Introdução

Transição Energética

Atualmente, existem diversos debates acerca da transição energética no país e no mundo. Essa mudança no contexto da energia diz respeito não só as fontes de geração, mas também ao reaproveitamento da energia gerada e, para isso, a transição energética aborda temas como eficiência energética e a gestão de resíduos, visando a aplicação de mudanças nos modelos de produção e nos hábitos de consumo. De forma geral, o objetivo da transição energética é voltado para a redução de desperdícios e a redução dos impactos ambientais decorrentes da geração de energia ara minimizar os efeitos das mudanças climáticas que têm sido abordados por diversos órgãos.

Considerando o contexto de transição, as fontes renováveis vêm ganhando força no cenário mundial. No Brasil, a geração distribuída tem apresentado um crescimento significativo através da fonte solar fotovoltaica, especialmente nos últimos 2 anos, onde houve a implementação do novo marco da geração distribuída a partir da lei nº 14.300/2022. Anterior a esta lei, o setor de energia solar já tinha como base duas resoluções normativas da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que davam embasamento para o setor, sendo elas: REN nº 482 e a REN nº687.

Em paralelo ao setor de energia solar, a geração de energia por meio de hidrelétricas permanece como grande destaque na matriz energética. Além disso, o Brasil vem aplicando medidas de estímulos para o uso de biocombustíveis. Essa diversificação da matriz energética permite que o país impulsione a transição energética nacional.

Mini e Microgeração Distribuída

A micro e mini geração distribuída são sistemas de geração de energia através da irradiação solar. Esses sistemas podem ser conectados à rede da distribuidora de energia (ex.: Neoenergia Pernambuco) ou podem ser sistemas conectados apenas a baterias que realizam o armazenamento da energia gerada. Nesse formato, não há nenhuma conexão com a rede de distribuição. Na Lei nº 14.300/2022, temos as seguintes definições: I. Microgeração distribuída: central geradora de energia elétrica, com potência instalada, em corrente alternada, menor ou igual a 75 kW (setenta e cinco quilowatts) e que utilize cogeração qualificada, conforme regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), ou fontes renováveis de energia elétrica, conectada na rede de distribuição de energia elétrica por meio de instalações de unidades consumidoras; II. Minigeração distribuída: central geradora de energia elétrica renovável ou de cogeração qualificada que não se classifica como microgeração distribuída e que possua potência instalada, em corrente alternada, maior que 75 kW (setenta e cinco quilowatts), menor ou igual a 5 MW (cinco megawatts) para as fontes despacháveis e menor ou igual a 3 MW (três megawatts) para as fontes não despacháveis, conforme regulamentação da Aneel, conectada na rede de distribuição de energia elétrica por meio de instalações de unidades consumidoras.

Para a operação da geração distribuída, a Lei nº 14.300/2022 adota as seguintes modalidades:

  1. Autoconsumo local (geração na própria unidade consumidora): modalidade de microgeração ou minigeração distribuída eletricamente junto à carga;
  2. Autoconsumo remoto: modalidade de microgeração ou minigeração distribuída eletricamente distante da carga. Ou seja, a geração de energia ocorre em lugar distante de onde será utilizada.
  3. geração compartilhada: modalidade caracterizada pela reunião de consumidores, por meio de consórcio, cooperativa, condomínio civil voluntário ou edilício ou qualquer outra forma de associação civil, instituída para esse fim, composta por pessoas físicas ou jurídicas que possuam unidade consumidora com microgeração ou minigeração distribuída, com atendimento de todas as unidades consumidoras pela mesma distribuidora.

Utilizando como base as definições da Lei nº 14.300/2022, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresenta um levantamento da capacidade instalada de energia de cada uma dessas modalidades. Além disso, a EPE apresenta dados relacionados a modalidade de Condomínios, onde se enquadram os condôminos que possuem sistema de micro ou minigeração distribuída para geração de energia destinada às áreas comuns do edifício.

Pacotes necessários

Abaixo estão listados os pacotes utilizados para a análise deste relatório e, portanto, são necessários para que o código seja executado de forma adequada e com os devidos resultados.

Pacotes utilizados na análise
pacote função
library (dplyr) para manipulação de dados em DataFrames
library (plotly) para visualização de gráficos
library (DT) para visualização de tabelas
library (gt) para criar tabelas
library(knitr) para gerar tabelas e relatórios dinâmicos
Fonte: Autor - UFRPE CPAD 2024.1

Preparação dos Dados

Os dados utilizados nesta análise foram disponibilizados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do governo federal, e podem ser acessados aqui. A princípio, são listadas as informações desde o ano de 2013 do setor de minigeração e microgeração distribuída.

