Quando se discute política fiscal no Brasil, é impossível ignorar a dívida pública. O país convive há anos com um nível de endividamento elevado, frequentemente apontado como um dos principais desafios para a estabilidade macroeconômica. No entanto, a dívida pública não deve ser vista apenas como um número em relação ao PIB. Ela reflete uma trajetória histórica de decisões fiscais e o equilíbrio, muitas vezes delicado, entre arrecadação e gastos do setor público ao longo do tempo, além de estar relacionada a elementos estruturais da economia brasileira, como o comportamento da taxa de juros, o crescimento econômico e a acumulação de ativos pelo setor público, como as reservas internacionais.
Dessa forma, compreender o problema fiscal brasileiro exige ir além do nível da dívida e analisar sua composição, sua trajetória e os fatores que determinam sua dinâmica. Nesse sentido, este relatório busca examinar a dívida pública brasileira a partir de sua estrutura e dos elementos que influenciam sua evolução, discutindo também como essa dinâmica interage com outras variáveis macroeconômicas e por que a trajetória da dívida no Brasil é frequentemente caracterizada como particularmente sensível.
Para uma análise completa sobre sustentabilidade fiscal, é necessário analisar dois indicadores: a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) e a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG). Como observado no gráfico 1, as séries têm uma tendência semelhante no longo prazo: uma queda estabilizada no período de janeiro-março de 2020, seguida por uma elevação abrupta a partir de abril do mesmo ano - consequência das medidas de enfrentamento da pandemia. Também, nota-se uma tendência de crescimento ao longo do ano de 2025 - impulsionada pela alta dos juros e pelo déficit primário. Porém, quando analisadas a curto prazo e de forma mais detalhada, é revelado que as séries não são tão parecidas assim, e podem reagir de formas diferentes a certos fatores da economia. A DBGG é o volume total da dívida, das obrigações financeiras do governo, enquanto a DLSP é o saldo total do endividamento, após o governo “receber tudo que tem direito”, ou seja, depois de descontar seus ativos financeiros.
Gráfico 1:
A DBGG representa basicamente o endividamento total do setor público, formado pelas obrigações financeiras que o governo precisa pagar - são passivos da União, dos estados, e dos municípios, caracterizando ‘governo geral’. A dívida bruta é dividida em quatro componentes principais, que podem ser visualizados na tabela 1: primeiro, a dívida mobiliária, que se refere aos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional para financiar ou realizar a rolagem da dívida pública. As operações compromissadas, que fazem parte da operacionalização da política monetária, quando o Bacen retira moeda de circulação, tomando dinheiro emprestado dos bancps e ofereceno títulos públicos como garantia de que devolverá o dinheiro com juros. A dívida bancária, que representa os empréstimos bancários feitos por estados e municípios, e a dívida externa, composta pelo que o Brasil deve a credores fora do país - inclui empréstimos com organismos multilaterais e títulos emitidos pelo Tesouro no mercado internacional.
Tabela 1:
| Componente | Descrição |
|---|---|
| Dívida mobiliária | Refere-se aos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional para financiar ou realizar a rolagem da dívida pública. |
| Operações compromissadas | Fazem parte da operacionalização da política monetária. O Banco Central retira moeda de circulação, tomando recursos dos bancos, oferecendo títulos públicos como garantia de que devolverá o dinheiro com juros. |
| Dívida bancária | Representa os empréstimos bancários feitos por estados e municípios. |
| Dívida externa | Composta pelo que o Brasil deve a credores fora do país, incluindo empréstimos com organismos multilaterais e títulos emitidos pelo Tesouro no mercado internacional. |
A DLSP abrange um grupo maior de agentes - o setor público inclui, além do Governo Geral, as contas do Banco Central, e as estatais não-financeiras de todos os níveis de governo, com exceção da Petrobras e da Eletrobras (antes da desestatização). A dívida líquida considera não apenas os passivos do setor público, mas também os ativos financeiros, que são descontados do total. Ao incorporar esses elementos no cálculo, esse indicador busca retratar de forma mais precisa o endividamento do setor público após considerar o que ele possui. Entre os principais ativos do setor público destacam-se as reservas internacionais, mantidas pelo Banco Central. No entanto, por incluir também ativos e passivos associados à autoridade monetária, esse indicador pode ser influenciado por fatores que não estão diretamente ligados à política fiscal. Assim, variações em algumas variáveis macroeconômicas - como o câmbio, que altera o valor das reservas internacionais - podem afetar a dívida líquida de forma diferente da dívida bruta, o que torna relevante analisar como diferentes variáveis impactam cada medida de endividamento.
