Modelos Lineares Generalizados
Apostila — Capítulo 3: Família Exponencial e Modelos Lineares Generalizados
Nota ao leitor: Esta apostila resume o Capítulo 3 de An Introduction to Generalized Linear Models (Dobson & Barnett, 4ª ed., 2018). O capítulo é o coração teórico do livro: introduz a família exponencial de distribuições e define formalmente os Modelos Lineares Generalizados (MLGs). Todas as demonstrações relevantes são detalhadas de forma didática.
1 Motivação: Por que Precisamos de uma Estrutura Unificadora?
O modelo linear clássico,
\[ E(Y_i) = \mu_i = \mathbf{x}_i^T\boldsymbol{\beta}; \qquad Y_i \sim N(\mu_i, \sigma^2), \]
é a base das análises de dados contínuos. Porém, ele tem duas limitações importantes:
- Distribucional: a resposta \(Y_i\) precisa ser Normal — mas na prática temos contagens (Poisson), proporções (Binomial), tempos de falha (Gamma/Exponencial), etc.
- Funcional: a relação \(E(Y_i) = \mathbf{x}_i^T\boldsymbol{\beta}\) é estritamente linear — mas muitas vezes a relação natural é não-linear (ex.: taxa de mortalidade aumenta exponencialmente com a idade).
O Capítulo 3 resolve ambas as limitações ao identificar uma família ampla de distribuições — a família exponencial — cujos membros compartilham propriedades matemáticas elegantes que permitem estender toda a maquinaria de estimação e inferência do modelo Normal para situações muito mais gerais.
2 A Família Exponencial de Distribuições
2.1 Definição
Tomando logaritmos e definindo \(c(\theta) = \log t(\theta)\) e \(d(y) = \log s(y)\), a forma equivalente — e mais conveniente — é:
\[ \boxed{f(y;\,\theta) = \exp\!\bigl[a(y)\,b(\theta) + c(\theta) + d(y)\bigr]} \tag{3.3} \]
O que torna esta forma especial? Observe a simetria entre \(y\) e \(\theta\) na equação: \(y\) e \(\theta\) aparecem de forma separada nos expoentes, ligados apenas pelo produto \(a(y) \cdot b(\theta)\). Essa estrutura multiplicativa é o que permite derivar fórmulas gerais para média, variância e a estatística escore sem depender da distribuição específica.
2.1.1 Forma Canônica
Quando \(a(y) = y\), a distribuição está na forma canônica e \(b(\theta)\) recebe o nome de parâmetro natural (ou canônico) da distribuição.
2.1.2 Parâmetros de Perturbação (Nuisance)
Se a distribuição tem outros parâmetros além do parâmetro de interesse \(\theta\) — como \(\sigma^2\) na Normal — eles são chamados de parâmetros de perturbação (nuisance parameters) e são tratados como constantes conhecidas dentro das funções \(a\), \(b\), \(c\) e \(d\).
2.2 As Três Distribuições Fundamentais
2.2.1 Distribuição de Poisson
A função de probabilidade é: \[ f(y;\,\theta) = \frac{\theta^y e^{-\theta}}{y!}, \qquad y = 0, 1, 2, \ldots \]
Reescrevendo na forma exponencial:
\[ f(y;\,\theta) = \exp\!\left(y\log\theta - \theta - \log y!\right) \]
Identificação dos termos de (3.3):
| Termo | Expressão | Significado |
|---|---|---|
| \(a(y)\) | \(y\) | Forma canônica (\(a(y) = y\)) ✓ |
| \(b(\theta)\) | \(\log\theta\) | Parâmetro natural |
| \(c(\theta)\) | \(-\theta\) | Parte que depende só de \(\theta\) |
| \(d(y)\) | \(-\log y!\) | Parte que depende só de \(y\) |
Uso prático: A distribuição de Poisson modela contagens de eventos raros e independentes em um intervalo de tempo ou espaço fixo. Uma propriedade fundamental: \(E(Y) = \text{var}(Y) = \theta\). Quando os dados reais têm variância maior que a média, diz-se que são superdispersos (overdispersed) — e o modelo Poisson precisa ser adaptado.
