Análise de Mercado do Cacau

Autor

Marcus Vinícius Cavalcante Silva

Introdução

O Brasil é atualmente o sétimo maior produtor mundial de cacau, sua origem em solo brasileiro remonta ainda ao período colonial, período em que foi introduzido inicialmente no Pará mas que encontrou no solo do sul da Bahia o local propício para o seu cultivo, por isso, a região Nordeste acabou ocupando uma parcela significativa da área nacional destinada ao cultivo de cacau sendo a Bahia o único estado produtor da região. Entender a produção e o mercado do cacau, possibilita entender sobre a dinâmica dos preços dessa commoditie e as análises levantadas nesse estudo têm como direcionamento, elucidar o comportamento desse

Os principais países produtores de cacau são os seguintes:

País Participação
1- Costa do Marfim 39%
2- Gana 14,5%
3- Indonésia 14%
4- Nigéria 6,3%
5- Equador 5,1%
6- Camarões 5%
7- Brasil 4,6%
Fonte: ICCO- Organização Internacional do Cacau

Panorama Nacional

No Brasil, a Bahia é o principal estado produtor de cacau no Nordeste, ocupando uma área de 445 mil hectares e produzindo cerca de 123 mil toneladas de cacau, nas últimas observações estimadas do IBGE - Levantamento Sistemático da Produção Agrícola. Nas últimas décadas, a Bahia foi preeminente na produção de cacau, mas a partir de 2016, iniciou-se um processo de queda tanto na produção quanto na área cultivada, devido a diversos fatores adversos. O envelhecimento dos cacaueiros, doenças e a competição com outras culturas mais lucrativas levou a uma queda na produção.

Histórico Estimado da Área Plantada (Hectares)

Fora da Bahia, houve um aumento na produção de cacau em outras regiões, principalmente no Pará, onde a expansão das áreas de cultivo tem impulsionado a produção com sistemas agroflorestais (SAFs), fatores como acesso ao crédito e fata de infraestrutura da região ainda impões dificuldades na consolidação desse mercado. No entanto no histórico mais recente, desde o impacto gerado pela pandemia a produção do Pará já desponta como a maior do Brasil, numa crescente evolução, mas ainda muito próximo da produção baiana.

Produção

Produtividade

A produtividade do cacau é um aspecto fundamental para a sustentabilidade e rentabilidade da cacauicultura. A produtividade é influenciada por uma série de fatores, incluindo genética das plantas, manejo agrícola, condições climáticas, controle de pragas e doenças, fertilidade do solo, entre outros. Nesse aspecto o estado do Pará e demais Estados da Região Amazônica despontam em termos de produtividade indicando o potencial da região, com cultivos que misturam técnicas das mais modernas com modo de produção silvestre. A Bahia sendo o principal produtor do país conta com tecnologia que vai desde a técnicas com o manejo da área plantada até clonais de cacau lançados pela CEPLAC com tecnologia genética para resistir à doenças como a vassoura-de-bruxa e adaptações para expansão em áreas não tradicionais.

A escolha de cultivares adequados, como os clones de cacau desenvolvidos pela CEPLAC, pode impactar diretamente a produtividade. Cultivares produtivos, resistentes a doenças e adaptados às condições locais podem aumentar a eficiência da produção. Práticas de manejo adequadas, como poda, adubação equilibrada, controle de plantas invasoras e irrigação, são essenciais para garantir o bom desenvolvimento das plantas e a maximização da produção de cacau. O clima, incluindo temperatura, umidade e regime de chuvas, influencia diretamente o crescimento e desenvolvimento das plantas de cacau. Condições climáticas ideais podem favorecer a produtividade, enquanto eventos climáticos extremos podem impactar negativamente a produção.

Safra

SAFRA ÁREA PLANTADA (ha) PRODUÇÃO (ton) PRODUTIVIDADE (Kg/ha)
dez/18 685412 255184 435
dez/19 620573 252540 428
dez/20 629565 280661 465
dez/21 617529 310537 520
dez/22 620215 290118 484
dez/23 623131 290630 466
mai/24 629732 293040 465
Fonte: SIDRA-IBGE

Nos principais produtores do Brasil, a colheita geralmente é dividida em duas safras:

1 - Safra Principal (ou Safra de Verão): Vai de setembro a janeiro. Este é o período mais produtivo e concentra a maior parte da colheita anual.

