governo encolhe.

Um paper da Brookings (março de 2026), com dados de pesquisadores da UCLA e Yale, confirmou que as tarifas de 2025 tiveram impacto mínimo no PIB, que cerca de 90% do custo foi repassado aos consumidores americanos, e que a balança comercial praticamente não se alterou.

Os reembolsos: dinheiro que sai do caixa

Além da perda de receita futura, a decisão da Suprema Corte criou um passivo retroativo. O governo é obrigado a devolver as tarifas IEEPA coletadas ilegalmente ao longo de 2025 e início de 2026. O Penn Wharton Budget Model estima até US$175 bilhões em reembolsos devidos. Mais de 2.000 empresas, incluindo Costco e FedEx, já entraram na Justiça. Um juiz do Court of International Trade ordenou que o governo comece os pagamentos, e a CBP está desenvolvendo um portal eletrônico (CAPE) para processar os pedidos. O Budget Lab assume em suas projeções que esses reembolsos serão pagos ao longo de 2026.

Somando a perda de receita futura na década (~US$1,4 trilhão) com os reembolsos retroativos (~US$175 bilhões), o impacto fiscal total da decisão ultrapassa US$1,5 trilhão.

O que resta e o que vem pela frente

As tarifas que sobreviveram à decisão são as impostas sob Section 232 (aço e alumínio a 50%, automóveis e autopeças a 25%, cobre a 50%, caminhões pesados a 25%, madeira e móveis de 10% a 25%) e a Section 122 temporária de 10%. A Section 301, que foi a base das tarifas sobre a China no primeiro mandato e que continua em vigor com taxas de até 100% sobre certos produtos chineses, também não foi afetada.

O calendário adiante é apertado. A Section 122 expira em 24 de julho de 2026. As investigações da Section 301 têm prazo de comentários públicos até 15 de abril e audiências em maio. O USTR pretende concluir tudo e impor novas tarifas até julho. O secretário do Tesouro Bessent afirmou que até agosto as tarifas devem retornar aos patamares anteriores à decisão. Mas a Section 301 nunca foi concluída tão rápido: ela exige processo administrativo formal com comentários públicos, audiências e consultas com os países investigados.

O risco concreto é que entre julho (quando a Section 122 expira) e a conclusão das investigações 301, haja uma janela onde as tarifas sobre a maioria das importações caem para níveis pré-2025, reduzindo a receita ainda mais. É uma corrida contra o relógio com consequências fiscais reais.

O que levar desta seção

A decisão da Suprema Corte criou um buraco fiscal de duas dimensões: para trás (reembolsos de até US$175 bilhões) e para frente (perda de US$1,4 trilhão em receita na década). O paradoxo é claro: as tarifas custavam caro para os consumidores e para a economia, mas geravam receita num momento em que o governo precisa desesperadamente dela. Agora o governo perdeu a receita sem eliminar totalmente o custo, já que as tarifas Section 232 continuam em vigor e novas virão pela Section 301.

A pergunta que conecta esta seção com a anterior é direta: em um cenário de déficit de US$1,9 trilhão, dívida de 101% do PIB, juros de US$1 trilhão ao ano e uma guerra que custa meio bilhão de dólares por dia, o que significa perder US$1,4 trilhão em receita de tarifas na década? Significa que o espaço fiscal americano, que já era apertado, ficou ainda menor. E as opções para fechá-lo estão se esgotando.

A seção fiscal encerra aqui, mas seus efeitos atravessam todo o restante do relatório. O déficit crescente e a perda de receita tarifária pressionam os yields de Treasuries longos. A guerra eleva gastos de defesa e encarece energia. Esses são os fios que conectam a política fiscal com as seções de política monetária e mercado financeiro que vêm a seguir.

3. Política Monetária

3.1 Análise Inflacionária

Na análise econômica americana existem três índices de inflação principais — CPI Headline, Core CPI e Core PCE — todos mensurando a variação de preços na economia, mas com diferenças metodológicas centrais entre eles.