A trajetória do endividamento público não é linear, reagindo continuamente a choques em variáveis fundamentais da economia. A tabela 2 apresenta a sensibilidade da DLSP e da DBGG a variações na Selic, na inflação e no câmbio.
Tabela 2:
DLSP | DBGG | |||
|---|---|---|---|---|
R$ bilhões | p.p. do PIB | R$ bilhões | p.p. do PIB | |
Elevação de 1 p.p. na taxa Selic | 61,9 | 0,49 | 55,9 | 0,44 |
Redução de 1 p.p. nos índices de preços | -21,5 | -0,17 | -21,2 | -0,17 |
Desvalorização de 1% na taxa de câmbio | -9,2 | -0,07 | 10,4 | 0,08 |
Nota: variação mantida por 12 meses. | ||||
Fonte: Banco Central do Brasil, Estatísticas Fiscais. Elaboração própria - IbMacro BH. | ||||
A taxa Selic afeta ambas as medidas de dívida de forma positiva. Isso ocorre porque a Selic é a taxa básica de juros da economia e influencia diretamente o custo de financiamento do governo. Uma parcela significativa da dívida pública brasileira é composta por títulos pós-fixados, cuja remuneração acompanha a taxa básica, como as LFTs (Tesouro Selic), além das operações compromissadas realizadas pelo Banco Central. Dessa forma, quando há um aumento da Selic, o custo de rolagem da dívida aumenta imediatamente. O impacto é maior na dívida líquida do setor público (DLSP) do que na dívida bruta do governo geral (DBGG), pois a líquida considera um universo mais amplo de passivos, incluindo instrumentos do Banco Central utilizados para o controle da base monetária. Entre esses instrumentos, estão as operações compromissadas, nas quais o Banco Central vende títulos públicos com o compromisso de recompra futura, retirando dinheiro da economia. Esses títulos funcionam, na prática, como aplicações financeiras de curto prazo para os bancos e são remunerados Selic. Além disso, o Banco Central também atua por meio da compra de títulos públicos no mercado, injetando liquidez quando necessário. Em ambos os casos, essas operações envolvem passivos remunerados, o que aumenta o impacto sobre a dívida líquida em comparação à dívida bruta.
A inflação também impacta as duas medidas de dívida de forma bastante semelhante. O principal canal de transmissão ocorre por meio dos títulos indexados aos índices de preços, como as NTN-B (Tesouro IPCA +), cujo valor nominal é corrigido pela inflação. Assim, uma redução no índice de preços diminui a atualização do valor nominal desses títulos, reduzindo o montante da dívida pública.Como esses papéis fazem parte tanto da dívida bruta quanto da dívida líquida, o impacto observado em ambas métricas tende a ser muito próximo. Além disso, o setor público não possui um volume significativo de ativos financeiros indexados à inflação que pudesse gerar um efeito compensatório relevante, contribuindo para um impacto praticamente igual.
