1 Introdução

O desenvolvimento de tecnologias para o controle de pragas constitui uma área estratégica para a agricultura brasileira, responsável por parte expressiva do Produto Interno Bruto nacional. As universidades federais desempenham papel central nesse processo de inovação, atuando como protagonistas na geração de conhecimento científico e tecnológico que pode ser protegido por meio de patentes junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

A análise do perfil patentário dessas instituições permite compreender não apenas o volume da produção tecnológica, mas também suas tendências temporais, especialidades temáticas, distribuição geográfica e efetividade dos pedidos depositados. Este relatório apresenta uma análise descritiva do banco de dados de patentes relacionadas ao controle de pragas depositadas por universidades federais brasileiras, respondendo a cinco perguntas centrais para a caracterização desse perfil.

O corpus analisado é composto por 1091 registros de patentes, abrangendo o período de 2000 a 2024.


2 Evolução Temporal dos Depósitos

2.1 Análise

A análise temporal dos depósitos de patentes revela o padrão de atividade inventiva das universidades federais ao longo do tempo. O período analisado compreende os anos de 2000 a 2024, com um total de 1091 depósitos distribuídos em 25 anos distintos.

O ano com maior volume de depósitos foi 2020, com 126 depósitos, enquanto a média anual ficou em torno de 43.6 depósito(s) por ano. Observa-se que a atividade patentária não é contínua — há anos sem nenhum registro —, o que é característico de áreas de nicho com grupos de pesquisa pontuais e projetos de duração finita.

O padrão geral indica crescimento a partir da década de 2010, reflexo da expansão das universidades federais promovida pelo Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) e do amadurecimento dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) nas instituições brasileiras, que passaram a incentivar mais sistematicamente o depósito de patentes.

**Figura 1.** Evolução anual do número de depósitos de patentes de tecnologias de controle de pragas por universidades federais brasileiras. A linha tracejada representa a tendência ajustada pelo método LOESS.

Figura 1. Evolução anual do número de depósitos de patentes de tecnologias de controle de pragas por universidades federais brasileiras. A linha tracejada representa a tendência ajustada pelo método LOESS.

Tabela 1. Número de depósitos de patentes por ano e acumulado.
Ano Depósitos no ano Acumulado % do total
2000 3 3 0.3%
2001 9 12 0.8%
2002 2 14 0.2%
2003 7 21 0.6%
2004 16 37 1.5%
2005 5 42 0.5%
2006 13 55 1.2%
2007 17 72 1.6%
2008 25 97 2.3%
2009 19 116 1.7%
2010 28 144 2.6%
2011 31 175 2.8%
2012 51 226 4.7%
2013 60 286 5.5%
2014 59 345 5.4%
2015 66 411 6.0%
2016 76 487 7.0%
2017 91 578 8.3%
2018 78 656 7.1%
2019 92 748 8.4%
2020 126 874 11.5%
2021 71 945 6.5%
2022 57 1002 5.2%
2023 58 1060 5.3%
2024 31 1091 2.8%

3 Áreas Tecnológicas (Grupos IPC)

3.1 Análise

A classificação das patentes por grupos da Classificação Internacional de Patentes (IPC) permite identificar as frentes tecnológicas prioritárias das universidades federais no campo do controle de pragas. Como uma mesma patente pode receber múltiplos códigos IPC, a análise considera o total de ocorrências de cada grupo no corpus.

O grupo mais frequente foi C12N (Biotecnologia/Micro-organismos), com 621 ocorrências, correspondendo a 56.9% das patentes analisadas. Esse resultado indica uma clara predominância de abordagens biotecnológicas na inovação universitária voltada ao controle de pragas, alinhada à expertise das universidades federais em pesquisa básica e aplicada em microbiologia, bioquímica e biologia molecular.

Em segundo lugar, destacam-se as patentes classificadas nos grupos A01N (Biocidas/Repelentes), que englobam substâncias de origem vegetal e química utilizadas para combate direto a pragas. A presença de subgrupos como A01N 65/ (Extratos Vegetais Biocidas) evidencia uma tendência relevante de aproveitamento da biodiversidade brasileira como fonte de compostos bioativos — abordagem com alto potencial de originalidade e vantagem competitiva para o Brasil.

**Figura 2.** Grupos IPC mais frequentes nas patentes de tecnologias de controle de pragas depositadas por universidades federais brasileiras. Uma mesma patente pode contribuir para múltiplos grupos.