2.2.2 Distribuição Normal
A função de densidade é (com parâmetro de interesse \(\mu\) e nuisância \(\sigma^2\)): \[ f(y;\,\mu) = \frac{1}{\sqrt{2\pi\sigma^2}}\exp\!\left\{-\frac{(y-\mu)^2}{2\sigma^2}\right\} \]
Reescrevendo na forma exponencial:
Expandindo \((y - \mu)^2 = y^2 - 2y\mu + \mu^2\):
\[ f(y;\,\mu) = \exp\!\left(\frac{y\mu}{\sigma^2} - \frac{\mu^2}{2\sigma^2} - \frac{1}{2}\log(2\pi\sigma^2) - \frac{y^2}{2\sigma^2}\right) \]
Identificação dos termos de (3.3):
| Termo | Expressão |
|---|---|
| \(a(y)\) | \(y\) (forma canônica ✓) |
| \(b(\mu)\) | \(\mu/\sigma^2\) (parâmetro natural) |
| \(c(\mu)\) | \(-\mu^2/(2\sigma^2) - \tfrac{1}{2}\log(2\pi\sigma^2)\) |
| \(d(y)\) | \(-y^2/(2\sigma^2)\) |
Nota: Aqui \(\sigma^2\) aparece dentro dos termos, tratado como constante. Por isso ele é “parâmetro de perturbação”.
2.2.3 Distribuição Binomial
A função de probabilidade é (\(n\) conhecido, parâmetro de interesse \(\pi\)): \[ f(y;\,\pi) = \binom{n}{y}\pi^y(1-\pi)^{n-y}, \qquad y = 0, 1, \ldots, n \]
Reescrevendo na forma exponencial:
\[ f(y;\,\pi) = \exp\!\left[y\log\pi - y\log(1-\pi) + n\log(1-\pi) + \log\binom{n}{y}\right] \]
\[ = \exp\!\left[y\log\frac{\pi}{1-\pi} + n\log(1-\pi) + \log\binom{n}{y}\right] \]
Identificação dos termos de (3.3):
| Termo | Expressão |
|---|---|
| \(a(y)\) | \(y\) (forma canônica ✓) |
| \(b(\pi)\) | \(\log\!\left[\pi/(1-\pi)\right]\) (parâmetro natural = logit) |
| \(c(\pi)\) | \(n\log(1-\pi)\) |
| \(d(y)\) | \(\log\binom{n}{y}\) |
O parâmetro natural da Binomial é o logit! A função \(\log[\pi/(1-\pi)]\) é o logaritmo das chances (log-odds) e será o coração da regressão logística (Capítulo 7). Isso não é coincidência — a família exponencial “revela” qual é a transformação mais natural para cada distribuição.
2.2.4 Tabela Resumo
| Distribuição | Param. natural \(b(\theta)\) | \(c(\theta)\) | \(d(y)\) |
|---|---|---|---|
| Poisson | \(\log\theta\) | \(-\theta\) | \(-\log y!\) |
| Normal | \(\mu/\sigma^2\) | \(-\mu^2/(2\sigma^2) - \tfrac{1}{2}\log(2\pi\sigma^2)\) | \(-y^2/(2\sigma^2)\) |
| Binomial | \(\log[\pi/(1-\pi)]\) | \(n\log(1-\pi)\) | \(\log\binom{n}{y}\) |
3 Propriedades das Distribuições da Família Exponencial
3.1 Lema Fundamental: Dois Resultados Auxiliares
Antes de derivar média e variância, precisamos de dois resultados que valem para qualquer função de densidade de probabilidade, desde que a ordem de integração e diferenciação possa ser trocada.
Resultado 1: A integral de qualquer fdp é 1, portanto: \[ \int f(y;\,\theta)\,dy = 1 \tag{3.4} \]
Diferenciando ambos os lados em relação a \(\theta\) e trocando a ordem de integração e diferenciação: \[ \int \frac{\partial f(y;\,\theta)}{\partial \theta}\,dy = 0 \tag{3.6} \]
Resultado 2: Diferenciando (3.4) duas vezes em relação a \(\theta\): \[ \int \frac{\partial^2 f(y;\,\theta)}{\partial \theta^2}\,dy = 0 \tag{3.7} \]
Por que precisamos desses resultados? A ideia é a mesma da derivação do EMV: em vez de integrar diretamente (o que geralmente é difícil), usamos a condição de normalização (\(\int f = 1\)) e suas derivadas para extrair informações sobre \(E[a(Y)]\) e \(\text{var}[a(Y)]\) de forma algébrica.
3.2 Derivação da Esperança: \(E[a(Y)]\)
Objetivo: encontrar \(E[a(Y)]\) para qualquer distribuição da família exponencial.
Passo 1 — Calcular \(\partial f/\partial\theta\):
De (3.3), \(f = \exp[a(y)b(\theta) + c(\theta) + d(y)]\). Pela regra da cadeia: \[ \frac{\partial f}{\partial\theta} = \bigl[a(y)\,b'(\theta) + c'(\theta)\bigr]\,f(y;\,\theta) \]
em que \(b'(\theta) = db/d\theta\) e \(c'(\theta) = dc/d\theta\).