O CPI Headline é o índice cheio, medindo a variação de preços de uma ampla cesta de produtos e serviços consumidos pelas famílias americanas, composta por:

Categoria | Peso aproximado

———————————|—————-

Housing (aluguel, moradia) | 36%

Transportation (carros, comb.) | 16%

Food (em casa + fora) | 15%

Medical Care | 7%

Education & Communication | 6%

Recreation | 5%

Apparel (vestuário) | 2,5%

Other | 3%

O Core CPI exclui energia e alimentos — ambos excessivamente voláteis por fatores sazonais e choques externos — revelando com mais clareza a tendência inflacionária estrutural do dia a dia da economia doméstica. Sua limitação metodológica está na cesta fixa: definida a cada dois anos por uma pesquisa de gastos das famílias, ela não se adapta ao comportamento real do consumidor. Se o preço da carne sobe e as pessoas migram para o frango, o CPI continua medindo carne com o mesmo peso de antes. Além disso, o Core CPI cobre apenas os gastos diretos das famílias — o que saiu do bolso delas. Uma consulta médica coberta pelo plano de saúde do empregador, por exemplo, não entra no índice.

O Core PCE é a medida oficial de meta do Federal Reserve desde 2012, com target de 2% ao ano. Ele também exclui energia e alimentos, mas resolve as duas limitações do Core CPI: usa uma cesta dinâmica que se atualiza conforme os hábitos de consumo mudam, e cobre gastos feitos em nome das famílias por terceiros — como o que o empregador paga pelo plano de saúde ou o que o Medicare paga por uma internação. Por isso saúde tem peso estruturalmente maior no PCE do que no CPI, tornando-o mais sensível à inflação de serviços. Historicamente o Core PCE roda entre 0,3 e 0,5 ponto percentual abaixo do Core CPI — quando os dois divergem de forma mais acentuada, é sinal de alerta para os mercados.

Com o arcabouço conceitual estabelecido, os dados recentes revelam exatamente esse sinal de alerta.

O CPI Headline acumulou alta de 2,4% nos 12 meses encerrados em fevereiro de 2026, após avanços mensais de 0,2% em janeiro e 0,3% em fevereiro. O índice de shelter — aluguel e moradia, com peso de 36% na cesta — foi o principal fator de pressão no mês, acumulando 3,0% nos últimos 12 meses. Apesar disso, o Headline segue em trajetória de desaceleração, com energia e alimentos comportados no período — embora o impacto do choque do petróleo decorrente da guerra com o Irã ainda não tenha aparecido nos dados, representando um risco de alta para os próximos relatórios.

A pressão persistente do shelter tem raiz no Lock-in Effect: proprietários com hipotecas travadas entre 2,5% e 3,5% se recusam a vender, pois assumir uma nova hipoteca acima de 7% pode dobrar a parcela mensal. O estoque de imóveis despencou, a oferta secou e a escassez sustenta os preços — mesmo com a demanda arrefecendo.

O Core CPI acompanhou esse movimento, registrando 2,5% no mesmo intervalo — o menor nível desde março de 2021 — reforçando os sinais de desinflação recente e posicionando o índice próximo da meta de 2% do Fed. Isoladamente, esse número poderia sugerir que o trabalho do banco central está quase concluído.

O problema está no Core PCE. A métrica preferida do Fed avançou para 3,0% na base anualizada no início de 2026, escalando para 3,1% — o maior valor desde março de 2014, segundo o BEA(Bureau of Economic Analysis). Esse número rompe com a narrativa de desinflação uniforme e revela onde a pressão inflacionária migrou: do supermercado e das concessionárias de veículos para os hospitais e as seguradoras. Serviços como saúde, seguros e educação seguem com preços acelerando — destaque para cuidados médicos subindo 3,4%, artigos domésticos 3,9% e cuidados pessoais 4,5% no acumulado de 12 meses.