Figura 2. Grupos IPC mais frequentes nas patentes de tecnologias de controle de pragas depositadas por universidades federais brasileiras. Uma mesma patente pode contribuir para múltiplos grupos.

Tabela 2. Frequência dos grupos IPC nas patentes analisadas.
Código IPC Descrição Ocorrências % das patentes
C12N Biotecnologia/Micro-organismos 621 56.9%
A01N Biocidas/Repelentes (Geral) 283 25.9%
A01N Extratos Vegetais Biocidas 190 17.4%
A01N Biocidas Biológicos 69 6.3%
A01M Dispositivos/Armadilhas 42 3.8%
A01N Atrativos/Repelentes/Feromônios 5 0.5%

4 Universidades com Maior Volume de Depósitos

4.1 Análise

A distribuição dos depósitos entre as universidades federais revela um cenário de concentração moderada, com poucas instituições respondendo pela maior parte da produção patentária na área de controle de pragas.

A universidade com maior volume de depósitos foi a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com 146 patentes, representando 13.4% do total. As três primeiras colocadas — UFMG, UFPEL, UFPR — concentram juntas 28.4% dos depósitos, o que indica que, embora várias instituições contribuam para essa área, há líderes bem estabelecidos.

Essa concentração pode ser explicada por fatores como a existência de grupos de pesquisa consolidados, maior disponibilidade de infraestrutura laboratorial, NITs mais maduros e histórico de financiamento em pesquisa agropecuária por agências como CNPq, CAPES e FAPESP/FAPs estaduais.

**Figura 3.** Universidades federais brasileiras com maior volume de depósitos de patentes relacionadas ao controle de pragas, ordenadas pelo número de depósitos.

Figura 3. Universidades federais brasileiras com maior volume de depósitos de patentes relacionadas ao controle de pragas, ordenadas pelo número de depósitos.

Tabela 3. Ranking de universidades federais por número de depósitos.
Sigla Universidade Depósitos % Acumulado %
UFMG Universidade Federal de Minas Gerais 146 13.4% 13.4%
UFPEL Universidade Federal de Pelotas 87 8.0% 21.4%
UFPR Universidade Federal do Paraná 77 7.1% 28.4%
UFV Universidade Federal de Viçosa 73 6.7% 35.1%
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro 55 5.0% 40.1%
UFPB Universidade Federal da Paraíba 49 4.5% 44.6%
UFAL Universidade Federal de Alagoas 48 4.4% 49.0%
UFPE Universidade Federal de Pernambuco 46 4.2% 53.3%
UFRPE Universidade Federal Rural de Pernambuco 46 4.2% 57.5%
UNB Universidade de Brasília 45 4.1% 61.6%
UFS Universidade Federal de Sergipe 41 3.8% 65.4%
UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul 38 3.5% 68.8%
UFLA Universidade Federal de Lavras 28 2.6% 71.4%
UFC Universidade Federal do Ceará 26 2.4% 73.8%
UFSCAR Universidade Federal de São Carlos 26 2.4% 76.2%
UFBA Universidade Federal da Bahia 21 1.9% 78.1%
UFU Universidade Federal de Uberlândia 17 1.6% 79.7%
UFG Universidade Federal de Goiás 16 1.5% 81.1%
UFMA Universidade Federal do Maranhão 15 1.4% 82.5%
FURG Universidade Federal do Rio Grande 14 1.3% 83.8%
UFCG Universidade Federal de Campina Grande 13 1.2% 85.0%
UFOP Universidade Federal de Ouro Preto 13 1.2% 86.2%
UTFPR Universidade Tecnológica Federal do Paraná 13 1.2% 87.4%
UFPA Universidade Federal do Pará 11 1.0% 88.4%
UFSC Universidade Federal de Santa Catarina 11 1.0% 89.4%
UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora 9 0.8% 90.2%
UFSM Universidade Federal de Santa Maria 9 0.8% 91.0%
UFES Universidade Federal do Espírito Santo 8 0.7% 91.8%
UFMS Universidade Federal de Mato Grosso do Sul 8 0.7% 92.5%
UFRN Universidade Federal do Rio Grande do Norte 7 0.6% 93.1%
UFT Universidade Federal do Tocantins 7 0.6% 93.8%
UFABC Universidade Federal do ABC 6 0.5% 94.3%
UFGD Universidade Federal da Grande Dourados 6 0.5% 94.9%
UNIFEI Universidade Federal de Itajubá 5 0.5% 95.3%
UNIVASF Universidade Federal do Vale do São Francisco 5 0.5% 95.8%
UFF Universidade Federal Fluminense 4 0.4% 96.2%
UFMT Universidade Federal de Mato Grosso 4 0.4% 96.5%
UFSJ Universidade Federal de São João del-Rei 4 0.4% 96.9%
UNIFESSPA Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará 4 0.4% 97.3%
UNIPAMPA Universidade Federal do Pampa 4 0.4% 97.6%
UFRB Universidade Federal do Recôncavo da Bahia 3 0.3% 97.9%
UFRRJ Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro 3 0.3% 98.2%
UNIFESP Universidade Federal de São Paulo 3 0.3% 98.4%
UFCSPA Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre 2 0.2% 98.6%
UFERSA Universidade Federal Rural do Semi-Árido 2 0.2% 98.8%
UFPI Universidade Federal do Piauí 2 0.2% 99.0%
UNIFAL-MG Universidade Federal de Alfenas 2 0.2% 99.2%
UNIFAP Universidade Federal do Amapá 2 0.2% 99.4%
UFAPE Universidade Federal do Agreste de Pernambuco 1 0.1% 99.5%
UFFS Universidade Federal da Fronteira Sul 1 0.1% 99.5%
UFOPA Universidade Federal do Oeste do Pará 1 0.1% 99.6%
UFR Universidade Federal de Rondonópolis 1 0.1% 99.7%
UFRA Universidade Federal Rural da Amazônia 1 0.1% 99.8%
UFTM Universidade Federal do Triângulo Mineiro 1 0.1% 99.9%
UFVJM Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri 1 0.1% 100.0%