2 - Safrinha (ou Safra de Inverno): Vai de março a julho. Este período é menos produtivo, mas ainda significativo.

Nesta safra 2023/24, a área cultivada está estimada em 6.297,32 mil hectares, 1,06% a mais que o registrado na safra passada. A produção esperada é de 29.304 mil toneladas, 0,82% maior que o obtido no último ciclo de cultivo.

Oferta e Demanda Nacional

Problemas climáticos nos maiores produtores de cacau como Costa do Marfim e Gana, proporcionaram uma contínua elevação dos preços no Brasil, em consonante a crescente produtividade do Pará até então permite estimar um leve crescimento (0,82%) em comparação com a safra anterior, no entanto a oferta mundial já está sofrendo impactos os impactos climáticos, a pressão sobre a oferta, no entanto, está impulsionando a economia local principalmente do cacau produzido na região amazônica.

SAFRA Produção Nacional (ton) Exportação (ton) Importação (ton) Consumo Aparente (ton)
2018 255.184,00 78.948,09 124.869,16 301.105,07
2019 252.540,00 78.999,97 108.524,69 282.064,73
2020 280.661,00 79.419,26 105.486,42 306.728,16
2021 310.537,00 88.843,62 124.034,11 345.727,50
2022 290.118,00 84.704,85 70.582,83 275.995,98
2023 290.630,00 89.353,96 105.273,47 306.549,51
2024 293.040,00 35.915,48 53.029,50 310.154,01
Fonte: AGROSTAT

O consumo de cacau ainda está em fase de recuperação em direção aos níveis pré-pandemia. A Organização Internacional do Cacau (ICCO) prevê um déficit recorde de 374 mil toneladas em 2024, o que representa o terceiro ano consecutivo de maior consumo do que produção e apesar de ter planos para tanto, o Brasil não é autossuficiente na produção de cacau, portanto o mercado interno já sofre com o impacto dos preços.

Balança Comercial

A balança comercial do cacau tem mostrado grande volatilidade, com déficits e superávits ocorrendo em diferentes anos. No período observado, somente no ano de 2022 foi possível observar um saldo positivo na balança, que foi justificado pelo crescimento da demanda global por cacau fino e de alta qualidade está em crescimento, o que pode beneficiar exportações futuras do Brasil. Nos anos seguintes, no entanto, apontam que esse saldo foi algo pontual e com os dados de mercado, até então, indicam que a expectativa é de um novo déficit na balança comercial do cacau, mais uma vez fatores como mudanças climáticas, políticas de comércio internacional e flutuações nos preços globais do cacau impactam diretamente os dados.

SAFRA Importação (US$) Exportação (US$) Saldo da Balança (US$)
2018 370.864.458 316.697.303 -54.167.155
2019 320.028.590 305.384.291 -14.644.299
2020 306.748.920 303.006.397 -3.742.523
2021 388.373.520 354.848.426 -33.525.094
2022 243.299.388 345.608.577 102.309.189
2023 373.204.919 372.974.153 -230.766
2024 229.959.124 196.939.981 -33.019.143

Cerca de 70% da produção brasileira é destinada ao consumo interno, considerando que o Brasil têm apresentado sucessivos déficits na balança comercial do cacau, o nosso mercado interno é demasiado dinâmico e por isso a preocupação em tornar o Brasil cada vez mais autossuficiente na produção de cacau, os números e o crescente aumento da produtividade, principalmente na região Norte acompanham essa tônica, no entanto, um horizonte de curto prazo o cacau brasileiro haverá de sofrer os impactos da produção mundial debilitada pelas adversidades do clima.

O cenário mundial

No cenário mundial o cacau enfrenta desafios, segundo as estimativas mais atuais. Com os principais produtores mundiais sofrendo as consequências de eventos climáticos adversos, é possível observar uma alta volatilidade dos preços, o desequilíbrio da oferta se intensifica com a fragilidade dos estoques mundiais que apresentam estimativas nada favoráveis para o ano de 2024, esse cenário adverso é também um terreno fértil para oportunidades e a necessidade do produtor buscar proteção da oscilação inerente à conjuntura.