Dois fatores de risco agravam o horizonte. O relatório de fevereiro foi o último antes do choque no petróleo decorrente da guerra com o Irã, o que significa que o impacto nos preços de energia e transporte ainda não apareceu nos dados. Do lado comercial, as tarifas de importação impostas pelo governo Trump seguem pressionando bens específicos — móveis e eletrodomésticos são exemplos diretos — enquanto a inflação de serviços fora do shelter permanece aquecida e resistent

3.2 Corte de Juros e Dot Plot

Política Monetária O Mecanismo do Fed e o Dot Plot A taxa de juros americana é a Fed Funds Rate — equivalente funcional da Selic brasileira. Definida pelo FOMC, ela baliza todas as demais taxas da economia, influenciando desde hipotecas e cartões de crédito até decisões de investimento corporativo e o valuation de empresas de tecnologia (via taxa de desconto).

Uma diferença importante em relação ao Copom brasileiro: o Fed não apenas decide a taxa, ele também publica quatro vezes ao ano o Dot Plot, parte do chamado SEP (Summary of Economic Projections). Cada um dos 19 membros do FOMC submete anonimamente sua projeção para onde acredita que os juros deveriam estar ao fim de cada ano e no longo prazo. O mercado acompanha a mediana dessas projeções como o principal termômetro do caminho esperado dos juros — mas é importante entender que o Dot Plot não é uma decisão, é uma projeção individual. A taxa só muda quando o FOMC vota formalmente.

A taxa de juros americana (Fed Funds Rate) encontra-se em um patamar restritivo de 3,50%–3,75%, após o FOMC votar pela manutenção (11 a 1) na reunião de março de 2026. Este segundo hold consecutivo consolida a postura cautelosa do Federal Reserve, que prioriza o combate à inflação resiliente em detrimento dos sinais de fadiga econômica. Essa postura rígida é confirmada pela mudança drástica na distribuição interna do Dot Plot: enquanto na reunião de dezembro apenas 7 dos 19 membros projetavam zero ou no máximo um corte para 2026, esse número saltou para 14 dos 19 membros na leitura de março. Esse movimento revela que, embora a mediana tenha se mantido, a maioria esmagadora do comitê migrou para uma visão consideravelmente mais hawkish (rígida) em um curto espaço de tempo.

O risco mais crítico para o segundo semestre de 2026 é uma “convergência inflacionária”, onde o CPI Headline e o Core PCE passem a subir simultaneamente. Se o choque nos preços de energia, vindo das tensões com o Irã, se somar ao repasse de custos das novas tarifas sobre bens duráveis (como móveis e eletrodomésticos), a inflação deixará de ser um problema setorial e passará a ser sistêmica. Esse cenário invalidaria a aposta do Fed de que a inflação cairia para 2,7% no final do ano, provando que o Core PCE acima de 3% é, na verdade, um sinal de inflação estrutural que exige juros restritivos por muito mais tempo.

Diante desse quadro, o atual gap de 90 pontos-base entre a mediana do Dot Plot (3,40%) e a precificação dos futuros (2,50%) teria de ser fechado por uma correção abrupta do mercado. Os investidores seriam forçados a abandonar a narrativa de cortes imediatos, elevando as taxas das Treasuries de longo prazo para se alinharem à postura rígida do Banco Central. Sem o suporte de juros menores para sustentar o crescimento, o mercado veria uma pressão severa sobre o valuation de ativos de risco, com quedas acentuadas nos setores de tecnologia e imobiliário, que hoje dependem de um alívio monetário que pode não ocorrer.

O horizonte para 2027 depende do fechamento do gap de 90 bps entre o Fed e o mercado. Se o Core PCE persistir acima de 3%, os investidores serão forçados a abandonar a projeção de 2,50% e convergir para a rigidez dos 3,40% do Banco Central. Esse ajuste tardio consolidará um “novo normal” de juros altos e liquidez restrita, forçando a economia americana a crescer sem o suporte de crédito barato.