Passo 2 — Aplicar o Resultado 1 (equação 3.6): \[ \int \bigl[a(y)\,b'(\theta) + c'(\theta)\bigr]\,f(y;\,\theta)\,dy = 0 \]
Passo 3 — Separar a integral: \[ b'(\theta)\underbrace{\int a(y)\,f(y;\,\theta)\,dy}_{= E[a(Y)]} + c'(\theta)\underbrace{\int f(y;\,\theta)\,dy}_{= 1} = 0 \]
Passo 4 — Isolar \(E[a(Y)]\): \[ b'(\theta)\,E[a(Y)] + c'(\theta) = 0 \]
\[ \boxed{E[a(Y)] = -\frac{c'(\theta)}{b'(\theta)}} \tag{3.9} \]
Intuição: A fórmula diz que a esperança de \(a(Y)\) é determinada inteiramente pela razão entre as derivadas de \(c(\theta)\) e \(b(\theta)\) — as funções que aparecem na forma exponencial. Não precisamos calcular nenhuma integral diretamente!
3.3 Derivação da Variância: \(\text{var}[a(Y)]\)
Objetivo: encontrar \(\text{var}[a(Y)]\) usando o Resultado 2 (equação 3.7).
Passo 1 — Calcular \(\partial^2 f/\partial\theta^2\):
Diferenciando \(\partial f/\partial\theta = [a(y)b' + c']\,f\) novamente: \[ \frac{\partial^2 f}{\partial\theta^2} = \bigl[a(y)\,b'' + c''\bigr]\,f + \bigl[a(y)\,b' + c'\bigr]^2\,f \tag{3.10} \]
Passo 2 — Reescrever o segundo termo:
O segundo termo pode ser reescrito como: \[ \bigl[a(y)\,b' + c'\bigr]^2 f = [b'(\theta)]^2\bigl\{a(y) - E[a(Y)]\bigr\}^2 f \]
usando a fórmula de \(E[a(Y)]\) obtida em (3.9): \(c' = -b' E[a(Y)]\), portanto \(a(y)b' + c' = b'(a(y) - E[a(Y)])\).
Passo 3 — Aplicar o Resultado 2 (equação 3.7):
\[ \int \frac{\partial^2 f}{\partial\theta^2}\,dy = 0 \implies b''(\theta)\,E[a(Y)] + c''(\theta) + [b'(\theta)]^2\,\text{var}[a(Y)] = 0 \tag{3.11} \]
pois \(\int \{a(y) - E[a(Y)]\}^2 f\,dy = \text{var}[a(Y)]\) por definição.
Passo 4 — Isolar \(\text{var}[a(Y)]\):
Substituindo (3.9) em (3.11) e resolvendo:
\[ \boxed{\text{var}[a(Y)] = \frac{b''(\theta)\,c'(\theta) - c''(\theta)\,b'(\theta)}{[b'(\theta)]^3}} \tag{3.12} \]
Resumo: As fórmulas (3.9) e (3.12) são universais dentro da família exponencial — funcionam para Poisson, Normal, Binomial, Gamma, e qualquer outra distribuição membro. Basta identificar \(b(\theta)\) e \(c(\theta)\) e derivar.
3.4 Verificação para a Distribuição de Poisson
Para \(Y \sim \text{Poisson}(\theta)\): \(b(\theta) = \log\theta\) e \(c(\theta) = -\theta\).
Derivadas: \[ b'(\theta) = \frac{1}{\theta}, \quad b''(\theta) = -\frac{1}{\theta^2}, \quad c'(\theta) = -1, \quad c''(\theta) = 0 \]
Esperança pela fórmula (3.9): \[ E[Y] = -\frac{c'(\theta)}{b'(\theta)} = -\frac{-1}{1/\theta} = \theta \quad \checkmark \]
Variância pela fórmula (3.12): \[ \text{var}[Y] = \frac{b''(\theta)\,c'(\theta) - c''(\theta)\,b'(\theta)}{[b'(\theta)]^3} = \frac{(-1/\theta^2)(-1) - 0}{(1/\theta)^3} = \frac{1/\theta^2}{1/\theta^3} = \theta \quad \checkmark \]
Confirmamos \(E(Y) = \text{var}(Y) = \theta\) — a propriedade fundamental da Poisson.
3.5 Verificação para a Distribuição Binomial
Para \(Y \sim \text{Bin}(n,\pi)\): \(b(\pi) = \log[\pi/(1-\pi)]\) e \(c(\pi) = n\log(1-\pi)\).
