A incerteza é uma variável não observável que exerce influência direta sobre as decisões de investimento e o crescimento econômico.Knight (1921) diferencia incerteza de risco, apontando que a primeira carece de uma distribuição de probabilidade conhecida; por isso, métricas alternativas são necessárias, como text regression a qual consiste em estimar o sentimento textual de documentos mediante auxílio de um dicionário ou técnica de machine learning. Índices baseados em cobertura jornalística (EPU) e em combinações de mídia e sinais financeiros (IIE‑Br da FGV) têm sido amplamente utilizados para capturar variações na percepção de incerteza.
A seguir, são apresentadas as fórmulas utilizadas para a construção do indicador.
A proporção de notícias de incerteza é calculada para cada tipo de mídia (jornal impresso e jornal online) como:
\[ p_{k,t} = \frac{I_{k,t}}{T_{k,t}} \]
onde \(T_{k,t}\) é o total de notícias publicadas pela mídia \(k\) no mês \(t\) e, dentre essas, um total de \(I_{k,t}\) foram classificadas como notícia de incerteza. O índice \(k\) corresponde ao jornal impresso e jornal online.
A incerteza na mídia é, então, dada por:
\[ p_{\text{mídia},t} = \frac{p_{\text{impresso},t} + p_{\text{online},t}}{2} \]
ou seja, a média aritmética entre as proporções de notícias de incerteza no jornal impresso e na mídia online. O IIE-Br Mídia origina da padronização da série histórica de \(p_{\text{mídia}}\) considerando a janela de referência.
Calcula-se \(I_{Exp}\) como a média aritmética das três séries mencionadas:
\[ I_{Exp} = \frac{CV_{\text{Câmbio}} + CV_{\text{Selic}} + CV_{\text{IPCA}}}{3} \]
O IIE-Br Expectativa resulta da padronização de \(I_{Exp}\) pela média e pelo desvio padrão da janela de referência.
A consolidação dos resultados do IIE-Br se dá através da ponderação dos dois componentes da seguinte forma:
\[ \text{IIEBr} = 0,8 \cdot \text{IIEBr}_{\text{Mídia}} + 0,2 \cdot \text{IIEBr}_{\text{Expectativa}} \] O Índice de Incerteza Econômica do Brasil (IIE-BR) ao longo dos anos reflete as variações na percepção de risco e instabilidade econômica no país. Através da análise histórica, é possível observar os momentos de maior volatilidade, como crises políticas, choques externos e eventos inesperados que impactaram diretamente o ambiente econômico. O gráfico a seguir ilustra essa trajetória, permitindo uma leitura visual clara da evolução do índice e destacando os períodos de maior incerteza.
Estabilidade e Expansão Econômica Durante a primeira década do século, o país desfrutou de relativa estabilidade política, com governos focados em programas sociais, expansão do mercado interno e atração de investimentos. A combinação de crescimento global, políticas de incentivo e estabilidade regulatória culminou, em 2011, numa entrada histórica de capital externo. Grandes projetos de infraestrutura e o fortalecimento do consumo interno reforçaram a atratividade do Brasil como destino de investimento.
Volatilidade Institucional e Polarização A partir de 2013, o cenário político passou por uma inflexão. As manifestações populares daquele ano revelaram insatisfações profundas com os serviços públicos e a representação política. Em 2016, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff intensificou a instabilidade institucional. A partir de 2018, o país entrou em um ciclo de alternância política acentuada, com disputas polarizadas e mudanças abruptas na condução das políticas públicas. Esse ambiente elevou a percepção de risco político e contribuiu para a deterioração da confiança dos agentes econômicos.
Queda no Investimento Estrangeiro Direto (IED) Nos anos mais recentes, observa-se uma queda contínua no IED, reflexo das incertezas políticas e fiscais, do cenário global adverso e do atraso em reformas estruturais. A instabilidade doméstica, somada à falta de previsibilidade regulatória, comprometeu a imagem do Brasil como destino seguro para investimentos de longo prazo.