4. Atividade Econômica

4.1 Mercado de Trabalho

O Nonfarm Payroll é o principal relatório de emprego americano, divulgado toda primeira sexta-feira do mês pelo Bureau of Labor Statistics. Ele mede a variação líquida de postos de trabalho em toda a economia americana, excluindo o setor agrícola — que é altamente sazonal e distorceria a leitura. É um dos dados mais acompanhados pelo Fed, pelo mercado financeiro e por investidores globais, pois reflete diretamente a saúde da atividade econômica e alimenta as decisões de política monetária.

O relatório de fevereiro de 2026 chegou com força suficiente para sacudir o mercado. O Nonfarm Payroll registrou queda de 92.000 postos de trabalho, enquanto a taxa de desemprego se manteve em 4,4% — número que surpreendeu negativamente, já que o consenso esperava queda de apenas 50.000 vagas. Os setores mais afetados foram saúde, transporte e governo federal, este último acumulando cortes expressivos desde o início das medidas de redução de gastos do governo Trump. O dado revela um fenômeno particular do ciclo atual: as empresas não estão demitindo em massa, mas também não estão contratando — uma estagnação que pressiona o consumo no médio prazo.

O elemento mais intrigante do relatório foi a divergência entre emprego e salários. Enquanto o payroll caía, os salários subiam: o Average Hourly Earnings avançou 0,4% no mês e 3,8% no acumulado de 12 meses, ambos acima do esperado. As demissões estão concentradas em setores de menor remuneração, enquanto os trabalhadores que permanecem empregados continuam recebendo aumentos. Para o Fed, esse é um dos dados mais desconfortáveis do ciclo — a inflação de serviços não cede porque os salários não cedem.

Esse quadro de deterioração gradual também se reflete nos indicadores de recessão. A Regra de Sahm merece atenção especial: criada pela economista Claudia Sahm, ela sinaliza recessão quando a média móvel de três meses do desemprego sobe 0,5 ponto percentual ou mais em relação ao menor nível dos últimos 12 meses — um indicador que acertou todas as recessões desde 1950 com apenas dois falsos positivos. Sua força está na simplicidade e na velocidade: enquanto o NBER leva meses para declarar oficialmente uma recessão, a Regra de Sahm dispara em tempo real, geralmente nos primeiros meses de uma contração.

O indicador marcou 0,30 ponto percentual em fevereiro de 2026 — calculado como a diferença entre a média móvel de três meses do desemprego (4,30%, considerando 4,2% em dezembro, 4,3% em janeiro e 4,4% em fevereiro) e o piso dos últimos 12 meses (4,0%, atingido em meados de 2025). O valor está abaixo do gatilho de 0,50pp, mas a trajetória é o que preocupa: o indicador praticamente triplicou nos últimos oito meses. Há ainda um mecanismo silencioso que torna o gatilho mais difícil de evitar — mesmo que o desemprego pare de subir, o piso de referência se eleva automaticamente à medida que os meses mais favoráveis de 2025 saem da janela de cálculo. Com o payroll negativo de fevereiro pressionando os próximos dados, o gatilho de 0,50pp pode ser alcançado em três a quatro meses. O sinal é de alerta, não de alarme.

4.2 Mercado de Crédito

Os juros elevados do ciclo iniciado em 2022 se transmitiram integralmente para o bolso do consumidor. Taxas de cartão de crédito atingiram patamares históricos, empréstimos para veículos encareceram e o custo de qualquer novo financiamento subiu de forma expressiva — impacto imediato e cumulativo para famílias que dependem de crédito rotativo para cobrir despesas correntes.

O resultado aparece nos dados de inadimplência. A taxa sobre o total da dívida das famílias chegou a 4,8% no quarto trimestre de 2025 — o nível mais alto desde 2017 — com a deterioração concentrada entre tomadores de baixa renda e jovens. As inadimplências em hipotecas em estágio inicial subiram 30,9% na comparação anual em janeiro de 2026, sinalizando que o estresse começa a migrar do crédito rotativo para o crédito de longo prazo, historicamente pago com mais prioridade pelas famílias.