Derivadas: \[ b'(\pi) = \frac{1}{\pi(1-\pi)}, \quad b''(\pi) = \frac{2\pi - 1}{\pi^2(1-\pi)^2} \] \[ c'(\pi) = \frac{-n}{1-\pi}, \quad c''(\pi) = \frac{-n}{(1-\pi)^2} \]
Esperança pela fórmula (3.9): \[ E[Y] = -\frac{c'(\pi)}{b'(\pi)} = -\frac{-n/(1-\pi)}{1/[\pi(1-\pi)]} = n\pi \quad \checkmark \]
Variância pela fórmula (3.12) (o desenvolvimento algébrico é mais longo, mas o resultado é): \[ \text{var}[Y] = n\pi(1-\pi) \quad \checkmark \]
3.6 A Estatística Escore e a Informação de Fisher
3.6.1 Estatística Escore \(U\)
Para uma única observação \(y\) de uma distribuição da família exponencial, a log-verossimilhança é: \[ \ell(\theta;\,y) = a(y)\,b(\theta) + c(\theta) + d(y) \]
A derivada em relação a \(\theta\) é chamada de estatística escore (score statistic): \[ U(\theta;\,y) = \frac{d\ell}{d\theta} = a(y)\,b'(\theta) + c'(\theta) \]
Como \(U\) depende de \(y\), ela é uma variável aleatória quando \(Y\) é aleatória: \[ U = a(Y)\,b'(\theta) + c'(\theta) \tag{3.13} \]
3.6.2 Esperança do Escore: \(E(U) = 0\)
\[ E(U) = b'(\theta)\,E[a(Y)] + c'(\theta) = b'(\theta)\cdot\left(-\frac{c'(\theta)}{b'(\theta)}\right) + c'(\theta) = 0 \tag{3.14} \]
Resultado fundamental: A esperança do escore é sempre zero — para qualquer distribuição da família exponencial, em qualquer valor do verdadeiro parâmetro \(\theta\).
Isso é equivalente ao fato de que, ao diferenciar a equação de normalização \(\int f\,dy = 1\), obtemos \(\int (\partial\log f/\partial\theta)\,f\,dy = 0\), ou seja, \(E[\partial\log f/\partial\theta] = 0\).
3.6.3 Informação de Fisher: \(I = \text{var}(U)\)
A variância do escore é chamada de informação de Fisher \(I\). Usando (1.3) com \(a(Y)\) como variável: \[ I = \text{var}(U) = [b'(\theta)]^2\,\text{var}[a(Y)] \]
Substituindo (3.12): \[ I = \text{var}(U) = \frac{b''(\theta)\,c'(\theta)}{b'(\theta)} - c''(\theta) \tag{3.15} \]
Por que a informação importa? A informação de Fisher mede quanta informação uma única observação contém sobre o parâmetro \(\theta\). Quanto maior \(I\), mais precisa é a estimativa do parâmetro. O Limite de Cramér-Rao diz que a variância de qualquer estimador não-viesado de \(\theta\) é no mínimo \(1/I\) — e o EMV atinge este limite assintoticamente.
3.6.4 Propriedade Adicional: \(\text{var}(U) = E(U^2) = -E(U')\)
Esta propriedade conecta três formas de calcular a informação:
Primeira igualdade (\(\text{var}(U) = E(U^2)\)):
Como \(E(U) = 0\), temos: \[ \text{var}(U) = E(U^2) - [E(U)]^2 = E(U^2) - 0 = E(U^2) \quad \checkmark \]
Segunda igualdade (\(E(U^2) = -E(U')\)):
Diferenciando \(U = a(Y)b'(\theta) + c'(\theta)\) com respeito a \(\theta\): \[ U' = \frac{dU}{d\theta} = a(Y)\,b''(\theta) + c''(\theta) \]
Calculando \(E(U')\): \[ E(U') = b''(\theta)\,E[a(Y)] + c''(\theta) = b''(\theta)\cdot\left(-\frac{c'(\theta)}{b'(\theta)}\right) + c''(\theta) \]
Substituindo (3.9) e comparando com (3.15): \[ E(U') = -I = -\text{var}(U) \tag{3.17} \]
Portanto: \(\boxed{\text{var}(U) = E(U^2) = -E(U')}\)
Intuição geométrica: \(U' = d^2\ell/d\theta^2\) é a curvatura da log-verossimilhança. A igualdade \(I = -E(U')\) diz que a informação é a curvatura média esperada de \(\ell\) — quanto mais “curvada” (côncava) for a log-verossimilhança ao redor do máximo, mais precisa é a estimativa. Esta identidade é a base do método de Newton-Raphson para maximização (Capítulo 4).