No entanto, o câmbio produz efeitos opostos sobre as duas medidas de dívida. Uma desvalorização do real frente ao dólar tende a elevar a dívida bruta do governo geral, pois parte dos passivos do setor público é denominada em moeda estrangeira, como títulos emitidos no exterior e empréstimos junto a organismos multilaterais. Quando o dólar se valoriza, o valor dessas obrigações aumenta quando convertido para reais, elevando a DBGG. Já na dívida líquida ocorre um efeito compensatório, pois esse indicador desconta os ativos do setor público, entre os quais se destacam as reservas internacionais. Como o Brasil possui um volume alto de reservas em dólares, uma desvalorização cambial aumenta o valor desses ativos quando convertidos para reais. Como o país possui mais ativos do que passivos em moeda estrangeira, esse aumento no valor das reservas supera o efeito sobre a dívida externa, resultando em uma redução da dívida líquida do setor público. Nota - Balanço patrimonial do Banco Central De acordo com as demonstrações financeiras do Banco Central do Brasil, o setor público possui um volume expressivo de ativos em moeda estrangeira. Em dezembro de 2025, esses ativos somavam aproximadamente R$ 2,09 trilhões, enquanto os passivos denominados em moeda estrangeira totalizavam cerca de R$ 233 bilhões. Essa diferença evidencia que o país possui uma posição credora líquida em moeda estrangeira, principalmente em função do elevado nível de reservas internacionais mantidas pelo Banco Central. Essa estrutura patrimonial ajuda a explicar por que variações na taxa de câmbio afetam de forma distinta as medidas de endividamento público. Como a dívida líquida desconta os ativos do setor público, a valorização do dólar tende a elevar o valor das reservas quando convertidas para reais, reduzindo a dívida líquida do setor público. Fonte: [Banco Central do Brasil – Demonstrações Financeiras]https://www.bcb.gov.br/content/acessoinformacao/balanceteslai/Demonstra%C3%A7%C3%B5es%20Financeiras%20BCB%202025.pdf)
Atualmente, a dívida brasileira apresenta uma sensibilidade alta a choques externos, onde o alto patamar do estoque bruto faz com que variações no câmbio e nos juros gerem impactos imediatos no endividamento total.
A Necessidade de Financiamento do Setor Público (NFSP), conceito pelo qual o Banco Central do Brasil mensura o resultado primário, é um dos indicadores mais relevantes para a avaliação da sustentabilidade das contas públicas. A NFSP mede o quanto de recursos que o setor público consolidado (União, estados, municípios e empresas estatais) precisa captar para financiar seus gastos além das receitas arrecadadas, excluídas as despesas com juros. Por convenção, valores positivos da NFSP indicam necessidade líquida de financiamento, o que pode ser traduzido para um déficit primário, já que o governo não consegue cumprir suas obrigações sozinhos. Já um valor negativo é equivalente ao superávit, indicando capacidade de autofinanciamento. A NFSP é melhor analisada em conjunto com a dívida bruta, uma vez que refletem, respectivamente, a necessidade imediata de financiamento e o volume de passivos acumulados. A trajetória desses dois indicadores desde 2014 pode ser analisada no gráfico 2.
Gráfico 2:
Com base nos dados do Banco Central (Série 5793), observa-se que, entre 2014 e 2026, a trajetória da NFSP esteve marcada por três fases distintas. No período de 2014, o setor público consolidado registrava necessidades de financiamento negativas, ou seja, superávits primários próximos entre 2% e 4% do PIB, o que contribuía para conter o crescimento da dívida bruta e reforçar a credibilidade fiscal do país perante os mercados. A partir de 2015, contudo, o quadro se inverteu: o Brasil passou a registrar NFSP positiva de forma persistente, refletindo o início de uma trajetória insustentável. A partir desse ponto, o Brasil começa a operar em um regime onde o déficit primário retroalimenta o estoque da dívida, que em um cenário de PIB estagnado cria um efeito bola de neve.
O ponto de maior pressão ocorreu em 2020, durante a pandemia de Covid-19, quando as medidas emergenciais de suporte à renda e ao setor produtivo elevaram a NFSP a aproximadamente 9,4% do PIB. Nos anos subsequentes ao choque de 2020, verifica-se uma redução gradual da necessidade de financiamento, impulsionada pela recuperação da arrecadação e pelo controle das despesas. Conforme observado no Gráfico 2, o Brasil chegou a registrar superávits temporários, mas retornou ao campo da NFSP positiva no primeiro trimestre de 2023. Os resultados mais recentes - como o índice de 0,43% do PIB registrado no primeiro trimestre de 2026 - indicam possivelmente uma trajetória de convergência para o equilíbrio. Entretanto, a redução dos déficits embora sinalizem uma melhora, não são suficientes para a sustentabilidade a longo prazo. Para que haja uma queda real na relação Dívida/PIB, é necessária a manutenção de superávits primários (NFSP negativa) constantes.