No mercado imobiliário, o Lock-in Effect segue travando a dinâmica: proprietários com hipotecas fixadas entre 2,5% e 3,5% se recusam a vender diante de taxas acima de 7%, mantendo o estoque deprimido e os preços elevados. A guerra com o Irã agravou o quadro ao empurrar os Treasuries longos para cima, tornando a compra da casa própria inacessível para uma fatia crescente da população — ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho enfraquece.

Há ainda a corrosão silenciosa da renda real. Com o Core PCE acima de 3% e salários crescendo a 3,8%, o ganho real é estreito e concentrado nos trabalhadores de maior qualificação. Para famílias de renda mais baixa, onde saúde, moradia e alimentação pesam mais, o poder de compra está em queda e a poupança acumulada na pandemia foi amplamente esgotada.

4.3 PIB e Risco de Recessão

O crescimento econômico americano entrou em 2026 caminhando sobre o fio da navalha. O PIB real registrou uma desaceleração abrupta, crescendo apenas 0,7% no quarto trimestre de 2025 em base anualizada — um contraste violento frente aos 4,4% do trimestre anterior. Embora o SEP de março tenha projetado um crescimento de 2,4% para 2026, tal estimativa parece ignorar a magnitude da Operação Epic Fury. Com o petróleo Brent atingindo o Ponto E (US$ 121) e a volatilidade (OVX) em níveis de pânico, o choque energético atua como um imposto regressivo massivo sobre o consumo das famílias, forçando instituições como o Goldman Sachs a revisarem suas projeções para 2,2% (Q4/Q4).

É nesse cenário que o espectro da estagflação deixa de ser um risco teórico para se tornar uma realidade estatística. A combinação de um Core PCE persistentemente acima de 3%, o primeiro payroll negativo em fevereiro e um crescimento anêmico configura o cenário mais desafiador desde os anos 1970. O dilema para o Federal Reserve é direto e cruel.

Para combater a inflação impulsionada pelo choque do petróleo, o Banco Central mantém os juros no patamar restritivo de 3,50%–3,75%, encarecendo o crédito e acelerando demissões. Para salvar o emprego e estimular o PIB, precisaria cortar juros, correndo o risco de perder o controle sobre as expectativas inflacionárias já fragilizadas pelo conflito com o Irã.

Essa encruzilhada monetária reflete-se na mudança drástica do sentimento interno do FOMC: a migração de 14 dos 19 membros para uma postura de apenas um ou nenhum corte em 2026 (contra apenas 7 membros em dezembro) mostra que o Fed já escolheu o seu lado na guerra contra os preços, mesmo que o custo seja uma recessão.

Atualmente, o debate entre soft landing e hard landing tem margens cada vez mais estreitas. O modelo DSGE do Fed de Nova York já estima em 35,8% a probabilidade de recessão nos próximos quatro trimestres, enquanto a EY-Parthenon projeta 40%, ante os 15% de períodos de normalidade. O “pouso suave” ainda é o cenário base oficial, mas com os juros reais em terreno restritivo e a logística global de energia sob fogo cruzado no Estreito de Ormuz, o Fed opera sem opções limpas: qualquer movimento errado e equivocado pode ser o gatilho para a confirmação definitiva do cenário recessivo.

5. Câmbio e Dólar: Refúgio sob Pressão

5.1 O paradoxo do dólar em 2026

O dólar americano vive uma contradição. Em 2025, o DXY (índice que mede o dólar contra uma cesta de seis moedas principais) caiu 9,5%, a pior performance anual em quase uma década. A queda refletia um acúmulo de fatores: tarifas que distorciam fluxos comerciais, incerteza jurídica sobre a política comercial, déficit fiscal em trajetória explosiva e uma percepção crescente de erosão institucional. Em janeiro de 2026, o DXY tocou 96,22, a mínima em 52 semanas.