4 Modelos Lineares Generalizados: Definição Formal
4.1 Os Três Componentes de um MLG
A unidade de muitos métodos estatísticos foi demonstrada por Nelder e Wedderburn (1972) com a definição de Modelos Lineares Generalizados. Um MLG é definido por:
O que a monotonicidade da função de ligação garante? Que a relação entre \(\mu_i\) e \(\eta_i\) seja invertível — dado o preditor linear, sempre podemos recuperar a média prevista, e vice-versa. Uma função que fosse crescente para alguns valores e decrescente para outros tornaria o modelo não identificável.
4.2 A Função de Ligação Canônica
Quando a função de ligação é escolhida de forma que \(g(\mu_i) = b(\theta_i)\) (o parâmetro natural da distribuição), ela é chamada de ligação canônica. Para as três distribuições principais:
| Distribuição | \(E(Y) = \mu\) | Ligação canônica \(g(\mu)\) | Nome |
|---|---|---|---|
| Normal | \(\mu\) | \(g(\mu) = \mu\) | Identidade |
| Poisson | \(\theta\) | \(g(\mu) = \log\mu\) | Log |
| Binomial | \(n\pi\) | \(g(\pi) = \log[\pi/(1-\pi)]\) | Logit |
Por que a ligação canônica é especial? Ela simplifica a teoria de estimação (Capítulo 4) e garante certas propriedades ótimas dos estimadores. Porém, na prática podem-se usar outras funções de ligação — a escolha deve se basear na estrutura do problema.
5 Exemplos de MLGs
5.1 Modelo Normal Linear (Caso Especial Mais Conhecido)
\[ E(Y_i) = \mu_i = \mathbf{x}_i^T\boldsymbol{\beta}; \qquad Y_i \sim N(\mu_i, \sigma^2) \]
Função de ligação: identidade, \(g(\mu_i) = \mu_i\).
Na forma matricial: \(\mathbf{y} = \mathbf{X}\boldsymbol{\beta} + \mathbf{e}\), em que \(e_i \sim N(0,\sigma^2)\) i.i.d.
Aqui o componente linear \(\boldsymbol{\mu} = \mathbf{X}\boldsymbol{\beta}\) representa o sinal e \(\mathbf{e}\) representa o ruído.
Regressão múltipla, ANOVA e ANCOVA são todos casos especiais deste modelo.
5.2 Linguística Histórica (MLG Binário)
Contexto: Dois idiomas descendentes de um ancestral comum (ex.: francês e espanhol, ambos descendentes do latim). Se eles foram separados há \(t\) unidades de tempo, a probabilidade de terem palavras cognatas para um dado significado é \(e^{-\theta t}\).
Resposta: \(Y_i = 1\) (cognata) ou \(Y_i = 0\) (não cognata), para \(i = 1, \ldots, N\) significados de uma lista teste.
Distribuição: Bernoulli \(B(\pi)\), caso especial da Binomial com \(n = 1\): \[ P(Y_i = 1) = \pi = e^{-\theta t}, \quad E(Y_i) = \pi \]
Ligação: logarítmica \[ g(\pi) = \log\pi = -\theta t \]
Portanto, \(g[E(Y_i)] = -\theta t\) é linear em \(\theta\).
Em notação matricial: \(\mathbf{x}_i = [-t]\) (o mesmo para todos \(i\)) e \(\boldsymbol{\beta} = [\theta]\).
Ponto importante: A escolha da função de ligação logarítmica é motivada pela estrutura do problema (a probabilidade de cognatos decai exponencialmente com o tempo). A família exponencial não impõe qual ligação usar — ela fornece as ferramentas; o pesquisador escolhe a ligação mais adequada ao fenômeno.
5.3 Taxas de Mortalidade (MLG de Poisson com Offset)
Contexto: Dados de mortes por doença coronariana em grupos etários de homens na região de Hunter, Austrália (1991).
| Grupo etário | Mortes \(y_i\) | Pop. \(n_i\) | Taxa/100.000 |
|---|---|---|---|
| 30–34 | 1 | 17.742 | 5,6 |
| 35–39 | 5 | 16.554 | 30,2 |
| 40–44 | 5 | 16.059 | 31,1 |
| 45–49 | 12 | 13.083 | 91,7 |
| 50–54 | 25 | 10.784 | 231,8 |
| 55–59 | 38 | 9.645 | 394,0 |
| 60–64 | 54 | 10.706 | 504,4 |
| 65–69 | 65 | 9.933 | 654,4 |
Observação: O gráfico da taxa \(y_i/n_i\) numa escala logarítmica é aproximadamente linear em \(i\) (grupo etário). Isso sugere crescimento exponencial da taxa com a idade.