Estoque Mundial

O nível estimado do estoque mundial já não acompanha o crescente aumento no nível de consumo do cacau, visto que os estoques de cacau diminuíram ao longo dos anos. Em 2023/24, os estoques estimados são de 1.395 mil toneladas. Esses números refletem as tendências globais na indústria do cacau, a variação do estoque por sua vez, é estimado para a safra 2023/24 uma retração do nível em -21,1%. Relatórios dão conta que a produção na Costa do Marfim, que como pode-se observar responde por cerca de 40% da produção mundial, está sendo severamente impactada por uma seca nunca antes vista, fator este, primordial na precificação do cacau e como poderemos observar, um fato determinante na volatilidade dos preços.

Produção Mundial

O cenário da produção, por sua vez, não seria diferente. Desde a pandemia a produção mundial de cacau teve sua trajetória de ascensão interrompida e tem tido dificuldade em superar as safras pré-pandemia.

Distribuição da produção no mundo

A alta concentração da produção em um único país (Costa do Marfim, responsável por quase 40% da produção) deixa as economias muito a mercê das condições internas desse país, uma vez que, desde o último levantamento do ranking de produtores, os três países produtores mais bem colocados somados não atingem o nível de produção marfinense.

Análise dos Preços

A análise de preço tem como objetivo identificar fatores determinísticos e/ou estocásticos que auxiliem na predição do preço de cacau. A alta volatilidade experimentada nos últimos tempos representam uma desafio tanto para produtores quanto para compradores, nesse sentido, ferramentas que identifiquem padrões nos preços se tornam de extrema importância, influenciando tanto na produção quanto nas estratégias de mercado.

Preço Real

A trajetória de preço spot do cacau, praticado por produtores na Bahia, já representa graficamente o momento atual, a alta exponencial que os preços tomaram a partir de dezembro de 2023, em que superou o nível de preço mais alto praticado nos últimos 10 anos.

Convergência dos Preços

Sinalizando a tendência dos ativos subjacentes, é observada a convergência dos preços ao se aproximarem do vencimento, esse movimento é uma sinalização clara da importância do mercado futuro, pois é um indicativo do cumprimento de contratos, ou seja, os objetivos das operações de hedge estão sendo atingidos, mesmo em face de uma alta de preços expressiva e poucas vezes observada.

Sazonalizade

A sazonalidade influencia o comportamento dos preços do cacau no mercado doméstico e internacional, fatores como meses de safra e datas comemorativas podem influenciar nos preços e afetar sua previsibilidade, no caso do cacau a safra principal vai de outubro ao início de dezembro enquanto o chamando temporão (segunda safra, menor e fora de época) ocorre de maio a setembro, quando observado no gráfico esses períodos estão justamente abaixo da média sazonal. Períodos como o final do ano até o mês de abril que comportam datas comemorativas, réveillon e páscoa respectivamente, não coincidentemente apresentam altas de preço.

O conhecimento sobre a sazonalidade pode ser extremamente útil para os produtores de cacau, pois permite que eles planejem melhor a produção e a venda de suas safras. Ao entender os períodos em que os preços tendem a ser mais baixos, os produtores podem ajustar suas estratégias para as recentes flutuações acentuadas nos preços do cacau, o que pode resultar em variações significativas na rentabilidade dos produtores. Investidores mais informados podem se beneficiar dessas flutuações ao tomar decisões de hedge e especulação baseadas em previsões mais precisas sobre o comportamento do mercado.

Ciclo de Preços

Estimações

Coeficientes

Coeficientes GARCH_Estimate GARCH_P_Value EGARCH_Estimate EGARCH_P_Value TARCH_Estimate TARCH_P_Value
alpha1 0.019 0.000 0.019 0.000 0.016 0
ar1 0.052 0.075 0.061 0.000 0.065 0
ar2 0.025 0.392 0.029 0.000 0.031 0
beta1 0.971 0.000 0.979 0.000 0.977 0
delta NA NA 0.332 0.001 0.143 0
gamma1 NA NA -0.742 0.000 -0.632 0
mu 0.001 0.216 0.001 0.000 0.001 0
omega 0.000 0.048 0.002 0.000 0.005 0
Fonte: Dados obtidos dos modelos GARCH, EGARCH e TARCH

Fontes:

1- AGROSTAT: https://mapa-indicadores.agricultura.gov.br/publico/extensions/Agrostat/Agrostat.html

2- COMEXSTAT: https://comexstat.mdic.gov.br/pt/geral

3- SIDRA-IBGE: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6588

4- CEPLAC: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/ceplac

5- ICCO: https://www.icco.org/statistics/