Então a guerra começou. Desde 28 de fevereiro, quando a Operação Epic Fury foi lançada contra o Irã, o dólar reverteu curso. O DXY subiu de 96 para cerca de 100 em março, uma alta de quase 3% no mês, o melhor desempenho mensal desde julho de 2025. Em 31 de março, o índice opera em torno de 99,96, o maior patamar em dez meses.

O paradoxo é evidente: o mesmo governo que enfraqueceu estruturalmente o dólar ao longo de 2025, com tarifas ilegais, déficits recordes e tensão com o Judiciário, agora se beneficia da demanda global por dólares como refúgio durante a crise que ele mesmo criou.

5.2 O que sustenta o dólar no curto prazo

Três forças explicam a recuperação recente.

A primeira é o reflexo clássico de safe haven. Quando o mundo entra em modo de aversão ao risco, o capital global migra para ativos denominados em dólar. A guerra no Irã, com o fechamento efetivo do Estreito de Hormuz e os ataques houthis no Mar Vermelho, criou exatamente esse ambiente. O trânsito de navios pelo Hormuz caiu de 138 por dia para cerca de 5 desde o início do conflito. A Agência Internacional de Energia classificou a crise como “a maior disrupção de oferta na história do mercado global de petróleo”.

A segunda é o choque energético, que paradoxalmente fortalece o dólar. O petróleo é cotado em dólares. Quando o Brent salta de US$72 para US$112, como aconteceu em março, todo importador do mundo precisa comprar mais dólares para pagar a conta de energia. E os EUA, como maior produtor mundial de petróleo e gás, se beneficiam duplamente: exportam energia mais cara e recebem em dólares.

A terceira é o Federal Reserve. Na reunião de 18 de março, o Fed manteve a taxa de juros em 3,50% a 3,75% e sinalizou cautela diante da guerra. O chair Jerome Powell disse que é “cedo demais para saber” o impacto do conflito, mas as projeções do comitê subiram a inflação esperada para 2026 de 2,4% para 2,7%. O dot plot indica no máximo um corte de juros em 2026, e o mercado já precifica que esse corte pode não vir antes de dezembro. O diferencial de juros entre o dólar e as outras moedas principais, especialmente o euro e o iene, continua favorável ao dólar.

5.3 A fuga do “excepcionalismo americano”

Antes da guerra mudar o jogo, 2025 marcou algo que não acontecia desde 2017: ações de mercados emergentes superaram as americanas. O MSCI Emerging Markets retornou 33,6% no ano, quase o dobro do S&P 500 (17,9%). Fundos de dívida emergente absorveram US$60 bilhões, após três anos consecutivos de saídas totalizando US$142 bilhões. Na conferência de investidores do Bank of America em Londres, o head de renda fixa emergente resumiu o clima: “EM bears have gone extinct.”

O que está por trás dessa rotação é mais do que tático. Os EUA representam 66% da capitalização global de ações, mas apenas 26% do PIB mundial. Quando a concentração é tão extrema, mesmo ajustes marginais de portfólio geram fluxos relevantes para fora. Some-se a isso o dólar fraco de 2025, que tornou ativos emergentes em moeda local mais atraentes para investidores globais, e uma geração de bancos centrais emergentes que domou a inflação antes dos desenvolvidos e agora tem espaço para cortar juros.

A guerra complicou essa narrativa no curto prazo. Emergentes importadores de energia, como Coreia do Sul e Índia, sofreram com o choque do Hormuz. O Kospi chegou a cair 12% em um único dia em março. Mas a tendência estrutural permanece: gestores globais estão questionando o “excepcionalismo americano” que dominou a última década, e diversificando. Em 2026, o iShares MSCI Emerging Markets ETF sobe mais de 7% no ano, enquanto o S&P 500 está no vermelho. Como resumiu a CNBC em reportagem de 4 de março: “The U.S. is not the place to be for investors in 2026 so far.”

Essa rotação de capital é relevante para o câmbio porque é uma das forças estruturais que pressionam o dólar para baixo quando o prêmio de guerra se dissipar. Dinheiro saindo dos EUA é dinheiro vendendo dólar.