Modelo: \[ E(Y_i) = \mu_i = n_i\,e^{\theta i}; \qquad Y_i \sim \text{Poisson}(\mu_i) \]
Função de ligação: logarítmica \[ g(\mu_i) = \log\mu_i = \log n_i + \theta i \]
Em notação matricial: \(\mathbf{x}_i^T\boldsymbol{\beta} = \log n_i + \theta i\), com \(\mathbf{x}_i^T = [\log n_i,\; i]\) e \(\boldsymbol{\beta} = [1,\; \theta]^T\).
O conceito de offset: O termo \(\log n_i\) é um preditor cujo coeficiente é fixado em 1 (não estimado). Ele “ajusta” a contagem pelo tamanho da população exposta, permitindo modelar a taxa \(\lambda_i = \mu_i/n_i\) em vez do número absoluto de mortes. Em software estatístico (ex.: R), este termo é especificado com offset(log(n)).
6 A Estrutura Unificadora: Comparando os Três MLGs
COMPONENTE ALEATÓRIO LIGAÇÃO PREDITOR LINEAR
══════════════════════ ════════════ ═══════════════════
Normal Y ~ N(μ, σ²) g(μ) = μ η = Xβ
(contínuo, simétrico) identidade
Poisson Y ~ Po(θ) g(μ) = log μ η = Xβ
(contagens) logarítmica (inclui offset)
Binomial Y ~ Bin(n, π) g(π) = logit π η = Xβ
(proporções/binários) logit
Os três modelos diferem apenas no componente aleatório e na função de ligação. O preditor linear \(\eta_i = \mathbf{x}_i^T\boldsymbol{\beta}\) tem a mesma forma em todos eles — daí o nome “generalizado”.
7 Demonstrações Consolidadas: Esperança e Variância das Três Distribuições
7.1 Poisson: \(E(Y) = \text{var}(Y) = \theta\)
Identificação: \(b(\theta) = \log\theta\), \(c(\theta) = -\theta\).
\[ b'(\theta) = \frac{1}{\theta}, \quad b''(\theta) = -\frac{1}{\theta^2}, \quad c'(\theta) = -1, \quad c''(\theta) = 0 \]
Esperança: \[ E(Y) = -\frac{c'}{b'} = -\frac{-1}{1/\theta} = \theta \checkmark \]
Variância: \[ \text{var}(Y) = \frac{b''c' - c''b'}{(b')^3} = \frac{(-1/\theta^2)(-1) - 0}{(1/\theta)^3} = \frac{1/\theta^2}{1/\theta^3} = \theta \checkmark \]
7.2 Normal: \(E(Y) = \mu\), \(\text{var}(Y) = \sigma^2\)
Identificação: \(b(\mu) = \mu/\sigma^2\), \(c(\mu) = -\mu^2/(2\sigma^2) - \tfrac{1}{2}\log(2\pi\sigma^2)\).
\[ b'(\mu) = \frac{1}{\sigma^2}, \quad b''(\mu) = 0, \quad c'(\mu) = -\frac{\mu}{\sigma^2}, \quad c''(\mu) = -\frac{1}{\sigma^2} \]
Esperança: \[ E(Y) = -\frac{c'}{b'} = -\frac{-\mu/\sigma^2}{1/\sigma^2} = \mu \checkmark \]
Variância: \[ \text{var}(Y) = \frac{b''c' - c''b'}{(b')^3} = \frac{0 - (-1/\sigma^2)(1/\sigma^2)}{(1/\sigma^2)^3} = \frac{1/\sigma^4}{1/\sigma^6} = \sigma^2 \checkmark \]
7.3 Binomial: \(E(Y) = n\pi\), \(\text{var}(Y) = n\pi(1-\pi)\)
Identificação: \(b(\pi) = \log[\pi/(1-\pi)]\), \(c(\pi) = n\log(1-\pi)\).
\[ b'(\pi) = \frac{1}{\pi(1-\pi)}, \quad c'(\pi) = \frac{-n}{1-\pi} \]
Esperança: \[ E(Y) = -\frac{c'}{b'} = -\frac{-n/(1-\pi)}{1/[\pi(1-\pi)]} = \frac{n\pi(1-\pi)}{1-\pi} = n\pi \checkmark \]
Para a variância, calculamos as derivadas de segunda ordem: \[ b''(\pi) = \frac{2\pi - 1}{\pi^2(1-\pi)^2}, \quad c''(\pi) = \frac{-n}{(1-\pi)^2} \]
Após substituição em (3.12) e simplificação algébrica: \[ \text{var}(Y) = n\pi(1-\pi) \checkmark \]
8 Exercícios Selecionados com Soluções Guiadas
8.1 Distribuição Gamma (Exercício 3.2)
Enunciado: \(Y\) tem distribuição Gamma com parâmetro de escala \(\beta\) (interesse) e forma \(\alpha\) (conhecido): \[ f(y;\,\beta) = \frac{\beta^\alpha}{\Gamma(\alpha)}\,y^{\alpha-1}\,e^{-y\beta} \]
Tarefa: mostrar que pertence à família exponencial, identificar o parâmetro natural, e encontrar \(E(Y)\) e \(\text{var}(Y)\).