5 Concentração Regional dos Depósitos

5.1 Análise

A análise regional evidencia uma distribuição assimétrica dos depósitos de patentes entre os estados brasileiros, refletindo as desigualdades históricas na distribuição de recursos para pesquisa e pós-graduação no país.

A Unidade Federativa com maior número de depósitos foi MG, com 297 patentes (27.2% do total). Em termos regionais, o Sudeste concentrou a maior proporção dos depósitos, com 36.8% do total.

O Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) calculado para a distribuição por UF foi de 0.123 (em escala de 0 a 1), o que indica um nível de concentração baixo. Esse padrão de concentração é consistente com a literatura sobre inovação no Brasil, que aponta reiteradamente para a maior capacidade das regiões Sudeste e Sul em gerar e proteger ativos tecnológicos, em função da infraestrutura de pesquisa mais robusta, maior proximidade com o setor produtivo e maior acesso a financiamento.

**Figura 4.** Número de depósitos de patentes por Unidade Federativa. A intensidade da cor indica maior concentração de depósitos.

Figura 4. Número de depósitos de patentes por Unidade Federativa. A intensidade da cor indica maior concentração de depósitos.

Tabela 4a. Depósitos de patentes por Unidade Federativa e Região.
UF Região Depósitos %
MG Sudeste 297 27.2%
RS Sul 154 14.1%
PE Nordeste 95 8.7%
PR Sul 90 8.2%
PB Nordeste 62 5.7%
RJ Sudeste 62 5.7%
AL Nordeste 48 4.4%
DF Centro-Oeste 45 4.1%
SE Nordeste 41 3.8%
SP Sudeste 36 3.3%
BA Nordeste 25 2.3%
CE Nordeste 25 2.3%
PA Norte 17 1.6%
GO Centro-Oeste 16 1.5%
MA Nordeste 15 1.4%
MS Centro-Oeste 13 1.2%
SC Sul 12 1.1%
RN Nordeste 9 0.8%
ES Sudeste 7 0.6%
TO Norte 7 0.6%
NA Outro 6 0.5%
MT Centro-Oeste 5 0.5%
AP Norte 2 0.2%
PI Nordeste 2 0.2%
Tabela 4b. Depósitos por Grande Região.
Região Depósitos pct %
Sudeste 402 0.3684693 36.8%
Nordeste 322 0.2951421 29.5%
Sul 256 0.2346471 23.5%
Centro-Oeste 79 0.0724106 7.2%
Norte 26 0.0238313 2.4%
Outro 6 0.0054995 0.5%

6 Taxa de Concessão, Indeferimento e Arquivamento

6.1 Análise

A análise do resultado final dos pedidos de patente é um indicador fundamental da efetividade da proteção tecnológica almejada pelas universidades federais. Os resultados foram classificados em quatro categorias: Concedido, Indeferido, Arquivado e Tramitação (pedidos ainda em andamento no INPI).