Em junho de 2025, o Indicador de Incerteza Econômica da FGV registrou 105,2 pontos, retornando à zona favorável após quedas recentes. Esse movimento sugere uma possível recuperação da confiança, embora ainda cercada por desafios estruturais e institucionais.
| Alta histórica do IED no Brasil (2011) | Queda contínua do IED (2022–2025) |
|---|---|
| Crescimento econômico robusto: PIB elevado, estabilidade macroeconômica e demanda interna crescente atraíram investidores estrangeiros. | Incerteza política e fiscal: Polarização, tensões institucionais e dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal reduziram a confiança de investidores. |
| Políticas de incentivo a investimentos: Programas de desoneração, concessões em infraestrutura e facilitação de investimentos estrangeiros. | Cenário global desfavorável: Juros internacionais mais altos e competição global por capital reduziram o fluxo de IED para países emergentes. |
| Previsibilidade regulatória: Ambiente regulatório relativamente estável, com regras claras para setores estratégicos. | Risco econômico interno: Inflação persistente, crescimento abaixo do potencial e dificuldades em implementar reformas estruturais. |
| Mercado interno promissor: Classe média em expansão e consumo crescente estimularam investimentos em setores produtivos e varejo. | Volatilidade cambial e financeira: Oscilações no câmbio e no mercado financeiro aumentaram o custo de capital e o risco percebido. |
| Grandes projetos de infraestrutura: Investimentos em energia, transporte e logística atraíram capital estrangeiro. | Atraso em reformas estruturais: Dificuldade de avançar em reformas tributária, previdenciária e administrativa afetou a atratividade do país. |
“Incerteza custa caro. Desacelera a economia, enfraquece a arrecadação, e obriga o governo a recorrer a novas compensações que, muitas vezes, criam mais distorções.”
Historicamente, períodos eleitorais já tendem a gerar volatilidade nos indicadores financeiros, como câmbio e bolsa de valores, mas o grau de incerteza política observado a partir de 2018 acentuou essa dinâmica. A cada novo pleito, forma-se uma expectativa distinta de política fiscal, papel do Estado e postura frente a reformas estruturais, fatores que afetam a formação de expectativas de longo prazo.
Durante o ciclo eleitoral de 2018, por exemplo, o mercado reagiu positivamente à perspectiva de uma agenda liberal e de reformas pró-mercado, o que resultou em apreciação cambial temporária e aumento do fluxo de capital especulativo. Em contrapartida, as eleições de 2022 trouxeram movimentos de cautela diante da incerteza sobre o comprometimento fiscal do novo governo, levando a oscilações nos juros futuros e retração em investimentos de maior horizonte.
Esses episódios evidenciam que os investimentos no Brasil tendem a variar de acordo com as expectativas políticas associadas a cada eleição, não apenas pelo resultado em si, mas pela percepção de governabilidade e estabilidade institucional subsequente. Em momentos de maior tensão ou contestação eleitoral, observa-se elevação do prêmio de risco-país, adiamento de decisões de investimento e maior preferência por ativos líquidos.
Em síntese, a polarização política se consolidou como um fator estrutural de instabilidade econômica, impactando o comportamento de investidores domésticos e estrangeiros. A volatilidade nas expectativas de política fiscal e regulatória, aliada à fragilidade institucional decorrente do embate político, limita a previsibilidade necessária para a retomada sustentada dos investimentos produtivos no país.
Analisando a correlação entre a estabilidade política e os fluxos de investimento externo direto (IED) no Brasil, observados em índices normalizados de 0 a 1, percebe-se que períodos de instabilidade política, como crises institucionais ou elevada incerteza regulatória, tendem a coincidir com quedas ou estagnação nos fluxos de IED. Isso demonstra que o risco político aumenta o prêmio de risco exigido pelos investidores, tornando-os mais cautelosos. A capacidade do governo de garantir previsibilidade é, portanto, um determinante crucial para que o capital estrangeiro se sinta seguro em realizar investimentos de longo prazo.
De maneira similar, o gráfico que cruza o crescimento do PIB com o índice de estabilidade política reforça o argumento. A estabilidade política é um prérequisito para a estabilidade regulatória e fiscal. Quando o ambiente político é estável, a confiança do investidor (tanto estrangeiro quanto doméstico) aumenta, incentivando a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). Como o IED é um componente chave da FBCF, ele injeta tecnologia e empregos, sustentando taxas de investimento mais altas e, consequentemente, um crescimento mais robusto e duradouro do PIB. A estabilidade política, em suma, funciona como o alicerce para a prosperidade econômica.