Solução:
Reescrevendo: \[ f(y;\,\beta) = \exp\!\left[-y\beta + \alpha\log\beta - \log\Gamma(\alpha) + (\alpha-1)\log y\right] \]
Identificação com a forma (3.3):
| Termo | Expressão |
|---|---|
| \(a(y)\) | \(y\) (forma canônica ✓) |
| \(b(\beta)\) | \(-\beta\) (parâmetro natural) |
| \(c(\beta)\) | \(\alpha\log\beta - \log\Gamma(\alpha)\) |
| \(d(y)\) | \((\alpha-1)\log y\) |
Derivadas: \[ b'(\beta) = -1, \quad b''(\beta) = 0, \quad c'(\beta) = \frac{\alpha}{\beta}, \quad c''(\beta) = -\frac{\alpha}{\beta^2} \]
Esperança: \[ E(Y) = -\frac{c'}{b'} = -\frac{\alpha/\beta}{-1} = \frac{\alpha}{\beta} \]
Variância: \[ \text{var}(Y) = \frac{b''c' - c''b'}{(b')^3} = \frac{0 - (-\alpha/\beta^2)(-1)}{(-1)^3} = \frac{-\alpha/\beta^2}{-1} = \frac{\alpha}{\beta^2} \]
8.2 Distribuição de Bernoulli (Exercício 3.7)
Enunciado: \(Y_i\) são variáveis binárias com \(P(Y_i = 1) = \pi_i\).
(a) Mostrar que \(f(y;\,\pi) = \pi^y(1-\pi)^{1-y}\) pertence à família exponencial.
Solução: \[ f(y;\,\pi) = \exp\!\left[y\log\pi + (1-y)\log(1-\pi)\right] = \exp\!\left[y\log\frac{\pi}{1-\pi} + \log(1-\pi)\right] \]
Forma (3.3) com \(a(y) = y\), \(b(\pi) = \log[\pi/(1-\pi)]\) (logit), \(c(\pi) = \log(1-\pi)\), \(d(y) = 0\). ✓
(b) O parâmetro natural é \(b(\pi) = \log[\pi/(1-\pi)]\) — o logit, logaritmo das chances.
(d) Se \(g(\pi) = \log[\pi/(1-\pi)] = \mathbf{x}^T\boldsymbol{\beta}\), mostrar que isso equivale a: \[ \pi = \frac{e^{\mathbf{x}^T\boldsymbol{\beta}}}{1 + e^{\mathbf{x}^T\boldsymbol{\beta}}} \]
Solução: Seja \(\eta = \mathbf{x}^T\boldsymbol{\beta}\). Então \(\log[\pi/(1-\pi)] = \eta \implies \pi/(1-\pi) = e^\eta \implies\) \(\pi = e^\eta(1-\pi) \implies \pi(1 + e^\eta) = e^\eta \implies \pi = e^\eta/(1+e^\eta)\). ✓
(e) Para \(\mathbf{x}^T\boldsymbol{\beta} = \beta_1 + \beta_2 x\): \[ \pi = \frac{e^{\beta_1 + \beta_2 x}}{1 + e^{\beta_1 + \beta_2 x}} \]
Esta é a função logística — uma curva em forma de S (sigmoide) que sempre produz valores em \((0, 1)\). Se \(x\) é a dose de um inseticida e \(\pi\) a probabilidade de morte:
- Quando \(x \to -\infty\): \(\pi \to 0\) (dose mínima, sem efeito)
- Quando \(x \to +\infty\): \(\pi \to 1\) (dose elevada, morte certa)
- O parâmetro \(\beta_2 > 0\) controla a inclinação da curva (velocidade de transição)
- O parâmetro \(\beta_1\) desloca a curva horizontalmente (dose mediana letal)
9 Resumo do Capítulo 3
9.1 Mapa Conceitual
FAMÍLIA EXPONENCIAL
══════════════════════════════════════════════════════
f(y;θ) = exp[a(y)b(θ) + c(θ) + d(y)]
┌─────────────────────────────────────┐
│ Forma canônica: a(y) = y │
│ Parâmetro natural: b(θ) │
└─────────────────────────────────────┘
Propriedades universais (via derivação de ∫f dy = 1):
┌─────────────────────────────────────────────────┐
│ E[a(Y)] = -c'(θ)/b'(θ) (3.9) │
│ var[a(Y)] = [b''c' - c''b'] / (b')³ (3.12) │
│ E(U) = 0 [escore tem média zero] (3.14) │
│ I = var(U) = -E(U') [informação] (3.16) │
└─────────────────────────────────────────────────┘
MODELO LINEAR GENERALIZADO (Nelder & Wedderburn, 1972)
══════════════════════════════════════════════════════
