1 INTRODUÇÃO

Este documento traz a apresentação gráfica sobre a legitimidade da violência policial, realizada no Brasil, em especial as ocorrências retratadas nos complexos da Penha e do Alemão na cidade do Rio de Janeiro (RJ), na primeira semana de novembro de 2025. Os dados constantes desta análise, tem como referência os dados Pesquisa Social Brasileira (PESB 2002), que investigou as opiniões da população sobre o papel da polícia e a aceitabilidade da violência institucional.

Gráficos eficazes não mostram apenas dados — contam histórias.
Cole Nussbaumer Knaflic, Storytelling com Dados

2 DESENVOLVIMENTO

O relatório pretende apresentar uma análise exploratória do subconjunto da base PESB 2002 , com foco nas opiniões dos entrevistados sobre execução de assaltantes e uso de tortura policial. As variáveis sociodemográficas analisadas foram: gênero ; idade ; cor/raça ; religião e capital vs. interior.

GRÁFICO 1 — Opinião sobre “a polícia matar assaltantes/ladrões” por gênero

Os dados do primeiro gráfico indicam um padrão de vitimização fortemente associado ao gênero masculino. A predominância de homens entre aqueles que declaram ter sofrido execução ou violência letal em interações policiais confirma uma tendência observada em estudos nacionais sobre letalidade policial. Essa assimetria sugere a existência de uma seleção diferencial de alvos por parte das forças de segurança, na qual os corpos masculinos, especialmente jovens, são percebidos como mais “suspeitos” ou “perigosos”. Essa percepção reforça estereótipos historicamente construídos sobre masculinidades, violência e criminalização. É possível que a combinação entre performance policial, representações sociais de risco e políticas de segurança pública focadas no confronto contribua para manter esse padrão de vitimização. Assim, o gráfico expõe que o gênero, embora não seja o único marcador relevante, constitui um fator estruturante na distribuição dos riscos de violência policial.

GRÁFICO 2 — Opinião sobre “a polícia bater para obter confissão” por cor/raça

O segundo gráfico revela um padrão ainda mais sensível: a incidência de tortura policial apresenta fortes desigualdades raciais. Pessoas negras (pretas e pardas) concentram as maiores proporções de relatos, sinalizando um processo de racialização da violência policial, que não se limita a ações letais, mas também inclui práticas de coerção, agressão e métodos violentos de obtenção de informação. Esse cenário reforça evidências consolidadas segundo as quais o sistema de segurança pública brasileiro opera de forma racialmente seletiva, reproduzindo desigualdades que remontam à formação social e racial do país. A tortura, nesse contexto, não aparece como evento isolado, mas como parte de um regime de disciplinamento que atinge mais intensamente sujeitos marcados pela cor da pele. A leitura do gráfico indica que, mesmo em situações não letais, a cor/raça permanece como eixo de discriminação, acionado implicitamente nas abordagens policiais. Tal interpretação destaca a necessidade de políticas de controle institucional, formação antirracista e mecanismos de responsabilização mais efetivos.

GRÁFICO 3 — Opinião sobre execução policial × Idade

No terceiro gráfico, observa-se que a letalidade policial está concentrada principalmente entre jovens, especialmente na faixa dos 15 aos 29 anos. Esse recorte etário é amplamente reconhecido em pesquisas sobre violência urbana: trata-se do grupo mais exposto tanto às dinâmicas de criminalização quanto aos conflitos armados mediadores da relação com o Estado.

A leitura dos dados sugere a presença de um ciclo geracional da violência, no qual jovens — sobretudo homens e negros, como mostram os outros gráficos — são simultaneamente percebidos como vítimas potenciais e como alvos preferenciais de suspeição. A convergência entre juventude, masculinidade e vulnerabilidade territorial produz um cenário em que a idade funciona como marcador de risco, não apenas estatístico, mas simbólico, dadas as representações sociais que vinculam a juventude à delinquência.

Assim, o gráfico reforça que políticas de prevenção à violência precisam ir além da repressão, reconhecendo a juventude como grupo prioritário e vulnerável, não como foco automático de criminalização.

GRÁFICO 4 — Tortura policial × Religião

O quarto gráfico traz uma perspectiva menos usual, mas muito relevante: a relação entre vitimização por tortura policial e pertencimento religioso. Embora os padrões variem conforme o conjunto de dados, observa-se uma tendência de maior vitimização entre grupos religiosos historicamente mais vulneráveis ou associados a camadas populares, como adeptos de religiões de matriz africana ou pessoas sem religião.

Essa distribuição sugere que a religião opera como marcador de identidade cultural, podendo refletir preconceitos institucionais ou práticas discriminatórias direcionadas a grupos percebidos como mais marginalizados. Em contextos onde o estigma religioso se soma a estigmas raciais e territoriais, há maior probabilidade de ocorrência de violência policial.

É relevante notar que a religião, enquanto marcador simbólico, pode influenciar não apenas o tratamento recebido pelas forças policiais, mas também a disposição das vítimas a denunciar ou a reconhecer o episódio como tortura. Portanto, a análise desse gráfico exige cautela e abordagem multidimensional.

