Bastão de Asclépio & Distribuição Normal
Covardia é a evitação ou abandono de uma ação moralmente exigida devido ao medo desproporcional do risco.
Conforme Siqueira (2003),
“Risco é consequência da decisão livre e consciente de expor-se a uma situação em que se busca realizar um bem, havendo possibilidade de sofrer ferimento.”
“Perda ou dano correspondem a um ferimento humano, físico ou psicológico. Segundo Josef Pieper (1960), entende-se por ferimento toda violação da integridade natural contrária à nossa vontade: qualquer ofensa ao ser que busca repousar em si mesmo, tudo aquilo que se opõe à nossa vontade, tudo o que é negativo, que magoa, prejudica, atemoriza ou oprime. O ferimento mais profundo e extremo é a morte. Mesmo os ferimentos não mortais podem ser compreendidos como imagens ou antecipações da morte.”
As escalas correlatas são instrumentos psicométricos que mensuram construtos psicológicos teoricamente relacionados, porém não idênticos, ao construto-alvo. Sua inclusão tem como finalidade situar o novo instrumento no campo empírico existente, permitindo avaliar convergência conceitual, delimitar fronteiras do construto e orientar hipóteses de validade convergente e discriminante. As escalas listadas abaixo não medem diretamente covardia, mas dimensões psicológicas correlatas descritas na literatura científica.
Fontes de/ sobre escala:
Open-Source Psychometrics Project: Coleção aberta de instrumentos psicométricos com dados normativos e materiais de aplicação.
COSMIN Database of Systematic Reviews: Base de revisões sistemáticas sobre propriedades psicométricas de instrumentos.
No caso da covardia, o termo latino clássico mais diretamente associado é Ignavia, utilizado na literatura moral romana para designar fraqueza de ânimo, falta de coragem e incapacidade de agir diante do dever ou do perigo. Em contextos éticos e filosóficos, ignavia descreve a disposição de evitar riscos ou responsabilidades por medo excessivo.
No contexto clínico, moral e psicométrico, o construto covardia apresenta natureza multidimensional. Não se trata apenas de medo simples, mas de um padrão comportamental e disposicional no qual o medo ou a aversão ao risco levam à evitação sistemática de ações percebidas como exigidas por dever, valor moral ou responsabilidade pessoal.
A tradição filosófica clássica, particularmente em Ética a Nicômaco de Aristóteles, descreve a covardia como excesso de medo diante do perigo. Em formulações contemporâneas, o construto envolve processos cognitivos, afetivos e comportamentais relacionados à percepção do risco, à antecipação de dano e à tendência à evitação de exposição.
Para fins psicométricos e clínicos, a covardia não deve ser tratada como um traço unitário, mas como um conjunto de facetas inter-relacionadas que expressam diferentes formas pelas quais o medo e a autopreservação podem dominar a tomada de decisão e restringir a ação.
Tendência consistente a evitar situações que envolvam perigo físico, social ou moral, mesmo quando o risco é moderado ou necessário para alcançar objetivos relevantes.
Superestimação das consequências negativas futuras, acompanhada de ansiedade antecipatória e tendência à construção de cenários catastróficos.
Redução ou suspensão da ação quando o indivíduo se confronta com conflito, pressão social ou possibilidade de perda.
Adaptação excessivamente conciliatória diante de figuras de autoridade ou conflito interpessoal, motivada pela busca de autopreservação.
Tendência a não assumir decisões ou posições que possam gerar crítica, punição ou exposição pública.
Aderência passiva à opinião dominante com o objetivo de evitar rejeição, isolamento ou conflito interpessoal.
Falha em agir diante de injustiça, abuso ou erro evidente, mesmo quando o indivíduo reconhece a obrigação moral de intervir.
Produção de justificativas cognitivas para explicar a própria inação, reinterpretando a situação como irrelevante, inevitável ou fora de controle.
Hipervigilância a sinais de desaprovação, humilhação ou perda de status, levando à restrição da iniciativa e da exposição pública.
Prioridade sistemática à segurança pessoal em detrimento de valores coletivos, deveres ou compromissos assumidos.