Há uma relação estrutural entre o resultado primário e a dinâmica da dívida pública: uma NFSP positiva implica emissão líquida de títulos para cobrir o desequilíbrio, o que pressiona o estoque da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), relação que se evidencia claramente no gráfico 2, onde a expansão da dívida acompanha os períodos de maior necessidade de financiamento. Adicionalmente, a NFSP interage diretamente com a política monetária, conforme analisado a seguir.
Quando o mercado percebe que o governo não consegue gerar superávits suficientes para arcar com as despesas, ou se ele não consegue se manter dentro das metas fiscais, a percepção de insegurança sobre a solvência do país aumenta. Como consequência, o prêmio de risco exigido por um investidor para aceitar esse novo cenário se eleva. Isso faz com que a curva de juros a longo prazo suba, obrigando o governo a oferecer taxas mais altas nas vendas de títulos para conseguir realizar a rolagem de sua dívida. A rolagem da dívida é o processo pelo qual o governo emite novos títulos públicos para pagar os títulos antigos que estão vencendo. O problema central é que, quando a confiança cai e a taxa de juros sobe, essa troca se torna muito mais cara. O governo passa a pagar juros maiores sobre o mesmo estoque de dívida, elevando o custo de manutenção de todo o sistema.
Gráfico 3:
Como ilustrado no Gráfico 3, a inclinação da curva de juros revela que títulos com maior maturidade de vencimento exigem taxas superiores aos de curto prazo. Para o Tesouro Nacional, esse cenário impõe um problema: ao rolar a dívida, a emissão de títulos de longo prazo (necessários para alongar o perfil do endividamento e evitar liquidez imediata) se torna muito cara. Como o governo opera com uma necessidade de financiamento (NFSP) positiva, ele não tem recursos em caixa para pagar os juros que aumentam a cada mês. Por isso, é obrigado a emitir novos títulos de dívida apenas para pagar os que estão vencendo, e cada nova emissão ocorre a taxas progressivamente maiores.
Como qualquer aumento nessas taxas faz com que o governo precise gastar bilhões adicionais apenas para cobrir os juros - sem conseguir amortizar o valor principal - se ele opera em déficit e não sobra dinheiro sequer para pagar esses encargos, novos títulos precisam ser emitidos exclusivamente para a rolagem dos juros, repetindo todo o processo. Esse processo gera um efeito “bola de neve”, onde o estoque da dívida cresce de forma autônoma para financiar o próprio custo, comprometendo a sustentabilidade das finanças públicas.
E é esse ciclo de retroalimentação que o Brasil vive atualmente.
A dinâmica da dívida pública pode ser analisada a partir da relação entre o estoque inicial da dívida, a taxa de juros real incidente sobre esse estoque, o crescimento real da economia e o resultado primário do governo.
Dinâmica da Dívida - adaptação:
Partimos da equação básica (1) da dinâmica da dívida apresentada por Olivier Blanchard em Macroeconomics: Global Edition.
Equação 1:
\[ \Delta B_t = r B_{t-1} + (G_t - T_t) \tag{1} \]
onde:
Dividindo a equação pelo produto \(Y_t\) e expressando as variáveis em proporção do PIB, na equação 2.
Equação 2:
\[ \Delta \left(\frac{B_t}{Y_t}\right) = (r - g)\left(\frac{B_{t-1}}{Y_{t-1}}\right) + \frac{G_t - T_t}{Y_t} \tag{2} \]
onde \(g\) representa a taxa de crescimento real do produto, que surge ao ajustar a dívida passada pelo crescimento do denominador (PIB).
