Hainmueller, J.; Hopkins, D.J. The hidden american immigration consensus: a conjoint analysis of attitudes toward immigrants. American Journal of Political Science, vol. 59, n. 3, 2015, p. 529-548.
C → A ← CR
Em que:
C = características dos imigrantes (operacionalização de 9 atributos)
A = atitudes dos nativos sobre imigração (perfil de “imigrante preferido”)
CR = características dos respondentes
Os autores argumentam que o efeito de cada atributo (selecionado) dos imigrantes está associado aos seguintes mecanismos causais: autointeresse econômico, preocupações sociotrópicas, preconceito e etnocentrismo, identidade norte-americana e normas. Apesar disso, o próprio texto admite que algumas características escolhidas são aproximações imperfeitas das teorias que pretendem testar. No caso de autointeresse econômico, por exemplo, os autores tentam testar a ameaça ao mercado de trabalho comparando a educação do respondente com a do imigrante. Contudo, eles próprios admitem que o nível educacional é uma “aproximação imperfeita” dos níveis de qualificação e competição reais. Esse tipo de imprecisão também ocorre para o mecanismo de etnocentrismo (indicador país de origem) e o indicador de domínio da língua inglesa, reconhecidamente ambíguo pelos autores: “Language is commonly considered a cultural indicator, but in this context, it might be considered an economic skill to some degree” (p. 537). Os atributos são, portanto, proxies frequentemente problemáticas para mecanismos complexos como etnocentrismo e autointeresse. Ou seja, algumas conclusões sobre os mecanismos causais não são suportadas pelos dados.
Com base em Blair et al. (2023, p. 236 ss.), as inquirições AMCE são “dependentes da estratégia de dados”, uma vez que o efeito de um atributo (como “país de origem”) é definido pela distribuição dos outros atributos escolhidos pelo pesquisador. Isso quer dizer que o AMCE calcula a média dos ATEs sob muitos conjuntos de condições. Isso fortalece a capacidade de generalizar inferências porque elas não serão específicas para um único conjunto de condições, mas isso também significa “that what conditions inferences depends crucially on researcher choices about which characteristics are chosen and the randomization scheme” (Blair et al., 2023, p. 238). Em síntese, os AMCEs reportados são específicos para a mistura exata de atributos e níveis escolhidos pelos pesquisadores, ou seja, padecem de um problema de validade externa.
Gaines et al. (2006, p. 5) apontam que a maioria dos experimentos de pesquisa mede apenas reações imediatas, sem verificar se esses efeitos são persistentes no tempo. No texto de Hainmueller e Hopkins, embora existam duas ondas de pesquisa, a segunda onda (onde ocorre o experimento) foca na preferência declarada no momento da escolha entre perfis. Não há uma medida posterior para verificar se o “consenso” identificado sobre os atributos dos imigrantes permanece estável após o fim da interação com o questionário. Logo, as observações de Gaines et al. (2006) sugerem cautela ao generalizar o “consenso” encontrado para o comportamento político real, devido à incerteza sobre a durabilidade das preferências manifestadas durante o teste.
Os respondentes são colocados no papel de “autoridade de imigração” decidindo entre dois candidatos, e a escolha é obrigatória. Esse desenho tem duas consequências problemáticas: (i) a tarefa não corresponde a nenhum ato político que cidadãos comuns efetivamente realizam; (ii) a escolha forçada impede que um respondente rejeite ou aceite ambos os perfis. Isso neutraliza de algum modo as preferências sobre o volume de imigração, o que é apresentado pelos autores como vantagem, mas também significa que o desenho sistematicamente exclui a possibilidade de não admitir nenhum dos dois perfis, resposta potencialmente relevante para respondentes com posições fortemente restritivas. Há uma tentativa dos autores de mitigar o problema a partir da escala de 7 pontos apresentada logo após o questionário. Ocorre que a escala é aplicada imediatamente após a escolha forçada, de modo que o respondente pode enfrentar uma pressão por consistência com a escolha anterior, isto é, tender a avaliar mais alto quem escolheu e mais baixo quem rejeitou. Esse é um tipo de contaminação por spillover dentro do survey que Gaines et al. discutem (2006, p. 10 ss.). A escala não é, portanto, uma medida independente, ela pode ser afetada pela escolha prévia, conforme os próprios autores reconhecem (Hainmueller e Hopkins, 2015, p. 544, nota 12).
Aceitar com revisões. As revisões indispensáveis dizem respeito: à problematização da capacidade do desenho de discriminar entre mecanismos concorrentes, dado que atributos como “país de origem” e “habilidade linguística” funcionam como proxies ambíguas para alguns dos mecanismos causais teorizados (item 1); ao reconhecimento explícito de que os AMCEs reportados são dependentes da distribuição experimental escolhida pelos autores, i.e., não são propriedades universais das preferências americanas sobre imigração, o que exige pelo menos uma justificativa teórica para a distribuição adotada (item 2); e à qualificação da afirmação de “consenso americano” à luz da ausência de medidas de persistência dos efeitos, deixando em aberto se as preferências identificadas refletem atitudes estáveis ou reações ao questionário (item 3); quanto ao problema da escolha forçada, recomenda-se que pesquisas futuras randomizem a ordem entre a escolha forçada e a escala de avaliação individual, de modo a produzir uma medida de apoio à admissão que seja independente da decisão prévia (item 4).