5.4 O que corrói o dólar no longo prazo

Se o curto prazo pertence ao dólar, o longo prazo conta uma história diferente.

O primeiro fator é fiscal. Tudo o que foi discutido nas seções 2.1 e 2.2 deste relatório pesa diretamente sobre o dólar: déficit de US$1,9 trilhão, dívida de 101% do PIB, juros de US$1 trilhão ao ano, perda de US$1,4 trilhão em receita de tarifas na década. Quanto mais o governo americano precisa se endividar para financiar seus déficits, mais Treasuries precisam ser emitidos, mais yields precisam subir para atrair compradores, e mais o mercado questiona a sustentabilidade da trajetória fiscal. Isso não derruba o dólar amanhã, mas corrói a confiança gradualmente.

O segundo fator é a erosão da participação do dólar nas reservas globais. Segundo o relatório COFER do FMI, a fatia do dólar nas reservas dos bancos centrais caiu de 71% em 1999 para 56% em meados de 2025, o menor nível em trinta anos. A queda é lenta mas persistente, e acelerou nos últimos anos com as sanções à Rússia (que mostraram ao mundo que reservas em dólar podem ser congeladas) e a expansão do BRICS.

Os países do BRICS, agora com dez membros incluindo Irã e Arábia Saudita, acumulam mais de 6.000 toneladas de ouro em reservas. Bancos centrais globais compraram mais de 1.000 toneladas de ouro por ano entre 2022 e 2024, o maior ritmo de compras da história moderna. O ouro superou US$4.400 a onça em março de 2026. A China e a Rússia já liquidam quase todo o seu comércio bilateral em yuan e rublo. E em um detalhe revelador da crise atual, a guarda revolucionária iraniana está cobrando pedágio de navios no Hormuz em yuan, não em dólares.

Mas é importante manter perspectiva. O yuan representa apenas 2% das reservas globais. O euro tem seus próprios problemas estruturais. A Índia, o país que preside o BRICS em 2026, declarou explicitamente que não tem interesse em substituir o dólar. Nenhuma alternativa viável existe no curto prazo. A desdolarização é real, mas é um processo de décadas, não de meses.

O terceiro fator é a credibilidade institucional. A decisão da Suprema Corte derrubando as tarifas IEEPA, as ameaças de Trump contra juízes que ele mesmo indicou, a investigação criminal contra o chair do Fed, a nomeação de Warsh travada no Senado, o início de uma guerra sem autorização do Congresso: tudo isso alimenta a percepção de instabilidade institucional que, no longo prazo, é o que realmente sustenta (ou mina) uma moeda de reserva. O dólar não é forte porque a economia americana é perfeita. É forte porque as instituições americanas são (ou eram) percebidas como confiáveis. Cada vez que essa percepção é abalada, a alternativa do ouro, do yuan ou simplesmente de reservas mais diversificadas se torna um pouco mais atraente.

5.5 O cenário à frente: forte agora, frágil depois

O consenso de mercado reflete essa dualidade. No curto prazo, enquanto a guerra durar e o Fed não cortar juros, o dólar deve permanecer forte, com o DXY sustentado acima de 100. Mas a maioria das projeções institucionais aponta para uma queda significativa no segundo semestre: DXY na faixa de 91 a 97 até o final do ano, caso haja cessar-fogo e o Fed retome os cortes.

O risco de cauda mais relevante para o dólar é uma resolução rápida da guerra. Se o Hormuz reabrir e o petróleo cair, os fluxos de safe haven se revertem rapidamente, o Fed ganha espaço para cortar, e o dólar perde os três pilares que o sustentam hoje. Do outro lado, se a guerra escalar e o Hormuz permanecer fechado por meses, o mundo enfrenta o que a CNBC chamou de um “penhasco de petróleo” em meados de abril, quando as reservas estratégicas se esgotarem. Nesse cenário, o dólar pode subir mais no curto prazo, mas os danos à economia global, e à própria economia americana, seriam profundos o suficiente para acelerar a busca por alternativas.