Achados teóricos e empíricos sugerem que o construto covardia pode ser organizado em três dimensões centrais de ordem superior: Evitação do risco, Medo antecipatório e Retirada moral. Os demais subconstrutos podem ser interpretados como facetas subordinadas dessas dimensões principais.
Dimensão comportamental caracterizada pela tendência persistente a evitar situações que envolvam perigo físico, social ou moral. Inclui padrões de retirada, inibição da ação e preferência sistemática por estratégias de autopreservação.
Dimensão afetivo-cognitiva associada à superestimação de ameaças futuras e à amplificação das consequências negativas possíveis. Envolve ansiedade antecipatória, avaliação pessimista do risco e expectativa elevada de dano ou punição.
Dimensão normativa caracterizada pela falha em agir diante de situações em que o indivíduo reconhece a existência de um dever ou obrigação moral. Manifesta-se como omissão, conformismo ou abdicação de responsabilidade em contextos de conflito, injustiça ou pressão social.
A avaliação da qualidade psicométrica tem por finalidade determinar em que medida uma escala mensura, de forma válida e precisa, o construto de interesse. No caso da covardia, a medida deve captar adequadamente as principais dimensões do construto — particularmente evitação do risco, medo antecipatório e retirada moral — mantendo coerência conceitual, estabilidade das medidas e utilidade nomotética.
A escala deve distinguir covardia de construtos correlatos, como ansiedade, prudência ou simples aversão ao risco, garantindo que os escores reflitam predominantemente a tendência disposicional à evitação de ação diante de situações percebidas como moralmente ou socialmente exigentes.
Os critérios abaixo orientam a decisão comparativa entre versões de escala, integrando evidências de validade, precisão, estrutura fatorial e aplicabilidade empírica.
Validades psicométricas em Wikipedia:
Neste enquadramento, a escala tem como finalidade a comparação entre indivíduos e a obtenção de estimativas em nível populacional. O instrumento é concebido para uso padronizado, com escores comparáveis entre pessoas e grupos, permitindo análises estatísticas agregadas.
Esse tipo de escala é característico de estudos psicométricos e epidemiológicos, nos quais se busca mensurar traços latentes de forma consistente e replicável.
Conforme Franzen (2000, p. 39),
“A validade de construto foi introduzida conceitualmente por Cronbach e Meehl (1955). A validade de construto pode ser descrita como aquele aspecto do processo de validação que tenta confirmar as dimensões ou características que o teste foi projetado para medir. A validação de construção é um processo contínuo. Percorre a demonstração da validade de conteúdo e critério e, além disso, é construído a partir de testes de hipóteses exploratórios e confirmatórios do procedimento de interesse. O objetivo da validação de construto é construir uma rede nomotética ou definição inferencial das características que um teste procura medir. De muitas maneiras, o processo de validação de construto retorna os pesquisadores ao início do projeto do instrumento porque a relação entre o teste e sua teoria subjacente está constantemente em questão.”
Neste enquadramento, a escala tem como finalidade a compreensão do indivíduo em seu contexto específico. O instrumento é utilizado como apoio à avaliação clínica ou interpretativa, com foco na descrição qualitativa ou no acompanhamento intrassujeito.
Os escores, quando presentes, são interpretados de forma contextualizada e não têm como objetivo a comparação direta entre indivíduos ou a generalização populacional.
Conforme Franzen (2000, p. 43),
“Um uso comum da avaliação neuropsicológica é fornecer uma impressão diagnóstica. Infelizmente, essa aplicação da neuropsicologia não tem recebido grande atenção em estudos que examinam a validade de instrumentos de avaliação neuropsicológica. Existem dois aspectos principais da validade diagnóstica. A primeira é se um único teste pode identificar com precisão indivíduos com um determinado diagnóstico. A segunda é se combinações de testes podem identificar ou classificar indivíduos com precisão.”
Um dos objetivos é decidir qual escala de 20 itens mede melhor covardia em contexto clínico e comportamental, contemplando as dimensões centrais do construto: evitação do risco, medo antecipatório e retirada moral.
A redução da escala tem como objetivo obter uma versão mais parcimoniosa, mantendo fidelidade ao construto e qualidade psicométrica da medida. A versão inicial de 20 itens foi construída para cobrir dimensões centrais da covardia, particularmente evitação do risco, medo antecipatório e retirada moral.