O principal atrativo é a força de seu mercado interno, servindo como um vasto mercado consumidor final e uma plataforma de produção para a América Latina. Essa preferência regional, aliada à percepção de resiliência econômica, posiciona o Brasil como um destino fundamental para a diversificação de portfólios globais em um ano marcado por incerteza.
A maior área de cautela é a ineficiência regulamentária. A “eficiência dos processos legais e regulatórios” e a “facilidade de movimentação de capital” são cruciais, e o fato de o Brasil estar fora do topo global sugere que a complexidade burocrática e a falta de celeridade legal persistem como um custo oculto. Além disso, a percepção de risco político e incerteza econômica impede o Brasil de se posicionar mais próximo dos líderes globais, onde a segurança dos ativos é considerada mais alta.
O gráfico mostra a correlação entre o índice de incerteza política e as expectativas de taxa Selic no Brasil entre 2022 e 2025. Observa-se que picos de incerteza, geralmente associados a crises institucionais ou votações legislativas polêmicas, coincidem com revisões nas expectativas de juros. Isso revela que a instabilidade política não apenas afeta a percepção externa, mas também distorce as projeções internas, dificultando o planejamento econômico e a tomada de decisão por parte de investidores e empresas.
A crise política provocada pela tramitação da PEC dos Combustíveis em junho de 2022 gerou instabilidade institucional no Brasil, com impactos diretos sobre o setor de energia e sobre a percepção de risco por parte dos investidores estrangeiros. A proposta, que buscava compensações fiscais para reduzir os preços dos combustíveis, foi interpretada como uma medida populista e fiscalmente arriscada, levantando preocupações sobre a governança da Petrobras e a sustentabilidade das contas públicas. O gráfico mostra como essa incerteza se refletiu em três indicadores: as ações da Petrobras sofreram queda significativa, o risco-país aumentou e o dólar se valorizou, indicando fuga de capital e busca por proteção cambial. Esses movimentos revelam como decisões políticas internas afetam diretamente o fluxo de investimento estrangeiro, especialmente em setores regulados e estratégicos como o de energia. Em momentos de instabilidade, investidores tendem a reavaliar suas posições, reduzindo exposição ao país e elevando a volatilidade dos ativos.
A preferência de muitos economistas pela estabilização orçamentária e de alíquotas reside na busca por previsibilidade e redistribuição geracional justa, fatores que se ligam intrinsecamente à estabilidade política e ao investimento no Brasil. No contexto brasileiro, onde a incerteza fiscal é historicamente alta, um governo que adota políticas de estabilidade orçamentária e evita mudanças bruscas nas regras fiscais (como alíquotas) reduz o risco percebido (prêmio de risco), que é o principal repulsor de Investimento Estrangeiro Direto (IED), conforme evidenciado em relatórios de confiança global como o da Kearney. A previsibilidade fiscal, portanto, não é apenas uma questão técnica, mas uma ancoragem política que sustenta a segurança jurídica e permite que investidores estrangeiros e domésticos façam planos de longo prazo, transformando a estabilidade política em um ativo tangível para o crescimento econômico e a atração de capital produtivo.
Para elevar a confiabilidade do Brasil perante investidores globais e domésticos, é imperativo adotar uma estratégia de duas frentes. Primeiro, é crucial focar na Estabilidade consolidada, avançando e blindando reformas estruturais como a tributária e a microeconômica. Isso envolve garantir a previsibilidade fiscal e regulatória, solidificando um arcabouço de regras claras e duradouras que reduza o “custo Brasil” e a incerteza para o capital de longo prazo. A estabilidade decorrente da boa governabilidade e de instituições técnicas autônomas é a base para qualquer decisão de investimento. Em paralelo, o país precisa mitigar o risco de Instabilidade prolongada, que é a maior fonte de volatilidade e desconfiança. Isso exige a pacificação do ambiente político através do diálogo institucional e do respeito aos limites entre os Poderes. A redução da polarização disruptiva e dos conflitos que resultam em insegurança jurídica é fundamental. Os investidores buscam ambientes onde as regras do jogo não mudem abruptamente devido a crises políticas. Em síntese, o Brasil deve demonstrar um compromisso inabalável com a previsibilidade e a continuidade das políticas de Estado, transformando instabilidade em oportunidades duradouras para o investimento produtivo.
Sites:
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