Para simplificação, definimos: - \(d_t = \frac{B_t}{Y_t}\): dívida em proporção do PIB; - \(s = \frac{T_t - G_t}{Y_t}\): superávit primário em proporção do PIB
Assim, chegamos à forma simplificada, a equação 3.
Equação 3:
\[ \Delta d = ({r-g})d_{t-1} - s \] em que d representa a razão entre dívida pública e PIB, r corresponde à taxa de juros real da dívida pública, g representa a taxa de crescimento real do PIB e s denota o resultado primário do setor público, expresso como proporção do PIB. O termo dt−1 indica o estoque inicial de dívida herdado do período anterior. A equação 3 evidencia que a trajetória da dívida depende fundamentalmente de dois fatores: do diferencial entre juros e crescimento da economia \((r − g)\) e do resultado primário do governo. O primeiro componente captura o chamado efeito bola de neve da dívida. Quando a taxa de juros real supera o crescimento da economia \((r > g)\) o estoque de dívida tende a crescer automaticamente ao longo do tempo, mesmo na ausência de novos déficits fiscais. Nesse caso, torna-se necessário que o setor público gere superávits primários para compensar o efeito dos juros e estabilizar a relação dívida/PIB. Por outro lado, quando o crescimento econômico se aproxima ou supera a taxa de juros \((g > r)\), ajuda a reduzir o peso relativo da dívida, diminuindo o esforço fiscal necessário para estabilizar a trajetória do endividamento público. A partir da equação 3, também é possível analisar a condição de estabilização da dívida, na equação 4. A dívida como proporção do PIB permanece constante quando sua variação é nula (Δd=0). Nesse caso, o resultado primário necessário para estabilizar a dívida é dado por:
Equação 4:
\[ s^* = ({r-g}) d \] onde s* representa o superávit primário estabilizador da dívida. A expressão mostra que quanto maior for o diferencial entre juros e crescimento, ou quanto maior for o estoque inicial de dívida, maior será o esforço fiscal necessário para impedir o aumento da dívida.
Ao analisar o cenário brasileiro, a magnitude da dívida herdada surge como o primeiro obstáculo à sustentabilidade fiscal, com a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) aproximando-se do patamar crítico de 80% do PIB como visto nos gráficos 1 e 2. Esse estoque elevado, mesmo emtermos reais, gera um canal de transmissão: o alto endividamento aumenta a percepção de risco e pressiona as expectativas de inflação, fazendo com que o Banco Central mantenha taxas de juros elevadas. Esse cenário não apenas encarece o serviço da dívida, mas também alimenta o diferencial \((r - g)\), exigindo um esforço fiscal cada vez maior para evitar uma trajetória explosiva da relação dívida e PIB. Ao detalhar o componente \(r\), nota-se que o Brasil enfrenta um problema crônico de juros elevados. Mesmo com as projeções apontando para uma queda da Selic de 15% para 13,25% até o final do ano, a taxa permanece em patamares muito altos. O ponto central, contudo, é o juro real, que atualmente orbita os 9,2%, como pode ser visto no gráfico 4. Esse valor representa o quanto a dívida cresce acima da inflação e coloca o Brasil em uma posição difícil, já que o custo para financiar o que o governo deve é muito alto. Na prática, esse juro elevado é um dos principais componentes que fazem a dívida continuar subindo. Se por um lado o juro real é elevado, o que poderia ajudar a reduzir o peso da dívida seria um crescimento econômico (\(g\)) robusto. No entanto, o Brasil apresenta um crescimento moderado, como analisao mais à frente no gráfico 5, que não é suficiente para anular o custo dos juros. Com isso, a análise da sustentabilidade fiscal muitas vezes cai no argumento de que essas dificuldades são típicas de qualquer economia emergente. Mas será que esse é realmente o caso?