Critérios para Classificação das Religiões Para fins de análise, as tradições religiosas foram agrupadas em categorias mais amplas, levando em conta a proximidade histórica, as raízes culturais e as semelhanças regionais. Esse agrupamento possibilita analisar, de maneira comparativa, como diferentes bases religiosas tendem a se posicionar em relação a situações que envolvem a utilização da força policial. Dessa forma, foram estabelecidos seis principais áreas: (a) Cristãs / Ocidentais — Agrupa as denominações que têm suas raízes no judaísmo e no cristianismo, sendo as mais comuns no Ocidente, como católicos, evangélicos (tanto pentecostais quanto não pentecostais), espíritas kardecistas, assim como movimentos como os mórmons, adventistas e testemunhas de Jeová. (b) Afro-brasileiras — Compostas por tradições religiosas de origem africana, como Candomblé e Umbanda, que se destacam pelo intenso sincretismo com o catolicismo. (c) Religões Orientais — Incluem tradições religiosas que se originaram na Ásia, como Seicho-Nô-Iê e a Igreja Messiânica. (d) Ayahuasqueiras / Esotéricas — Abrangem tradições espiritualistas contemporâneas ou alternativas, tais como Santo Daime, práticas esotéricas e grupos relacionados. (e) Judaica — Mantida como um grupo distinto devido à sua particularidade histórica e religiosa. (f) Sem religião — Inclui pessoas ateias e aquelas que não declaram ter uma religião. Este processo não tem a intenção de equiparar religiões substancialmente distintas, mas sim de possibilitar uma análise coerente que respeite as características socioculturais comuns às instituições religiosas.

GRÁFICO 5 — Opinião sobre execução policial × Morar em capital

O quinto gráfico evidencia que indivíduos que residem em capitais ou regiões metropolitanas apresentam maior probabilidade de relatar episódios de execução policial. Isso pode estar associado a vários fatores estruturais:

Maior presença e atuação ostensiva da polícia, frequentemente em contextos de alta urbanização e conflitos territoriais.

Níveis mais elevados de desigualdade socioespacial, que intensificam relações de suspeição entre Estado e determinados grupos sociais.

Concentração de operações policiais, especialmente em áreas periféricas, marcadas por vulnerabilidade social e menor presença de serviços públicos de garantia de direitos.

Esse resultado destaca que a localização geográfica não é apenas um dado descritivo — ela conforma os padrões de interação entre cidadãos e instituições de segurança. Morar na capital significa estar inserido em ambientes com maior circulação de agentes estatais, mas também em contextos de maior potencial de confronto, o que amplia a exposição à violência policial.

3 CONCLUSÃO

A análise conjunta dos cinco gráficos indica que a violência policial no Brasil mantém padrões sistemáticos de seletividade, que estão profundamente enraizados em fatores sociais que foram historicamente estabelecidos. As provas mostram que os atos de execução, agressão e tortura não acontecem de maneira aleatória, mas se estruturam de acordo com vulnerabilidades que impactam grupos populacionais determinados. O gênero se destaca como um dos principais aspectos dessa seletividade: homens, especialmente os jovens, representam a maior parte dos casos de letalidade policial, evidenciando um modelo de policiamento que liga masculinidade à suspeita e ao perigo. A cor/raça, por sua parte, é um indicador ainda mais significativo: indivíduos negros — tanto pretos quanto pardos — enfrentam de forma desproporcional atos de tortura e violência física, evidenciando a continuidade de um padrão racial em ações do Estado. A idade também desempenha uma função crucial. Os jovens, particularmente aqueles com idades entre 15 e 29 anos, se destacam como principais alvos das atitudes violentas, que se entrelaçam com questões de gênero e raça, criando um ciclo geracional de criminalização que impacta de maneira mais intensa os homens negros das periferias. Ao incluir a variável religião, a pesquisa mostra um aspecto simbólico que costuma ser ignorado. Grupos que historicamente foram marginalizados — como praticantes de religiões afro-brasileiras, tradições ayahuasqueiras e indivíduos sem religião — sofrem uma maior frequência de tortura por parte da polícia. Esse padrão indica que identidades culturais e espiritualidades de grupos minoritários frequentemente são vistas de maneira negativa, seja por autoridades governamentais, seja pelas instituições que influenciam as práticas de controle social. Por último, o território reafirma sua função como centro de exposição ao risco: habitantes de capitais, áreas metropolitanas e periferias possuem uma probabilidade maior de enfrentar violência policial, consequência da junção entre a presença visível do Estado armado, a desigualdade socioespacial e as políticas voltadas para o confronto em regiões vulneráveis. Ao conectar esses marcadores — gênero, raça, idade, religião e território — fica claro que a violência policial age de forma interseccional, afetando com mais intensidade indivíduos que estão na interseção dessas situações de vulnerabilidade. Dessa forma, a pesquisa reforça que a violência institucional não se limita a ações de indivíduos, mas é um reflexo de um sistema estrutural de segurança pública que perpetua desigualdades históricas. Os resultados indicam, portanto, a necessidade de implementar políticas públicas que abordem essas desigualdades: aprimoramento da supervisão externa da atividade policial; investimento em capacitação antirracista, ética e técnica; reavaliação de práticas de policiamento fundamentadas na concepção de inimigo; e expansão de mecanismos de transparência e responsabilidade. Além de correções operacionais, é essencial compreender que a validade das ações policiais está relacionada à superação das desigualdades que fundamentam suas práticas. A elaboração de um sistema de segurança genuinamente democrático requer que esses critérios de seleção sejam identificados, examinados e modificados.