Abaixo, é possível visualizar as primeiras 350 linhas da base de dados

A base completa possui 386728 linhas e 20 colunas, onde as linhas representam a operação de determinados sistemas de micro ou minigeração. Dessa forma, as colunas da base representam características da operação do sistema, como: ano, distribuidora de energia, classe, modalidade, UF, município, tipo de sistema segmento, potência, investimento, dentre outras colunas.

Do total de 20 colunas da base, 7 colunas serão removidas por não apresentarem dados relevantes para esta análise.Com isso, a base ficará com 361247 linhas. Dentre as colunas removidas estão a coluna de código do município no IBGE, subsistema e segmento. A coluna subsistema é uma classificação utilizada pelo Operador Nacional do Setor Elétrico (ONS) para controlar a geração e a transmissão de energia. Para este projeto, a análise por região é mais interessante.

Além disso, considerando que houve uma forte expansão da capacidade instalada nos últimos 5 anos, as linhas que fazem referências aos anos de 2013 à 2018 serão removidas para que o filtro de análise seja voltado para o período de 2019 à 2023. Portanto, a visualização da base ficará conforme abaixo.

Com o filtro na coluna ano a base continua com um volume expressivo de dados, conforme esperado, dado a expansão do mercado.A coluna distribuidora de energia será mantida para identificar a distribuidora com o maior número de sistemas conectados, mas como algumas distribuidoras atuam em diferentes Estados, o volume de conexão por Estados será identificado a partir da coluna UF e, da mesma forma, para os municípios. Na tabela abaixo, por exemplo, é apresetando a distribuidora COSERN e alguns Estados de atuação.

A coluna potencia mw apresenta a potência do sistema em megawatt. Ou seja, cada linha indica a capacidade máxima do sistema em questão. Com os dados dessa coluna, podemos identificar o quanto existe de capacidade instalada no País e por Estados.

Na instalação dos sistemas de geração distribuída, Os sistemas podem possuir fontes de geração de energia distintas, onde os tipos de fontes existentes estão classificadas na coluna fonte resumo, conforme apresentado abaixo. As principais fontes são a Fotovoltaica, Eólica, Hidro e Termelétrica.

Na base de dados, a coluna modalidade classifica o sistema em Autoconsumo Remoto, Geração Compartilhada e Geração na própria UC. A classificação em Autoconsumo Remoto indica que a energia gerada pelo sistema é totalmente consumida fora do local de geração, ou seja, a energia gerada no sistema é enviada para a rede da distribuidora de energia. Com esse envio, a distribuidora realizada a compensação deste montante na conta de energia do titular do sistema. A classificação em Geração Compartihada é semelhante, mas deve ter dois ou mais consumidores por meio de consórcio ou cooperativa. A Geração na Própria UC classifica os sistemas que consomem a energia que geram no mesmo local de instalação do sistema.

As colunas modalidade, fonte_resumo e mini_micro serão convertidas em fatores para melhor uso dos dados.

As linhas com a modalidade “Condomínios” serão removidas, pois possuem poucos sistemas, não sendo relevante para o foco desse projeto.

Abaixo, as colunas estão renomeadas também para melhor representação. Por fim, a tabela ficará com 13 colunas e 360982 linhas. Abaixo, são listadas as 200 primeiras linhas.

Análise Exploratória dos Dados

Após a preparação da base de dados, nesta seção serão retiradas algumas informações a respeito dos sistemas instalados nos Estados, Municípios e os Investimentos.

Quantos sistemas conectados existem nas unidades federativas do País?

Conforme explicado anteriormente, a partir de 2019 houve uma grande expansão da capacidade instalada de energia no País. Com o Brasil hoje possuindo um número expressivo de capacidade de energia, o aumento da capacidade em cada Estado fica em segundo plano.

Abaixo, selecionando as colunas UF e n_sistemas da base de dados, podemos listar a tabela com estes números.

São Paulo com o protagonismo

Muito se fala a respeito do potência da região Nordeste para instalação de sistemas com fontes renováveis, como energia solar (fotovoltaica) e a energia eólica, porém, ao analisar os números dos sistemas instalados de Microgeração e Minigeração distribuída, percebe-se que nenhum Estado da região se encontra nos 3 maiores Estados com mais sistemas instalados.