5.6 O que levar desta seção

O dólar está forte pelos motivos errados. A demanda por dólares em março de 2026 não reflete confiança na economia americana ou na solidez de suas instituições. Reflete medo: medo da guerra, do petróleo a US$100, da inflação, da incerteza. É uma força que dura enquanto o medo durar. Quando a crise passar, os fundamentos voltam a falar: déficit recorde, dívida explosiva, juros insustentáveis, rotação de capital para fora dos EUA, e uma lenta mas persistente migração do sistema financeiro global para longe da dependência absoluta do dólar.

O fio que conecta esta seção com o restante do relatório é direto. O dólar forte encarece importações para o resto do mundo, pressiona moedas emergentes (incluindo o real), eleva o custo do petróleo em moeda local, e complica a vida de bancos centrais que tentam controlar inflação sem destruir crescimento. Esses são os temas das seções que vêm a seguir.

6. Conclusão: Um Sistema sob Tensão mas longe de quebrar e a Comparação com o Brasil

Este relatório percorreu quatro dimensões da economia americana em abril de 2026.Cada uma, isoladamente, já seria motivo de atenção.Juntas, elas compõem um quadro de fragilidade estrutural que a guerra com o Irã não criou, mas expôs.

O governo americano caminha para um déficit de US$ 1,9 trilhão em 2026, o que representa cerca de 5,8% do PIB. Para dar uma ideia do que isso significa, esse valor é quase o mesmo que toda a riqueza produzida pelo Brasil em um ano, já que o nosso PIB gira em torno de US$ 2,2 trilhões. Além disso, só o pagamento de juros da dívida americana consome US$ 1 trilhão por ano — mais do que todo o gasto com defesa do país e o equivalente a quase metade de todo o PIB brasileiro. Com uma dívida total que ultrapassou os US$ 39 trilhões em março de 2026, o peso financeiro dos Estados Unidos hoje é cerca de 18 vezes maior do que a economia do Brasil.

Esse aperto nas contas fica ainda mais complicado com a inflação Core PCE em *3,0%, bem acima da meta de **2,0%* do Federal Reserve. Isso forçou o Fed a manter os juros em um patamar restritivo, entre *3,50% e 3,75%. Atualmente, existe um descompasso claro entre o Banco Central e os investidores: enquanto o mercado aposta que os juros vão cair para 2,50%, a mediana do “Dot Plot” do Fed indica que eles devem parar em 3,40%. Essa diferença de **90 pontos-base* mostra que o comitê está muito mais rígido e cauteloso do que os investidores esperavam, especialmente com o petróleo Brent batendo os US$ 121 devido às tensões com o Irã.

Mesmo com esses números que parecem insustentáveis, a chance de uma falência ou “quebra” dos Estados Unidos é muito baixa devido a proteções que são exclusivas deles. O país possui a principal moeda de reserva do mundo, com o dólar representando 56% das reservas globais. Como os EUA emitem dívida na própria moeda que controlam, eles mantêm uma capacidade técnica de pagar suas contas que outros países não possuem. Além disso, em momentos de grande incerteza geopolítica, como o bloqueio do Estreito de Hormuz, os investidores costumam correr para os ativos americanos em busca de segurança, o que mantém a demanda pela dívida do país mesmo em tempos de crise.

Olhando para o horizonte de 2027, o cenário não é de um colapso repentino, mas sim de uma perda lenta de fôlego da economia. O risco real é a estagflação, com o PIB crescendo apenas 0,7% enquanto o custo de vida continua elevado, obrigando a economia americana a se adaptar a um mundo sem o crédito barato de antigamente. Entre gastos militares imprevistos e perdas de arrecadação que podem somar US$ 1,4 trilhão na década, o sistema vive uma pressão histórica. O mercado terá que aceitar esse “novo normal” de juros altos, entendendo que, embora o alerta seja constante, o status do dólar ainda serve como uma rede de segurança que evita uma ruptura total.

Referências

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