Do total de 1091 pedidos analisados, 185 foram concedidos (17.0%), 211 foram indeferidos (19.3%), 268 foram arquivados (24.6%) e 418 ainda estão em tramitação (38.3%).

Considerando apenas os pedidos com desfecho final definido (excluindo os em tramitação), a taxa de concessão efetiva foi de 27.5%. Esse percentual é relevante para a discussão sobre a qualidade técnica dos pedidos depositados pelas universidades federais e aponta para a necessidade de suporte especializado dos NITs na elaboração das reivindicações das patentes.

O elevado percentual de pedidos ainda em tramitação (38.3%) reflete o notório congestionamento do INPI, que historicamente apresenta um dos maiores backlogs de patentes do mundo. Isso implica que a taxa de concessão efetiva tende a se alterar substancialmente à medida que esses pedidos forem examinados, o que deve ser levado em conta na interpretação dos dados.

Os pedidos arquivados (24.6%) representam, em geral, casos em que o depositante não respondeu às exigências do INPI dentro do prazo, o que pode indicar abandono estratégico da proteção ou limitação de recursos das equipes de propriedade intelectual das universidades.

**Figura 5.** Distribuição dos pedidos de patente por resultado final. Cores indicam categorias: verde (Concedido), vermelho (Indeferido), amarelo (Arquivado) e azul (Tramitação).

Figura 5. Distribuição dos pedidos de patente por resultado final. Cores indicam categorias: verde (Concedido), vermelho (Indeferido), amarelo (Arquivado) e azul (Tramitação).

**Figura 6.** Distribuição proporcional dos resultados finais por universidade federal. Universidades ordenadas pela proporção de pedidos concedidos.

Figura 6. Distribuição proporcional dos resultados finais por universidade federal. Universidades ordenadas pela proporção de pedidos concedidos.

Tabela 5. Distribuição dos pedidos de patente por resultado final.
Resultado N %
Tramitação 418 38.3%
Arquivado 268 24.6%
Indeferido 211 19.3%
Concedido 185 17.0%
Extinto 9 0.8%

7 Síntese dos Resultados

Os resultados apresentados permitem traçar um perfil abrangente da produção patentária das universidades federais brasileiras no campo do controle de pragas. Em síntese:

  1. Evolução temporal: A produção patentária apresentou crescimento a partir dos anos 2010, com pico em 2020, o que coincide com o período de fortalecimento dos NITs e dos programas de fomento à inovação universitária no Brasil.

  2. Perfil tecnológico: Há clara predominância de tecnologias classificadas no grupo C12N (Biotecnologia/Micro-organismos), seguido por A01N (Biocidas/Repelentes). Essa distribuição revela o protagonismo da pesquisa em controle biológico e no uso de extratos naturais, alinhado às tendências globais de redução do uso de agroquímicos sintéticos.

  3. Liderança institucional: A produção é concentrada em poucas universidades, com destaque para UFMG, que lidera em volume de depósitos. As demais instituições apresentam contribuição mais modesta, sugerindo oportunidade de ampliação das políticas de incentivo ao patenteamento nas universidades com menor produção.

  4. Distribuição regional: A concentração regional segue o padrão histórico brasileiro, com maior participação dos estados do Sudeste. O índice HHI de 0.123 confirma essa assimetria, reforçando a necessidade de políticas de ciência e tecnologia orientadas à descentralização da inovação.

  5. Efetividade dos pedidos: A taxa de concessão efetiva de 27.5% (entre os pedidos com desfecho definido) é um indicador de qualidade dos pedidos depositados. O elevado número de pedidos ainda em tramitação indica que os dados futuros tenderão a apresentar alterações nessa taxa, reforçando a necessidade de monitoramento longitudinal desta produção.


8 Referências

Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Base de dados de pedidos de patente. Disponível em: https://www.gov.br/inpi. Acesso em: 2024.

World Intellectual Property Organization (WIPO). International Patent Classification (IPC). Disponível em: https://www.wipo.int/classifications/ipc.

Lei nº 10.973, de 2 de dezembro de 2004 (Lei de Inovação). Dispõe sobre incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo.


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