Embora exista um potencial para geração de energia na região, fatores relacionados a infraestrutura influenciam na instalação desses sistemas. Enquanto a geração de energia aumenta, a infraestrutura atual de transmissão e distribuição vem sendo sobrecarregada por falta de expansão de torres de transmissão e de subestações, sendo isto um fator que pode continuar atrasando a evolução da região para alcançar o ranking dos 3 principais Estados com maior número de sistemas conectados.

Como a capacidade de energia instalada no país está distribuída entre os municípios?

Considerando que os 3 principais Estados com maior capacidade de energia instalada são: São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, espera-se que os municípios que possuem a maior quantidade de sistemas instalados sejam nesses Estados. Abaixo, foram utilizadas as colunas municipio e n_sistemas para análise dos números de instalações.

Ao selecionar os Municípios no gráfico acima, vemos que os 3 principais municípios estão localidos nos Estados de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e no Piauí. Dessa forma, ao analisar os números por Municípios, a região Nordeste aparece em destaque, considerando os últimos 5 anos, diferentemente da análise por Unidades Federativas.

Principais Potências em MegaWatt (MW)

Modificando a análise do números de sistemas para a potência desses sistemas, é esperado que haja uma mudança dos principais municípios, pois a potência dos sistemas pode variar bastante, a depender do segmento (residencial, comercial, industrial) e do quanto o proprietário de um sistema desejar ter de carga instalada. Assim, para o gráfico das potências, foram utilizadas as colunas municipios e potencia_mw.

Após a visualização do gráfico acima, podemos notar que Florianópolis permanece em 1º lugar, mas Brasília surge com um volume de potência mais expressivo em relação ao gráfico de quantidade de sistemas. Além disso, também podemos notar que o município de São Paulo, que constava no gráfico de quantidade de sistemas, não aparece no gráfico acima, enquanto que o município de Manaus surge entre as 10 maiores potências, mas não figura entre os 10 no gráfico de quantidade de sistemas.

As mudanças de municípios no gráfico acima eram esperadas devido à enorme variação de potências que os sistemas podem possuir, tais como: 10kW, 12kW, 15kW, 35kW, 100kW e afins.

Curva de Crescimento

Como o crescimento dos 5 Estados com a maior capacidade atualmente se comportou nos últimos 5 anos?

Abaixo, são selecionados os dados que serão utilizados para identificar a curva de crescimento da capacidade instalada do País anualmente entre os anos de 2019 e 2023. As colunas ano, uf e n_sistemas foram utilizadas para a análise.

Para a análise, será identificado o máximo do número de sistemas instalados por ano (2019 à 2023) no País para que seja feita a plotagem do gráfico comparando o máximo de sistemas instalados nos principais Estados.

A Lei nº 14.300/2022

Em 2022, o País alcançou o maior número de conexões de sistemas, mas a crescente não se repetiu em 2023. O principal fator para que isso ocorresse foi a vigência da novo marco da Geração Distribuída, que deu um prazo até 06 de Janeiro de 2023 para a conexão de sistemas com o direito adquirido. Ou seja, os sistemas instalados após a data de 06 de Janeiro de 2023 iriam passar a ser regulamentado pela Lei nº 14.300/2022.

Tal lei trouxe algumas mudanças para o setor e para os consumidores, em especial o pagamento pelo uso do sistema de distribuição das concessionárias de energia. Com essa mudança, a geração de 1kWh de energia pelos sistemas de Mini e Microgeração não irão mais compensar 1kWh de energia consumida e o consumidor não terá mais uma razão de compensação de 1:1.

Em alinhamento com a curva de crescimento do País, os principais Estados em destaque na capacidade instalada de energia também sofreram picos de conexão no ano de 2022 e passaram pela mesma queda no ano seguinte, conforme a visualização acima.

No gráfico acima, também foram plotadas as curvas do Estados de Pernambuco e da Bahia. Em comparação ao crescimento dos demais, é possível notar que tais Estados permanecem anualmente crescendo abaixo dos principais volumes de capacidade do País.

Qual o total de potência instalada que o País acumulou em 2023?

Para obter a informação do total acumulado no País, com dados até o ano de 2023, a coluna ano e a coluna potencia_mw serão selecionadas. Com isso, a visualização do gráfico irá permitir identificar o acumulado de potência ao longo dos últimos 5 anos.