1. Y_i ~ família exponencial (mesmo tipo)
2. η_i = x_iᵀβ [preditor linear]
3. g(μ_i) = η_i [função de ligação monótona]
Distribuição Ligação canônica Exemplo de uso
───────────── ───────────────── ──────────────────────
Normal Identidade Regressão, ANOVA
Poisson Log Contagens, taxas
Binomial Logit Proporções, binários
Gamma Inversa Tempos positivos
9.2 Tabela de Resultados Chave
| Distribuição | Param. natural | \(E(Y)\) | \(\text{var}(Y)\) | Ligação canônica |
|---|---|---|---|---|
| Normal \(N(\mu,\sigma^2)\) | \(\mu/\sigma^2\) | \(\mu\) | \(\sigma^2\) | Identidade |
| Poisson \(\text{Po}(\theta)\) | \(\log\theta\) | \(\theta\) | \(\theta\) | Log |
| Binomial \(\text{Bin}(n,\pi)\) | \(\text{logit}(\pi)\) | \(n\pi\) | \(n\pi(1-\pi)\) | Logit |
| Gamma \(G(\alpha,\beta)\) | \(-\beta\) | \(\alpha/\beta\) | \(\alpha/\beta^2\) | Inversa |
| Bernoulli \(B(\pi)\) | \(\text{logit}(\pi)\) | \(\pi\) | \(\pi(1-\pi)\) | Logit |
9.3 Relações Entre Distribuições da Família
A Figura 3.3 do livro mostra relações assintoticas (\(n \to \infty\), \(r \to \infty\), etc.) e transformações entre membros da família exponencial. Destaques:
- \(\text{Bin}(n,\pi) \to \text{Po}(\lambda)\) quando \(n \to \infty\) e \(n\pi \to \lambda\)
- \(\text{Po}(\lambda) \to N(\lambda, \lambda)\) para \(\lambda\) grande (pelo TCL)
- \(\text{Bin}(n,\pi) \to N(n\pi, n\pi(1-\pi))\) para \(n\) grande
- \(\text{Gamma}(\alpha,\beta) \to N(\alpha/\beta, \alpha/\beta^2)\) para \(\alpha\) grande
- \(\text{Exp}(\theta)\) é caso especial de \(\text{Gamma}(\alpha=1, \beta=\theta)\)
Próximo capítulo: O Capítulo 4 desenvolve os métodos de estimação para MLGs — como encontrar \(\hat{\boldsymbol{\beta}}\) numericamente usando o algoritmo de Newton-Raphson e o método dos mínimos quadrados iterativamente reponderados (IRLS), aproveitando as propriedades da família exponencial derivadas neste capítulo.
10 Atividade I
Mostre que as seguintes distribuições pertencem à família exponencial e encontre \(E(X)\) e \(Var(X)\) de cada uma destas distribuições.
Uma distribuição pertence à família exponencial se puder ser escrita na forma:
\[ f(y;\theta) = \exp\{a(y)b(\theta) + c(\theta) + d(y)\} \]
ou, equivalentemente,
\[ f(y;\theta) = s(y)t(\theta)\exp\{a(y)b(\theta)\}. \]
10.1 (a) Distribuição de Pareto
\[ f(y;\theta) = \theta y^{-\theta - 1} \]
10.2 (b) Distribuição Exponencial
\[ f(y;\theta) = \theta e^{-y\theta} \]
10.3 (c) Distribuição Binomial Negativa
\[ f(y;\theta) = \binom{y+r-1}{r-1} \theta^r (1-\theta)^y, \]
em que \(r\) é uma constante conhecida.
10.4 Instruções
Para cada caso:
- Reescreva a função na forma exponencial;
- Identifique claramente:
- \(a(y)\)
- \(b(\theta)\)
- \(c(\theta)\)
- \(d(y)\);
- Conclua que a distribuição pertence à família exponencial.
- Encontre \(E(X)\) e \(Var(X)\).
- Referências
Dobson, A. J. & Barnett, A. G. (2018). An Introduction to Generalized Linear Models (4ª ed.). CRC Press / Chapman & Hall.
Nelder, J. A. & Wedderburn, R. W. M. (1972). Generalized Linear Models. Journal of the Royal Statistical Society, Series A, 135(3), 370–384.