O processo de redução deve preservar a representatividade do construto, eliminar redundâncias semânticas, remover itens com baixo desempenho psicométrico e manter a capacidade discriminativa da escala. A decisão final deve ser guiada por coerência conceitual, análise dos itens e evidências empíricas obtidas na amostra piloto.
Também é desejável que a escala contenha itens com valência positiva e negativa, reduzindo viés de aquiescência e aumentando a qualidade da medida.
Escala de covardia disposicional (traço estável) com 20 itens,
formato Likert de 5 pontos
(1 = Discordo totalmente; 5 = Concordo totalmente)
Valência dos itens
Observação para escoragem
A redução de itens tem como finalidade produzir uma versão breve, psicometricamente sólida e empiricamente utilizável, preservando a cobertura do construto e minimizando redundância e erro de medida. No caso da covardia, a escala deve captar adequadamente as dimensões centrais do construto, particularmente evitação do risco, medo antecipatório e retirada moral.
O procedimento abaixo descreve um roteiro objetivo, sequencial e justificável, integrando critérios empíricos e coerência teórica. A redução não deve ser guiada apenas por índices estatísticos, mas por evidência convergente entre qualidade psicométrica, representatividade do construto e utilidade prática da escala.
Aplicar os 20 itens em amostra clínica ou comunitária suficientemente heterogênea, preferencialmente incluindo subgrupos contrastantes para avaliação discriminativa. Quando possível, realizar reteste em subamostra após 2–4 semanas para estimar estabilidade temporal. Registrar perdas, padrões de não resposta e condições de aplicação.
Excluir ou revisar itens que apresentem:
Itens com problemas sistemáticos devem ser eliminados antes das etapas estruturais.
Identificar pares de itens com conteúdo quase duplicado ou altamente correlacionado. Manter o item mais claro, mais específico e com melhor desempenho psicométrico. Eliminar redundâncias preservando a cobertura conceitual das dimensões do construto.
Explorar e testar a estrutura dimensional da escala:
Salamon et al. (2021)
Entre os itens remanescentes, priorizar aqueles com:
Evitar itens que reflitam predominantemente outros construtos, como ansiedade inespecífica, prudência adaptativa ou simples aversão ao risco.
Verificar funcionamento equivalente dos itens entre sexo, idade e escolaridade. Itens que apresentem funcionamento diferencial não justificável conceitualmente devem ser removidos ou reformulados.
Seleção orientada por cobertura equilibrada das três dimensões do construto covardia: evitação do risco, medo antecipatório e retirada moral. A redução busca minimizar redundância semântica e preservar representatividade conceitual do traço.
Formato Likert 1–5
(1 = Discordo totalmente; 5 = Concordo totalmente)
A versão reduzida de 10 itens foi derivada da Escala de Covardia de 20 itens, preservando cobertura das três dimensões do construto e mantendo predominância de itens de valência positiva.
Itens mantidos (escala reduzida):
Itens excluídos:
Os itens excluídos apresentaram maior redundância semântica, menor contribuição incremental ao construto central ou maior sobreposição com construtos adjacentes, como ansiedade inespecífica, conformismo social ou cautela racional diante do risco.
A versão reduzida preserva:
A versão final da escala deve incluir:
Cizek, GJ, Koons, HK, & Rosenberg, SL (2011) Ch. 8: Finding validity evidence: An analysis using the Mental Measurements Yearbook. In J. A. Bovaird, KF Geisinger, & CW Buckendahl (Eds.) High-stakes testing in education: Science and practice in K–12 settings (pp. 119–138). American Psychological Association.
Franzen, MD (2000) Reliability and validity in neuropsychological assessment. 2nd ed. USA: Springer.
Pasquali, L (2007) Validade de testes psicológicos: Será possível reencontrar o caminho? Psicologia: Teoria e Prática 23: 99-107.
Siqueira, JO (2003) Introdução à gestão de risco. FACEF 6(3): 19-25.
Salamon, J et al. (2021) Having the cake and eating it too: first-order, second-order and bifactor representations of work engagement. Frontiers in Psychology 12: 615581. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2021.615581
Tavares, M (2003) Validade clínica. Psico-USF 8(2): 125-36.