Gilligan, M. J.; Sergenti, E. J. Do UN interventions cause peace? Using matching to improve causal inference. Quarterly Journal of Political Science, 2008, p. 89-122.
Os autores se propõem a realizar um desafio para o campo: superar estudos causais anteriores que sofriam de dependência de modelo (model dependence) devido ao problema de contrafactuais extremos, i.e., os casos em que a ONU intervém são sistematicamente diferentes daqueles em que ela não intervém (falta de permutabilidade ou exchangeability entre os grupos de tratamento e controle). Para tanto, os autores optam pelo matching aproximado, diferentemente da literatura pregressa que optou por modelos de seleção de Heckman ou variáveis instrumentais. O matching permite o foco em casos comparáveis, evitando que o efeito causal estimado seja devido a diferenças sistemáticas entre os grupos de tratamento e controle. Dentre as qualidades do artigo, chama a atenção: (i) que os autores de fato parecem superar o problema de dependência do modelo ao tornarem os grupos comparáveis; (ii) a maior transparência, uma vez que o matching permite identificar quais casos específicos estão sendo comparados (vide Tabelas 2 e 5); (iii) a utilização do matching com reposição que, segundo Cunningham (2021, p. 206-207), produz discrepâncias menores e reduz o viés em amostras pequenas; (iv) a clareza sobre os motivos de escolha do método e técnicas empregadas; (v) a relação estreita dessas escolhas com os dados e as perguntas norteadoras do artigo (se existe uma relação de causalidade entre a presença de missões de paz da ONU e a sustentabilidade da paz ou o fim de conflitos - especificamente guerras civis); (vi) o constante diálogo com a teoria enquanto motivadora das escolhas metodológicas. Sobre este último ponto, o mais valioso do artigo, são particularmente elucidativas as descrições das variáveis de controle para cada estimação e seus potenciais efeitos causais sobre as variáveis dependentes e independente (caracterizando-as como confundidoras).
Uma limitação intrínseca admitida pelos autores é que o matching só garante o equilíbrio em covariáveis observadas (p. 91). Embora os autores ponderem que tem razões teóricas para acreditar que, como cientistas políticos, têm alta capacidade de identificar covariáveis confundidoras sobre as quais aplicar o pareamento (vide o extenso rol de variáveis teoricamente justificadas para cada estimação), se existirem causas comuns - à intervenção da ONU e à duração da paz ou encerramento do conflito -, a assunção de independência condicional falha e o viés de confusão persiste. A título de exemplo, aspectos como a presença de recursos naturais valiosos, atuação de organizações regionais e fluxo de refugiados podem “causar” tanto a intervenção da ONU, quanto o encerramento do conflito e/ou a sustentação da paz. Ou seja, é razoável supor que o critério de backdoor não foi satisfeito totalmente, a despeito dos esforços dos autores.
Ao restringirem a análise apenas aos casos pareáveis, os autores podem estar estimando o efeito para uma subpopulação muito específica. Embora Gilligan e Sergenti argumentem que é melhor estimar o efeito para os tipos de casos onde a ONU realmente intervém, essa restrição pode dificultar a transportabilidade dos resultados para outros contextos. Esse é um trade-off que os autores precisaram enfrentar e parece ter sido justificado pelo objetivo de “corrigir” os trabalhos empíricos anteriores.
Aceitar com revisão. O artigo é muito bem escrito, claro, aplica métodos robustos e apresenta diálogo importante com a literatura do campo. Sugiro apenas que o item 1 deste parecer seja objeto de nota, indicando ao leitor que os efeitos estimados (de tratamento médio entre os tratados ou ATT) podem sofrer de viés de variável omitida em razão de variáveis confundidoras potencialmente não previstas pela literatura e/ou cuja mensuração não tenha sido viável.