Bastão de Asclépio & Distribuição Normal
Estruturar uma oficina prática com 7 grupos de 6 alunos, voltada ao desenvolvimento preliminar de instrumentos de mensuração psicométrica. A atividade envolve a operacionalização de construtos, elaboração de itens, definição da finalidade da escala, identificação de instrumentos similares, caracterização da população-alvo, coleta de dados, proposição de estratégias de validação de construto, avaliação da confiabilidade e definição de regras de escoragem.
O tema gerador da oficina é a operacionalização psicométrica de construtos psicológicos metaforicamente associados aos sete pecados: soberba, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça.
Sugestão de distribuição dos temas:
Cada grupo deverá desenvolver um protocolo psicométrico preliminar, conforme as etapas descritas a seguir.
Para fins desta oficina, todas as escalas deverão seguir o enquadramento nomotético. O enquadramento idiográfico é apresentado apenas como contraste conceitual.
O artigo que apresenta os dois enquadramentos é Tavares (2003).
Neste enquadramento, a escala tem como finalidade a comparação entre indivíduos e a obtenção de estimativas em nível populacional. O instrumento é concebido para uso padronizado, com escores comparáveis entre pessoas e grupos, permitindo análises estatísticas agregadas.
Esse tipo de escala é característico de estudos psicométricos e epidemiológicos, nos quais se busca mensurar traços latentes de forma consistente e replicável.
Conforme Franzen (2000, p. 39),
“A validade de construto foi introduzida conceitualmente por Cronbach e Meehl (1955). A validade de construto pode ser descrita como aquele aspecto do processo de validação que tenta confirmar as dimensões ou características que o teste foi projetado para medir. A validação de construção é um processo contínuo. Percorre a demonstração da validade de conteúdo e critério e, além disso, é construído a partir de testes de hipóteses exploratórios e confirmatórios do procedimento de interesse. O objetivo da validação de construto é construir uma rede nomotética ou definição inferencial das características que um teste procura medir. De muitas maneiras, o processo de validação de construto retorna os pesquisadores ao início do projeto do instrumento porque a relação entre o teste e sua teoria subjacente está constantemente em questão.”
Neste enquadramento, a escala tem como finalidade a compreensão do indivíduo em seu contexto específico. O instrumento é utilizado como apoio à avaliação clínica ou interpretativa, com foco na descrição qualitativa ou no acompanhamento intrassujeito.
Os escores, quando presentes, são interpretados de forma contextualizada e não têm como objetivo a comparação direta entre indivíduos ou a generalização populacional.
Conforme Franzen (2000, p. 43),
“Um uso comum da avaliação neuropsicológica é fornecer uma impressão diagnóstica. Infelizmente, essa aplicação da neuropsicologia não tem recebido grande atenção em estudos que examinam a validade de instrumentos de avaliação neuropsicológica. Existem dois aspectos principais da validade diagnóstica. A primeira é se um único teste pode identificar com precisão indivíduos com um determinado diagnóstico. A segunda é se combinações de testes podem identificar ou classificar indivíduos com precisão.”
Cada grupo deverá apresentar uma definição constitutiva do construto escolhido, fundamentada em literatura teórica e conceitual, seguida de uma definição operacional, explicitando quais comportamentos, atitudes ou experiências observáveis representam o construto no contexto proposto.
Devem ser elencados e justificados pelo menos três subconstrutos do construto.
O grupo deve adotar o Enquadramento A (nomotético), apresentando uma justificativa conceitual coerente com a proposta do instrumento.
Em psicometria distingue-se traço (trait / dispositional) e estado (state) para separar características estáveis de condições momentâneas do indivíduo.
Traço psicológico é uma disposição relativamente estável no tempo. Assume-se que a variabilidade intra-indivíduo é pequena em comparação com a variabilidade entre indivíduos. Exemplos: personalidade, ansiedade-traço, extroversão.
Estado psicológico é uma condição transitória, dependente de contexto ou momento. A variabilidade intra-indivíduo tende a ser alta. Exemplos: ansiedade-estado, humor momentâneo, fadiga.
A distinção traço-estado não é conceitual apenas; é um problema de decomposição de variância longitudinal. Sem dados longitudinais, a interpretação como traço é fraca.
Exemplo clássico:
State-Trait Anxiety Inventory (STAI) possui duas subescalas:
STAI-T: ansiedade-traço (E.g.: Sou feliz) STAI-S: ansiedade-estado (E.g.: Estou preocupado(a))
Os itens estão em inglês e português em Fioravanti-Bastos et al. (2011).
Em avaliação psicológica e psiquiátrica distingue-se instrumentos de triagem (screening) e instrumentos de diagnóstico clínico. A diferença é funcional e metodológica.