Gráfico 4:
Nota Explicativa – Metodologia do Juro Real O cálculo do juro real ex ante de 9,23% utiliza a Equação de Fisher, padrão técnico para desinflacionar taxas de juros. Diferente de uma simples subtração, a fórmula correta é: \[ r = \left(\frac{1+i}{1+\pi}\right) - 1 \] Onde: - \(r\): taxa de juros real (ex ante) - \(i\): taxa de juros nominal (utiliza-se o DI de 1 ano como referencial de mercado) - \(\pi\): expectativa de inflação (IPCA) para os próximos 12 meses, baseada no Relatório Focus do Banco Central. Os dados e o ranking foram elaborados pela MoneYou em parceria com a Lev Intelligence, utilizando taxas coletadas em janeiro de 2026.
Ao observar a comparação internacional no gráfico 4, fica claro que o Brasil é um ponto fora da curva. O gráfico mostra que, de fato, as economias emergentes (em amarelo) costumam ter juros reais mais altos que as economias avançadas (em azul). No entanto, o Brasil (verde) se destaca negativamente com uma taxa de 9,23%, patamar muito superior ao de seus pares diretos, como México (5,39%) e Colômbia (4,22%). Essa diferença mostra que o nosso problema com os juros não é apenas uma característica de país em desenvolvimento, mas uma anomalia que torna o controle da dívida muito mais difícil do que em qualquer outro lugar do mundo.
Gráfico 5:
Ao analisar o componente \(g\), o gráfico 5 de crescimento do PIB projetado para 2026 reforça a posição difícil do Brasil. Embora o país apresente uma taxa de crescimento superior à das economias avançadas, ele cresce consideravelmente menos do que a maioria dos seus pares emergentes, como Índia, Indonésia e Vietnã. Com uma projeção de apenas 1,98%, o crescimento brasileiro é moderado e insuficiente para aliviar o peso dos juros na dívida.
Gráfico 6:
Ao consolidar os componentes na proxy para o diferencial juros - crescimento (\(r - g\)) no gráfico 6, a gravidade da situação brasileira fica evidente. Enquanto países como Índia, China e Indonésia operam com diferenciais negativos - onde o crescimento supera o custo real da dívida -, o Brasil apresenta um saldo positivo de 7,25%. Esse número é o maior da amostra e revela uma realidade crítica: a dinâmica da dívida brasileira é mais severa do que a dos outros países. Na prática, esse diferencial elevado significa que, mesmo que o governo mantenha as contas equilibradas, o ‘peso’ dos juros reais sobre o PIB cresce a uma velocidade que o crescimento econômico atual não consegue compensar.
A situação atual, reforçada pelas projeções da FGV no gráfico 7, revela que o Brasil se encontra em uma trajetória de endividamento crítica. O gráfico de tendência linear mostra que, se mantido o ritmo dos últimos 36 meses, a Dívida Bruta romperá a barreira dos 80% do PIB já no início de 2027. Esse avanço é a prova visual do “ciclo de retroalimentação”: sem superávits primários suficientes para abater o principal, o estoque da dívida cresce por inércia, alimentado pelos juros altos que o próprio mercado exige para continuar financiando em um cenário de desconfiança.
Gráfico 7:
Nesse contexto, o país se vê diante de dois caminhos distintos. Em um cenário pessimista, a incapacidade de cumprir metas fiscais e a constante aparição de déficits prolongam essa linha crescente do gráfico. Isso gera um ambiente onde o prêmio de risco sobe tanto que a rolagem da dívida toma um espaço desproporcional do orçamento. Na prática, o governo gasta tanto para administrar os juros que sobra pouco para investimentos em infraestrutura ou projetos sociais, criando um ambiente de incerteza que acaba batendo no bolso de todos. Por outro lado, o cenário otimista depende de uma mudança nessa tendência através da recuperação da confiança. Uma sinalização mais clara de controle das despesas permitiria que as taxas de juros de longo prazo recuassem, o que deixa a rolagem mais barata e ajuda a estabilizar a trajetória da dívida. Atualmente, o Brasil vive esse problema: a demora em consolidar reformas que garantam o equilíbrio das contas limita o espaço para o crescimento econômico porque retira a capacidade de reação do país. Em um cenário de choque externo - como aumento nos custos de produção, queda no preço das commodities, ou crises em países que são parceiros comerciais - junto com contas desequilibradas, ocorre uma fuga de capital imediata. O risco de investir no Brasil se torna alto, e os investidores tendem a direcionar seu dinheiro aos ativos que tenham mais segurança, como o dólar. Uma alta do dólar causa um aumento da inflação, o que além de aumentar nossa dívida pública como visto na tabela 2, reflete no bolso dos cidadãos. Já com uma dívida estável e contas equilibradas, o país seria visto como um porto seguro que consegue estabilizar o câmbio e proteger o poder de compra da população, onde o crecimento econômico não é excessivamente afetado pelo resto do mundo.