Ao analisar o gráfico acima, podemos notar que 2023 foi o ano que o País alcançou 25 GW (gigawatt) de potência instalada. Em 2021, apenas 2 anos antes, esta marca era de 9GW, enquanto que em 2020 esta marca era de 4GW. Com isso, podemos dizer que houve uma grande expansão da geração distribuída antes mesmo da vigência da Lei nº 14.300/2022 e um fator que está relacionado a esta expansão são as medidas de transição energética que estão ocorrendo no contexto mundial.

Tipos de Sistemas

Quais são as principais modalidades de sistemas instalados nos últimos anos?

Para esta pergunta, é preciso utlizar a coluna modalidade da base. Conforme explicado no início, a modalidade “Condomínios” foi retirada da base devido ao pouco volume de instalação, não sendo um dado relevante. No entanto, as demais modalidades são mais acessadas pelos consumidores. No gráfico abaixo, os números de sistemas, da coluna n_sistemas, são apresentados de acordo com a modalidade.

Com o gráfico acima, podemos notar que a modalidade Geração na Própria UC possui um grande volume de instalação no setor de Geração Distribuída, onde “UC” significa “Unidade Consumidora”. Ou seja, energia é consumida no mesmo local de geração. Este modelo foi um dos pioneiros no setor e se mantém como o mais utilizado.

No gráfico acima, identificamos que a classe Residencial possui vasta utilização dos sistemas de geração distribuída. Com isso, podemos dizer que a modalidade de Geração na Própria UC está relacionada ao fato de existir um grande volume de sistemas residenciais no País.

investimento

Quais os maiores investimentos entre as regiões do País?

Por fim, não podemos falar da capacidade instalada do País sem falar dos investimentos. Toda a infraestrutura desses sistemas requerem um custo de instalação dos equipamentos para a operação do sistema. Esse custo irá variar com a potência do sistema, em conformidade com o que for definido pelo usuário como o sistema com o melhor retorno financeiro. Para essa análise, a coluna de regiao e investimento_milhoes foram selecionadas para a plotagem do gráfico abaixo.

A partir da visualização acima, podemos ver que a região Sudeste é a que mais tem investido nos últimos anos. Considerando que acima foi visto que São Paulo e Minas Gerais estão entre os principais Estados com sistemas instalados, o investimento maior nessa região era esperado.

Conclusões

Este trabalho teve como principal objetivo analisar os números de instalação de sistemas de geração distribuída no País. No ano de 2022 o Brasil passou por uma mudança na regulamentação desse setor, onde foi homologada a primeira Lei para os sistemas de Geração Distribuída. Anteriormente todo o processo no setor se dava por meio de Resoluções Normativas. Esta nova legislação trouxe segurança jurídica para muitos pontos que envolvem a atuação no mercado, mas também trouxe mudanças que não foram bem recepcionadas, como a mudança na proporção da compensação dos créditos de energia.

De forma geral, antes da homologação da Lei 14.300 em 2022, o País já vinha em uma crescente devido ao estímulo mundial por fontes renováveis. Dessa forma, a análise dos dados da base da Empresa de Pesquisa Energética foi feita com o objetivo de confirmar estes números. A região Sudeste como destaque nesta análise não surpreende devido à característica econômica do local, embora possua uma extensão territorial menor que o Nordeste, fica claro que a região possui um investimento e uma infraestrutura com maior foco ao setor de geração distribuída e na capacidade de potência instalada que a região pode alcançar.

Com relação a região Nordeste, foi observado que a região se mantém em uma zona intermediária de crescimento. Do ano de 2022 para 2023, por exemplo, não houve uma variação expressiva, o que pode indicar uma estabilidade no número de sistemas na região. Os fatores que mais influenciam na instalação e operação desses sistemas não são descritos na base de dados, mas ao analisar o mercado, percebe-se que há uma grande necessidade de melhoria na infraestrutura do sistema elétrico na região para que as conexões sejam vistas com mais atratividade.

Com isso, para análises futuras, poderá ser feita a análise desta base em conjunto com a base do Operador Nacional do Setor Elétrico (ONS), que abrange informações acerca dos sistemas de transmissão e sua infraestrutura.

REFERÊNCIAS

“Painel de Dados de Micro e Minigeração Distribuída (PDGD)” aqui

“Falta de Infraestrutura atrasa a transição energética no Nordeste.” aqui

“Lei 14.300: principais mudanças do Marco Legal da GD.” aqui