Escalas de triagem têm como objetivo identificar rapidamente indivíduos com maior probabilidade de apresentar um transtorno ou condição clínica. Elas não estabelecem diagnóstico.
Características comuns:
Alta sensibilidade significa reduzir falsos negativos, isto é, diminuir a probabilidade de deixar de identificar indivíduos potencialmente afetados.
Como consequência, instrumentos de triagem costumam gerar maior número de falsos positivos.
Exemplos:
Instrumentos diagnósticos têm como objetivo estabelecer ou confirmar um diagnóstico clínico, geralmente com base em critérios formais de classificações como DSM ou CID.
Características comuns:
Alta especificidade significa reduzir falsos positivos, isto é, evitar classificar indivíduos sem o transtorno como casos clínicos.
Exemplos:
Na prática clínica e epidemiológica, a triagem funciona como primeira etapa do processo de avaliação. Indivíduos classificados como positivos são posteriormente avaliados por instrumentos diagnósticos ou por entrevista clínica.
Assim, uma escala de triagem não substitui diagnóstico clínico. Seu papel é identificar casos prováveis que necessitam de avaliação mais aprofundada.
Devem ser identificados instrumentos ou abordagens previamente existentes que mensurem construtos semelhantes ou relacionados. O grupo deve discutir a relação entre essas escalas e a proposta desenvolvida, indicando se a nova escala se propõe como alternativa, adaptação ou complemento.
O grupo deve definir claramente a população-alvo do instrumento por meio de critérios de inclusão e exclusão, incluindo características demográficas relevantes, contexto de aplicação e forma de administração (autoaplicação ou entrevista). A adequação da linguagem dos itens à população definida deve ser considerada.
A população-alvo das unidades experimentais é definida diretamente pelos critérios de inclusão e exclusão do estudo.
Ou seja:
Exemplo:
Se a droga for administrada ao paciente, então:
Implicação:
Inferência causal ou generalização dos resultados só é válida para a população definida pelas unidades experimentais elegíveis, não pelas unidades observacionais (como células, biópsias, imagens etc.).
São condições necessárias para que um indivíduo possa participar do estudo como unidade experimental. Definem a população-alvo.
Exemplos:
Esses critérios devem delimitar quem pertence ao universo de interesse da pesquisa.
São restrições adicionais que removem participantes da população elegível, mesmo que cumpram os critérios de inclusão. Evitam viés, riscos ou confundimento.
Exemplos:
Não definem a população-alvo, mas refinam a amostra por razões metodológicas ou éticas.
Exemplo: Assinar TCLE é critério de inclusão ou exclusão?
Assinar o TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido) não é critério de inclusão nem de exclusão técnico, no sentido metodológico. É uma exigência ética e legal prévia à participação em qualquer estudo com seres humanos.
Cada grupo deverá elaborar um conjunto inicial de 20 itens Likert de 5 pontos (Discordância-Concordância).
O grupo deve justificar a escolha do formato de resposta em função do construto e da população-alvo. Os itens devem ser redigidos de forma clara, objetiva e adequada ao contexto de aplicação.
O grupo deve explicitar o modelo conceitual de mensuração assumido, indicando se o construto é tratado como unidimensional ou multidimensional, bem como a relação esperada entre as dimensões, quando aplicável.
Deve ser apresentada uma proposta de obtenção de evidências de validade de construto, compatível com a finalidade da escala.
Para escalas do Enquadramento A, podem ser considerados:
O grupo deve indicar quais estratégias de avaliação da confiabilidade seriam adequadas ao instrumento proposto.
Para escalas do Enquadramento A, podem ser incluídas medidas de tamanho de efeito do construto e estabilidade temporal.
Devem ser descritas de forma clara as regras de escoragem do instrumento, incluindo:
Cada deverá aplicar a escala de avaliação do pecado capital em pelo menos 60 pessoas da população-alvo.
Realizar a análise estatística descritiva das respostas obtidas.
Avaliar estatisticamente a qualidade da escala globalmente, suas subescalas (se existirem) e os itens.
Realizar a análise preliminar de dimensionalidade da escala.
Propor e realizar a análise estatística para redução da escala para dez itens.
Cada grupo deverá entregar um documento contendo:
O documento deve ser redigido em linguagem acadêmica, com fundamentação em artigos científicos, foco na coerência conceitual e metodológica.
Fioravanti-Bastos, ACM et al. (2011) Development and Validation of a Short-Form Version of the Brazilian State-Trait Anxiety Inventory. Psicol. Reflex. Crit. 24(3). https://doi.org/10.1590/S0102-79722011000300009
Franzen, MD (2000) Reliability and validity in neuropsychological assessment. 2nd ed. USA: Springer.
Tavares, M (2003) Validade clínica. Psico-USF 8(2): 125-36.