Diante do exposto, é fundamental compreender que a dívida pública não é apenas um saldo contábil, mas um termômetro da credibilidade do país. Resolver sua trajetória não é uma tarefa de curto prazo, pois envolve variáveis complexas como a confiança dos investidores, a estabilidade política e o controle de juros. Mais do que um número, o endividamento serve como um indicativo a ser analisado: quando equilibrado, ele sinaliza um país seguro para investimentos; quando descontrolado, se torna um peso que alimenta juros altos e estagnação. Portanto, o ajuste fiscal não é um fim, mas o meio necessário para que o Brasil se torne um porto seguro no cenário global. Contudo, essa transição exige que o país consiga, efetivamente, reduzir o diferencial entre os juros reais e o crescimento econômico (\(r - g\)). Enquanto o Brasil mantiver taxas de juros elevadas para conter a inflação ou segurar o câmbio, o custo da dívida continuará anulando os esforços fiscais. Sem esse equilíbrio, permanecemos vulneráveis às flutuações internacionais, onde qualquer mudança no cenário global dita o ritmo da nossa economia, impedindo que o país rompa o ciclo de endividamento e ganhe sua autonomia de crescimento.
Fontes: Este relatório foi produzido pelos integrantes da IbMacro BH utilizando as seguintes fontes: BANCO CENTRAL DO BRASIL. Demonstrações financeiras do Banco Central do Brasil – 2025. Brasília: Banco Central do Brasil, 2025. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/acessoinformacao/balanceteslai/Demonstra%C3%A7%C3%B5es%20Financeiras%20BCB%202025.pdf Acesso em: 11 mar. 2026. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas fiscais e indicadores de dívida pública. Brasília: Banco Central do Brasil. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/detalhamentoGrafico/graficosestatisticas/dlspDbgg Acesso em: 11 mar. 2026. BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (BNDES). Conceitos de dívida pública. Rio de Janeiro: BNDES. Disponível em: https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/24365/1/PRFol_216082_Conceitos%20de%20d%C3%ADvida%20p%C3%BAblica.pdf Acesso em: 11 mar. 2026. FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook Database. Washington, DC: International Monetary Fund. Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WEO/weo-database Acesso em: 11 mar. 2026. ITAÚ BBA. Visão Fiscal 2027. São Paulo: Itaú BBA, 2026. Disponível em: https://macroattachment.cloud.itau.com.br/attachments/c6513f9d-4daa-40bd-b88b-07fb2d44c87f/28012026_MACRO_VISAO_Fiscal_2027.pdf Acesso em: 11 mar. 2026. ITAÚ BBA. Brasil Fiscal. São Paulo: Itaú BBA, 2026. Disponível em: https://macroattachment.cloud.itau.com.br/attachments/998dc2c2-53a4-4571-9c9f-6d25520789f0/30012026_MACRO_BRASIL_FISCAL.pdf Acesso em: 11 mar. 2026. MONEYOU. Ranking mundial de juros reais – jan. 2026. Disponível em: https://moneyou.com.br/ranking-mundial-de-juros-reais-jan26/ Acesso em: 11 mar. 2026. WORLD GOVERNMENT BONDS. Brazil Government Bonds - Yield Curve. Disponível em: https://www.worldgovernmentbonds.com/country/brazil/. Acesso em: 27 mar. 2026. BLANCHARD, Olivier. Macroeconomics. 7. ed. Boston: Pearson, 2017.